Samuel pediu para eu fazer minha mágica... E eu o fiz. Dancei até ele implorar para parar e me afastar. Cada rebolada, cada descida que eu dava, mexia com cada "fiação" do meu corpo. Desde do coração a ponta dos meus dedos. Era esse o poder que ele tinha sobre mim. Me encantar, me fazer voltar a essa máscara mesmo depois que tanta coisa tenha acontecido...
Ele se foi, procurando o bar mais próximo e eu fiquei ali, em dúvida. Minha mente me mandava fugir e nunca mais pôr essa roupa novamente, essa fantasia. Já o meu corpo... Meu corpo pedia mais, mais dança, mais movimentos, a boca dele no meu pescoço novamente, mais momentos como oque acabamos de viver...
Caminhei até o lado de fora, sentando-me na grama. A lua estava cheia, do jeito que eu gostava. Quando era adolescente, costumava me comparar a lua. Várias fases, vários segredos que nunca foram explorados... Um completo mistério. Até agora, vários anos depois, continuo sendo uma incógnita. Tirei os saltos e senti uma vontade imensa de chorar.
Olha onde estou... Usando essa fantasia, sozinha, tentando machucar de um jeito erótico alguém que a única coisa r**m que fez foi me contratar como sua secretária e me ter como seu braço direito. Me apaixonar por ele não foi proposital. Eu simplesmente senti... As reuniões, ele todo confuso com os números... Pequenos detalhes que me pegaram de jeito e me trouxeram até aqui, com essa máscara de cetim n***o.
Seu perfume invade minhas narinas quando inspiro. Rapidamente, enxugo as poucas lágrimas que caíram e ajeito a máscara. Sabia que ele viria atrás de mim. Só esperava que fosse mais esperto e não o fizesse. Suspirei e resolvo ser a primeira a falar algo.
— Pensou que eu tinha fugido novamente? — Esperava que minha voz não passasse indícios do meu choro. A última coisa que eu queria passar era fraqueza. Sentou-se do meu lado e eu me virei lentamente, soltando todo o ar preso nos meus pulmões, encarando aqueles dois olhos azuis, que pelo que acredito ser ironia do destino, estavam cobertos por uma máscara também n***a.
Seu corpo se desestabilizou e a respiração acelerou, eu também tinha esse efeito nele! Sorri fechado.
— Aquelas mulheres... — Começou. Sabia que ele estava querendo falar das meninas, meu nariz coça e eu fungo. Chorar é uma droga. Seu semblante mudou de curioso para preocupado e eu senti meu coração se encher com a expectativa.
— São, minhas amigas. — Explico.— As duas, somos um trio. — Ele parece pensar um pouco. A lua novamente chama minha atenção e me volto para ela e seus detalhes. O azul escuro límpido que está, as poucas estrelas. A escuridão.
— Vocês andam por aí mascaradas, invadindo casas, prendendo os homens e dando orgasmos espetaculares á eles? — O seu tom é cuidadoso e eu não aguento. Explodo em uma risada. Estava me comparando á uma prostituta. Se eu ligo? Não muito. Sei que é o que parece. Porém...
— Não, não. — n**o e penso antes de explicar. Vai que acabo falando demais...— Nós nos interessamos em vocês. Fomos treinadas para seduzir... — Uma risada sarcástica escapou dos meus lábios. Antes fosse só para "seduzir". Ele encarava com as órbitas azuis escancaradas, assustado. Eita, hômi frouxo! Bufo. — Antes que pergunte, nós não somos prostitutas. Eu me interessei por você e resolvi fazer aquilo. — Dei de ombros, não era muita coisa. Ele estava lá, boquiaberto e lindo. Por que tão lindo?
— Porque lavou a minha louça? — Diz do nada, faço uma careta e prendo a vontade de rir. Tanta coisa para perguntar e ele vem falar da louça? Sam, você têm sérios probleminhas mentais... Ele ri e eu vejo todos aqueles dentes. Não esperava aquela pergunta. A louça estava me chamando "Emily, me laaaave". Não suporto coisas muito sujas. Com algumas coisas sou metódica pra caralho...
— Você é bem bagunceiro, eu não tinha nada mais importante para fazer e aqueles pratos estavam gritando "me lave". — Dei ênfase no "bem" e rimos juntos. Estar ali com ele, nessa noite tão linda. Suspiro e volto a encarar a lua. — A lua é encantadora. Hora está gigante e brilhante, outra ela diminuí e seu brilho se torna completamente fosco. — Digo, sem perceber. Sinto sua respiração próxima e me viro. Seus lábios estavam próximos e entortados em um meio sorriso. Lindo, lindo, lindo. — Acho que vou riscar "beijar o Zorro sob à luz da lua cheia" da minha lista. — ele riu e colou nossos lábios.
No começo, nossos lábios estavam apenas conhecendo um ao outro. Aos poucos, sentei no seu colo e ele deitou-se na grama sintética. Minha língua explorava cada canto da sua boca, sentindo o gosto amargo do whisky recém-tomado. Estávamos completamente entregues ao beijo, as sensações... Mordi com certa delicadeza o lábio inferior de Samuel, soltando-o logo em seguida. Quando estava prestes a reiniciar o beijo com mais intensidade, eu senti... Ele estava tentando tirar a minha máscara!
Pulo do colo dele como se tivesse levado um choque. Estava longe, passo o pulso, limpando o batom borrado. Pensei que ele iria deixar para lá e aproveitar! Mas, não, ele tem que ser cabeça dura e bater na merda dessa tecla até ela acabar quebrando! Ele me encara, atordoado. Respiro fundo, mas, não aguento. E como uma bomba, eu explodo:
— Porque quer tanto saber quem sou? Não está satisfeito com o império de modelos que comanda e todas que já passaram por sua cama?! — Cuspo as palavras que estavam presas, desde sempre, na minha garganta. Ele franze o cenho e a minha ficha caí.
Merda, falei demais.
— Como sabe que eu saio com modelos? — Pergunta, desconfiado. Minhas mãos correm para a mini-bolsa que carrego comigo. Para casos de emergência, vocês sabem. Um batom, um preservativo e o spray. Não, não é laquê. — Vai fazer o que? Pegar uma arma? Eu sou mais forte e vou acabar arrancando essa sua máscara. — Debocha e eu reviro os olhos. Éter em spray. Ganhamos isso para casos de extrema emergência. Bem disfarçado como um inofensivo spray de pimenta. Não queria usar isso. Foi Sofie que me obrigou a trazer. Achei que seria desnecessário, mais ele tem que ser imprevisível. Vai ser punido por querer ir com muita pressa.
— Tsc, tsc, tsc. — Digo em reprovação, balançando a cabeça. Ele presta atenção em cada movimento meu. — Pensei que iríamos poder aproveitar a noite, conversar...— Solto o ar e rio. Tentava envolvê-lo, com minha voz, com meu andar. O spray estava na minha mão, quietinho. — Porque você tem que ser um garoto tão mau, Samuel? — Ronrono como uma gata selvagem. Ele fecha os olhos, pronunciei seu nome da forma mais erótica possível. Quando os abriu, os olhos azuis faíscavam de desejo. Sorri maliciosa.
— O que vai fazer? — A carga de excitação em sua voz era explicita. Safado! Ele estava gostando. Ri baixo e me aproximei o máximo que pude. Minhas unhas acariciaram o rosto dele. Meu menino mau.
— Te punir por ser tão gostoso. — Sorri, levantei a mão tampando o nariz e ajustei o spray, mirando-o no rosto dele. Samuel franziu o cenho e se preparou para falar algo. E antes que dissesse, apertei a válvula, ele respirou em seguida. Fechando os olhos e caindo inerte. Soltei o ar e encarei seu corpo desacordado, pegando o cartão de seu quarto na carteira. É, e lá vamos nós de novo.
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Sai do quarto de Samuel como se estivesse carregando a galáxia inteira em minhas costas. Deixar aquele bilhete foi o melhor que eu poderia fazer. Ficar o mais longe que eu conseguir, uma promessa. Ser secretária dele nunca pareceu tão r**m.
Nossa noite foi bem... Sem comentários. A música foi um recadinho. Achei a cara dele e sei o quão é importante para ele, ter uma trilha sonora na vida. Foi um modo de me eternizar em sua mente e coração.
O sobretudo de cor caramelo cobria minha fantasia, já tinha me livrado da máscara quando entrei no elevador. Tudo que eu queria necessitava era de umas boas horas de sono. Ele ainda não me viu aqui no resort, a Emily secretária. Falando assim, até parece que tenho duas personalidades... Espera, eu realmente tenho duas personalidades! Bufo e saio do clima claustrofóbico que o elevador me passa.
Passo o cartão na porta do meu quarto, não vendo a hora de me jogar na cama e só acordar no ano que vem... Abro a porta e desejo que isso seja um pesadelo.
Uma convenção de furacões, tsunamis, terremotos... Passou por aqui? Meu quarto está um caos!!
Saltos pelo chão, roupões, dois espartilhos, um rosa claro e um azul escuro... Comida espalhada... Aaaaargh!
Rebeca e Sofie estavam deitadas em minha cama, dormindo. Bufo e começo a bater palmas como uma velha louca. Odeio bagunça.
— Acordem, duas pestes! — Grito. Rebeca se mexe.
— Ah, mãe. Me deixa dormir mais cinco minutinhos...— Murmura e se ajeita na cama. E sem querer, empurra Sofie que despenca da mesma, como uma jaca madura. Não aguento e começo a rir alto.
— p**a QUE PARIU, PODEM LEVAR TUDO!!! — Sofie levanta as mãos em redenção. Me encosto na parede sem conseguir parar de rir. Ela me encara e sinto que se seus olhos claros tivessem lasers, eu já teria virado picadinho de Emily. Rebeca coça a cabeça, se espreguiçando e bocejando.
Me jogo na cama perto dela e as duas me fitam com curiosidade. Estava acabada! Sorri em resposta.
— Comecem a contar o relatório, vamos. — Digo, Sofie se senta e começa a contar.
É, parece que vou ter que adiar a minha soneca.