Júlia não conseguiu ignorar.
Não depois do que ele disse.
“Você não recua.”
A frase ficou.
Voltou.
Repetiu.
Como se tivesse sido colocada ali de propósito… para não sair.
Ela chegou cedo.
Mais cedo do que precisava.
06:49.
O prédio ainda vazio.
Silencioso.
Controlado.
Seguro.
Júlia ligou o computador.
Abriu o projeto.
Tentou trabalhar.
Mas, pela primeira vez em dias…
não era só Pedro.
Era ela.
Ela sabia.
Sabia exatamente o que ele estava insinuando.
E o pior…
não tinha certeza de que ele estava errado.
— Você vai acabar quebrando esse teclado — Marina disse, chegando.
Júlia nem olhou.
— Estou trabalhando.
— Você está digitando como se estivesse discutindo com alguém.
Silêncio.
— Ele falou com você ontem, né?
Júlia parou por um segundo.
Quase imperceptível.
— Falou.
Marina se aproximou.
— E?
Júlia voltou a digitar.
— Nada.
— Nada?
— Nada que importe.
Marina inclinou a cabeça.
— Você está mentindo.
Júlia não respondeu.
O telefone tocou.
Número interno.
Ela atendeu.
Já sabendo.
— Júlia.
— Minha sala. Agora.
A voz dele.
Baixa.
Sem pressa.
Ela desligou.
— Ele? — Marina perguntou.
— Ele.
— Boa sorte.
Júlia saiu.
O corredor parecia mais longo.
Mais silencioso.
Mais… atento.
Ela bateu.
— Entra.
Júlia entrou.
Pedro estava de pé.
Sem paletó.
Sem gravata.
Camisa levemente aberta.
Menos formal.
Mais… próximo.
Ele não falou de imediato.
Apenas olhou.
Devagar.
Sem disfarçar.
Júlia sustentou.
— O senhor me chamou.
Pedro deu um passo.
Depois outro.
Parou perto.
— Você chegou mais cedo.
— Eu trabalho.
— Eu sei.
Silêncio.
O ar mudou.
— Você está pensando.
Ele disse.
— Eu sempre penso.
— Não assim.
Silêncio.
Júlia cruzou os braços.
— Sobre o projeto?
— Sobre mim.
Direto.
O coração dela acelerou.
— Isso é presunção.
Pedro inclinou levemente a cabeça.
— É observação.
Silêncio.
— O senhor observa demais.
— E você responde.
— Eu trabalho.
— Você evita.
Silêncio.
Aquilo de novo.
— Isso não faz sentido.
— Faz.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Você evita quando percebe.
— Perceber o quê?
Dessa vez, ele respondeu.
— Que não é só trabalho.
O ar ficou mais pesado.
Júlia sustentou o olhar.
— Isso não muda nada.
— Muda.
Silêncio.
Pedro não desviou.
— Você não saiu ontem.
Aquilo bateu.
— Eu não tinha motivo.
— Tinha.
Pausa.
— E ficou.
O coração dela acelerou.
— Isso não significa nada.
Pedro deu um pequeno passo.
Agora perto demais.
— Significa escolha.
Silêncio.
Júlia respirou fundo.
— Eu não fujo.
O canto da boca dele subiu.
— Eu sei.
O ar ficou mais denso.
Mais próximo.
Mais difícil de ignorar.
— Então para de fingir.
— Eu não estou fingindo.
Pedro levantou a mão.
Dessa vez, sem hesitar.
Júlia percebeu.
Mas não recuou.
Nem um passo.
Ele parou a poucos centímetros.
Tempo suficiente.
Escolha.
Ela ficou.
Então ele tocou.
Devagar.
Os dedos dele encostaram no pulso dela.
Preciso.
Consciente.
Sem acidente.
O impacto foi imediato.
Júlia prendeu a respiração.
Não era forte.
Não era invasivo.
Mas era intencional.
E isso mudava tudo.
Pedro não afastou.
Também não pressionou.
Só manteve.
— Aqui.
Ele disse baixo.
Júlia sentiu.
Não só o toque.
Mas o fato de que ele sabia exatamente o que estava fazendo.
O corpo respondeu.
Antes da mente.
Respiração mais curta.
Pulso acelerado.
Ela sabia que devia tirar.
Sabia.
Não tirou.
Por um segundo.
Dois.
Tempo suficiente.
Pedro percebeu.
Claro que percebeu.
— Você não se afastou.
A voz dele caiu.
Júlia puxou o pulso de volta.
Agora.
— Isso ultrapassa limite.
Pedro não recuou.
— Você deixou acontecer.
Silêncio.
Aquilo bateu direto.
— Eu tirei.
— Depois.
O ar ficou mais pesado.
Ele deu meio passo à frente.
Agora não havia mais espaço neutro.
— É isso que muda.
— O quê?
— Você sente…
Pausa.
— …e fica.
O coração dela disparou.
— Isso não significa nada.
Pedro inclinou a cabeça.
— Significa mais do que você admite.
Silêncio.
O olhar dele desceu.
Devagar.
Para o pulso dela.
Depois voltou.
— Seu corpo não mente tão bem quanto você.
Aquilo foi demais.
Júlia respirou fundo.
— Isso não é profissional.
— Não.
Sem desculpa.
Sem negação.
Silêncio.
Agora estava claro.
Nada ali era neutro.
Nada ali era só trabalho.
Ela podia sair.
Encerrar.
Cortar.
Não saiu.
Pedro percebeu.
— Você continua.
A voz dele mais baixa agora.
— Por quê?
Júlia sustentou o olhar.
— Porque eu não fujo.
Silêncio.
Pedro sorriu.
Pequeno.
— Exatamente.
O ar ficou mais quente.
Mais denso.
Mais perigoso.
— Então decide.
— Decidir o quê?
— Se isso continua sendo só trabalho.
Aquilo ficou.
Pesado.
Júlia respirou fundo.
— Continua.
Pedro a observou.
Por mais tempo.
— Ainda.
Silêncio.
Ela virou.
Saiu.
Passos firmes.
Mas o corpo ainda reagindo.
No elevador…
ela soltou o ar.
O pulso ainda quente.
Real.
Quando voltou, Marina levantou.
— O que aconteceu?
Júlia deixou a bolsa.
— Nada.
— Júlia.
Silêncio.
— Ele fez alguma coisa?
Júlia demorou.
Um segundo.
— Não.
Pausa.
— …mas eu deixei.
Marina arregalou os olhos.
— Como assim?
Júlia virou para o computador.
— Não foi acidente.
Silêncio.
— E agora? — Marina perguntou, mais baixo.
Júlia olhou para a tela.
Mas não via nada.
— Agora…
Pausa.
— não dá mais pra fingir que eu não percebo.
GANCHO FINAL
Naquela noite, a mensagem chegou.
“Você não recuou.”
Júlia leu.
Respiração lenta.
E, dessa vez…
não tentou negar.
Porque agora ela sabia.
O problema não era ele.
Era o fato de que…
ela tinha escolhido ficar.