Inimigo Nas Sombras

2035 Words
Gálata estava tão envergonhada que não veria problema se a terra se abrisse naquele momento, a engolisse e a vomitasse bem longe. No entanto, isso era pedir demais. Ela saiu do carro com medo, especialmente porque o dono daquele carro luxuoso devia estar muito bravo com o incidente. Fechou os olhos e contou mentalmente, esperando a explosão de raiva que certamente viria do condutor daquela maravilha — e não era para menos. "Um, dois, três..." No entanto, mesmo após contar até três, não ouviu gritos nem reclamações. Abriu os olhos e, diante dela, quase tocando o seu rosto com a respiração, estava um homem de pele bronzeada, olhos verdes por trás de óculos e cabelos negros, exibindo um sorriso parecido com os de comerciais de pasta de dente. Ela abriu os olhos, desconcertada. Não conseguia acreditar que havia se enganado tanto em sua percepção. Esperava ver um homem muito irritado, difícil de controlar, e, em vez disso, estava diante de um verdadeiro galã, sorrindo como se tivessem contado a ele a melhor piada do mundo. Por um momento, ela não soube onde foi parar sua voz, pois há muito tempo não encontrava um homem que, além de ser fisicamente atraente, tivesse uma atitude tão diferente do que ela havia imaginado. E, apesar de parecer que ele estava tendo o mesmo problema para começar a falar, foi ele quem finalmente rompeu o silêncio desconfortável. — Olá, muito prazer, sou Adriano Colombo Bellini, e sou o condutor do carro que, felizmente, você bateu — declarou, estendendo a mão para cumprimentá-la. — Felizmente? — perguntou ela, incrédula, apertando a mão dele e sentindo-se completamente fora de lugar. — Sim, entre manter o carro intacto e não conhecê-la ou acabar com ele amassado e conhecê-la, prefiro a segunda opção. — Não me importo de levar uma bronca do meu irmão gêmeo, porque este momento vale muito a pena. Você me diria seu nome? — perguntou, ainda segurando a mão dela, o que fez Gálata se sentir um pouco desconfortável. — Sim, claro, mas primeiro, você poderia ser tão gentil e devolver minha mão? — perguntou, com um sorriso. — Ah, desculpe! É que sua mão está tão quente, e acho que as minhas estão um pouco frias — justificou-se. — Sou Gálata Ferrari, e sinto muito por ter batido no seu carro. Vou lhe dar meu número para combinarmos sobre o conserto. A culpa foi toda minha, eu estava muito distraída. — Ferrari? Por acaso você tem algum parentesco com o magnata dos negócios, Sebastián Ferrari? — perguntou com curiosidade. Gálata não pôde evitar se tensionar. Naquele momento, ela lembrou que essa era outra razão pela qual preferia se esconder em uma concha, para evitar descobrir quando as pessoas se aproximavam dela por ela mesma ou por interesse. Mas, ao ver o carro do homem, talvez ele não precisasse de dinheiro, então preferiu mentir. — Não, não tenho nada a ver com esses Ferrari. A minha família é mais simples — para seu desconcerto, o sorriso de Adriano se alargou. — Ufa! Isso é um alívio, porque eu não gostaria de me relacionar com a filha de um magnata. Prefiro mulheres simples e naturais, como você — disse, com um tom sedutor, enquanto olhava para ela e deixava o olhar repousar um pouco mais em sua barriga. — Você é casada? Ele franziu o cenho em um gesto inquisitivo. — Bem, deixe-me responder da forma mais próxima da verdade possível. Embora eu ainda seja casada, hoje mesmo decidi iniciar o processo de divórcio, após quase oito anos de casamento. — Uau, hoje é meu dia de sorte. É uma menina ou um menino? — perguntou, referindo-se à gravidez dela. — Não quis saber o sexo do bebê, quero que seja uma surpresa, embora já tenha um menino de três anos — respondeu ela, sorrindo ao pensar em seu lindo Xavier. — Uau! Ou meus cálculos estão errados, ou você deve ter tido um bebê muito jovem, porque eu não lhe daria mais de dezenove anos — essas palavras foram como um bálsamo para a jovem, cuja autoestima estava um tanto abalada. Ela não conseguiu conter uma gargalhada. — Nossa! Você realmente sabe como alimentar o ego de uma mulher — disse, satisfeita. — Na verdade, minha intenção era apenas afirmar uma verdade, não alimentar o seu ego — por um momento, o silêncio se instalou entre eles, e uma sensação estranha inundou Gálata, a ponto de deixá-la nervosa. — Bem, acho que já lhe dei meu cartão, para combinarmos sobre o pagamento do conserto... Está na hora de ir — disse, timidamente, mas não esperava as palavras de Adriano, que a deixaram surpresa. — Não chegamos a um acordo. Você fez uma proposta, mas eu não aceito — falou com uma expressão séria, e o rosto de Gálata empalideceu. — Não tem problema, minha intenção é pagar pelos danos. Vou buscar um cheque, e você me diz quanto devo assinar — disse, aproximando-se do carro, pegando sua bolsa e tirando uma caneta, sentindo-se um pouco decepcionada. Adriano segurou sua mão, tirou-lhe a caneta e fechou o talão de cheques. — Isso não é necessário. Tenho uma ideia melhor. Que tal um jantar esta noite ou amanhã? — perguntou, ganhando uma expressão de surpresa de Gálata, que não pôde evitar abrir a boca em formato de "O". Por breves segundos, ela não conseguiu falar devido à surpresa. Nunca esperava uma proposta daquelas. Como aquele homem tão impressionante podia querer jantar com ela, ainda mais agora, com sua barriga de cinco meses? Como se ele adivinhasse seus pensamentos, Adriano disse com sinceridade: — Acho as mulheres grávidas sexy, e você é mais sexy do que outras — acrescentou, fazendo o coração de Gálata acelerar, enquanto ele piscava para ela. Deixando-se levar por seus impulsos, como o primeiro passo para voltar a ser aquela garota desinibida de antigamente, Gálata respondeu: — Aceito, amanhã no "DOC" Cruderia Bistrot — disse, com um sorriso. Subiu no carro e foi embora, sentindo seu coração prestes a saltar pela boca. — Meu Deus, Gálata! Você está louca! Não faz nem uma hora que deixou o cubo de gelo, e já está de olho em outro. "Ah, Gálata, mas esse parece ser todo o calor que o outro não tem", disse sua consciência, e ela não pôde evitar uma risadinha nervosa, concordando completamente. Por um breve instante, um lampejo de remorso tentou surgir dentro dela, mas ela o afastou. — Nada de remorso, porque Matteo nunca teve. Ele já é passado e bem enterrado — disse a si mesma, com firmeza. Gálata fez o caminho até a casa de seus pais, mas, em vez de chegar naquele estado deplorável e choroso em que estava uma hora antes, chegou com um sorriso de orelha a orelha. Seu pai, que estava preocupado com ela, andava nervoso de um lado para o outro, quase deixando sulcos no chão. Ao vê-la tão feliz, franziu o cenho, mas logo depois respirou aliviado. — Minha princesa, eu estava preocupado com você, sentia meu coração prestes a colapsar só de imaginar você triste e com problemas. Graças a Deus que está tudo bem. Onde está o Matteo? — perguntou, olhando para trás, esperando vê-lo, mas, ao não encontrá-lo, franziu o cenho. — Papai... me separei do Matteo e preciso de um dos seus advogados para me representar no processo de divórcio — os rostos de Sebastián e Anabella empalideceram. — Divórcio? Como assim? Vocês sempre foram o casal perfeito — declarou Sebastián, confuso. — Não, papai, não havia perfeição, nem felicidade. Esse casamento foi apenas a prisão onde me meti voluntariamente por não ter dado ouvidos aos seus conselhos — respirou fundo e continuou —. Cansei de deixar de ser eu mesma, de me entregar completamente e não receber nada em troca, de me tornar uma mulher fria para combinar com o Matteo, negando minha verdadeira essência. » Perdi muitos anos da minha vida, mas não mais. Hoje acordei para quem realmente sou, e espero contar com seu apoio — afirmou com segurança. ***** Matteo ainda estava deitado no chão da sala, um desastre total. Já havia passado um dia desde que ela o deixou, e ele queria se trancar em um sarcófago e nunca mais sair. As ligações no celular eram incessantes, até que, para silenciá-las, decidiu atender. Do outro lado da linha, era a voz de seu pai, gritando furioso. — Que merda você tem na cabeça, Matteo Niccollo?! Eu juro que te considerava mais inteligente. Como você pôde fazer isso com a Gálata?! — as palavras de seu pai perfuraram a névoa de sua mente, trazendo-o de volta à realidade. — Eu não fiz nada, ela decidiu ir embora, me deixar! Não acreditou nas minhas intenções de mudar, de ser diferente, de ser tudo o que ela precisa. Houve um m*l-entendido — mencionou, segurando a cabeça. — Um m*l-entendido, quando é evidente que você está se beijando com a Helena na porta de um quarto de hotel e depois se deitando com ela na cama — pronunciou o homem, completamente indignado. — Me deitando com ela? Não entendo, de onde você tirou isso? Quem te passou essa informação só quis jogar mais sal na ferida. Eu não dormi com a Helena nem com ninguém. De que você está falando, papai? — perguntou, preocupado. — Descarado! Eu pensei que você fosse homem o suficiente para assumir as consequências de suas ações. Não continue escondendo a verdade, confira nas redes sociais. Sebastián Ferrari vai fritar você como carne de porco, e eu não vou mover um dedo para impedir — dito isso, ele desligou a ligação sem dar mais explicações. Antes de poder conferir as redes sociais, Sophia, sua mãe, ligou para ele, chorando, repreendendo-o, dizendo que seu pai, apesar dos problemas, nunca foi infiel, e que era lamentável ele ter perdido uma mulher extraordinária. Depois, ela desligou sem nem deixá-lo falar. Pegou seu telefone e começou a verificar as redes sociais. O que viu causou uma grande comoção em seu interior. Vários vídeos dele na porta do quarto de Helena, mas o que o chocou foi uma parte do vídeo em que os dois estavam fazendo amor. Isso não era verdade, embora ele tivesse ficado na mesma cama que ela, estava vestido. Alguém os gravou no passado e publicou isso como se tivesse acontecido na noite em que ele não voltou para casa. — Quem fez isso? Quem está interessado em me fazer parecer um miserável aos olhos da Gálata? — perguntou angustiado. Imediatamente, ligou para Gálata, que atendeu no primeiro toque, com a voz embargada de choro. — O que você quer, Matteo? Para que está me ligando? Não basta o dano que você me causou? Estou na boca de todo mundo, sou a maior corna de toda a Itália, sou o motivo de risada de toda a Europa. » Com ela, você foi tão carinhoso como nunca foi comigo. Você zombou de mim, e isso eu nunca vou te perdoar. Você podia ter me dito que não me amava antes de fazer isso e se deitar com ela. Eu teria entendido, mas você preferiu ser um canalha para fechar tudo com chave de ouro. — Esse vídeo foi tirado de contexto, Gálata, por favor, você precisa me ouvir — suplicou. — Você está dizendo que não é você no vídeo com a Helena? — perguntou esperançosa. — Sim, sou eu, mas... — ele não teve chance de terminar. — Já chega, Matteo! Perdi até o mínimo respeito que ainda tinha por você. Qualquer frase que vem seguida de "mas" nunca é boa. Não me incomode mais, a única coisa que quero de você é o divórcio. — Não, Gálata! Por favor, me escute — ele implorava com veemência, mas ela estava mais decidida do que nunca a deixá-lo para trás. — Você, Matteo, foi o pior erro da minha vida, e você não tem ideia de quantas vezes eu amaldiçoei o momento em que aceitei você na minha vida. Eu te odeio, e ficaria feliz se você desaparecesse e nunca mais aparecesse diante de mim — dito isso, ela desligou a ligação, deixando-o em um estado de completa angústia.
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