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3949 Words
CAPÍTULO 13 — MIRELLA Eu estava começando a desconfiar de que meu caderno de horários precisava de um caderno próprio para organizar a quantidade de coisas que eu tinha para fazer. Toda vez que eu achava que finalmente havia conseguido encaixar meus compromissos, aparecia alguma coisa nova. Uma diária a mais, uma atividade da faculdade, um material que precisava ser lido ou uma conta que eu não podia deixar para depois. Naquela manhã, eu estava sentada à mesa da cozinha, com uma xícara de café ao lado e minha agenda aberta, tentando descobrir como conseguiria encaixar mais uma responsabilidade na minha rotina sem acabar dormindo em cima dos livros. Eu havia recebido a confirmação de que a coordenação queria conversar comigo sobre a possibilidade de atuar no acompanhamento acadêmico de outro estudante. A notícia me deixou animada, principalmente porque a remuneração poderia ajudar nas despesas, mas também me deixou apreensiva. Eu não queria aceitar algo apenas pelo dinheiro e depois descobrir que não conseguiria cumprir minhas obrigações. Precisava entender todos os detalhes antes de tomar uma decisão. Peguei o celular e reli o e-mail, conferindo o horário da reunião. A conversa seria naquela manhã, e eu precisava chegar à faculdade com antecedência. Seu Roberto já sabia que eu estava resolvendo algumas questões relacionadas aos estudos, então organizei minhas outras tarefas para não prejudicar os serviços de faxina que havia combinado. Terminei o café, lavei a xícara e fui me arrumar. Escolhi uma calça jeans, uma blusa clara e meu tênis mais confortável. Prendi o cabelo, coloquei os documentos na bolsa e conferi se havia levado o caderno onde anotava meus horários. Antes de sair, parei diante da fotografia da minha mãe. — Torce por mim, mãe — murmurei, ajeitando a moldura sobre a mesinha. — Estou tentando fazer tudo dar certo. Passei os dedos pelo vidro e respirei fundo. Ainda havia dias em que a saudade parecia uma coisa física, pesada, apertando meu peito sem aviso. Eu estava aprendendo a continuar mesmo com aquela ausência, mas isso não significava que a dor tivesse desaparecido. Havia tantas coisas que eu gostaria de contar à minha mãe, tantas pequenas vitórias que eu queria dividir com ela. A bolsa de estudos era uma delas. E agora talvez surgisse outra oportunidade. Apaguei a luz, tranquei a porta e segui para a faculdade. O caminho pareceu mais longo do que de costume. Talvez fosse o nervosismo, talvez fosse a quantidade de pensamentos que insistiam em disputar espaço na minha cabeça. Eu tentava imaginar como seria o estudante que receberia acompanhamento, quais seriam as dificuldades dele e se eu realmente teria condições de ajudá-lo. Eu gostava de estudar. Gostava de entender um assunto até conseguir explicá-lo com minhas próprias palavras. Mas isso era diferente de assumir a responsabilidade de acompanhar outra pessoa. Eu não queria chegar àquele compromisso despreparada, muito menos dar a impressão de que sabia mais do que realmente sabia. Se aceitasse, precisaria levar a função a sério. Quando cheguei à faculdade, fui diretamente à coordenação. O corredor estava movimentado, com estudantes entrando e saindo das salas, alguns carregando livros, outros conversando sobre trabalhos e provas. Por um instante, fiquei observando aquela movimentação e senti uma alegria silenciosa por fazer parte daquele ambiente. Eu ainda estava me acostumando a dizer que era universitária. Às vezes, parecia que eu poderia acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho. Eu tinha passado tanto tempo imaginando como seria estudar Arquitetura e Urbanismo que ainda me emocionava ao entrar no prédio e ver meu nome registrado entre os alunos. A bolsa havia mudado minhas possibilidades, mas eu sabia que precisava fazer a minha parte para continuar ali. Aproximei-me da recepção e me identifiquei. A funcionária consultou o computador e pediu que eu aguardasse alguns minutos. Sentei numa das cadeiras próximas à parede e abri a agenda, revisando os compromissos da semana. Eu tinha aula, serviços de faxina, leituras, exercícios e a possibilidade de assumir o acompanhamento acadêmico. Também precisava separar um tempo para comer direito e descansar, por mais que Camila insistisse em me lembrar disso como se fosse uma missão pessoal. Meu celular vibrou. Camila: Já chegou na faculdade? Eu: Cheguei. Estou esperando para conversar com a coordenação. Camila: E aí, tá nervosa? Olhei para a mensagem e sorri discretamente. Eu: Um pouquinho. Camila: Um pouquinho quanto? Você já deve ter organizado a reunião em três planilhas diferentes. Eu: Duas. A terceira ainda está em construção. Camila: KKKKKKKKKKKKKKKKKK. Mirella, pelo amor de Deus! Respira! Você vai conversar com as pessoas, não defender uma tese. Ri baixinho, chamando a atenção de uma estudante que estava sentada perto de mim. Eu: Eu sei, sua maluca. Só quero entender tudo antes de aceitar. Camila: E está certíssima. Pergunta sobre o dinheiro, os horários e tudo o que precisar. Não aceita nada sem saber se vai caber na sua rotina. Fiquei olhando para a mensagem por alguns segundos. Camila podia brincar comigo o tempo inteiro, mas sempre sabia quando precisava falar sério. Eu: É isso que vou fazer. Depois te conto. Camila: Vou esperar. E, se você conseguir essa oportunidade, vamos comemorar. Nem que seja com um espetinho e um refrigerante. Eu: Combinado. Guardei o celular quando ouvi meu nome. Daniela apareceu à porta de uma das salas e fez um gesto para que eu entrasse. — Mirella? Pode vir. A Patrícia está esperando você. Levantei, ajeitei a alça da bolsa no ombro e a acompanhei. Patrícia estava sentada atrás da mesa, com alguns documentos organizados à sua frente. Quando me viu, sorriu e apontou para a cadeira diante dela. — Bom dia, Mirella. Pode se sentar. — Bom dia. Obrigada. Sentei e coloquei a bolsa no colo. — Primeiro, quero agradecer por ter vindo — ela começou. — Como explicamos na nossa conversa anterior, estamos avaliando alguns estudantes para participar do programa de acompanhamento acadêmico. Seu desempenho no processo seletivo e sua postura durante a conversa inicial chamaram nossa atenção, por isso gostaríamos de discutir uma possibilidade com você. Endireitei a postura. — Eu agradeço por terem considerado meu nome. Fiquei muito interessada quando a Daniela me explicou como funcionava, mas gostaria de entender melhor as responsabilidades antes de confirmar. Patrícia assentiu, parecendo satisfeita com minha resposta. — É exatamente por isso que estamos conversando. Preferimos que o estudante conheça as exigências antes de assumir o compromisso. O programa não serve apenas para melhorar as notas de quem recebe o acompanhamento. Também exige responsabilidade de quem oferece esse apoio. — Eu entendo. — No seu caso, estamos considerando a possibilidade de você acompanhar individualmente um estudante que apresenta dificuldades em Estatística. Ele precisa recuperar o rendimento e desenvolver mais segurança na resolução dos exercícios. Anotei mentalmente a informação. Estatística não era uma das áreas que eu mais gostava, mas eu conseguia compreender o conteúdo quando estudava com atenção. Ainda assim, queria saber exatamente o que a coordenação esperava de mim. — Eu teria que preparar as aulas? — perguntei. — Ou seria mais uma revisão do conteúdo que ele já está estudando? — A ideia é trabalhar com o material da disciplina, identificar as principais dificuldades e ajudar o estudante a compreender os conceitos. Você poderá preparar exercícios complementares, desde que estejam alinhados ao conteúdo trabalhado pelo professor. Também poderá utilizar questões indicadas pela própria coordenação. — Certo. — Mas existe um ponto importante — ela continuou. — Você não deve fazer as atividades pelo estudante, entregar respostas prontas ou resolver as avaliações no lugar dele. Sua função é orientar, explicar e acompanhar o progresso. Precisamos que ele desenvolva autonomia. Gostei de ouvir aquilo. Eu não queria assumir uma responsabilidade em que alguém esperasse que eu fizesse o trabalho por outra pessoa. Ajudar era diferente de carregar alguém nas costas, e eu conhecia bem a importância de aprender a resolver os próprios problemas. — Concordo. Acho que, se a pessoa só copiar as respostas, não vai aprender de verdade. — Exatamente. Queremos que o estudante consiga compreender o raciocínio e aplicar o conteúdo sozinho. Patrícia abriu uma pasta e consultou algumas informações. — A coordenação vai fornecer orientações sobre o programa, e você terá um canal para tirar dúvidas caso encontre alguma dificuldade. Os encontros serão presenciais, em horários combinados previamente. Também será necessário registrar a frequência e informar como está o desenvolvimento do acompanhamento. Respirei fundo antes de fazer a pergunta que mais me preocupava. — E quanto aos horários? Eu trabalho como faxineira. Tenho aulas e também serviços que já foram combinados. Não posso simplesmente deixar de trabalhar, porque dependo desse dinheiro para me manter. Patrícia não pareceu surpresa. Pelo contrário, assentiu como se já esperasse aquela preocupação. — Nós recebemos sua informação sobre o trabalho. Por isso, estamos avaliando a disponibilidade dos estudantes envolvidos antes de fechar o cronograma. Não queremos que você assuma uma função que prejudique suas aulas ou que seja incompatível com suas outras responsabilidades. Senti um pouco da tensão nos meus ombros diminuir. — Isso me tranquiliza. Eu quero muito participar, mas preciso ser sincera sobre o que consigo fazer. — E está fazendo certo. A oportunidade poderá oferecer uma remuneração de acordo com as regras do programa e a carga horária aprovada. Os valores e as condições serão formalizados antes do início. Não queremos que você tome uma decisão sem conhecer esses detalhes. — Posso saber quantos encontros seriam necessários por semana? Patrícia consultou as informações. — A previsão inicial é de encontros regulares, mas a frequência e a duração exatas serão definidas conforme a necessidade do estudante e a disponibilidade de vocês. A ideia é estabelecer um cronograma que seja viável e que permita acompanhar o progresso ao longo do período. Fiz mais algumas anotações. — E se eu perceber que estou tendo dificuldade para explicar alguma coisa? — Você poderá solicitar orientação. Não esperamos que saiba absolutamente tudo, Mirella. Esperamos que tenha responsabilidade, compromisso com os estudos e disposição para se preparar. Se surgir uma questão que você não consiga esclarecer, o correto será procurar apoio, não inventar uma resposta. Aquela frase me fez sorrir. Eu tinha medo de aceitar e acabar decepcionando a coordenação por não conseguir atender a todas as expectativas. Ouvir que não precisava saber tudo de antemão me ajudou a respirar com mais tranquilidade. — Entendi. Isso é importante para mim, porque eu realmente quero fazer um bom trabalho. — Nós percebemos isso — Patrícia respondeu. — Seu desempenho demonstrou dedicação, e você foi muito cuidadosa ao falar sobre seus horários e suas responsabilidades. É uma das razões pelas quais consideramos seu nome. Baixei os olhos para o caderno, sentindo uma pequena onda de orgulho. Eu estava acostumada a ser reconhecida pelo trabalho de faxina quando deixava uma casa limpa, organizada e pronta para seus moradores. Era bom saber que alguém também estava observando minha dedicação aos estudos, minha responsabilidade e meu esforço para construir um futuro diferente. Não havia nada de errado em sentir orgulho de mim mesma. Eu tinha trabalhado muito para chegar até ali. — Posso perguntar uma coisa sobre o estudante? — falei. — Claro. — Ele sabe que terá acompanhamento? Está disposto a participar? Patrícia sorriu discretamente. — Sim. O estudante foi informado de que o acompanhamento será realizado e recebeu orientações sobre a importância da participação. Naturalmente, teremos que observar como ele se adapta ao processo. O compromisso precisa existir dos dois lados. — Certo. Eu não sabia por que, mas aquela resposta me fez pensar em alguém que talvez não estivesse muito feliz com a ideia. Afinal, nem todo mundo gostava de receber ajuda, principalmente quando isso significava admitir que estava com dificuldades. Eu mesma conhecia a sensação de querer resolver tudo sozinha. A diferença era que eu estava tentando aprender a aceitar oportunidades sem confundir independência com obrigação de carregar tudo sem apoio. — A senhora pode me dizer quem é o estudante? — perguntei. — Seria bom saber um pouco mais sobre ele para entender melhor a situação. Patrícia consultou os documentos mais uma vez. — Posso informar que se trata de um estudante que precisa recuperar o rendimento em Estatística. A coordenação prefere apresentar os dados acadêmicos necessários durante o início do acompanhamento, respeitando as informações pessoais de cada envolvido. Você terá acesso ao material da disciplina e às orientações pertinentes à função, mas não é necessário conhecer detalhes da vida particular dele para começar. Assenti. — Entendo. Não preciso saber da vida pessoal dele. Só queria ter uma ideia do que vou encontrar. — E terá oportunidade de conhecer o estudante no primeiro encontro. O mais importante é estabelecer uma relação respeitosa e profissional, com objetivos claros. — Claro. Patrícia fechou a pasta e apoiou as mãos sobre a mesa. — Agora preciso saber se você continua interessada em participar, considerando tudo o que conversamos. Olhei para minhas anotações. Os horários ainda precisariam ser ajustados. A remuneração seria formalizada conforme as regras do programa. Eu teria de me preparar, acompanhar o progresso de outra pessoa e cumprir uma responsabilidade nova sem comprometer minha própria formação. Não era pouca coisa. Mas também não era impossível. Eu precisava ser realista. Não podia aceitar por impulso e depois descobrir que tinha assumido mais do que conseguia cumprir. Ao mesmo tempo, não queria recusar uma oportunidade que poderia me ajudar financeiramente e contribuir para minha experiência acadêmica apenas porque estava com medo. Pensei na minha mãe, nas vezes em que ela me incentivava a continuar mesmo quando as coisas pareciam difíceis. Pensei nas contas, no meu sonho de me formar e na vida que eu estava tentando construir. Então levantei os olhos. — Sim. Eu continuo interessada. Quero participar, desde que a gente consiga organizar os horários de uma maneira que não prejudique minhas aulas nem os trabalhos que já tenho. Patrícia sorriu. — Ótimo. Vamos registrar seu interesse e concluir a organização do cronograma. Você receberá as informações sobre a carga horária, a remuneração e as datas dos encontros antes de iniciar oficialmente. Se, ao analisar os horários, perceber que existe algum conflito, deverá nos avisar imediatamente. — Pode deixar. Vou conferir tudo com cuidado. — E, Mirella, não se sinta obrigada a aceitar qualquer ajuste que torne sua rotina inviável. Preferimos que você seja honesta sobre seus limites. O programa só funciona quando todos conseguem cumprir o que foi combinado. Agradeci pela conversa e me levantei. Daniela me acompanhou até a porta, explicou que eu receberia o comunicado com as informações finais e desejou boa sorte. Saí da coordenação sentindo uma mistura de alívio e nervosismo. Eu havia dado um passo importante, mas ainda precisava descobrir como encaixar aquela nova responsabilidade na minha vida. Não queria comemorar antes de ter todos os detalhes, porém era difícil não ficar animada com a possibilidade de ganhar um dinheiro extra fazendo algo relacionado aos estudos. Caminhei até um banco próximo à biblioteca e me sentei para organizar as informações no caderno. Anotei os pontos principais da conversa, destaquei o que ainda precisava ser confirmado e comecei a comparar os horários possíveis com os compromissos que já tinha assumido. Se os encontros acontecessem em um período livre, eu conseguiria manter as faxinas e estudar à noite. Talvez precisasse reorganizar algumas diárias, mas poderia conversar com seu Roberto com antecedência. O importante era não deixar nada para a última hora. Meu celular vibrou novamente. Camila: E aí? Sobreviveu à reunião? Sorri. Eu: Sobrevivi. E acho que a oportunidade pode dar certo. Camila: EU SABIA! Logo em seguida, ela mandou outra mensagem. Camila: Me conta tudo agora. Comecei a escrever um resumo da conversa, explicando que a coordenação estava considerando meu nome para acompanhar um estudante em Estatística e que a função teria remuneração conforme a carga horária aprovada. Também contei que ainda precisava receber os detalhes finais e conferir se os horários seriam compatíveis com o trabalho. Camila respondeu com uma sequência de comemorações e corações. Camila: Amiga, isso pode ser muito bom para você! Além de ajudar nas contas, vai ser uma experiência relacionada à faculdade. Eu: É isso que eu pensei. Só preciso ter certeza de que vou dar conta. Camila: Você vai organizar tudo direitinho. Mas lembra do que conversamos: comer, dormir e respirar também fazem parte do planejamento. Ri sozinha. Eu: Eu sabia que você ia voltar nesse assunto. Camila: Porque alguém precisa cuidar de você enquanto você tenta cuidar do mundo inteiro. Aquelas palavras aqueceram meu coração. Eu tinha muita sorte de ter Camila ao meu lado. Ela podia ser insistente, brincalhona e exagerada, mas nunca me fazia sentir que precisava enfrentar tudo sozinha. Quando eu estava prestes a me cobrar demais, ela me lembrava de que eu também merecia cuidado. Guardei o celular e voltei a olhar para a agenda. Eu estava prestes a fechar o caderno quando recebi uma notificação por e-mail. O remetente era a coordenação acadêmica. Abri a mensagem imediatamente. O comunicado agradecia minha disponibilidade e confirmava que eu havia sido selecionada para a etapa final de organização do acompanhamento individual. A coordenação explicava que a indicação considerava meu desempenho acadêmico, minha postura durante a entrevista e a compatibilidade inicial da minha disponibilidade com a necessidade do programa. Meu coração acelerou. Eu tinha sido escolhida para acompanhar aquele estudante. Ainda faltavam os detalhes formais da remuneração e a confirmação definitiva dos horários, mas a oportunidade estava tomando forma de verdade. Continuei lendo. A mensagem dizia que o primeiro encontro seria presencial, em uma sala de estudos da faculdade. A data e o horário seriam confirmados após o alinhamento final entre as partes. Eu deveria levar meu material, revisar os conteúdos básicos de Estatística e estar preparada para conhecer as dificuldades do estudante antes de planejar as sessões seguintes. No final, havia uma observação: a coordenação entraria em contato caso precisasse ajustar o cronograma. Fechei o e-mail e fiquei alguns segundos olhando para a tela. Eu estava nervosa. Não queria admitir, mas estava. Até aquele momento, a ideia de acompanhar outro estudante era apenas uma possibilidade. Agora, havia uma pessoa real que dependeria da minha preparação, do meu compromisso e da minha capacidade de explicar os conteúdos com clareza. Respirei fundo e comecei a organizar uma lista de coisas que precisaria revisar. Não pretendia chegar ao primeiro encontro tentando improvisar. Eu queria conhecer o material, separar exercícios e pensar em maneiras de explicar os conceitos sem transformar a sessão numa aula cansativa. Se o estudante estava com dificuldades, provavelmente já se sentia pressionado. Eu não queria tornar aquilo ainda pior. Queria ajudar de verdade. Também precisava lembrar que não era minha obrigação resolver todos os problemas dele. Meu papel seria orientar, explicar e acompanhar. O esforço para aprender precisaria partir dele. Eu conhecia a importância de assumir a própria responsabilidade. Terminei as anotações e fechei o caderno. Antes de sair da faculdade, passei pela biblioteca para consultar alguns materiais de Estatística. Separei referências que poderiam me ajudar a revisar os conceitos e anotei os títulos para procurar os arquivos digitais mais tarde. Fiquei ali por algum tempo, concentrada, até perceber que já estava perto do horário em que precisava seguir para outro compromisso. Guardei tudo na bolsa e saí. O dia continuava corrido, mas eu já não sentia a mesma angústia de quando acordei. Eu tinha uma oportunidade concreta diante de mim e estava começando a encontrar uma maneira de aproveitá-la. No caminho, mandei uma mensagem para seu Roberto, avisando que estava organizando meus horários acadêmicos e que logo poderia confirmar os dias disponíveis para a limpeza da casa do filho dele. Ele respondeu com educação, dizendo que aguardaria minha confirmação antes de fechar a programação das próximas semanas. Agradeci e guardei o celular. Eu precisava fazer tudo com responsabilidade. Não queria deixar ninguém na mão, nem abrir mão de algo importante sem antes tentar encontrar uma solução. Quando finalmente cheguei em casa, deixei a bolsa sobre a cadeira e fui preparar alguma coisa para comer. Enquanto a comida esquentava, fiquei pensando em como a minha vida tinha mudado em tão pouco tempo. Poucos dias antes, eu estava preocupada apenas em conseguir a bolsa e continuar trabalhando. Agora, começava a construir uma rotina que incluía aulas, serviços de faxina e a possibilidade de acompanhar outro estudante. Eu ainda tinha dificuldades financeiras. Ainda sentia falta da minha mãe todos os dias. Ainda havia momentos em que o medo de não conseguir me fazia perder o sono. Mas eu também estava avançando. Não era uma transformação repentina, nem uma solução mágica para todos os meus problemas. Eram pequenas conquistas, uma de cada vez. E eu precisava aprender a valorizá-las. Depois de comer, tomei banho, vesti uma roupa confortável e sentei à mesa com os materiais que havia separado. Passei algum tempo revisando os conceitos de Estatística, resolvendo exercícios e anotando dúvidas que eu mesma precisava esclarecer antes de ajudar outra pessoa. Eu não queria fingir que sabia tudo. Queria estar preparada para ensinar o que compreendia e ter humildade para procurar orientação quando encontrasse alguma dificuldade. Quando terminei, já era noite. Organizei os materiais, preparei a bolsa para o dia seguinte e conferi o celular mais uma vez. Havia uma nova mensagem da coordenação. Dessa vez, o assunto era Confirmação do primeiro encontro de acompanhamento. Abri o comunicado e encontrei as informações que estava esperando. A data, o horário e o local estavam definidos. O encontro aconteceria presencialmente, em uma sala de estudos da faculdade, e eu deveria chegar alguns minutos antes para receber as orientações iniciais. Li tudo com atenção e anotei os dados na agenda. Agora eu tinha um compromisso marcado. Fiquei olhando para a página por alguns segundos, sentindo o peso e a importância daquele momento. Não sabia como seria o estudante, se ele seria receptivo ou se teria dificuldade para aceitar ajuda. Também não sabia se conseguiria explicar tudo da maneira que gostaria. Mas eu estava disposta a tentar. Fechei a agenda e apoiei as mãos sobre ela. — Um passo de cada vez — murmurei. Eu não tinha como controlar todas as coisas que aconteceriam dali em diante. Só podia me preparar, cumprir minhas responsabilidades e continuar trabalhando para construir o futuro que desejava. Peguei o celular e mandei uma última mensagem para Camila, contando que o primeiro encontro já tinha data e horário. Ela respondeu imediatamente, desejando sorte e dizendo que eu precisava confiar mais em mim mesma. Sorri antes de guardar o aparelho. Naquela noite, fui dormir com a cabeça cheia de perguntas, mas também com uma sensação boa de expectativa. Em breve, conheceria o estudante que acompanharia em Estatística. Até lá, precisava revisar o conteúdo, ajustar minha rotina e me preparar para fazer um bom trabalho. Eu não sabia o nome dele. Não sabia de onde vinha, como vivia ou quais eram as dificuldades que enfrentava fora da faculdade. Para mim, ele era apenas um estudante que precisava de ajuda para recuperar o rendimento em uma disciplina. Eu não tinha motivos para imaginar que aquela pessoa pudesse representar qualquer coisa além de uma nova responsabilidade acadêmica. Muito menos que o mundo dele fosse tão diferente do meu. Na minha cabeça, seria apenas uma sessão de estudos, uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e uma maneira de continuar avançando na direção dos meus sonhos. Eu estava prestes a descobrir que algumas pessoas entram na nossa vida quando menos esperamos. E que, às vezes, o encontro que parece mais simples é justamente aquele capaz de mudar tudo. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Mirella já foi selecionada e o primeiro encontro está marcado. Mas será que ela está preparada para lidar com o estudante que vai encontrar? No próximo capítulo, os caminhos dos dois finalmente vão se cruzar! ✨
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