O segundo dia começou com a sirene cortando o céu escuro — aguda, gélida, implacável. Senti o estômago contrair antes mesmo de abrir os olhos.
Pulei da cama, o corpo rígido. Suor frio nas costas. O som ativava algo primal, como se cada célula já se preparasse para fugir ou lutar.
Helena continuava roncando, embrulhada nos lençóis. Estranho. Ela sempre acordava antes.
Lavei o rosto. A água gelada ardeu na pele. Ainda assim, não apagou o cheiro dele. O toque dele.
Dante.
O desgraçado estava impregnado em mim como um veneno.
Vesti o uniforme escuro, puxei o elástico da fita que minha mãe costurou e prendi o cabelo com raiva.
Respirei fundo. Precisava parecer menor.
Invisível.
“Não se destaca, idiota.”
Minha loba se contorceu por dentro, rosnando.
"Você pode fingir, mas ele já sentiu. Ele lembra."
— Lembrar não é querer.
"Você n**a. Seu cheiro mudou quando ele chegou perto.”
—Cala a boca.
"Queremos ele, é a a dura verdade Aurora.”
Travei o maxilar. Acordar era exaustivo quando se dividia o corpo com uma criatura que desejava o próprio carrasco.
— Por que já tá de pé, espírito da madrugada? — Helena resmungou, se espreguiçando.
— Não dormi direito.
— Foi aquele pedaço de testosterona ambulante, né? Dante alguma coisa…
Fingi que não ouvi, mas o arrepio no pescoço me traiu.
No refeitório, o cheiro de carne me embrulhou o estômago. Ou talvez fosse o medo de vê-lo de novo. De sentir aquele olhar.
E então senti.
Ele estava encostado na parede, com os braços cruzados. Alfas riam ao redor, mas ele não. Observava. Frio. Clínico.
O olhar encontrou o meu.
Um segundo. Dois.
Pupilas dilataram.
"Ele sente." — Nyra arfou, faminta.
—Ele não quer.
"Mas o lobo dele quer. E isso basta.”
Ele virou o rosto. Fingiu que não era nada.
Mas era tudo.
No campo de treinamento, a neve cobria o chão como gelo seco. Corrida de resistência. Pesos nas costas. Desmaios. Sangue. Lobos caindo ao lado.
Continuei.
Dante se aproximou no trecho final. Corríamos lado a lado, ofegantes.
O som da respiração dele me atravessava como lâmina.
— Tá viva ainda? — murmurou, sem olhar.
— Quer me carregar, Dante?
— Não desperdiço esforço com ômegas frágeis.
— Frágil é quem precisa lembrar os outros que é forte.
Ele me olhou. Só por um segundo. Mas vi.
A rachadura.
O incômodo.
E era isso que eu queria. Que ele sentisse. Mesmo sem saber por quê.
Mais à frente, um grupo de lobas nos observava. Uma delas me chamou atenção.
Selena.
Minha segunda melhor amiga... ainda era minha amiga.
Na primeira vida, ela chorou comigo. Riu comigo. Me jurou lealdade.
E depois sumiu.
Acenou pra mim e pra Helena. Fiz o mesmo, mas antes de podermos nos aproximar, a voz do instrutor soou novamente.
Fomos convocadas para o primeiro alinhamento de instintos. Um exercício obrigatório: duplas aleatórias para testar compatibilidade e controle. Eu já sabia com quem cairia antes mesmo de receber o papel.
“Aurora Blackthorn & Dante Stormfang”
Helena gargalhou alto.
— Boa sorte, futura viúva.
Ele já estava vindo. Passos lentos, postura de quem manda. Parou a um palmo de mim. O cheiro dele invadiu meus sentidos.
Cedro. Chuva. Arrogância.
— Aurora — disse ele, sem emoção.
— Dante.
Ele me olhou como se estivesse avaliando uma arma defeituosa.
— Me disseram que você é controlada. Serve. Só não me atrapalhe.
Ele se afastou antes que eu pudesse retrucar. O ódio subiu quente pela garganta.
A primeira coisa que fiz quando nos posicionamos foi pisar no pé dele.
Ele me lançou um olhar fulminante.
— Isso foi por quê?
— Desculpa — menti. — Me disseram que você era mais bonito. Me distraí tentando encontrar o ângulo bom.
O canto da boca dele tremeu. Não era exatamente um sorriso. Era um aviso.
O treino começou. Postura. Defesa. Reação.
Dante me empurrou, me testou, corrigiu meus movimentos com toques frios, como se quisesse me desestabilizar.
— Fraca — murmurou.
— Previsível — respondi.
O golpe veio rápido. Me derrubou com um giro preciso. Caí de costas no chão duro. A bota dele pressionou meu ombro.
Não com força.
Com domínio.
— Isso é previsível? — perguntou, com os olhos dourados cravados nos meus.
Eu sorri com sangue nos lábios.
— Você ainda não viu nada, quando menos esperar serei eu por cima.
Por um instante, os olhos dele perderam o foco. Confusão. Instinto.
Ele recuou antes que algo escapasse.
Mais tarde, enquanto Helena cumpria detenção por alguma piada infeliz, Selena me esperava no corredor da ala oeste, sentada na mureta de pedra.
A luz azulada das tochas destacava o brilho dourado do cabelo dela. Tão perfeita quanto sempre.
— Você demorou — disse ela, cruzando os braços.
— Treino com Dante — rosnei.
— Uau. Já tá no estágio do “chama pelo nome”?
— Prefere que eu o chame de desgraçado arrogante de pupilas dilatadas?
Selena riu, mas eu não consegui.
Porque meu corpo ainda doía.
Porque minha Nyra ainda sussurrava:
"Ele é nosso."
—Não. Ele é o erro — respondi
"Então por que o coração ainda bate como se fosse correr até ele?”
Engoli seco.
Porque eu não tinha resposta.
—Ele foi grosso com você? — Selena insiste
—Não exatamente.— desconversei
Selena deslizou do parapeito com a leveza de uma gata, se aproximando. Os olhos azuis fixos nos meus.
—Você tá tremendo. O que ele fez?
—Não tem nada a ver com o que ele fez." Suspirei. — É só esse maldito torneio.
Por um segundo, pensei em contar. Contar tudo. Sobre o sangue, o filho, o passado que não deveria existir. Mas o peso era só meu. A maldição também.
—Você sabe que pode confiar em mim, né? — A voz dela era baixa, como um segredo. —A gente se conhece desde filhotes, Aurora. Eu sei quando você mente.
Me forcei a sorrir. "Eu só... tô tentando entender o que tá acontecendo aqui dentro." Levei a mão ao peito.
Ela assentiu devagar. Depois sorriu, gentil.
—Então vamos treinar. Nada como uns socos pra clarear a cabeça.
Concordei. Não porque acreditava, mas porque não queria ficar sozinha com meus pensamentos.