Capítulo Vinte

1458 Words
Amanda O garoto que ainda não sei o nome me levou até um banco de praça, um oásis de tranquilidade em meio ao caos que minha manhã havia se tornado. Com gentileza, ele me ajudou a sentar, e o alívio de finalmente repousar meu peso foi imenso. A dor em meu tornozelo ainda pulsava, mas a sua presença, a sua calma, eram um bálsamo para a minha alma. Ele se ajoelhou à minha frente, os olhos fixos no meu pé inchado. — Posso ver? — perguntou, com a voz suave, referindo-se ao meu tornozelo. Seus dedos já estavam prontos para a avaliação, mas ele esperou minha permissão. — Pode, claro. — respondi, já com medo da dor que o toque poderia provocar. Meu corpo se enrijeceu, antecipando o incômodo. Seus toques eram leves e cuidadosos, uma precisão surpreendente. Para minha surpresa, não senti dor nenhuma diante de seu toque. Ele manipulava meu tornozelo com uma delicadeza que contrastava com a força de seus braços. Franziu a testa em concentração, seus olhos verdes analisando cada detalhe do inchaço. — Não foi grave, foi só uma torção. — explicou, a voz calma e didática, como se estivesse acostumado a lidar com situações como essa. — Você precisa ir ao hospital para eles tirarem um raio-x e ver se não quebrou nada, mas aparentemente, você só torceu. É bom colocar gelo e manter o pé elevado. O alívio me invadiu. Não quebrado. Apenas uma torção. Era uma pequena vitória em um dia que começou com tanto pavor. Fico em dúvida se faço a pergunta que invadiu minha mente, ou se deixo para lá. A curiosidade, porém, como sempre, venceu. — Você... é... médico? — perguntei, com uma expressão de curiosidade genuína. Ele sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto. — Não, ainda não. Faço faculdade de medicina. — explicou. O silêncio reinou por longos segundos, apenas quebrado pelo suave murmúrio da praça e o canto dos pássaros. Nossos olhares se cruzavam ocasionalmente, um entendimento tácito se formando entre nós. Ele não fez perguntas sobre o porquê de eu estar correndo, ou sobre o pânico que estava estampado em meu rosto. Isso me deixou ainda mais à vontade. — E... qual é seu nome? — perguntei, quebrando o silêncio e olhando para as pessoas na rua, que passavam apressadas, alheias à pequena cena à nossa frente. — Murilo. E o seu? — ele perguntou, se sentando ao meu lado no banco, mantendo uma distância respeitosa. — Amanda. — respondi, virando-me para ele. — É um prazer te conhecer, Amanda. — Ele abriu um sorriso perfeito. Um sorriso genuíno, sem malícia, que transmitia uma sensação de bondade. — O prazer é meu. — respondi, o meu próprio sorriso um pouco mais relaxado. Ficamos ali sentados, observando as paisagens. Era um local arborizado, com crianças brincando no playground e idosos lendo jornais nos bancos. A brisa suave trazia o cheiro de grama recém-cortada, um contraste agradável com o cheiro da cidade. Paro e presto atenção em um grupo de estudantes que se aproxima, junto com um professor. Eles parecem estar em uma excursão, observando as árvores e fazendo anotações em cadernos. A cena é tão cotidiana, tão normal, que por um momento, me esqueço de Tony e do meu tornozelo. — Quer que eu te leve pra casa? — Murilo perguntou, a voz dele me tirando da minha divagação. O sol já estava mais alto no céu, e o movimento da praça aumentava. Quando eu ia responder, uma voz masculina, grave e familiar, me cortou. — Não, eu levo. — A voz era de Alex. Meu coração deu um salto. Alex? Olhei para o dono da voz e o vi. Ele estava parado a poucos metros de nós, os braços cruzados sobre o peito, uma expressão séria em seu rosto. O seu olhar estava fixo em Murilo, e não havia um pingo de humor nele. — Alex. — murmurei, em completo espanto. — Conhece? — Murilo perguntou, apontando para Alex. Havia uma ponta de curiosidade em sua voz. — Sim... ele é meu... meu... — Procurei uma resposta, mas não encontrei. Eu queria dizer que ele era meu amigo, mas depois do beijo de ontem, e da sua declaração para Tony, a palavra "amigo" parecia pequena e insuficiente. E a palavra "namorado" ainda me assustava, embora ele tivesse usado-a sem hesitação. — Sou namorado dela. — Alex respondeu, a voz carregada de autoridade, sem me dar tempo de formular uma resposta. Seus olhos se voltaram para mim, um olhar "mortal", como se me repreendesse. — Então, vamos, amor? — V-vamos. — respondi, e me levantei, esquecendo totalmente do meu tornozelo. A adrenalina do momento me fez esquecer da dor. — Ai! — gritei, e quase caí. Alex correu para me segurar, assim como Murilo, que agiu por instinto. — Tira a mão! — Alex rosnou para Murilo, tirando a mão dele de mim com um empurrão suave, mas firme. Ele me segurou com cuidado, me mantendo em pé. — Está tudo bem? — Alex perguntou, a voz dele mudando de raiva para preocupação em um instante. — Eu torci o tornozelo. — respondi, a dor me fazendo morder o lábio. — Antes de você ir, me passa seu número? — Murilo perguntou, a voz dele surpreendentemente calma, ignorando a tensão entre nós. Ele era persistente. — Olha, qual parte do "ela tem namorado" você não entendeu?! — Alex perguntou, a voz estressada, quase um rosnado. Ele me apertou mais contra seu corpo. — Tá, calma aí. — Murilo levantou as mãos em forma de redenção, um sorriso divertido brincando em seus lábios. Ele era mais corajoso do que parecia, ou simplesmente não se importava com as ameaças de Alex. — Alex, vamos embora. — pedi, já prevendo o pior. Não queria uma briga na praça, não depois de tudo o que eu já havia passado hoje. — Claro, AMOR! — Alex disse, a palavra "amor" sendo enfatizada, claramente para deixar claro para Murilo. Era um gesto protetor, e, apesar do constrangimento, senti meu coração se aquecer. Alex me pegou no colo, um movimento surpreendente e gentil que me fez prender a respiração. Meus braços envolveram seu pescoço instintivamente. Seu cheiro, uma mistura de perfume masculino e o frescor da manhã, me acalmou. Aquele contato físico, tão inesperado, me fez esquecer a dor do tornozelo por um momento. — B-bom, tchau, Murilo. — disse, acenando para ele por cima do ombro de Alex. — A gente se vê. — completei, dando um sorriso tímido. — A gente se vê. — Murilo respondeu, piscando para mim, um sorriso de aceitação e talvez uma pitada de desafio em seus lábios. Alex me levou até um ponto de táxi e me colocou sentada no banco do passageiro. O silêncio predominou no interior do carro. O medo de falar qualquer coisa era absoluto. A tensão no ar era palpável, e eu podia sentir a raiva de Alex, mesmo sem ele dizer uma palavra. Ele estava claramente chateado. — Não era para você estar trabalhando? — ele perguntou, a voz meio grossa, quebrando o silêncio. — Aconteceu um encontro indesejável. — respondi, a lembrança do que passei horas atrás ainda fresca em minha mente. O calafrio voltou, e minhas mãos apertaram o tecido da minha bolsa. — Com aquele cara? — ele questionou, referindo-se a Murilo. Seus olhos me fitaram com intensidade. — Não, ele é legal. Ele me ajudou quando torci o tornozelo. — expliquei. — Como você torceu? — Alex perguntou, a voz dele suavizando um pouco, a curiosidade sobrepondo a raiva. — Correndo. — respondi, com certo receio. Eu sabia que ele me perguntaria de quem eu estava correndo. — Correndo de quem? — Alex perguntou, a voz baixa, mas o olhar fixo em mim. Eu abaixei a cabeça, incapaz de encará-lo. O terror de Tony ainda me assombrava. Alex estendeu a mão, segurou meu queixo com delicadeza e ergueu minha cabeça, forçando-me a olhá-lo nos olhos. Seus olhos, normalmente brincalhões, estavam sérios, exigindo uma resposta. — Estava correndo de quem? — ele perguntou novamente, a voz firme, mas paciente. Respirei fundo, sentindo o ar pesado em meus pulmões. As palavras saíram em um sussurro, quase inaudíveis. — T-Tony. — balbuciei. Alex soltou meu queixo bruscamente, o punho cerrado. A raiva em seus olhos era avassaladora. Ele deu um murro no banco do táxi bruscamente, o movimento fazendo o carro balançar levemente. — O QUE ESSE i****a QUERIA?! — ele gritou, o ódio transbordando em sua voz. A sua fúria era tão intensa que me assustou, mas ao mesmo tempo, me deu uma estranha sensação de segurança. Ele estava furioso por mim. Ele estava me protegendo. E a sua raiva, de alguma forma, era a minha salvação.
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