Sempre Ele

1634 Words
No dia seguinte, já reunidos o salão ouvimo novamente as lorotas do conselheiro: — Os combates não têm regras. Podem se aliar. Podem trair. Podem m***r dormindo. Não nos importa o método, apenas o resultado. Um sorriso repuxou sua boca. — Primeira prova: o Reino Misto exige convivência forçada. Aprendam a dividir a cama. E a lâmina. O olhar dele percorreu o salão. E parou em mim. Mas não era só ele. Outra loba também me encarava. Alta, corpo musculoso, pele n***a, cabelo trançado como espinhos. Os olhos dela eram de gelo. E fome. Helena notou: — Sorte nossa. Parece que você ganhou uma fã. — Ela não vai durar. — Se for inteligente, nem tenta. Mas eu sabia. Aquela loba ia tentar. Porque eu também tentaria no lugar dela. Dante estava parado do outro lado tenso como se esperasse por algo. E minha loba, como se sentisse a aproximação, sussurrou: "Se ele dormir do teu lado, enfia a lâmina enquanto ele sonha, só assim para não repetirmos o passado." Sorri. E desejei que essa fosse mesmo a regra. Quando o sorteio chamou meu nome, e depois o dele, minha espinha congelou. Helena me encarou, preocupada. — Você tá branca. Claro que eu tava. Era sempre ele. Sempre Dante. Sempre o mesmo inferno. Andei. Porque eu não ia cair na frente deles. Mas por dentro, meu coração já tinha batido mil vezes. Ele passou por mim. O mesmo cheiro. O mesmo andar. Mas o lobo dele me farejou. Eu vi. Mesmo sem saber, ele sentiu. O cio ainda tava ali. Grudado na minha pele. No meu nome. Entramos na cela. Uma cama. Um banheiro sem porta. Pedra fria por todos os lados. Eu joguei a mochila no chão e encostei na parede. Esperei. Ele entrou. Fechou a porta. O barulho foi como uma sentença. — A Deusa tá rindo de novo — murmurei. Ele não respondeu. Só me olhou. Como se alguma parte dele quisesse lembrar. — Devia ter tomado um supressor — rosnou. — Ou vai fazer isso aqui virar uma reprise da noite passada? — Não se preocupa. Você não é o centro do meu cio. Ele deu um passo. Só um. Mas eu senti. O calor que tentou subir, o lobo dentro de mim rosnando baixo, apertando o estômago. “Ele vai errar de novo.” Nyra falou, seca. “E eu vou deixar.” — Você me deseja? — perguntei, sem pensar. A voz saiu mais baixa que o normal. Mais honesta. — Só de te olhar já fico com raiva. E duro. Não respondi. Só o encarei. — Talvez seja você que me deseje — ele completou — Eu vejo o fogo no seu olhar. Minha loba grunhiu. "Ataca primeiro. Não deixa ele tocar." Mas eu não me movi. Ainda. — Cuidado — rosnei. — Esse fogo queima. Dante parou perto. Muito perto. — Talvez eu goste de me queimar. Os olhos dele varreram meu corpo como faca. Lentos. Precisos. Meu coração martelava no peito. A pele formigava. Era o cio ou era ódio? Não sabia mais. Ele estendeu a mão. Tocou uma mecha solta do meu cabelo. — Você está tremendo — murmurou. Afastei a mão dele com um t**a seco. — Você por pura sorte respira. Ainda. Dante sorriu de lado. Um sorriso torto, desgraçado, lindo e provocou: — Vai me m***r agora? Ou prefere esperar até dividirmos a cama? — Eu prefiro que você durma com um olho aberto — respondi me recusando a dobrar diante dele Ele deu um passo ainda mais perto. Agora, estávamos a centímetros. O cheiro dele misturava couro, chuva e feromônio. Meu corpo reagia contra a minha vontade. Minha loba vibrava. "Se ele beijar... morde." — Vai mesmo dormir aqui? — perguntei. Dante olhou para a cama. Depois para mim. — Só se você pedir. — Vai sonhar com a morte. Ele se inclinou. A boca quase encostando na minha. — Talvez sonhe com você. Minha respiração travou. O calor subiu como veneno. O rosto dele agora a milímetros. A pele quente. O cio gritando. A loba urrando por contato. — Amanhã — disse ele. — Não me atrase. Ou deixo você morrer. Sorri. — Pode deixar. Se alguém morrer será você e seu ego enorme. Ele parou à porta. — Você não vai durar, Aurora. Se não morrer... vai implorar pra sair. — Pode apostar — sibilei — que eu sou quem vai te fazer sangrar primeiro. Dante saiu batendo a porta com força. O som bateu nas minhas costas e ecoou pelo quarto como se tivesse me arrebentado por dentro . Fechei os olhos. Respirei fundo. Tentei não socar a parede. Falhei. A pedra queimou os nós dos meus dedos. Mas foi pouco. Bem pouco perto do que eu queria quebrar de verdade. Aquele maldito torneio. Aquela palhaçada de tradição que repetia o mesmo ciclo. Rejeição, poder, traição. Depois sangue. Dante nem devia estar ali. Era o Supremo Alfa por direito, o trono já era dele — isso é claro, até o pai dele ser passado para trás e perder tudo. Dante entrou no torneio como um cachorro faminto, querendo de volta a p***a da coleira dourada. E eu? Fui só o que sobrou no caminho dele. Comecei a me lembrar de como tinha sido na outra vida antes de eu morrer e voltar para essa m***a de novo. No começo, ele fingia que eu nem existia. Me olhava como quem olha um inseto. Depois, quando o maldito vínculo começou a pulsar, tudo virou jogo sujo. Me seduziu. Me traiu. Me deixou pra morrer. E no fim… Ri. Baixo. Um riso seco, cheio de veneno. Soco outra vez a parede. A pele da minha mão abriu. Uma linha fina de sangue escorreu pelo pulso. Observei por um segundo. Doeu. Mas ardeu menos do que lembrar da sensação de morrer sozinha enquanto ele respirava. "Você vai gemer debaixo dele antes de lembrar que é inimigo." Nyra apareceu com o veneno de sempre, soprando no meu ouvido. "Mesmo ele ainda não entendendo o vínculo… logo vai sentir. Você também. Tá tentando enganar quem, Aurora? Eu? Ou você?" — Pode até ser — murmurei, com um riso amargo nos lábios. —Mas dessa vez, quando ele cair… sou eu quem vai apertar a faca.. "Vai nessa, valente. Vamos ver até onde você aguenta fingir que não quer ele por cima de novo." Não respondi. A raiva ainda batia no meu estômago como martelo. Mas tinha outra coisa por trás. Um gosto antigo. Uma ferida que não cicatrizava. O maldito vínculo. Aquela corda invisível puxando, mesmo depois de tudo. Mesmo depois da morte. Mesmo depois da traição. Estava ali. Entre nós. No cheiro. No toque que não aconteceu. No olhar que ele ainda não entendia, mas que me rasgava por dentro. Dessa vez, seria diferente. Eu não vim pra sobreviver. Vim pra destruir. O sistema. A falsa glória. E o alfa que me matou. Ia fazer o mundo assistir. E quando ele caísse de joelhos — pela dor, pelo desejo ou pelo sangue —, eu não iria hesitar. "Então se prepara, Aurora. Porque se a gente for cair… vamos levar tudo junto." E eu juro que sorri. O som do sinal ecoou como uma sentença. Longo. Cru. Anunciando o fim do sorteio. Todos os pares já tinham sido formados. Todos os quartos já tinham sido designados. Todo mundo sabia com quem iria dormir. Na primeira vez que vivi isso, eu tremi. Lembro da minha respiração presa, da sensação de estar afundando. Quando ouvi o nome dele — Dante — e vi aquele corpo forte, a postura dominante, o cheiro de alfa puro... eu achei que ele fosse me salvar. Achei que finalmente alguém ia lutar por mim. Idiota. Eu era só mais uma ômega descartável. E ele? O novo favorito. O escolhido que deveria ser o Supremo Alfa daquele ciclo. Até o trono escapar por manobra política e jogarem ele aqui pra "recuperar" a coroa no meio da lama e do sangue. Dessa vez, eu não tremi. Dessa vez, minha loba já estava acordada. “Se vier me salvar de novo, morde a jugular primeiro.”, ela rosnou. Eu quase ri. Nyra não era como as outras. Nem um pouco. Ela tinha nascido no meio do caos. No meio do torneio. A primeira vez que ela falou comigo, todo mundo achou que eu fosse uma aberração. Lembro dos olhares. Do susto. Dos cochichos. Agora eles não vão cochichar. Não ainda. Dessa vez eu não vou chamar atenção. Não no começo. Vou ser a sombra. O vulto. A fraca. Vou deixar que riam. Que se sintam seguros. “Até ser tarde demais.”, Nyra completou, como se roubasse minhas palavras. Eu olhei para a parede do quarto. A pedra fria, úmida, cheia de rachaduras. Quase uma metáfora do que eu era por dentro. Lá fora, passos. Sussurros. Portas batendo. Duplas se encarando como inimigos, amantes ou vítimas em potencial. Eu respirei fundo. Fechei os olhos. No passado, eu implorei para não morrer. Agora? Eu ia ser o motivo da morte de muita gente. E se Dante cruzasse meu caminho como antes… Se me olhasse com aquele mesmo desprezo… Se fingisse que não sentia o vínculo… “Ele vai sentir.”, Nyra rosnou. “Mesmo sem entender, vai querer tocar. Vai querer morder.” — Ele pode querer o que quiser. — cuspi. — Só não vai ver o que eu escondo até ser tarde demais. “Você ainda quer ele.” — Quero a cabeça dele. É diferente. Nyra riu. Aquela risada insuportável, debochada, como se duvidasse de mim. Mas ela sabia. Ela sentia. Eu não era mais a mesma garota daquele salão. Eu era a revolução. E Dante? Era o símbolo maldito do sistema que eu ia destruir.
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