4

3149 Words
CAPÍTULO 4 — VICENTE VICENTE — O que eu tenho para conversar com você não é brincadeira, Vicente. Então, pela primeira vez hoje, fecha essa cara de deboche e presta atenção no que estou falando. Meu pai soltou aquelas palavras com a tranquilidade de quem estava acostumado a ser obedecido. Vitor nunca precisou levantar a voz para fazer os homens ao redor dele ficarem em silêncio. Bastava aquele olhar sério, a postura firme e o jeito calculado de escolher cada palavra para deixar claro quem estava no comando. Eu estava sentado à mesa, com as costas apoiadas na cadeira e os braços cruzados sobre o peito, olhando para ele sem demonstrar o menor sinal de preocupação. Do outro lado, dois homens de confiança do meu pai acompanhavam a conversa em silêncio. Eu conhecia os dois havia anos. Sabia que eram discretos, leais ao meu pai e que não abririam a boca para comentar nada do que fosse discutido ali. Ainda assim, não gostava daquela reunião. Tinha coisa muito melhor para fazer naquela noite do que ficar sentado ouvindo meu pai falar sobre responsabilidades, futuro e tudo aquilo que ele acreditava que eu deveria me tornar. — Tô prestando atenção, p***a. Pode falar — respondi, impaciente. Vitor apoiou os antebraços sobre a mesa e sustentou meu olhar. — Você tem vinte e seis anos, Vicente. Não é mais um moleque que pode passar a vida inteira fazendo o que bem entende sem pensar nas consequências. Soltei uma risada curta, sem humor. — c*****o, pai, tu me chamou aqui pra falar da minha idade? Se for isso, podia ter mandado uma mensagem. Eu tinha economizado meu tempo. Um dos homens baixou os olhos, disfarçando uma reação. Meu pai, por outro lado, nem sequer piscou. — É exatamente esse tipo de comportamento que estou falando. — Que comportamento? — Essa mania de achar que tudo é uma piada. Você não leva nada a sério quando o assunto não interessa diretamente a você. Descruzei os braços e me inclinei para a frente. — Engraçado ouvir isso de você. Quando o assunto é a minha vida, parece que tudo interessa diretamente a você. O silêncio que veio depois não foi confortável. Meu pai estreitou os olhos, mas eu não desviei o olhar. A gente se parecia em muita coisa, inclusive no orgulho. A diferença era que Vitor havia aprendido a esconder o que sentia atrás de uma expressão controlada, enquanto eu simplesmente não fazia questão de fingir paciência quando estava de saco cheio. — Não confunda preocupação com controle — ele respondeu. — Eu sou seu pai. É minha obrigação pensar no seu futuro, principalmente quando vejo você desperdiçando as oportunidades que tem. — Lá vem essa conversa de novo. — Porque você continua me dando motivos para repeti-la. Passei a língua pelos dentes, segurando a resposta atravessada que estava pronta para sair. Não porque tivesse medo dele, mas porque sabia que aquela conversa poderia se arrastar pela madrugada se nós dois continuássemos batendo de frente. — Tá bom, fala logo o que você quer de mim. Vitor permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois, olhou brevemente para os homens que estavam à mesa antes de voltar a atenção para mim. — Quero que você comece a assumir responsabilidades maiores. Franzi a testa. — Que responsabilidades? — As que fazem parte da nossa realidade. Você já conhece boa parte do funcionamento das coisas, sabe como as decisões são tomadas e conhece pessoas que estão ao meu lado há anos. Está na hora de deixar de ser apenas alguém que acompanha tudo de longe. Soltei o ar pelo nariz. — Eu não fico de longe de p***a nenhuma. — Não estou dizendo que você não faça nada. Estou dizendo que precisa aprender a enxergar além do próprio umbigo. Aquela frase me irritou mais do que deveria. — Tu fala como se eu fosse um completo inútil, c*****o. — Eu não disse isso. — Mas é o que parece. Toda vez que a gente senta pra conversar, tu arruma um jeito de dizer que eu preciso mudar, crescer, amadurecer. Parece que nada do que eu faço serve. Meu pai apoiou as costas na cadeira. — Porque você tem capacidade para muito mais do que demonstra. A resposta me pegou desprevenido por um instante. Não porque eu não tivesse ouvido algo parecido antes, mas porque havia uma diferença entre meu pai dizer que eu era capaz e agir como se eu estivesse sempre devendo alguma coisa a ele. Desde moleque, eu tinha crescido vendo aquele homem tomar decisões que afetavam a vida de muita gente. Aprendi cedo que, naquela realidade, demonstrar fraqueza podia custar caro e que as pessoas raramente mostravam todas as cartas que tinham nas mãos. Também aprendi que meu sobrenome abria portas, mas vinha acompanhado de expectativas que nunca pareciam ter fim. Eu só queria poder decidir alguma coisa sem precisar ouvir uma lista de cobranças depois. — Então deixa eu cuidar da minha vida do meu jeito — falei. — Se eu errar, eu resolvo. Vitor soltou uma risada sem qualquer diversão. — Você fala como se as consequências das suas decisões atingissem apenas você. — E o que você quer que eu faça? Que passe o dia inteiro sentado aqui, esperando alguém me dizer qual é o próximo passo? — Quero que você pare de agir como se não tivesse nada a aprender. Um dos homens à mesa resolveu se manifestar. — Vitor, talvez seja melhor vocês conversarem com calma. O moleque precisa entender o que você está propondo, e você também sabe que ele não gosta de se sentir pressionado. Virei o rosto na direção dele. — Com todo respeito, não precisa se meter na conversa. Eu e meu pai sabemos muito bem resolver nossos assuntos. O homem ergueu as mãos, demonstrando que não pretendia discutir. — Tranquilo, garoto. Só tentei ajudar. — Então ajuda ficando na sua. — Vicente! — meu pai repreendeu, a voz mais firme. Voltei a encará-lo. — Que foi? Agora não posso nem falar? — Você pode falar o que quiser, desde que aprenda a respeitar as pessoas que estão nesta mesa. Passei a mão pelo rosto, já perdendo a paciência de vez. — Beleza. Foi m*l. Agora podemos continuar essa reunião ou vamos ficar discutindo quem pode abrir a boca? Vitor me encarou por mais alguns segundos. Eu sabia que ele não estava satisfeito, mas também sabia que não conseguiria arrancar de mim uma postura diferente apenas aumentando a pressão. — Quero que você entenda uma coisa — ele começou. — O futuro não vai esperar até que você decida estar pronto. Eu não vou estar aqui para resolver tudo por você para sempre. Aquelas palavras fizeram alguma coisa se mexer dentro de mim, embora eu não demonstrasse. Meu pai não era um homem que costumava falar sobre a própria ausência. Ele não gostava de dar espaço para pensamentos que pudessem ser interpretados como fraqueza, muito menos diante de outras pessoas. Ouvi-lo falar daquela maneira me fez perceber que, por trás das cobranças, existia uma preocupação que ele raramente colocava em palavras. Mas isso não significava que eu estivesse disposto a concordar com tudo. — Tu ainda tá vivo, pai. Não precisa fazer discurso de despedida. — Não estou fazendo discurso de despedida, moleque. Estou tentando fazer você pensar. — Então pode parar de tentar. Eu penso muito bem sozinho. — Pensar não é o mesmo que agir com responsabilidade. Revirei os olhos. — p***a… Vitor se levantou, e os outros homens fizeram o mesmo. A reunião parecia ter chegado ao fim, embora eu tivesse a impressão de que meu pai ainda guardava uma porção de coisas para me dizer. — Quero que você esteja mais presente nos próximos dias. Vai acompanhar algumas situações comigo e prestar atenção antes de sair dando opinião sobre o que não conhece por inteiro. — Eu já conheço bastante coisa. — Então não vai ter dificuldade em aprender o restante. Ele falou como se o assunto estivesse encerrado. Eu me levantei também, ajeitando a camiseta antes de empurrar a cadeira para trás. — Tá bom. Vou ver o que consigo fazer. Meu pai me lançou um olhar desconfiado. — Não quero que você veja o que consegue fazer. Quero que faça. — c*****o, pai, tu quer que eu assuma mais coisa ou quer que eu fique aqui ouvindo sermão até amanhã? — Quero que você cresça. — Então para de falar comigo como se eu tivesse quinze anos. A mandíbula dele se contraiu. Por um momento, achei que a discussão fosse recomeçar. Mas Vitor apenas respirou fundo e fez um gesto com a mão, indicando que eu estava liberado. — Vai descansar. Amanhã conversamos melhor. Não precisei ouvir duas vezes. Saí da sala com a cabeça quente e a sensação de que aquela conversa tinha sido mais desgastante do que qualquer compromisso que eu pudesse ter naquela noite. Atravessei o corredor, peguei meu celular no bolso e conferi as notificações. Havia algumas mensagens de Sara, uma do Jorge e outras que nem me dei ao trabalho de abrir. A primeira coisa que fiz foi ligar para meu melhor amigo. Jorge atendeu no terceiro toque. — Fala, desgraça! Sumiu por quê? Pensei que tu tinha sido sequestrado pelo teu coroa. — Quase isso. Ele soltou uma gargalhada do outro lado. — Ih, c*****o! O velho te colocou de castigo? — Vai tomar no cu, Jorge. — Calma, p***a! Tô perguntando numa boa. Tu tá com uma voz de quem acabou de sair de um enterro. Continuei andando até chegar a uma área mais afastada da casa, onde poderia conversar sem ninguém ficar prestando atenção. — Meu pai inventou de fazer reunião pra falar do meu futuro. — Ah, não! — Jorge respondeu, prolongando as palavras de propósito. — Lá vem o discurso de que tu precisa virar um homem responsável, largar as mulheres, parar de beber e começar a pensar na família? — Basicamente essa merda toda. — Papo reto, irmão, teu pai tá tentando te transformar num cidadão de bem na marra. Daqui a pouco vai querer que tu use camisa social, acorde às cinco da manhã e tome suco verde. Acabei soltando uma risada, apesar do mau humor. — Se ele aparecer com suco verde, eu jogo aquela p***a na cabeça dele. — Aí tu vai arrumar uma reunião extra, parceiro. Com direito a sermão, café e talvez um PowerPoint sobre responsabilidade. — Tu é muito i****a, cara. — E tu me ama por isso. — Infelizmente. Jorge riu mais uma vez, mas logo percebeu que eu não estava apenas brincando. — Mas fala sério agora. O que o velho quer? Suspirei e encostei o ombro na parede. — Quer que eu comece a assumir mais responsabilidades. Disse que eu preciso acompanhar umas paradas com ele, aprender mais sobre as decisões e parar de viver como se só existisse festa na minha vida. — E tu respondeu o quê? — Que eu sei muito bem cuidar das minhas coisas. — Claro que respondeu. Tu tem um talento do c*****o pra transformar uma conversa simples numa guerra mundial. — Ah, vai se f***r, Jorge. — Tô mentindo? Tu podia ter ouvido o homem, entendido o que ele quer e depois decidido o que fazer. Mas não, o príncipe da Rocinha precisa bater de frente com todo mundo. Fechei os olhos por um instante. — Não começa tu também, p***a. Já basta meu pai. — Beleza, beleza. Não vou ficar te dando sermão. Só tô dizendo que talvez ele esteja preocupado contigo. Fiquei em silêncio. Jorge não costumava falar sério por muito tempo, mas, quando falava, geralmente acertava onde incomodava. — Preocupado com o quê? — perguntei. — Eu tenho vinte e seis anos. Não sou criança. — Eu sei, c*****o. Mas tu sabe como teu pai é. Ele perdeu muita coisa na vida e não quer perder o que ainda tem. Às vezes, o jeito dele demonstrar isso é cobrando demais. A menção indireta às perdas da nossa família fez o ambiente parecer mais pesado. Eu sabia que Jorge estava falando de Isabel, minha mãe. Ele também sabia que não gostava de conversar sobre ela quando estava irritado. Não porque tivesse vergonha de lembrar da minha mãe, mas porque certas lembranças ainda conseguiam me atingir de uma maneira que eu preferia esconder. Fazia três anos que ela tinha morrido, e ainda havia dias em que eu me pegava esperando ouvir sua voz em algum canto da casa. Ela era a única pessoa que conseguia me fazer baixar a guarda sem que eu sentisse que estava perdendo alguma coisa. Depois que ela se foi, aprendi a engolir muita coisa sozinho. — Não mistura uma coisa com a outra — respondi, num tom mais seco. Jorge percebeu imediatamente a mudança na minha voz. — Tá. Foi m*l, irmão. Passei a mão pela nuca. — Não, tranquilo. Só não quero falar disso agora. — Fechou. Mudando de assunto: tu vai sair amanhã ou vai virar funcionário do teu pai em tempo integral? — Não sei ainda. — Como assim não sabe? Tu tá doente, p***a? — Tô tentando decidir se vale a pena ouvir mais uma hora de sermão ou se é melhor sumir por umas horas e deixar o velho esfriar a cabeça. — Eu voto na segunda opção. Inclusive, posso te ajudar a sumir. Conheço uns lugares ótimos onde ninguém vai te encontrar. — Tu só pensa em festa, mulher e besteira. — Olha quem tá falando, c*****o! Dessa vez, ri de verdade. A conversa com Jorge ajudou a aliviar um pouco a tensão, mas não apagou o que havia acontecido. Depois de desligar, fiquei alguns minutos olhando para o movimento distante da comunidade. As luzes se espalhavam pelas casas, os sons chegavam até mim em pequenas ondas, e a vida continuava como se nada tivesse mudado. Para muita gente, eu era apenas o filho de Vitor. O cara que tinha acesso a tudo, que não precisava se preocupar com dinheiro e que podia passar a noite em qualquer lugar sem pensar no dia seguinte. Talvez fosse por isso que pouca gente percebesse o quanto eu odiava sentir que minha vida já estava decidida antes mesmo de eu fazer minhas próprias escolhas. Eu tinha conforto, dinheiro, liberdade para sair e entrar nos lugares que quisesse. Mas, quando o assunto era o meu futuro, parecia que todas as decisões já tinham sido tomadas por outra pessoa. Meu pai queria me preparar para assumir responsabilidades. A faculdade queria que eu melhorasse minhas notas. Sara queria mais atenção. Todo mundo parecia querer alguma coisa de mim. E eu estava cansado de ter que corresponder às expectativas dos outros. Guardei o celular no bolso e voltei para dentro de casa. Não queria continuar pensando na reunião, muito menos admitir que algumas das coisas que meu pai tinha dito faziam sentido. Eu não era burro. Sabia que precisava melhorar em certas áreas da minha vida. Também sabia que não poderia continuar empurrando tudo com a barriga para sempre. O problema era que reconhecer isso não significava estar disposto a mudar. Subi para o meu quarto, tomei um banho rápido e vesti uma bermuda. Quando peguei o celular novamente, encontrei uma mensagem de Sara perguntando se eu tinha chegado bem. Respondi apenas que sim. Ela mandou outra mensagem quase imediatamente, perguntando se eu queria encontrá-la no dia seguinte. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos antes de responder que ainda não sabia. Não estava com cabeça para conversar sobre expectativas, cobranças ou qualquer coisa que pudesse se transformar em mais uma discussão. Joguei o celular sobre a cama e fui até a janela. Minha mãe costumava dizer que eu era teimoso demais para o meu próprio bem. Ela falava isso enquanto tentava esconder um sorriso, principalmente quando eu insistia em fazer alguma coisa do meu jeito. Na época, eu achava graça. Agora, às vezes, me perguntava se ela teria conseguido me fazer enxergar as coisas de outra maneira. Balancei a cabeça, afastando aquele pensamento. Não adiantava ficar preso ao passado. Minha mãe não voltaria, e eu precisava aprender a lidar com a ausência dela sem permitir que isso me transformasse em alguém que não reconhecia. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo. Voltei para a cama, peguei o celular e abri as notificações que havia ignorado anteriormente. Entre mensagens sem importância e avisos de aplicativos, havia uma notificação da faculdade. Meu olhar parou no nome da instituição. Abri a mensagem sem muito interesse, esperando encontrar algum aviso sobre horários ou atividades acadêmicas. Em vez disso, encontrei uma comunicação relacionada ao meu desempenho. A expressão no meu rosto mudou. Li o texto uma vez. Depois, li novamente, tentando encontrar alguma coisa que tivesse entendido errado. Não havia. A faculdade estava solicitando que eu comparecesse à direção para tratar de questões relacionadas às minhas notas e ao meu rendimento acadêmico. A mensagem também deixava claro que a situação precisava ser resolvida o quanto antes. — Ah, não, vai tomar no cu… — murmurei. Joguei a cabeça para trás e fiquei olhando para o teto. Era só o que me faltava. Meu pai cobrando responsabilidade de um lado, a faculdade me chamando do outro e eu no meio daquela merda toda, tentando encontrar um jeito de não perder a paciência com ninguém. Pensei em ignorar a mensagem e resolver aquilo depois. Afinal, eu tinha coisas mais importantes para fazer do que ficar explicando minhas notas para um diretor. Mas, por mais que eu tentasse fingir que não me importava, sabia que aquela não seria uma boa ideia. Meu pai já tinha deixado claro que não aceitaria irresponsabilidade. Se descobrisse que a faculdade estava me convocando por causa do meu desempenho, a próxima conversa seria muito pior. Passei a mão pelo rosto e voltei a ler a notificação. Dessa vez, reparei no trecho que informava que a reunião era necessária para definir as medidas que seriam tomadas para melhorar meu rendimento. Soltei uma risada irônica. — Medidas? Quero só ver que p***a de medida eles vão inventar pra cima de mim. Bloqueei a tela e deixei o celular sobre a mesa de cabeceira. Eu ainda não sabia, mas aquela mensagem seria o começo de uma dor de cabeça que não se resolveria apenas com dinheiro, influência ou uma conversa atravessada. Pela primeira vez em muito tempo, eu teria de sentar diante de alguém que não estava interessado em quem era meu pai, no lugar que eu ocupava ou no que eu podia oferecer. E alguma coisa me dizia que eu não gostaria nem um pouco disso. Mensagem da autora: Me contem nos comentários o que acharam desse lado teimoso do Vicente e deixem seu bilhete lunar! 🌙 No próximo capítulo, Mirella vai enfrentar mais um dia difícil, mas uma notícia pode mudar completamente seus planos. ❤️
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD