Capítulo 9 — Interesse declarado (sutil, mas perigoso)

1039 Words
Júlia tentou se concentrar. Tentou. Mas o arquivo aberto na tela já estava na mesma página há tempo demais. As palavras não entravam. Os números não faziam sentido. E não era por dificuldade. Era distração. Irritante. Desde o e-mail. Desde o acesso total. Desde a frase: “Agora você está dentro.” Ela sabia o que aquilo significava. Não era só responsabilidade. Era proximidade. E proximidade, com Pedro Villaça… nunca era simples. — Você vai acabar quebrando esse teclado — Marina disse, olhando de lado. Júlia parou de digitar. — Eu estou trabalhando. — Você está travando. — Não estou. — Está sim. Silêncio. Marina inclinou a cabeça. — Ele falou alguma coisa? Júlia respirou fundo. — Ele… deixou claro. — Claro como? Júlia demorou um segundo. — Que eu estou envolvida demais agora. Marina arregalou os olhos. — Isso é bom ou péssimo? — Os dois. O telefone tocou. Número interno. Júlia atendeu no primeiro toque. — Júlia. — Sala de reunião. Agora. A voz dele. Direta. Sem espaço. Ela desligou. Levantou. — Ele? — Marina perguntou. — Ele. — Boa sorte. Júlia não respondeu. Saiu. O corredor parecia mais silencioso. Ou talvez fosse só a sensação. Ela entrou na sala sem bater. Ele já estava lá. Encostado na mesa. Braços cruzados. Esperando. — Você demorou. — Eu estava trabalhando. — Eu sei. Silêncio. Júlia ficou parada. — O que o senhor precisa? Pedro não respondeu de imediato. Apenas a observou. De cima a baixo. Sem pressa. Sem disfarce. Aquilo foi novo. Júlia sentiu. Mas não recuou. — O senhor me chamou. — Chamei. Ele se aproximou. Devagar. Sempre devagar. Como se cada passo fosse calculado. — Você está diferente. A frase veio baixa. Direta. Júlia franziu levemente a testa. — Diferente como? Pedro parou a poucos passos. — Mais atenta. — Eu sempre fui. — Não assim. Silêncio. O ar ficou mais pesado. — Isso é sobre o projeto? — ela perguntou. — Não só. Aquilo ficou. Forte. Pedro inclinou levemente a cabeça. — Você percebe o que está acontecendo? O coração dela acelerou. Ela odiou. — Trabalho. Ele deu um pequeno sorriso. — Não. Silêncio. — Então diga. Desafio. Claro. Sempre. Pedro se aproximou mais um passo. Agora não havia distância confortável. — Eu estou prestando atenção em você. Direto. Sem suavizar. O mundo pareceu diminuir. Júlia sustentou o olhar. — Isso não é novidade. — Não. Ele inclinou levemente o rosto. — A novidade é que você começou a prestar atenção em mim também. Silêncio. Aquilo bateu. Exato demais. — Eu sempre prestei. — Não assim. O tom dele caiu. Mais baixo. Mais próximo. — Isso não muda nada. — Muda. Silêncio. Pedro observou cada reação dela. Como sempre. Como se registrasse tudo. — Você responde diferente agora. — Eu continuo a mesma. — Não. Ele deu um pequeno passo. Mais perto. — Você pensa antes de responder. O coração dela acelerou. De novo. — Isso é normal. — Não quando você tenta esconder. Silêncio. Júlia cruzou os braços. — Eu não estou escondendo nada. Pedro olhou para o gesto. Depois para ela. — Está. A palavra veio firme. — O quê? Ele demorou. Como se escolhesse. — Interesse. O ar parou. Júlia ficou imóvel por um segundo. Só um. Mas suficiente. — Isso não é verdade. — Não? Ele se inclinou levemente. Mais perto. — Então por que você não saiu ainda? A pergunta caiu pesada. Ela não respondeu. Porque não tinha resposta simples. Pedro não sorriu. Não provocou. Apenas… esperou. — Isso é inadequado — ela disse. A voz firme. Mas não intacta. — E você ainda está aqui. Silêncio. O olhar dele desceu por um instante. Rápido. Mas não rápido o suficiente. Júlia sentiu. E odiou perceber. — Eu estou aqui porque o senhor me chamou. — E ficou. Pausa. — Porque quis. Aquilo foi direto. Demais. Júlia respirou fundo. — Isso continua sendo trabalho. — Você continua dizendo isso. Ele inclinou a cabeça. — Como se fosse suficiente. Silêncio. O espaço entre eles parecia menor. Mais quente. Mais denso. — O senhor está ultrapassando limites. — Estou mostrando onde eles estão. — E quem disse que o senhor pode? Pedro segurou o olhar dela. Mais firme agora. — Você não me impediu. O coração dela bateu forte. Forte demais. Silêncio. Ela poderia ter recuado. Poderia ter encerrado. Poderia ter saído. Não saiu. Pedro percebeu. Claro que percebeu. O canto da boca dele subiu. Mas dessa vez… não foi arrogância. Foi certeza. — É isso — ele disse baixo. — Isso o quê? — Você não recua. Silêncio. — Isso não significa nada. — Significa escolha. — Significa controle. Pedro deu um passo mais perto. Agora não havia espaço entre argumento e realidade. — Então prove. O ar ficou pesado. Mais do que antes. Júlia segurou o olhar. Por mais tempo do que devia. — Eu já estou provando. A voz saiu mais baixa. Sem perceber. Pedro não desviou. Não se afastou. — Não o suficiente. Silêncio. Agora não era mais só conversa. Era outra coisa. Mais direta. Mais perigosa. Júlia respirou fundo. Quebrou primeiro. Deu um passo para trás. Controle. — Se era só isso, eu posso voltar. Pedro demorou. Como se decidisse. Ou como se estivesse deixando ela ir de propósito. — Pode. Ela virou. Passos firmes. Mas não totalmente estáveis. — Júlia. Ela parou. Não virou. — Sim? Silêncio. E então— — Eu não costumo me interessar por alguém que tenta tanto não demonstrar. Aquilo ficou. Gravado. Júlia não respondeu. Não podia. Saiu. No corredor, o ar parecia diferente. Mais leve. Mas só por fora. Por dentro… nada estava leve. Quando voltou para o setor, Marina levantou na hora. — E aí? Júlia deixou a bolsa. — Ele deixou claro. — Claro como? Júlia virou para o computador. Demorou um segundo. — Que não é só trabalho. Marina ficou em silêncio. Raro. — E você? Júlia não respondeu de imediato. Porque agora não dava mais pra mentir fácil. — Eu ainda estou decidindo. GANCHO FINAL Naquela noite, Júlia tentou ignorar. Tentou trabalhar. Tentou se distrair. Não conseguiu. Porque a frase continuava voltando: “Você não recua.” E, pela primeira vez… ela não tinha certeza se queria recuar.
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