Amanda
Ainda não consigo acreditar que Alex agora é meu vizinho. Sinto como se estivesse vivendo um daqueles sonhos impossíveis, em que a realidade parece uma mentira elaborada demais para ser verdadeira. Cada detalhe do apartamento parece ter sido transformado pelo simples fato de que ele está tão perto, tão acessível, e ainda assim, a incredulidade me consome. Minhas mãos tremem levemente enquanto tento organizar os pensamentos que insistem em correr em círculos na minha mente. Será que isso é real? Ou será que em qualquer segundo, tudo vai desaparecer e eu vou acordar para descobrir que a vida não me oferece momentos tão perfeitos assim? O apartamento, que antes parecia apenas um espaço funcional, agora brilha diante de mim como um refúgio, um ponto de partida para algo que eu ainda não consigo definir, mas que sinto pulsar no fundo do meu peito.
Enquanto estou perdida nesses pensamentos, sou abruptamente trazida de volta à realidade por Ana, que literalmente pula sobre mim, jogando seu peso e energia de forma exagerada. Ela é como uma faísca de vida em meio ao meu estado de choque, uma âncora que me mantém firme em um presente que ainda parece irreal.
— Ai, louca! — exclamo, rindo involuntariamente, enquanto tento empurrá-la para fora de mim. Mas não consigo conter a diversão, e ela não parece se importar. Sua presença me dá conforto, mas ao mesmo tempo me lembra de que estou completamente vulnerável, e que cada pequena emoção que sinto agora é amplificada.
— Seu namorado é muito lindo! — Ana praticamente grita, sentando-se no sofá e me encarando com olhos brilhantes, como se estivesse tentando gravar cada detalhe da minha reação.
Sinto o calor subindo às minhas bochechas, e meu corpo reage antes mesmo de eu pensar.
— Ele não é meu namorado. — cruzo os braços, tentando esconder o rubor que insiste em se espalhar pelo meu rosto. A simples sugestão de Ana parece tão real que meu coração bate mais rápido.
— Não, mas vai ser! — ela afirma com firmeza, como se estivesse moldando o futuro com palavras.
— Você é louca. — jogo uma almofada em seu rosto, e seu riso genuíno explode pelo apartamento, fazendo-me sorrir. É um sorriso que parece iluminar tudo ao meu redor, mesmo em meio à confusão que sinto por dentro.
— Eu não, você que é por não aproveitar os beijos do Alex! — ela dispara, jogando a almofada de volta em mim, provocando uma nova rodada de risos.
— Beijos não, selinhos. É diferente. — corrijo, sabendo que cada detalhe importa para mim. Essa distinção, por menor que seja, tem significado; é minha forma de manter alguma ordem no caos que minha vida emocional se tornou.
— Selinhos que você deveria transformar em beijos, mas você é burra e não agarra o boy! — ela provoca novamente, rindo sem parar.
E assim continuamos, lançando almofadas, rindo, e esquecendo por alguns preciosos minutos o mundo lá fora. É uma guerra infantil, mas incrivelmente necessária. É a inocência antes da tempestade, o suspiro antes do impacto que o destino tem guardado para mim.
O som da campainha corta nosso momento de alegria abruptamente.
— Eu atendo! — exclamo, ainda com o sorriso nos lábios, mas com uma ponta de apreensão. Caminho até a porta, meu coração batendo mais rápido, tentando processar a possibilidade de que algo ainda mais inesperado possa estar do outro lado.
Abro a porta, e o mundo ao meu redor parece congelar. Meus olhos se arregalam, e o sangue foge do meu rosto. Parado à minha frente está Tony. Meu ex-namorado. O homem que destruiu minha vida, que roubou minha segurança, que me deixou cicatrizes invisíveis e, ainda assim, extremamente presentes.
Fico travada, incapaz de mover um músculo. Uma mistura de medo, raiva, pânico e desespero me consome. Meu corpo se recusa a obedecer, como se cada fibra soubesse que ele representa perigo absoluto. A voz dele ecoa em minha mente, e posso quase sentir o peso de seu olhar manipulador.
— Quem… O que você está fazendo aqui?! — A voz de Ana corta o transe em que estou presa. Ela surge atrás de mim como uma leoa, protegendo quem ama, e de repente, sinto uma pequena chama de esperança.
— Vim falar com a Amanda. — Tony responde, calmo demais, quase arrependido, mas eu conheço bem essa fachada. Sei que por trás dessa voz tranquila há a mesma ameaça que ele sempre representou. Meu corpo treme, e o medo se transforma em um nó quase insuportável na minha garganta.
— Tony, se chegar perto da Amanda, eu vou dar na sua cara! — Ana grita, com uma fúria que parece capaz de quebrar qualquer obstáculo. Tony a ignora, fixando seus olhos nos meus, como se pudesse ler cada pensamento e cada memória dolorosa.
— Amanda, me escuta, por favor. — ele implora, mas cada palavra dele é como ácido em minhas feridas abertas. Não posso. Não vou. Memórias de noites de terror, de humilhações, de dor, invadem minha mente com intensidade insuportável.
— Você não está vendo que ela não quer papo contigo, garoto! Some! — Ana empurra Tony, mas ele insiste, avançando um passo à frente, como se o mundo devesse girar em torno de sua vontade.
Então, do corredor, uma voz que me dá esperança ecoa:
— Mas o que… Quem é ele?! — É Alex. A voz dele. A mesma que eu pensei que nunca mais ouviria. Ela é como um farol, como uma âncora firme em meio ao caos.
— Quem é você?! — Tony exige, irritado.
— Desculpe, mas acho que não sou obrigado a te responder. — A voz de Alex é firme, grossa e cheia de autoridade, uma barreira que me protege antes mesmo que ele entre. É a mesma voz que já me fez sentir segura, mesmo que de longe.
— Cadê a Amanda?! — Alex pergunta, ignorando Ana, sua preocupação palpável na tonalidade da voz.
— Está ali. Pode entrar. — Ana abre espaço, e Alex entra rapidamente no apartamento. Meus olhos se encontram com os dele, e uma onda de alívio e segurança me envolve. Ele corre até mim, e eu não resisto ao abraço.
O conforto de estar nos braços dele é indescritível. Sinto minhas lágrimas rolarem, e ele as acolhe com delicadeza, beijando minha testa, acariciando meus braços, alisando meus cabelos. Cada gesto dele é um lembrete de que o passado não pode me atingir quando ele está perto.
— Sai de perto dela! — Tony grita, e consegue entrar na casa, mas eu não sinto medo, sinto proteção. Alex se coloca na minha frente como um escudo sólido, e pela primeira vez em muito tempo, sinto que posso respirar.
— O que você é da Amanda?! — ele pergunta, a raiva evidente em sua voz.
— Sou o ex-namorado dela! — Tony responde, arrogante, mas já posso ver a dúvida cruzar seu rosto.
— E eu sou o atual. — Alex afirma, firme e seguro. A diferença na atitude dele é como um choque elétrico, e Tony parece congelar no lugar. Ana, ao meu lado, também não acredita.
— Você o quê? — Tony pergunta, incrédulo, mas Alex não se abala.
— Não se faça de surdo. Agora, some! Se chegar perto dela de novo, não sei o que irei fazer, mas garanto que será muito r**m! — Alex diz, e se vira para mim, sussurrando: — Fica calma.
Envolvo meus braços ao redor de sua cintura, agarrando-me a ele como se ele fosse a única coisa que me mantém viva neste momento. Ele é meu porto seguro, meu anjo, meu escudo contra tudo que o passado tentou me roubar.
— Se você é namorado dela, então prove! — Tony grita, tentando provocar, mas já é tarde demais.
— Com prazer. — Alex me puxa para frente, e seus lábios encontram os meus com urgência e desejo. Este não é um selinho, é um beijo completo, intenso, carregado de carinho, proteção e vontade. Ele me envolve, me consome, e ao mesmo tempo me salva. Sinto cada célula do meu corpo reagir à presença dele, à segurança dele. O beijo é um adeus ao meu passado doloroso e um olá ao futuro que estou começando a construir com ele.
Meu nó no estômago agora não é de medo, mas de felicidade. Ele é o meu anjo, o meu protetor, o meu refúgio. Cada toque, cada gesto, cada olhar reafirma que estou segura, que o amor não precisa ser um perigo. Alex é minha salvação, e finalmente posso respirar, sabendo que não estou sozinha.