Capítulo 10 — O Toque que Permanece

934 Words
Júlia não conseguiu ignorar. Não depois do que ele disse. “Você não recua.” A frase ficou. Voltou. Repetiu. Como se tivesse sido colocada ali de propósito… para não sair. Ela chegou cedo. Mais cedo do que precisava. 06:49. O prédio ainda vazio. Silencioso. Controlado. Seguro. Júlia ligou o computador. Abriu o projeto. Tentou trabalhar. Mas, pela primeira vez em dias… não era só Pedro. Era ela. Ela sabia. Sabia exatamente o que ele estava insinuando. E o pior… não tinha certeza de que ele estava errado. — Você vai acabar quebrando esse teclado — Marina disse, chegando. Júlia nem olhou. — Estou trabalhando. — Você está digitando como se estivesse discutindo com alguém. Silêncio. — Ele falou com você ontem, né? Júlia parou por um segundo. Quase imperceptível. — Falou. Marina se aproximou. — E? Júlia voltou a digitar. — Nada. — Nada? — Nada que importe. Marina inclinou a cabeça. — Você está mentindo. Júlia não respondeu. O telefone tocou. Número interno. Ela atendeu. Já sabendo. — Júlia. — Minha sala. Agora. A voz dele. Baixa. Sem pressa. Ela desligou. — Ele? — Marina perguntou. — Ele. — Boa sorte. Júlia saiu. O corredor parecia mais longo. Mais silencioso. Mais… atento. Ela bateu. — Entra. Júlia entrou. Pedro estava de pé. Sem paletó. Sem gravata. Camisa levemente aberta. Menos formal. Mais… próximo. Ele não falou de imediato. Apenas olhou. Devagar. Sem disfarçar. Júlia sustentou. — O senhor me chamou. Pedro deu um passo. Depois outro. Parou perto. — Você chegou mais cedo. — Eu trabalho. — Eu sei. Silêncio. O ar mudou. — Você está pensando. Ele disse. — Eu sempre penso. — Não assim. Silêncio. Júlia cruzou os braços. — Sobre o projeto? — Sobre mim. Direto. O coração dela acelerou. — Isso é presunção. Pedro inclinou levemente a cabeça. — É observação. Silêncio. — O senhor observa demais. — E você responde. — Eu trabalho. — Você evita. Silêncio. Aquilo de novo. — Isso não faz sentido. — Faz. Ele se aproximou um pouco mais. — Você evita quando percebe. — Perceber o quê? Dessa vez, ele respondeu. — Que não é só trabalho. O ar ficou mais pesado. Júlia sustentou o olhar. — Isso não muda nada. — Muda. Silêncio. Pedro não desviou. — Você não saiu ontem. Aquilo bateu. — Eu não tinha motivo. — Tinha. Pausa. — E ficou. O coração dela acelerou. — Isso não significa nada. Pedro deu um pequeno passo. Agora perto demais. — Significa escolha. Silêncio. Júlia respirou fundo. — Eu não fujo. O canto da boca dele subiu. — Eu sei. O ar ficou mais denso. Mais próximo. Mais difícil de ignorar. — Então para de fingir. — Eu não estou fingindo. Pedro levantou a mão. Dessa vez, sem hesitar. Júlia percebeu. Mas não recuou. Nem um passo. Ele parou a poucos centímetros. Tempo suficiente. Escolha. Ela ficou. Então ele tocou. Devagar. Os dedos dele encostaram no pulso dela. Preciso. Consciente. Sem acidente. O impacto foi imediato. Júlia prendeu a respiração. Não era forte. Não era invasivo. Mas era intencional. E isso mudava tudo. Pedro não afastou. Também não pressionou. Só manteve. — Aqui. Ele disse baixo. Júlia sentiu. Não só o toque. Mas o fato de que ele sabia exatamente o que estava fazendo. O corpo respondeu. Antes da mente. Respiração mais curta. Pulso acelerado. Ela sabia que devia tirar. Sabia. Não tirou. Por um segundo. Dois. Tempo suficiente. Pedro percebeu. Claro que percebeu. — Você não se afastou. A voz dele caiu. Júlia puxou o pulso de volta. Agora. — Isso ultrapassa limite. Pedro não recuou. — Você deixou acontecer. Silêncio. Aquilo bateu direto. — Eu tirei. — Depois. O ar ficou mais pesado. Ele deu meio passo à frente. Agora não havia mais espaço neutro. — É isso que muda. — O quê? — Você sente… Pausa. — …e fica. O coração dela disparou. — Isso não significa nada. Pedro inclinou a cabeça. — Significa mais do que você admite. Silêncio. O olhar dele desceu. Devagar. Para o pulso dela. Depois voltou. — Seu corpo não mente tão bem quanto você. Aquilo foi demais. Júlia respirou fundo. — Isso não é profissional. — Não. Sem desculpa. Sem negação. Silêncio. Agora estava claro. Nada ali era neutro. Nada ali era só trabalho. Ela podia sair. Encerrar. Cortar. Não saiu. Pedro percebeu. — Você continua. A voz dele mais baixa agora. — Por quê? Júlia sustentou o olhar. — Porque eu não fujo. Silêncio. Pedro sorriu. Pequeno. — Exatamente. O ar ficou mais quente. Mais denso. Mais perigoso. — Então decide. — Decidir o quê? — Se isso continua sendo só trabalho. Aquilo ficou. Pesado. Júlia respirou fundo. — Continua. Pedro a observou. Por mais tempo. — Ainda. Silêncio. Ela virou. Saiu. Passos firmes. Mas o corpo ainda reagindo. No elevador… ela soltou o ar. O pulso ainda quente. Real. Quando voltou, Marina levantou. — O que aconteceu? Júlia deixou a bolsa. — Nada. — Júlia. Silêncio. — Ele fez alguma coisa? Júlia demorou. Um segundo. — Não. Pausa. — …mas eu deixei. Marina arregalou os olhos. — Como assim? Júlia virou para o computador. — Não foi acidente. Silêncio. — E agora? — Marina perguntou, mais baixo. Júlia olhou para a tela. Mas não via nada. — Agora… Pausa. — não dá mais pra fingir que eu não percebo. GANCHO FINAL Naquela noite, a mensagem chegou. “Você não recuou.” Júlia leu. Respiração lenta. E, dessa vez… não tentou negar. Porque agora ela sabia. O problema não era ele. Era o fato de que… ela tinha escolhido ficar.
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