— O LOBO DO LESTE E O LOBO SUPREMO

954 Words
Kauã a empurrou gentilmente para dentro da sala de estudos — gentilmente só porque a força dele era absurda demais para qualquer outra coisa. O cômodo cheirava a pergaminhos velhos, tinta rústica e ao aroma dele, aquele cheiro quente e amadeirado que grudava na pele e confundia os sentidos. Clara o encarou de queixo erguido, olhos faiscando desafio. — Pare de agir como se tivesse algum direito sobre mim — ela cuspiu, cruzando os braços. — E pare você de se enfiar em território inimigo como se fosse imortal — Kauã devolveu, voz baixa, carregada daquele tom possessivo que sempre surgia quando ela mencionava o Norte. Ela deu um passo para trás, não por medo, mas por irritação. — Eu pertenço ao Norte. Sempre pertencerei. — Não fala assim. — A mandíbula dele travou. — Você fala como se alguém fosse te arrancar de mim. A última palavra escapou, crua, como se tivesse passado direto da garganta ao instinto sem filtro nenhum. Clara sentiu o estômago gelar. Kauã também percebeu. Ele desviou o olhar, rápido demais, como se tivesse admitido uma fraqueza diante dela. E foi bem nessa hora que Sara apareceu. Sara sempre chegava como uma lâmina: fria, afiada e perfeita demais. Não disfarçou o desprezo ao ver os olhos de Kauã presos em Clara, nem a forma como o peito dele se movia rápido demais para quem deveria estar no controle. Ele está perdendo o controle por causa dela. A raiva de Sara tinha gosto de sangue. Quando Clara saiu da sala, escoltada por uma atendente do covil, Sara se aproximou de Kauã. — Isso só vai terminar com você destruído — ela murmurou. — A linhagem dela é velha demais, poderosa demais. Você sabe o que acontece com os machos do Leste que se apaixonam por sangue alfa antigo. Kauã não respondeu. E para Sara, aquele silêncio era uma confissão. Assim que ficou sozinha, ela mandou uma mensagem rápida para sua aliada: “Leve-a amanhã ao Bar de Ossos. Vamos deixá-la cair por conta própria.” Sara não precisava dizer mais nada. A amiga entendia perfeitamente o plano: humilhar Clara, arruinar o seu nome, talvez até garantir que algum filhinho de alfa bêbado tentasse marcar território nela. De uma forma ou de outra, Clara sairia danificada. Na tarde seguinte, Clara entrou no Bar de Ossos contra a própria vontade. O lugar era decadência com lustre: uma mistura de luxo e cheiro de perigo. Lustres de ossos polidos pendiam do teto, bebidas caríssimas brilhavam nas mesas, e jovens lobos ricos riam alto demais, confiantes demais, imprudentes demais. A suposta acompanhante fingia que estava sendo atenciosa, mas Clara sabia: qualquer coisa ali estava planejada. E logo percebeu por quê. Um lobo jovem, cheiro de álcool e ego inflado, aproximou-se arrastando palavras. — Você é nova por aqui… — Ele a cercou com o olhar. — Deixa eu te mostrar como as coisas funcionam no Leste. Clara desviou, firme, tentando manter distância. — Não estou interessada. — Eu não perguntei se estava. Ele segurou o braço dela com força — e isso foi o suficiente para acionar todos os instintos dela, o medo, a raiva, a vontade de morder até sangrar. Mas antes que ela conseguisse reagir… Um rugido atravessou o bar como se tivesse rasgado o ar ao meio. Um rugido que nenhum lobo ousaria ignorar. Quando o garoto largou Clara e cambaleou para trás, ela virou e viu. Paulo. Dentro do Território do Leste. Furioso. Impossível. Lindo. Mortal. O Alfa Supremo avançou como se cada passo fosse uma sentença de morte. O seu Beta apareceu atrás dele, sombras silenciosas, pronto para intervir. — Tire as mãos dela. — Paulo ordenou. Ninguém respirou. O jovem recuou, quase tropeçando nos próprios pés. O Beta aproximou-se, separando os dois com movimentos rápidos. Paulo tocou o braço de Clara — não com força, mas com certeza — e a guiou para fora da confusão. Ela tentou resistir por reflexo, mas ele não ligou. Não naquele estado. Eles entraram numa sala privada, antiga, com paredes escuras e um trono entalhado no fundo. Uma sala que parecia mais ritualística do que confortável. Paulo se afastou alguns passos, sentou-se naquela cadeira esculpida como se tivesse nascido ali, e ficou a observar. Observando ela. Clara sentiu o coração vibrar contra as costelas. Sentiu raiva. Sentiu medo. Sentiu memória. Aquela postura. Aquele cheiro. Aquela presença que parecia roubar o ar. A noite deles. — Então é você… — ela sussurrou, juntando as peças. — O Alfa c***l. O Alfa Supremo. Aquele de quem até as sombras têm medo. Paulo não discordou. — Diga. — Ela deu um sorriso provocativo. — Vai matar-me por invadir o seu território? Ele continuou imóvel, mas havia tormenta nos olhos dele. Não era raiva. Era… reconhecimento. Clara percebeu. E percebeu também o efeito que tinha nele. Um plano rápido, perigoso, quase c***l, atravessou a sua mente. Ela deu um passo à frente, depois outro. Os seus instintos, seus hormônios, seu poder antigo… tudo pulsava. — Então você me rastreou até aqui… tão rápido. — Ela deixou a voz cair, insinuante. — o meu Alfa. A expressão dele vacilou por um segundo. Quase imperceptível. — Por quê? — ela provocou mais. — Se apaixonou por mim tão rápido? Foi isso? Silêncio. Ele continuava observando, mas o peito movia-se de forma irregular. Como se estivesse segurando algo enorme. Algo que lutava para sair. Clara sorriu, lenta, perigosa. Então inclinou a cabeça, mordendo o lábio. — Quer outra rodada da nossa noite? — ela sussurrou. — Quer testar se o laço responde de novo… Meu Alfa? A sala pareceu encolher. O ar ficou mais quente. A sombra daquele trono vibrou. E Paulo Paulo finalmente levantou da cadeira.
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