A minha mãe limpou a boquinha dela com um guardanapo, e o meu pai despejou um pouco de suco no seu copinho com tampa.
Não precisávamos de luxos, roupas caras ou jantares em restaurantes chiques.
Só isso. Uma garota que me olha como se eu fosse o mundo. Dois pais que nunca soltaram a minha mão.
E uma casa que em breve será nossa.
Mais tarde, Amira adormeceu nos meus braços, com o ursinho de pelúcia pressionado contra o seu rosto e a sua mão segurando um dos meus dedos.
E enquanto eu a observava dormir, pensei: isto é vida. Isto é amor. E esta é a minha vitória.
(...)
A noite estava quente e calma. Sentados no quintal da casa dos meus pais, costurávamos em silêncio. A minha mãe passou a agulha com a sua paciência habitual, enquanto eu tentava não furar os meus dedos. Era um momento só nosso, um desses momentos que se repetem ao longo do tempo, onde palavras não são necessárias para nos sentirmos acompanhados.
— A lua está linda hoje. Disse a minha mãe, olhando para o céu.
Assenti com um pequeno sorriso. Amira já estava dormindo no seu berço, e eu finalmente pude sentar e respirar sem pensar em listas de tarefas, contas a pagar, lanches, creche ou trabalho.
Geralmente nos fins de semana vamos à casa dos meus pais para passar um tempo com eles.
O celular vibrou em cima da mesa. Levei isso na esportiva, pensando que era apenas mais uma promoção ou notificação.
Mas não. Era uma mensagem do meu chefe.
"Laura, estou compartilhando as informações de contato do gerente de projeto com quem você trabalhará diretamente. Assinaremos o contrato amanhã. O nome dele é Arte Antonov. Presidente do Grupo ArkLine."
Eu congelei. Senti o sangue saindo do meu corpo.
Tive que me sentar novamente.
— Laura? O que foi, filha? Perguntou a minha mãe, colocando o fio de lado.
Eu não respondi a ela. Eu apenas mostrei a ela o celular com a tela ligada.
Ela leu, abriu os olhos e colocou a mão no peito.
— Ah não… Não, não pode ser.
Cobri o meu rosto com as mãos e, em segundos, os meus olhos se encheram de lágrimas. Essas lágrimas pesadas e opacas, que não fazem barulho, mas que doem como mil.
— E agora o que eu faço, mãe? Eu deixei escapar, entre soluços. — Fiquei muito animado com esse trabalho mãe. Mas não posso trabalhar com ele.
Ela veio imediatamente e acariciou os meus cabelos como quando eu era uma garotinha.
— Ah, minha filha, que situação constrangedora. Agora quando tudo estava melhorando.
— Os meus sonhos estão sendo destruídos novamente por causa daquele homem, mãe. De novo.
— Não. Ela disse firmemente. — Nada disso, filha. Você não pode perder esta oportunidade. Você já perdeu muito por causa dele.
— Mas não posso trabalhar com ele. Não quero vê-lo por perto, não quero que ele me olhe como se nada tivesse acontecido. Não posso. Eu disse, chorando ainda mais.
— Você não vai desistir de um bom emprego só por causa dele. Disse a minha mãe, enxugando as minhas bochechas. — Além disso, aquele desgraçado não vai incomodar você. Você na sua área e ele na dele.
— Não sei se estou pronta, mãe. Eu realmente não sei.
Ela segurou as minhas mãos com força.
— Sim, você está. Veja tudo o que você conquistou. Você criou a sua filha sozinha, concluiu o seu curso e trabalhou incansavelmente. Filha... pela sua filha, você deve empinar o peito e permanecer intacta. Não dê poder a esse homem.
Respirei fundo, ainda tremendo. Ela estava certa, como sempre. Mas o medo... o medo ainda estava lá, tão presente quanto o passado que me destruiu.
— Não lhe dê poder. Repetiu ela. — Não deixe ele notar nenhuma rachadura. Deixe que ele veja você e não reconheça a mulher que chorou por ele.
— Não quero sofrer de novo, mãe.
— E você não sofrerá. Ela me prometeu. — Porque desta vez você não vai dar nada a ele. Desta vez, você vai de cabeça erguida e pela sua filhinha.
Eu a abracei, sem dizer mais nada. A minha mãe estava certa. Desta vez, eu ia ser forte. Dessa vez eu não iria me desfazer por Arte Antonov.
Arte
Às vezes a alma avisa antes da razão. Às vezes você chega em casa e sente o ar diferente, como se algo tivesse se movido sem a sua permissão.
Aquela noite foi assim.
Assim que abri a porta do apartamento, ouvi risadas. Risada calorosa e familiar. O aroma da comida caseira me envolveu como uma cena de filme.
— Filho, você está aqui. Disse a minha mãe com um sorriso, erguendo uma taça de vinho da sala de jantar.
— Surpresa. Acrescentou Camila, de pé, com o seu vestido cor champanhe e aquele sorriso perfeito que eu tanto gostava, ou pelo menos, eu achava que gostava.
Fui até lá para beijar a bochecha da minha mãe, cumprimentei o meu pai com um aperto de mão e então recebi um rápido selinho nos lábios de Camila. Os seus beijos pareciam secos para mim agora... Sempre foi assim?
— Tudo certo? Perguntei a ela enquanto eu pendurava o meu casaco.
— Tudo está perfeito. Fiz a sua refeição favorita. Ela respondeu docemente, pegando o meu braço para me levar até a mesa.
Nós quatro nos sentamos. O jantar parecia perfeito. Camila contava histórias animadas enquanto os meus pais ouviam, fascinados, como sempre. Ela era adorável. Ele sabia como transitar entre as palavras, como conquistar todo mundo.
Até que ela começou a falar sobre a viagem.
— E então, em Paris, conheci a esposa de um embaixador. Foi numa festa de gala privada, em Versalhes. Inesquecível, realmente.
Eu parei.
— Paris? Perguntei.
— Sim claro. Uma escapada rápida de Roma. Foi coisa de dois dias.
— Achei que você tivesse ido para a Itália sozinha.
Ela piscou. Era quase imperceptível.
— Bom... no começo foi assim, mas surgiu a coisa de Paris e nós fomos. Esqueci de te contar.
— O seu telefone não quebrou? Perguntei sem mudar o tom de voz. — Você disse que é por isso que não podia me enviar fotos.
Camila tomou um gole de vinho.
— Sim… mas minha amiga Clara me emprestou o dela.
— Clara? Achei que Clara não tivesse visto para a Europa.
— Ela renovou. No último minuto.
— Você também não me disse isso.
— Arte. Disse ela, sorrindo para os meus pais. — Falaremos sobre isso mais tarde, ok?
Assenti, mas não disse mais nada. O vinho ficou amargo e o prato abençoado não tinha mais sabor. E Camila continuou contando histórias que de repente pareciam falsas para mim.
Sobre o que mais ela mentiu para mim?
Os meus pais continuaram se divertindo. Eles riram e lhe fizeram perguntas. Camila respondeu como se tudo fosse natural. Como se nada estivesse errado. Mas eu não estava mais ouvindo.
A minha mente estava presa naqueles detalhes. Nas datas que não coincidiram. Nas fotos que nunca chegaram. Nas palavras que agora pareciam roteirizadas.
Pela primeira vez em muito tempo, não a vi como a minha parceira. Eu a via como uma mulher que sabia se esconder e manipular.
E o mais triste de tudo é que eu percebi ali, no meio de um jantar em família... que eu estava me convencendo por muito tempo de que ela era perfeita, quando ela não era. Talvez nunca tenha sido.
Quando, na verdade, algo dentro de mim gritava há meses que eu estava me perdendo e que eu estava com alguém que talvez preenchesse os meus anseios do passado, mas não os do presente.
(...)