Capítulo 8 — Primeiro confronto

1216 Words
O arquivo ficou aberto na tela por tempo demais. “Projeto confidencial — acesso restrito: Júlia Andrade.” Sem explicação. Sem contexto. Sem qualquer aviso prévio. Júlia passou os olhos pelas primeiras linhas. Contrato estratégico. Valores altos. Cláusulas sensíveis. Aquilo não era trabalho comum. Aquilo era nível de decisão. Ela fechou o notebook devagar. O problema não era o projeto. Era o que vinha junto com ele. Confiança. Acesso. Proximidade. Tudo aquilo que ela tinha tentado manter sob controle… começava a escapar. Na manhã seguinte, ela chegou mais cedo do que o habitual. 07:04. O prédio ainda estava quase vazio. Melhor. Menos distração. Mais foco. Ou pelo menos… essa era a intenção. — Você dormiu aqui? — Marina perguntou quando chegou. — Não. — Parece. Júlia abriu o computador. — Estou adiantando trabalho. Marina se aproximou. — Ou tentando fugir de alguma coisa. Júlia não respondeu. — Ele te deu mais coisa, né? Silêncio. Marina arregalou os olhos. — Eu sabia. — É um projeto. — Claro que é. — E é importante. — Claro que é. — E eu vou fazer. Marina cruzou os braços. — E você acha que isso é só sobre trabalho? Júlia levantou o olhar. — Precisa ser. A resposta saiu firme. Mas não completamente convincente. Nem para ela. Às 09:27, o telefone tocou. Número interno. — Júlia. Renata. — Ele quer você na sala. Júlia fechou o arquivo. — Já estou indo. O caminho até a diretoria foi mais rápido daquela vez. Sem hesitação. Sem pausa. Ela já sabia. Aquilo não era mais só tensão. Era confronto. Bateu na porta. — Entra. A voz dele. Sempre a mesma. Júlia entrou. Pedro estava sentado. Tablet na mão. Expressão fechada. Mas os olhos levantaram no instante em que ela entrou. Direto. Sempre direto. — O senhor pediu para falar comigo. — Pedi. Silêncio. Ele colocou o tablet sobre a mesa. — Você acessou o projeto. — Sim. — E? — É grande. — E? Júlia sustentou o olhar. — E exige atenção. Pedro se recostou na cadeira. — Eu sei disso. — Então por que me chamou? Silêncio. Pesado. Ele se levantou. Devagar. Caminhou até a frente da mesa. Parou a poucos passos dela. — Porque você não perguntou nada. Júlia franziu a testa. — O quê? — Qualquer outra pessoa teria vindo com perguntas. — Eu estava analisando. — Não. Ele inclinou levemente a cabeça. — Você estava aceitando. Aquilo irritou. Na hora. — Eu aceito trabalho. — Não esse tipo. — Por quê? — Porque isso muda a sua posição aqui. Silêncio. Júlia cruzou os braços. — Então o senhor não devia ter enviado. Pedro deu um pequeno sorriso. Controlado. — Eu sabia que você diria isso. — Porque é lógico. — Porque você tenta manter tudo sob controle. — E o senhor não? — Eu controlo o que importa. Silêncio. A tensão subiu. De novo. Mas agora… mais direta. Mais aberta. — Então vamos esclarecer — Júlia disse. Pedro não interrompeu. — Esse projeto não é comum. — Não. — E não é para o meu nível. — Não. — Então por que eu? Silêncio. Ele se aproximou mais um pouco. — Porque você é melhor do que o seu nível. Aquilo bateu. Forte. Mas ela não deixou aparecer. — Isso não responde tudo. — Não precisa responder tudo. — Precisa para mim. Silêncio. Agora era confronto de verdade. Sem jogo leve. Sem indireta suave. Pedro a observou. Mais atento. Mais sério. — Você quer saber se isso é só trabalho. Júlia não respondeu. Mas o olhar respondeu por ela. — É trabalho. Pausa. — E é escolha. Ela estreitou levemente os olhos. — Escolha de quem? — Minha. Silêncio. — E a minha? Pedro sustentou o olhar dela. — Você ainda está decidindo. O ar ficou mais pesado. Mais lento. — Eu já decidi — ela disse. — Não. — Sim. — Então diga. Desafio. Claro. Sempre. Júlia deu um passo à frente. Agora estavam mais perto. — Eu não aceito nada que comprometa minha posição aqui. — Isso não compromete. — O senhor não pode garantir isso. — Posso. — Não pode. Silêncio. Agora ele se aproximou mais. Sem pressa. Sem recuar. — Eu sei exatamente o que estou fazendo. — E eu também. — Então confie. A palavra caiu pesada. Júlia travou por um segundo. Só um. Mas suficiente. — Eu não confio fácil. Pedro inclinou a cabeça. — Eu percebi. — Então não espere isso. — Eu não espero. Silêncio. Ele ficou ainda mais perto. Agora não havia mais espaço confortável. Só proximidade. Só tensão. — Eu só observo. A voz dele caiu. Mais baixa. — E o que o senhor vê? A pergunta saiu antes dela decidir. Erro. Talvez. Pedro segurou o olhar dela. Mais tempo. Mais intenso. — Alguém que finge não querer… Pausa. — o que claramente já está considerando. O coração dela disparou. Forte. — Isso não é verdade. — Não? Silêncio. Júlia respirou fundo. — Eu estou aqui pelo trabalho. — E ainda está aqui. Ele deu um pequeno passo. Mais perto. — Mesmo quando poderia ter ido. Aquilo ficou. Pesado demais. — Isso não significa nada. — Significa escolha. — Significa profissionalismo. Pedro segurou o olhar. — Significa mais do que você admite. Silêncio. Júlia apertou a pasta na mão. — Eu não vim aqui para isso. — Não? — Não. — Então por que ainda está aqui? A mesma pergunta. De novo. Mais pesada agora. Ela não respondeu. Porque não tinha resposta simples. Pedro recuou primeiro. Quebrou o momento. — O projeto é seu. A frase veio direta. Sem espaço. — Entregue resultado. Júlia ficou em silêncio. Processando. — E se eu recusar? Pedro a observou. Sem irritação. Sem pressa. — Você não vai. Aquilo a atingiu. Direto. — O senhor tem certeza demais. — Eu observo o suficiente. Silêncio. Júlia sustentou o olhar. — Então observe isso. Ela colocou a pasta sobre a mesa. Com firmeza. — Eu aceito o projeto. Pausa. — Mas não aceito confusão. Silêncio. Pedro não respondeu de imediato. Mas o olhar dele mudou. De novo. — Sem jogos — ela continuou. — Sem ultrapassar limites. — Sem misturar. O ar ficou mais denso. Pedro se aproximou só um pouco. — Você ainda acha que controla isso. Júlia não recuou. — Eu controlo a minha parte. Silêncio. Ele segurou o olhar dela por mais alguns segundos. Depois— — Então prove. Aquilo ficou. Como desafio. Como promessa. Como problema. Júlia virou. Saiu. Passos firmes. Sem olhar para trás. No elevador, ela soltou o ar. Devagar. Mas o coração ainda acelerado. Ela tinha enfrentado. De verdade. Sem recuar. Sem suavizar. Mas no fundo… sabia. Aquilo não tinha terminado. Quando voltou para o setor, Marina já estava esperando. — E aí? Júlia deixou a bolsa. — Confronto. Marina arregalou os olhos. — E você? Júlia ligou o computador. — Não recuei. — E ele? Silêncio. Um segundo. — Também não. GANCHO FINAL Naquela tarde, um novo e-mail chegou. Assunto: “Confidencial — acesso atualizado.” Júlia abriu. Agora não era só um projeto. Era acesso total. Documentos. Valores. Estratégias. Tudo. E, no final do e-mail, uma única linha: “Agora você está dentro.” Júlia ficou imóvel. Porque, pela primeira vez… não havia mais volta.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD