Capítulo Dezoito

1486 Words
Alex Acordo cedo, o relógio em meu celular marcando exatamente 6 da manhã. Um horário que, até então, parecia destinado apenas a pessoas com vida organizada ou àquelas que não tinham passado a noite em festas intermináveis, bebendo ou rindo até a garganta doer. Na minha antiga vida, nunca fui do tipo que levantava cedo; aliás, raramente eu via o sol nascer antes do meio-dia. Mas hoje, de alguma forma, o mundo parecia insistir em me empurrar para um novo ritmo, um ritmo que eu ainda não estava pronto para abraçar completamente. A casa estava silenciosa, quase reverente, e o aroma do café fresco que preparei na minha cafeteira nova preenchia o ar, trazendo uma sensação estranha de calma, uma calmaria que me desconcertava. Hoje era meu primeiro dia de volta à faculdade, depois de dias longos de suspensão que me deixaram mais introspectivo do que gostaria de admitir. A propósito, eu ainda não disse a vocês o que estou cursando. Faço Administração e Direito. Um escolha que, como sempre, veio de Jonas. Ele, como sempre, acha que sabe o que é melhor para mim. Sempre disse que eu precisava dessas duas graduações para gerenciar uma empresa, como se fosse o próprio manual de sobrevivência da vida corporativa. Administração, de fato, eu consigo entender — é a base de qualquer negócio, os números, os planejamentos, o controle. Mas Direito? Onde ele realmente se encaixa em uma empresa? Para mim, é um mistério absoluto. A única certeza é que Jonas quer que eu seja uma versão dele: um homem sério, responsável, calculista. E, aparentemente, isso significa ignorar todos os meus próprios impulsos e desejos. Depois de me arrumar, escolho roupas que meu pai consideraria “adequadas” para a faculdade. Não posso simplesmente vestir qualquer coisa; cada peça é um lembrete silencioso de quem eu devo ser. Sento-me à mesa e tomo meu café, o gosto amargo queimando a língua e reforçando a sensação de que minha vida mudou de um jeito que ainda não consigo definir completamente. Saio de casa, respirando o ar fresco da manhã, e sinto o peso de uma responsabilidade que não pedi, mas que agora é imposta. Meu carro, que antes era um presente de aniversário, agora não é mais meu. Meu pai o tirou, e agora estou à mercê do transporte público. Ele diria que é uma lição de humildade, um lembrete de que a vida nem sempre nos dá o que queremos. Enquanto caminho, passo em frente ao apartamento de Amanda. Meu coração hesita. Devo ou não chamá-la? Será que ela está acordada a essa hora? Minha mente argumenta para que eu não incomode, que não crie expectativas. Mas minha voz interior é mais honesta: a minha felicidade se completa apenas quando estou perto dela. Antes que eu possa raciocinar direito, minha mão se estende automaticamente em direção à campainha, um gesto que parece ter vida própria. Não resisto e toco a campainha. A porta se abre quase imediatamente, e sinto um arrepio percorrer minha espinha. Não me arrependo de ter vindo, mas sou pego desprevenido pela visão dela. Amanda me olha com olhos que brilham de uma forma que parece iluminar tudo ao meu redor. Seu sorriso, mesmo tímido, me desarma completamente. O cabelo bagunçado e o pijama simples a tornam ainda mais encantadora. Ela parece um anjo que caiu na Terra, e uma parte de mim quer acreditar que é meu destino vê-la todos os dias. Mas o pensamento assusta — é demais desejar que alguém seja parte da minha vida todos os dias? — Er… oi, linda. — A voz sai mais trêmula do que eu gostaria, e imediatamente sinto a necessidade de sorrir, tentando esconder o nervosismo. — Oi, lindo. — Ela responde com uma timidez que me faz querer rir e chorar ao mesmo tempo. Amanda nunca me chamou assim antes. Essa simples palavra é capaz de bagunçar meu coração mais do que qualquer situação que eu já enfrentei. Minha mente, que costumava ser um caos de raiva, frustração e impaciência, agora se resume a ela e ao sorriso que ilumina seu rosto. — Eu queria saber se posso te acompanhar até o trabalho? — pergunto, tentando não demonstrar o quanto essa proximidade me deixa vulnerável. Temo que ela me veja como um incômodo, um peso desnecessário em sua rotina. — Pode sim, vou pegar minha bolsa. — O sorriso dela se alarga, e um alívio quase físico percorre meu corpo. Ela se levanta e caminha até o sofá, voltando rapidamente com sua bolsa e trancando a porta atrás de nós. — Vamos? — pergunto, com a esperança contida na minha voz. — Vamos. — Ela responde com outro sorriso, e juntos começamos a andar pela rua, lado a lado. O silêncio entre nós não é desconfortável; pelo contrário, há uma estranha harmonia, como se nossas mentes estivessem em sintonia. Observo o sol tímido surgindo no horizonte, as pessoas apressadas indo para seus compromissos, mas tudo isso se torna irrelevante diante da presença dela. Cada detalhe — o perfume doce que se mistura com o cheiro fresco da manhã, o jeito que ela ajusta a bolsa no ombro — parece gravado na minha memória de forma permanente. Mesmo em silêncio, Amanda me faz sentir coisas que nunca pensei serem possíveis. Já perdi a conta de quantas vezes fechei os olhos e, automaticamente, a imagem dela apareceu. Sinto ciúmes de seu ex-namorado, mesmo sem motivo aparente, e sinto falta dela mesmo quando ela está ao meu lado. É confuso, perturbador, mas incrivelmente intenso. Nesse instante, uma música começa a tocar em algum lugar próximo. É melancólica, com uma voz masculina que parece carregar toda a tristeza do mundo. Conforme caminhamos, a música parece nos seguir, como se tivesse sido composta para mim, para mim e apenas para mim. A letra, dolorosamente clara, parece refletir exatamente o que sinto: medo, paixão, desejo e confusão. Cada verso bate em mim com força, e sinto que meu coração tenta escapar do peito: “Será que é o tempo que cura o coração ferido? Ou é a presença de alguém que faz o mundo girar? Eu só sei que quando você está perto, O meu medo se dissolve no ar. Eu sou um labirinto, perdido e sem saída, Mas com você, o caminho se torna claro. Eu não sei se é amor, ou se é só uma paixão, Mas sei que meu coração, só com você, encontra a razão.” Meu corpo reage antes da mente. Preciso me afastar, tomar fôlego, controlar essa tempestade de emoções. A música desperta algo em mim que eu não consigo controlar: vulnerabilidade pura, uma sensação que não quero admitir. — Alex, está tudo bem? — Amanda pergunta, a preocupação em sua voz me tirando momentaneamente do transe. — Estou, estou sim… e… — Procuro desesperadamente algo que me distraia, e para minha sorte, vejo Matt parado com o carro no acostamento. Assim que ele nos vê, acena, e meu coração encontra uma rota de fuga. — Bom, eu vou com meu amigo, se não se importa. — Olho para Amanda, buscando transmitir desculpas no olhar. — Tchau, linda. — Digo, beijando rapidamente sua testa antes de correr para o carro. Matt e eu entramos no carro ao mesmo tempo e colocamos o cinto. Ele liga o carro e a sensação de normalidade ainda parece distante. — E aí, cara, há quanto tempo. — Ele diz, o sorriso em seu rosto genuíno e acolhedor. — Sim, muito tempo. Acho que faz um mês e alguns dias desde tudo que aconteceu. — Minha voz sai nervosa, e passo as mãos pelo cabelo, tentando organizar meus pensamentos, mas eles continuam um turbilhão. — Por que está assim? — Ele pergunta, percebendo o que eu tento esconder. Matt me conhece melhor do que eu gostaria. — Nada. — Respondo com um tom seco, tentando encerrar o assunto. Ele para o carro no sinal vermelho, e seu olhar penetrante me deixa desconfortável. — Sou seu amigo desde o jardim de infância. Você sabe que sei quando está mentindo ou escondendo algo, e é exatamente isso que você está fazendo agora. Então, fala logo o que você tem! Respiro fundo. Confio em Matt, mas também temo sua reação. Ele nunca viu o Alex apaixonado. O Alex que ele conhece é conquistador, imprevisível e desapegado. — Tá bom, eu conto. — Digo, finalmente encarando-o. — Anda, desembucha. — Ele insiste, o sorriso provocativo ainda no rosto. — Eu acho que… estou apaixonado. — A confissão escapa de mim, e imediatamente sinto o peso do mundo. A voz sai hesitante, mas firme o suficiente para que não haja volta. Matt freia bruscamente, e nossos corpos vão para frente. Seus olhos estão arregalados, o choque evidente. — Você o quê?! — Ele exclama, incrédulo. A incredulidade dele reflete o mesmo impacto que sinto internamente: minha vida, de fato, nunca mais será a mesma.
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