Clara invadiu o quarto de Lola como um furacão. A mulher de cabelos loiros olhava para a morena com olhos arregalados, e parecia que tinha visto um fantasma de tão pálida que estava. Esse fato, fez com que Lola pensasse que talvez, e somente talvez, mais ninguém sabia do envolvimento da garota com o segurança. E pelo nervosismo da mulher, aquela informação acarretaria em problemas para ambos.
Lola ofereceu a garrafa de água, que estava bebericando, enquanto analisava a mulher tremendo, como a sua avó dizia: igual vara verde, pensou ela. Não demorou muito para Clara começar a falar, e expor toda a sua angustia, medo e conflitos. E Lola, apenas ouviu.
- Melissa já te passou as regras, né? - disse com cautela a loira, ainda estudando a garota a sua frente, que apenas confirmou com a cabeça. - Tudo bem, você sabe que na verdade, não viu nada naquela cozinha, certo, Lola? - ela encarou a mulher fixamente.
- Conforme eu te falei, Clara, seu segredo está bem guardado. - voltou a afirmar e sorriu - Não me importa há quanto tempo fazem isso, de verdade, eu não to nem aí - deu de ombros - só não quero entrar em confusão, pelo que percebi as coisas aqui são bem... rígidas.
- Depende - Clara disse sentando na cama - as coisas são rígidas para quem não cumpre horário, ou quebra regras, óbvio que por ter tido os melhores lucros do mês, ninguém pega no meu pé, mas é fácil fazer isso, tudo é questão de ângulos e truques. Você parece estar confortável nessa situação.
Novamente a mulher sentiu medo de ser descoberta. Estar confortável naquela situação era estranho demais, então rapidamente Lola agiu por impulso.
- Eu sou assim, - começou ela a falar, cortando a fala da loira - eu primeiro preciso ter certeza do que rolou e o que está acontecendo ao meu redor. Percebi que chorar e me desesperar não vai fazer as coisas mudarem, além disso, nunca choro na frente de outras pessoas.
- Desista de tentar fugir - a loira suspirou - não tem como, é impossível. Eu já tentei, assim que cheguei aqui, só resultou em machucados, cortes e ódio. E vai por mim, eles conseguem ser muito malvados quando odeiam alguém. Não to falando sobre matar não. A morte seria um alívio para a pessoa. Eles machucam. Torturam. Maltratam mesmo, tratam a gente que nem bicho. Machucam nossa família, e fazem tudo sem dó.
Aquelas palavras tocaram o fundo da alma da agente. Ela esperava nunca vivenciar aquelas experiências, e esperava conseguir cumprir a missão rapidamente, pois não queria que mais meninas precisassem se expor daquela forma.
- Eu conheci o Frank em uma das minhas tentativas de fuga. Ele deveria ter me matado. Deveria ter atirado, e acabado comigo. Eu implorei para ele fazer isso. - seus olhos lacrimejaram - E ele fez o contrário. Ele cuidou de mim, dos meus ferimentos, das minhas dores. Depois ele sumiu. Nunca mais o vi fazendo escolta, e tinha medo que tivessem acabado com ele, por ele ter cuidado de mim. Pouco tempo depois tive um cliente novo. Um cliente que conversava, que mandava flores, que me comprava pizza. Não sei se tu sabe, mas existe essa opção, de presentear a garota, no próprio site ou aplicativo da agência. Os filhos da p**a pensam em tudo. - novamente ela suspirou, antes de contiuar.
"Então eu me aproximei desse cliente, ele me contava a vida, me contava como estava o dia lá fora, e me ouvir contar sobre uma vida imaginária. Faculdade, cachorros, festas, e até garotos que sequer existiam. Ele começou a fazer parte do meu dia, e eu comecei a me apegar nele. Era bom tê-lo presente. Por mais distânte que fosse. Um dia, ele me mandou uma mensagem, onde estava escrito: eu sei de tudo. Meu coração parou. Por um minuto, pensei que fosse um teste, alguém da agência, Melissa, ou qualquer um do bando deles, apenas para testar, até onde eu suportaria tantas mensagens sem contar a verdade. Continuei na personagem que inventei, no fundo, aquilo me enchia de esperanças, era minha valvula de escape. Então, uma noite, fria, chuvosa e solitária, ele entrou no meu quarto. Com um buquê de rosas vermelhas, e me contou sua verdadeira identidade. Meu coração parou. Foi um susto vê-lo ali na minha frente, vivo, e contanto quem realmente era. Eu disse que ele havia se apaixonado pelo que eu inventei, e ele insistia em dizer que a Clara mostra muito em ações - ela riu ao falar de si mesma em terceira pessoa - então ele enumerou minhas manias, falou dos meus gostos e quase acertou todos os meus medos. Ele conseguia me enxergar através da câmera, através da agência, através de ser uma camgirl. Ele conseguia ver a Clara que nem eu mesma acreditava que ainda existia. Foi assustador em um primeiro momento. Porque eu também enxergava o Frank. Além dos medos, dos desejos, das vontades de fugir daqui. Além de todas as invenções. Eu nunca me senti tão conectada com alguém. Quando eu senti seu abraço pela primeira vez, foi assustador o quanto eu precisava daquele toque, e nem imaginava. Quando seu cheiro impregnou em mim, parecia que eu estava no céu. De verdade, Lola. Eu nunca me senti tão bem cuidada, tão amada com alguém quanto me sinto com ele. Por favor, eu imploro, pra você não contar nada. E eu espero, do fundo do meu coração que você viva o que eu tenho com ele, com alguém um dia. Que você ame intensamente alguém. E que essa pessoa te ame e faça tudo por você. Acho que todo mundo merece vivenciar um romance um dia. E por favor, não acaba com o meu relacionamento. Eu já estive no fundo do poço por muitas vezes, e ultimamente, meu único momento de paz é ao lado desse homem. Essa agência pode ser um inferno, mas também foi o meu paraíso"
Lola não disse nada por um bom tempo. Encarava a garota a sua frente, que havia deixado cair algumas lágrimas, mas sorria verdadeiramente. Com certeza ali havia amor. Quando afirmou, que não contaria nada a ninguém, ganhou um abraço de Clara, e percebeu que ali, estava começando uma amizade. Uma amizade que seria essencial ali dentro, e que faria os dias passarem mais rápido.