Júlia tentou se concentrar.
Tentou.
Mas o arquivo aberto na tela já estava na mesma página há tempo demais.
As palavras não entravam.
Os números não faziam sentido.
E não era por dificuldade.
Era distração.
Irritante.
Desde o e-mail.
Desde o acesso total.
Desde a frase:
“Agora você está dentro.”
Ela sabia o que aquilo significava.
Não era só responsabilidade.
Era proximidade.
E proximidade, com Pedro Villaça…
nunca era simples.
— Você vai acabar quebrando esse teclado — Marina disse, olhando de lado.
Júlia parou de digitar.
— Eu estou trabalhando.
— Você está travando.
— Não estou.
— Está sim.
Silêncio.
Marina inclinou a cabeça.
— Ele falou alguma coisa?
Júlia respirou fundo.
— Ele… deixou claro.
— Claro como?
Júlia demorou um segundo.
— Que eu estou envolvida demais agora.
Marina arregalou os olhos.
— Isso é bom ou péssimo?
— Os dois.
O telefone tocou.
Número interno.
Júlia atendeu no primeiro toque.
— Júlia.
— Sala de reunião. Agora.
A voz dele.
Direta.
Sem espaço.
Ela desligou.
Levantou.
— Ele? — Marina perguntou.
— Ele.
— Boa sorte.
Júlia não respondeu.
Saiu.
O corredor parecia mais silencioso.
Ou talvez fosse só a sensação.
Ela entrou na sala sem bater.
Ele já estava lá.
Encostado na mesa.
Braços cruzados.
Esperando.
— Você demorou.
— Eu estava trabalhando.
— Eu sei.
Silêncio.
Júlia ficou parada.
— O que o senhor precisa?
Pedro não respondeu de imediato.
Apenas a observou.
De cima a baixo.
Sem pressa.
Sem disfarce.
Aquilo foi novo.
Júlia sentiu.
Mas não recuou.
— O senhor me chamou.
— Chamei.
Ele se aproximou.
Devagar.
Sempre devagar.
Como se cada passo fosse calculado.
— Você está diferente.
A frase veio baixa.
Direta.
Júlia franziu levemente a testa.
— Diferente como?
Pedro parou a poucos passos.
— Mais atenta.
— Eu sempre fui.
— Não assim.
Silêncio.
O ar ficou mais pesado.
— Isso é sobre o projeto? — ela perguntou.
— Não só.
Aquilo ficou.
Forte.
Pedro inclinou levemente a cabeça.
— Você percebe o que está acontecendo?
O coração dela acelerou.
Ela odiou.
— Trabalho.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Não.
Silêncio.
— Então diga.
Desafio.
Claro.
Sempre.
Pedro se aproximou mais um passo.
Agora não havia distância confortável.
— Eu estou prestando atenção em você.
Direto.
Sem suavizar.
O mundo pareceu diminuir.
Júlia sustentou o olhar.
— Isso não é novidade.
— Não.
Ele inclinou levemente o rosto.
— A novidade é que você começou a prestar atenção em mim também.
Silêncio.
Aquilo bateu.
Exato demais.
— Eu sempre prestei.
— Não assim.
O tom dele caiu.
Mais baixo.
Mais próximo.
— Isso não muda nada.
— Muda.
Silêncio.
Pedro observou cada reação dela.
Como sempre.
Como se registrasse tudo.
— Você responde diferente agora.
— Eu continuo a mesma.
— Não.
Ele deu um pequeno passo.
Mais perto.
— Você pensa antes de responder.
O coração dela acelerou.
De novo.
— Isso é normal.
— Não quando você tenta esconder.
Silêncio.
Júlia cruzou os braços.
— Eu não estou escondendo nada.
Pedro olhou para o gesto.
Depois para ela.
— Está.
A palavra veio firme.
— O quê?
Ele demorou.
Como se escolhesse.
— Interesse.
O ar parou.
Júlia ficou imóvel por um segundo.
Só um.
Mas suficiente.
— Isso não é verdade.
— Não?
Ele se inclinou levemente.
Mais perto.
— Então por que você não saiu ainda?
A pergunta caiu pesada.
Ela não respondeu.
Porque não tinha resposta simples.
Pedro não sorriu.
Não provocou.
Apenas…
esperou.
— Isso é inadequado — ela disse.
A voz firme.
Mas não intacta.
— E você ainda está aqui.
Silêncio.
O olhar dele desceu por um instante.
Rápido.
Mas não rápido o suficiente.
Júlia sentiu.
E odiou perceber.
— Eu estou aqui porque o senhor me chamou.
— E ficou.
Pausa.
— Porque quis.
Aquilo foi direto.
Demais.
Júlia respirou fundo.
— Isso continua sendo trabalho.
— Você continua dizendo isso.
Ele inclinou a cabeça.
— Como se fosse suficiente.
Silêncio.
O espaço entre eles parecia menor.
Mais quente.
Mais denso.
— O senhor está ultrapassando limites.
— Estou mostrando onde eles estão.
— E quem disse que o senhor pode?
Pedro segurou o olhar dela.
Mais firme agora.
— Você não me impediu.
O coração dela bateu forte.
Forte demais.
Silêncio.
Ela poderia ter recuado.
Poderia ter encerrado.
Poderia ter saído.
Não saiu.
Pedro percebeu.
Claro que percebeu.
O canto da boca dele subiu.
Mas dessa vez… não foi arrogância.
Foi certeza.
— É isso — ele disse baixo.
— Isso o quê?
— Você não recua.
Silêncio.
— Isso não significa nada.
— Significa escolha.
— Significa controle.
Pedro deu um passo mais perto.
Agora não havia espaço entre argumento e realidade.
— Então prove.
O ar ficou pesado.
Mais do que antes.
Júlia segurou o olhar.
Por mais tempo do que devia.
— Eu já estou provando.
A voz saiu mais baixa.
Sem perceber.
Pedro não desviou.
Não se afastou.
— Não o suficiente.
Silêncio.
Agora não era mais só conversa.
Era outra coisa.
Mais direta.
Mais perigosa.
Júlia respirou fundo.
Quebrou primeiro.
Deu um passo para trás.
Controle.
— Se era só isso, eu posso voltar.
Pedro demorou.
Como se decidisse.
Ou como se estivesse deixando ela ir de propósito.
— Pode.
Ela virou.
Passos firmes.
Mas não totalmente estáveis.
— Júlia.
Ela parou.
Não virou.
— Sim?
Silêncio.
E então—
— Eu não costumo me interessar por alguém que tenta tanto não demonstrar.
Aquilo ficou.
Gravado.
Júlia não respondeu.
Não podia.
Saiu.
No corredor, o ar parecia diferente.
Mais leve.
Mas só por fora.
Por dentro…
nada estava leve.
Quando voltou para o setor, Marina levantou na hora.
— E aí?
Júlia deixou a bolsa.
— Ele deixou claro.
— Claro como?
Júlia virou para o computador.
Demorou um segundo.
— Que não é só trabalho.
Marina ficou em silêncio.
Raro.
— E você?
Júlia não respondeu de imediato.
Porque agora não dava mais pra mentir fácil.
— Eu ainda estou decidindo.
GANCHO FINAL
Naquela noite, Júlia tentou ignorar.
Tentou trabalhar.
Tentou se distrair.
Não conseguiu.
Porque a frase continuava voltando:
“Você não recua.”
E, pela primeira vez…
ela não tinha certeza se queria recuar.