Você pode fingir, mas ele já sentiu

1046 Words
O segundo dia começou com a sirene cortando o céu escuro — aguda, gélida, implacável. Senti o estômago contrair antes mesmo de abrir os olhos. Pulei da cama, o corpo rígido. Suor frio nas costas. O som ativava algo primal, como se cada célula já se preparasse para fugir ou lutar. Helena continuava roncando, embrulhada nos lençóis. Estranho. Ela sempre acordava antes. Lavei o rosto. A água gelada ardeu na pele. Ainda assim, não apagou o cheiro dele. O toque dele. Dante. O desgraçado estava impregnado em mim como um veneno. Vesti o uniforme escuro, puxei o elástico da fita que minha mãe costurou e prendi o cabelo com raiva. Respirei fundo. Precisava parecer menor. Invisível. “Não se destaca, idiota.” Minha loba se contorceu por dentro, rosnando. "Você pode fingir, mas ele já sentiu. Ele lembra." — Lembrar não é querer. "Você n**a. Seu cheiro mudou quando ele chegou perto.” —Cala a boca. "Queremos ele, é a a dura verdade Aurora.” Travei o maxilar. Acordar era exaustivo quando se dividia o corpo com uma criatura que desejava o próprio carrasco. — Por que já tá de pé, espírito da madrugada? — Helena resmungou, se espreguiçando. — Não dormi direito. — Foi aquele pedaço de testosterona ambulante, né? Dante alguma coisa… Fingi que não ouvi, mas o arrepio no pescoço me traiu. No refeitório, o cheiro de carne me embrulhou o estômago. Ou talvez fosse o medo de vê-lo de novo. De sentir aquele olhar. E então senti. Ele estava encostado na parede, com os braços cruzados. Alfas riam ao redor, mas ele não. Observava. Frio. Clínico. O olhar encontrou o meu. Um segundo. Dois. Pupilas dilataram. "Ele sente." — Nyra arfou, faminta. —Ele não quer. "Mas o lobo dele quer. E isso basta.” Ele virou o rosto. Fingiu que não era nada. Mas era tudo. No campo de treinamento, a neve cobria o chão como gelo seco. Corrida de resistência. Pesos nas costas. Desmaios. Sangue. Lobos caindo ao lado. Continuei. Dante se aproximou no trecho final. Corríamos lado a lado, ofegantes. O som da respiração dele me atravessava como lâmina. — Tá viva ainda? — murmurou, sem olhar. — Quer me carregar, Dante? — Não desperdiço esforço com ômegas frágeis. — Frágil é quem precisa lembrar os outros que é forte. Ele me olhou. Só por um segundo. Mas vi. A rachadura. O incômodo. E era isso que eu queria. Que ele sentisse. Mesmo sem saber por quê. Mais à frente, um grupo de lobas nos observava. Uma delas me chamou atenção. Selena. Minha segunda melhor amiga... ainda era minha amiga. Na primeira vida, ela chorou comigo. Riu comigo. Me jurou lealdade. E depois sumiu. Acenou pra mim e pra Helena. Fiz o mesmo, mas antes de podermos nos aproximar, a voz do instrutor soou novamente. Fomos convocadas para o primeiro alinhamento de instintos. Um exercício obrigatório: duplas aleatórias para testar compatibilidade e controle. Eu já sabia com quem cairia antes mesmo de receber o papel. “Aurora Blackthorn & Dante Stormfang” Helena gargalhou alto. — Boa sorte, futura viúva. Ele já estava vindo. Passos lentos, postura de quem manda. Parou a um palmo de mim. O cheiro dele invadiu meus sentidos. Cedro. Chuva. Arrogância. — Aurora — disse ele, sem emoção. — Dante. Ele me olhou como se estivesse avaliando uma arma defeituosa. — Me disseram que você é controlada. Serve. Só não me atrapalhe. Ele se afastou antes que eu pudesse retrucar. O ódio subiu quente pela garganta. A primeira coisa que fiz quando nos posicionamos foi pisar no pé dele. Ele me lançou um olhar fulminante. — Isso foi por quê? — Desculpa — menti. — Me disseram que você era mais bonito. Me distraí tentando encontrar o ângulo bom. O canto da boca dele tremeu. Não era exatamente um sorriso. Era um aviso. O treino começou. Postura. Defesa. Reação. Dante me empurrou, me testou, corrigiu meus movimentos com toques frios, como se quisesse me desestabilizar. — Fraca — murmurou. — Previsível — respondi. O golpe veio rápido. Me derrubou com um giro preciso. Caí de costas no chão duro. A bota dele pressionou meu ombro. Não com força. Com domínio. — Isso é previsível? — perguntou, com os olhos dourados cravados nos meus. Eu sorri com sangue nos lábios. — Você ainda não viu nada, quando menos esperar serei eu por cima. Por um instante, os olhos dele perderam o foco. Confusão. Instinto. Ele recuou antes que algo escapasse. Mais tarde, enquanto Helena cumpria detenção por alguma piada infeliz, Selena me esperava no corredor da ala oeste, sentada na mureta de pedra. A luz azulada das tochas destacava o brilho dourado do cabelo dela. Tão perfeita quanto sempre. — Você demorou — disse ela, cruzando os braços. — Treino com Dante — rosnei. — Uau. Já tá no estágio do “chama pelo nome”? — Prefere que eu o chame de desgraçado arrogante de pupilas dilatadas? Selena riu, mas eu não consegui. Porque meu corpo ainda doía. Porque minha Nyra ainda sussurrava: "Ele é nosso." —Não. Ele é o erro — respondi "Então por que o coração ainda bate como se fosse correr até ele?” Engoli seco. Porque eu não tinha resposta. —Ele foi grosso com você? — Selena insiste —Não exatamente.— desconversei Selena deslizou do parapeito com a leveza de uma gata, se aproximando. Os olhos azuis fixos nos meus. —Você tá tremendo. O que ele fez? —Não tem nada a ver com o que ele fez." Suspirei. — É só esse maldito torneio. Por um segundo, pensei em contar. Contar tudo. Sobre o sangue, o filho, o passado que não deveria existir. Mas o peso era só meu. A maldição também. —Você sabe que pode confiar em mim, né? — A voz dela era baixa, como um segredo. —A gente se conhece desde filhotes, Aurora. Eu sei quando você mente. Me forcei a sorrir. "Eu só... tô tentando entender o que tá acontecendo aqui dentro." Levei a mão ao peito. Ela assentiu devagar. Depois sorriu, gentil. —Então vamos treinar. Nada como uns socos pra clarear a cabeça. Concordei. Não porque acreditava, mas porque não queria ficar sozinha com meus pensamentos.
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