CAPÍTULO 7 — MIRELLA
Acordei antes mesmo de o despertador tocar, com o coração acelerado e aquela sensação horrível de que alguma coisa importante estava prestes a acontecer. Fiquei alguns segundos deitada, olhando para o teto do meu quarto, tentando convencer a mim mesma de que precisava respirar antes de pegar o celular. Não adiantava. Minha cabeça já estava longe, imaginando todas as possibilidades, todos os caminhos que poderiam se abrir e, principalmente, a decepção que eu sentiria se o resultado não fosse o que tanto esperava.
Apertei os olhos e puxei o lençol até o queixo.
— Meu Deus, por favor, que dê certo — sussurrei, juntando as mãos diante do rosto. — Eu não estou pedindo uma vida fácil, Senhor. Só uma oportunidade. Uma chance de conseguir mudar a minha história.
Fazia tempo que eu não desejava alguma coisa com tanta força. Desde que minha mãe morreu, sete dias antes de eu fazer aquela prova, parecia que o mundo tinha perdido as cores. Eu continuava levantando cedo, trabalhando, pagando as contas e tentando não deixar a tristeza me engolir, mas havia momentos em que a saudade apertava tanto que até respirar parecia exigir esforço.
Mesmo assim, eu tinha uma promessa comigo mesma: não desistiria dos meus sonhos.
Minha mãe sempre dizia que a gente podia ter pouco dinheiro no bolso, mas nunca deveria deixar que a pobreza decidisse até onde poderíamos chegar. Ela falava isso enquanto preparava o café, enquanto dobrava as roupas que eu lavava depois do trabalho e até quando chegava cansada em casa, com os pés doloridos e a preocupação estampada no rosto.
— Estudo ninguém tira de você, minha filha — ela repetia. — Um dia, você ainda vai ter seu próprio escritório e desenhar casas lindas. E eu vou ficar na porta, toda metida, dizendo que conheço a arquiteta.
Eu sorria toda vez que me lembrava daquela cena. Agora, porém, a lembrança vinha acompanhada de uma pontada no peito.
Minha mãe não estaria na porta do meu escritório. Não estaria ao meu lado quando eu recebesse meu primeiro diploma. Talvez nunca conhecesse as casas que eu sonhava desenhar.
Mas eu ainda podia realizar aquilo que tanto desejava. E, de alguma forma, queria acreditar que ela continuava comigo.
Peguei o celular na mesinha ao lado da cama. A tela iluminou meu rosto, mostrando as mensagens que Camila havia enviado na noite anterior.
Camila: Amiga, pelo amor de Deus, quando acordar, me avisa se já saiu o resultado!
Camila: Tô mais nervosa que você, juro.
Camila: Se essa faculdade não te der essa bolsa, eu mesma vou lá reclamar! KKKKKKK.
Soltei uma risadinha, apesar da ansiedade.
— Maluca — murmurei.
Abri o navegador, entrei na página da instituição e procurei o acesso aos resultados. Meus dedos estavam tão gelados que precisei tentar duas vezes antes de digitar corretamente meus dados.
A página demorou alguns segundos para carregar.
Foram apenas segundos, mas pareceram uma eternidade.
Eu me sentei na cama, prendendo a respiração enquanto a tela atualizava. Quando finalmente apareceu o resultado, meus olhos percorreram as informações sem que meu cérebro conseguisse compreender de imediato o que estava escrito.
Li uma vez.
Depois outra.
E mais uma.
APROVADA — BOLSA DE ESTUDOS CONCEDIDA.
Fiquei imóvel.
O celular quase escorregou da minha mão, e precisei apertá-lo contra o peito para ter certeza de que não estava sonhando. Pisquei repetidamente, aproximando a tela do rosto.
Estava ali.
Meu nome estava ali.
Eu tinha conseguido.
— Não acredito… — sussurrei.
Levei a mão à boca, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. O resultado continuava na tela, mas eu já não conseguia enxergar direito. As lágrimas desciam sem que eu tentasse contê-las, e um sorriso enorme nasceu no meu rosto.
— Eu consegui, mãe. — Minha voz falhou. — Mãe, eu consegui!
A alegria tomou conta de mim de um jeito que eu não sabia explicar. Levantei da cama, comecei a andar pelo quarto e voltei para perto da mesinha, como se precisasse conferir mais uma vez se aquilo era real.
Era real.
Eu tinha conquistado uma bolsa para estudar Arquitetura e Urbanismo.
A oportunidade pela qual eu vinha lutando finalmente estava diante de mim.
Apertei o celular contra o peito e deixei que o choro viesse. Não era só felicidade. Era alívio, medo, saudade, esperança e tudo aquilo que eu havia guardado dentro de mim nos últimos dias.
Eu queria correr até a cozinha e contar para minha mãe. Queria encontrá-la sentada à mesa, tomando café, e despejar a notícia antes mesmo de tirar os sapatos. Queria vê-la abrir aquele sorriso que sempre me fazia sentir que eu era capaz de qualquer coisa.
Queria ouvir sua voz dizendo que estava orgulhosa.
Mas o silêncio da casa respondeu por ela.
Meu sorriso diminuiu aos poucos. Olhei para a porta do quarto e, por um instante, imaginei que minha mãe apareceria do outro lado, perguntando por que eu estava chorando tão cedo.
Não apareceu.
A realidade continuava sendo a mesma: eu estava sozinha naquela casa, sem a pessoa com quem mais desejava dividir a conquista.
Sentei novamente na cama e enxuguei o rosto com as mãos.
— Eu queria tanto que a senhora estivesse aqui — confessei, olhando para o nada. — Queria que pudesse ver isso.
Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos.
A saudade não desapareceria só porque alguma coisa boa havia acontecido. Eu ainda sentiria falta dela quando chegasse cansada do trabalho, quando preparasse comida para uma pessoa só e quando precisasse tomar decisões difíceis. Haveria dias em que a ausência pesaria mais do que eu conseguiria suportar.
Mas eu não queria transformar todas as minhas conquistas em lembranças dolorosas.
Minha mãe tinha me ensinado a lutar. E eu não deixaria que a morte dela levasse também a minha vontade de viver.
Passei as mãos pelo rosto, respirei mais uma vez e peguei o celular.
A primeira pessoa para quem eu precisava ligar era Camila.
A chamada m*l completou o segundo toque.
— FALA, MULHER! — ela gritou do outro lado. — PELO AMOR DE DEUS, ME DIZ QUE SAIU!
Afastei o celular da orelha, soltando uma risada entre as lágrimas.
— Saiu, sua maluca!
— E AÍ? E AÍ? FALA LOGO, c*****o! NÃO ME DEIXA MORRER DE CURIOSIDADE!
Mordi o lábio, tentando segurar o sorriso.
— Eu passei, Cami.
Houve um segundo de silêncio.
— O QUÊ?!
— Eu passei! Consegui a bolsa!
O grito que veio do outro lado foi tão alto que precisei afastar o aparelho novamente.
— AAAAAAAAAAH! EU SABIA! EU SABIA, p***a! — Camila começou a falar tão depressa que m*l conseguia terminar uma frase. — AMIGA, VOCÊ CONSEGUIU! VOCÊ CONSEGUIU MESMO! MEU DEUS, EU TÔ ARREPIADA!
Comecei a rir, e dessa vez o choro veio acompanhado de uma felicidade que conseguiu aliviar um pouco a pressão no meu peito.
— Você vai acabar acordando o bairro inteiro.
— QUE ACORDEM! A NOTÍCIA É BOA! MINHA AMIGA VAI SER ARQUITETA, c*****o!
— Calma, mulher! Eu ainda nem fiz a matrícula.
— E daí? A bolsa já é sua! A matrícula é só o próximo passo. Eu tô falando sério, Mirella, você merece muito isso.
Fiquei quieta por alguns instantes, deixando aquelas palavras entrarem no meu coração.
— Obrigada por estar comigo — falei baixinho.
O tom de Camila mudou imediatamente.
— Ei, não precisa agradecer por isso, tá me ouvindo? Você é minha irmã. A gente já passou por tanta coisa juntas… Eu vou comemorar cada vitória sua como se fosse minha.
Meus olhos voltaram a se encher de lágrimas.
— Eu queria que minha mãe estivesse aqui para saber.
— Eu também queria, amiga. Muito. — Camila fez uma pausa, e sua voz ficou mais suave. — Mas você sabe que ela ficaria orgulhosa, né? Sua mãe conhecia a filha que tinha. Ela sabia o quanto você lutava, mesmo quando ninguém estava vendo.
Apertei os lábios, tentando não desabar novamente.
— Eu queria ouvir isso dela.
— Eu sei. E não vou fingir que sei como é perder sua mãe, porque não sei. Mas posso ficar aqui com você enquanto a saudade aperta. Posso te ouvir chorar, reclamar, ficar com raiva do mundo e até comer brigadeiro de panela com você. Só não vou deixar você esquecer que ainda tem muita coisa bonita pela frente.
Soltei uma risada fraca.
— Você e esse brigadeiro.
— Ué, quer que eu faça o quê? Uma palestra motivacional? Brigadeiro é muito mais eficiente.
— Você não presta.
— Mas sou sua melhor amiga, então vai ter que me aguentar.
Sorri, enxugando as últimas lágrimas.
— Vou precisar ir à faculdade hoje para resolver a matrícula. Quero saber como vai funcionar tudo.
— Então levanta dessa cama, toma um banho, coloca uma roupa bonita e vai garantir seu futuro, garota!
— Eu vou, eu vou.
— E depois me conta tudo. Não quero saber de esconder informação.
— Tá bom.
— E, Mirella?
— Oi?
— Eu te amo, sua cabeça-dura.
Meu peito se aqueceu.
— Também te amo, Cami.
Encerramos a ligação, e fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada. Aquele telefonema tinha tornado a conquista ainda mais real. Pela primeira vez em muitos dias, senti que havia alguma coisa pela qual valia a pena sorrir sem culpa.
Levantei, tomei banho e me arrumei para sair. Escolhi uma calça jeans que já tinha usado tantas vezes que o tecido começava a perder a cor, uma blusa simples e meu tênis mais conservado. Prendi o cabelo e passei um pouco de hidratante no rosto.
Não tinha roupas caras, bolsas de marca ou sapatos que chamassem atenção. Mas tinha uma oportunidade que muita gente gostaria de ter, e pretendia aproveitá-la.
Antes de sair, parei diante da pequena fotografia da minha mãe que ficava sobre a cômoda.
Ela estava sorrindo, com os cabelos presos e uma das mãos apoiadas no meu ombro. Eu devia ter uns dezessete anos naquela foto. Nós duas estávamos na frente de casa, depois de um dia em que ela insistiu para que tirássemos uma fotografia juntas.
Passei o dedo pela moldura.
— Hoje eu vou dar mais um passo, mãe. — Respirei fundo. — Não sei como vai ser daqui para frente, mas vou fazer o meu melhor. Prometo.
Peguei a bolsa, conferi se estava com os documentos e saí.
O caminho até a faculdade pareceu diferente naquela manhã. As ruas continuavam movimentadas, os ônibus continuavam lotados e as pessoas continuavam andando apressadas, mas eu enxergava tudo com outros olhos. Não porque os meus problemas tivessem desaparecido, e sim porque agora havia uma possibilidade concreta de construir algo diferente.
Ainda precisava trabalhar. Ainda precisava pagar as contas. Ainda precisava aprender a viver sem minha mãe.
A bolsa não colocaria comida na minha mesa nem resolveria todas as minhas preocupações, mas tirava das minhas costas uma parte do peso que eu carregava. Sem aquela ajuda, estudar seria praticamente impossível.
Quando cheguei à faculdade, parei por alguns segundos diante da entrada.
O prédio parecia ainda maior do que na primeira vez em que estive ali. Estudantes atravessavam o portão conversando, alguns carregavam livros, outros riam enquanto olhavam os celulares. Eu observava tudo com uma mistura de entusiasmo e insegurança.
Será que eu conseguiria acompanhar as aulas?
Será que conseguiria conciliar o trabalho com os estudos?
Será que me sentiria deslocada entre pessoas que talvez tivessem tido oportunidades que eu nunca tive?
Engoli o nervosismo.
— Você conseguiu chegar até aqui, Mirella — falei para mim mesma. — Agora, vai fazer valer a pena.
Entrei.
Depois de perguntar onde deveria ir, segui até o setor responsável pelos processos seletivos e pelas matrículas. Havia algumas pessoas esperando atendimento, e aproveitei o tempo para organizar os documentos dentro da bolsa.
Quando chegou minha vez, fui atendida por uma funcionária de óculos, cabelos presos e expressão simpática.
— Bom dia. Como posso ajudar?
— Bom dia. Meu nome é Mirella. Eu participei do processo seletivo para a bolsa de estudos e saiu o resultado hoje. Fui aprovada, e vim saber como faço para confirmar a matrícula.
A mulher consultou o computador.
— Mirella… — repetiu, enquanto digitava. — Encontrei seu cadastro. Parabéns pela aprovação!
Sorri, ainda sem me acostumar a ouvir aquilo.
— Obrigada.
— Você trouxe seus documentos?
— Trouxe, sim. Estão todos aqui.
Entreguei a pasta, e ela começou a conferir cada folha. Enquanto trabalhava, explicou que eu precisaria preencher alguns formulários, confirmar os dados pessoais e assinar os termos referentes à concessão da bolsa.
— Como você conseguiu uma bolsa integral por meio do processo seletivo, precisa ficar atenta às condições de manutenção do benefício — explicou. — A instituição exige frequência mínima e aproveitamento acadêmico. Se tiver qualquer dificuldade, procure a coordenação antes que o problema se acumule.
Assenti imediatamente.
— Pode deixar. Vou me esforçar bastante.
— Eu imagino. Sua nota chamou a atenção da equipe responsável pela seleção.
Levantei os olhos.
— Chamou?
— Sim. Você teve um desempenho muito bom. A concorrência foi considerável, mas sua pontuação ficou entre as melhores.
Senti um calor no rosto.
— Eu estudei bastante para a prova.
— E isso apareceu no resultado. Continue assim.
Baixei a cabeça por um instante, tentando esconder o quanto aquele reconhecimento significava para mim. Eu estava acostumada a trabalhar sem que ninguém perguntasse se estava cansada, a fazer as coisas porque precisava e a seguir em frente sem esperar elogios. Ouvir que meu esforço tinha sido percebido me deixou estranhamente emocionada.
Assinei os documentos e respondi às perguntas necessárias. Depois de algum tempo, a funcionária organizou tudo e me entregou uma folha com as informações da matrícula.
— Pronto. Sua matrícula está encaminhada. Você receberá a confirmação dos próximos procedimentos pelo sistema e pelo e-mail cadastrado. O calendário acadêmico também estará disponível na área do aluno.
Peguei a folha com cuidado.
— Muito obrigada por me explicar tudo.
— Imagina. Seja bem-vinda à faculdade, Mirella.
Aquelas palavras fizeram meu coração acelerar novamente.
Seja bem-vinda à faculdade.
Eu não era mais apenas uma garota que sonhava em estudar Arquitetura e Urbanismo. Agora, estava dando os primeiros passos para transformar aquele sonho em realidade.
Saí do atendimento e me sentei em um dos bancos do corredor. Abri a pasta, conferi os documentos e reli as informações para ter certeza de que não havia esquecido nada.
Meu primeiro impulso foi mandar uma mensagem para Camila.
Eu: AMIGA, MINHA MATRÍCULA ESTÁ ENCAMINHADA! EU VOU MESMO ESTUDAR ARQUITETURA!
A resposta chegou quase imediatamente.
Camila: EU FALEI! EU FALEI QUE VOCÊ IA CONSEGUIR!
Camila: Agora quero ver você desenhando a minha mansão, hein.
Ri sozinha.
Eu: Você não tem nem dinheiro para comprar um terreno, mulher.
Camila: Detalhes! O terreno a gente resolve depois. Primeiro, você fica famosa. Depois, eu viro sua cliente preferencial.
Eu: Cliente que não paga, né?
Camila: Amizade é isso. Eu te dou apoio emocional e você me dá uma mansão.
Balancei a cabeça, rindo.
Eu: Vou pensar no seu caso.
Guardei o celular e comecei a analisar os horários disponíveis no calendário acadêmico. Minha animação diminuiu um pouquinho quando percebi que a rotina seria puxada.
As aulas ocupariam boa parte do dia em determinados períodos, e eu ainda precisava manter meu trabalho como faxineira. Não podia simplesmente pedir demissão e esperar que as despesas desaparecessem. O aluguel, a alimentação, a energia e os outros gastos continuariam existindo, independentemente de eu estar estudando.
Peguei um caderno e comecei a anotar o que precisaria organizar.
Horários de aula.
Tempo de deslocamento.
Dias de trabalho.
Tempo para estudar.
Compras de mercado.
Contas do mês.
A lista parecia crescer a cada minuto.
— Tá, Mirella, você vai ter que aprender a administrar esse negócio — murmurei.
Eu sabia que haveria dias difíceis. Talvez precisasse estudar dentro do ônibus, aproveitar o intervalo entre uma aula e outra ou chegar em casa tarde da noite para revisar o conteúdo. Também teria que aprender a dizer não a convites e a momentos de descanso quando estivesse com alguma atividade importante atrasada.
Não seria fácil.
Mas a dificuldade nunca tinha sido motivo suficiente para me fazer desistir.
Quando terminei de organizar as informações, guardei tudo na bolsa e me levantei. Antes de ir embora, passei por um mural onde havia avisos sobre atividades acadêmicas, estágios e oportunidades oferecidas pela instituição.
Um deles chamou minha atenção: um comunicado sobre programas de apoio aos estudantes.
Parei para ler.
A faculdade oferecia algumas possibilidades de participação em atividades acadêmicas, incluindo monitoria, acompanhamento de alunos com dificuldades em determinadas disciplinas e outras funções remuneradas, conforme a disponibilidade de vagas e os critérios de seleção.
Aproximei o rosto para ler melhor as informações.
Uma oportunidade de trabalho dentro da própria instituição poderia facilitar bastante minha rotina. Se conseguisse algo assim, talvez pudesse reduzir o tempo de deslocamento e ganhar uma renda complementar sem precisar abandonar o emprego que já tinha.
Mas não queria me precipitar. Eu ainda nem havia começado as aulas.
— Está procurando alguma coisa específica?
Virei o rosto e encontrei um funcionário que carregava uma pasta de documentos. Ele devia ter pouco mais de quarenta anos e usava um crachá com o nome da instituição.
— Ah, não. Eu estava lendo o aviso — respondi. — Acabei de fazer minha matrícula e queria entender melhor como funcionam essas oportunidades.
Ele sorriu educadamente.
— Você é caloura?
— Sou. Consegui uma bolsa pelo processo seletivo.
— Parabéns. Qual curso?
— Arquitetura e Urbanismo.
— Excelente. Esse programa tem algumas possibilidades para estudantes que precisam conciliar a vida acadêmica com a necessidade de renda. Existem vagas de monitoria, apoio em atividades e acompanhamento acadêmico, mas cada uma tem seus próprios requisitos.
Assenti, interessada.
— E eu posso me inscrever mesmo estando no primeiro período?
— Depende da atividade. Algumas funções exigem que o estudante já tenha cursado determinadas disciplinas. Outras têm critérios diferentes. Você precisaria conversar com a coordenação para saber o que está disponível e quais oportunidades seriam compatíveis com seu perfil.
Olhei novamente para o aviso.
— Entendi. Eu gostaria de tentar alguma coisa assim, se fosse possível. Preciso continuar trabalhando enquanto estudo.
O homem assentiu, sem demonstrar surpresa.
— Muitos alunos estão na mesma situação. O importante é não assumir mais compromissos do que consegue cumprir. Você também precisa ter tempo para estudar.
— Sim. Não quero prejudicar meu rendimento.
— Pelo que vi no sistema, seu desempenho no processo seletivo foi muito bom. A coordenação costuma acompanhar estudantes que demonstram potencial e, quando surgem oportunidades adequadas, pode entrar em contato.
Meu coração deu um pequeno salto.
— Então existe a possibilidade de me chamarem?
— Existe a possibilidade de conversarem com você, sim. Mas não posso garantir uma vaga. Primeiro, a equipe precisa avaliar as necessidades da instituição e os requisitos de cada função.
— Claro. Eu entendo.
Ele apontou para a sala indicada no próprio comunicado.
— Se quiser mais informações, você pode procurar a coordenação nos próximos dias. Eles poderão explicar o funcionamento do programa com mais detalhes.
Agradeci pela atenção e me despedi.
Continuei pelo corredor com a cabeça cheia de pensamentos. Eu tinha ido até ali para resolver a matrícula e saía com a sensação de que outras portas poderiam se abrir. Ainda não havia uma proposta concreta, nenhum contrato ou garantia de dinheiro extra, mas saber que existiam alternativas já me dava esperança.
Ao mesmo tempo, precisava tomar cuidado para não criar expectativas demais.
Uma coisa de cada vez.
Primeiro, eu começaria a faculdade. Depois, entenderia a rotina. Se surgisse uma oportunidade de trabalho compatível com os estudos, tentaria aproveitá-la.
Era assim que eu pretendia seguir: um passo por vez, sem esquecer de onde vinha e sem deixar que o medo decidisse por mim.
Quando finalmente saí do prédio, o sol já estava mais forte. Peguei o celular para conferir as horas e percebi que precisava me apressar para não me atrasar para o trabalho.
Guardei os documentos com cuidado e comecei a caminhar até o ponto de ônibus.
Durante o trajeto, fiquei imaginando como seria a primeira aula. Será que os professores seriam exigentes? Será que eu conseguiria fazer amizades? Será que encontraria pessoas que compartilhassem o mesmo amor por projetos, desenhos e construções?
Eu gostava de observar casas, prédios e fachadas. Desde menina, ficava imaginando como um espaço simples poderia se transformar com criatividade. Às vezes, passava diante de uma construção e pensava em como organizaria os cômodos, onde colocaria as janelas e como aproveitaria melhor a luz natural.
Minha mãe dizia que eu tinha olhos de quem enxergava possibilidades onde os outros só viam paredes.
Eu queria continuar enxergando assim.
Queria projetar casas confortáveis, bonitas e acessíveis. Queria que outras pessoas tivessem a chance de morar em um lugar onde pudessem descansar sem medo de não saber como pagariam as contas do mês. Queria construir alguma coisa que permanecesse, mesmo quando a vida tentasse derrubar tudo.
E, um dia, queria olhar para trás e perceber que aquela menina que chorava escondida por causa das dificuldades havia conseguido chegar aonde sonhava.
O restante do dia foi corrido. Trabalhei, limpei os cômodos que estavam sob minha responsabilidade e tentei não deixar que o cansaço me vencesse. Em alguns momentos, minha cabeça voltava para a matrícula, e eu precisava me lembrar de que ainda tinha tarefas a cumprir.
Quando terminei, meus braços estavam doloridos e meus pés pediam descanso. Mesmo assim, caminhei para casa com uma leveza que não sentia havia algum tempo.
Eu tinha conseguido a bolsa.
Minha matrícula estava encaminhada.
Meu sonho já não parecia tão distante.
Ao chegar, deixei a bolsa sobre a cadeira, tirei os tênis e fui direto para a cozinha. Abri a geladeira, analisei o que havia disponível e preparei uma refeição simples. Não tinha dinheiro para comemorar em um restaurante ou comprar alguma coisa especial, mas isso não significava que eu deixaria o dia terminar sem celebrar.
Depois de comer, peguei uma panela pequena, leite condensado, chocolate em pó e um pouco de manteiga.
Brigadeiro de panela.
Não havia nada mais adequado para aquele momento.
Enquanto mexia a mistura, lembrei da minha mãe novamente. Ela costumava aparecer na cozinha quando sentia o cheiro do chocolate, perguntando se eu estava fazendo brigadeiro para dividir ou se pretendia comer tudo sozinha.
— Se for para dividir, coloca mais uma colher nessa panela — eu costumava responder.
Ela ria, fingindo indignação.
— Essa menina ainda vai me deixar sem um doce nessa casa!
A lembrança me fez sorrir. Dessa vez, não tentei afastá-la. Deixei que permanecesse comigo enquanto mexia o brigadeiro até atingir o ponto certo.
Peguei uma colher, coloquei um pouco em um prato e me sentei à mesa.
A primeira colherada estava tão boa quanto eu lembrava.
Comi devagar, aproveitando aquele pequeno momento de paz. Não era uma comemoração grandiosa, mas era minha. Eu não precisava de uma festa para reconhecer que havia vencido uma etapa importante da minha vida.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Camila.
Eu: Sobrevivi ao primeiro dia de futura universitária e agora estou comendo brigadeiro para comemorar.
Camila: SEM MIM?!
Eu: Você está muito longe para vir roubar meu brigadeiro.
Camila: Isso é uma traição, Mirella. Uma amizade construída com tanto amor e você me abandona por uma panela de chocolate.
Eu: Amanhã eu faço mais.
Camila: Anotado. E agora me conta tudo. Como foi lá?
Comecei a escrever um resumo de tudo o que tinha acontecido. Contei sobre a matrícula, os horários, o aviso do programa de apoio acadêmico e a conversa com o funcionário.
Ela respondeu com vários áudios, alguns tão longos que precisei aumentar a velocidade para ouvir todos.
— Amiga, você tem noção de que sua vida está começando a mudar? — Camila perguntou em uma das mensagens. — Eu sei que ainda vai ser puxado, sei que você precisa trabalhar e que tem um monte de conta para pagar, mas você conseguiu uma coisa muito importante. Não diminui sua vitória porque ainda tem problemas para resolver.
Fiquei olhando para a tela depois que o áudio terminou.
Era exatamente o que eu precisava ouvir.
Eu: Eu sei. Só tenho medo de não dar conta de tudo.
Camila: Você não precisa dar conta de tudo de uma vez. Vai fazendo o que conseguir, um dia por vez. E, quando não conseguir, pede ajuda. Não precisa carregar o mundo nas costas.
Soltei um suspiro.
Eu: Você fala como se fosse fácil.
Camila: Não é fácil, sua teimosa. Mas também não é impossível. E, quando você virar uma arquiteta famosa, quero deixar uma coisa bem clara: vou cobrar um projeto de graça.
Ri alto na cozinha.
Eu: Você não tem vergonha na cara?
Camila: Nenhuma. Quero uma casa linda, com cozinha grande, sala espaçosa e um quintal para eu fazer churrasco.
Eu: E quem vai pagar os materiais?
Camila: Você é a arquiteta, dá seu jeito.
Eu: Ah, claro! Vou construir sua mansão com o poder da amizade.
Camila: Exatamente! Sabia que você era uma profissional competente.
Balancei a cabeça, rindo sozinha.
— Essa mulher ainda me mata — murmurei.
Pela primeira vez em dias, consegui rir sem sentir que estava fazendo alguma coisa errada. A dor continuava ali, mas já não ocupava todos os espaços dentro de mim. Havia lugar para a saudade e também para a esperança.
Terminei o brigadeiro, lavei a panela e organizei a cozinha. Depois, fui para o quarto, separei os documentos da faculdade e deixei o caderno sobre a mesa. Queria começar a organizar minha rotina antes mesmo de receber o calendário completo.
Abri o caderno e escrevi na primeira página:
ARQUITETURA E URBANISMO — MEU NOVO COMEÇO.
Abaixo, acrescentei uma frase que minha mãe costumava dizer:
“Um passo de cada vez, minha filha. O importante é não parar.”
Fiquei olhando para aquelas palavras durante alguns segundos.
Eu ainda não sabia como seria o próximo mês. Não sabia se conseguiria conciliar todas as responsabilidades, se encontraria novas oportunidades ou se enfrentaria dificuldades que ainda nem conseguia imaginar.
Mas sabia que não queria desistir antes de tentar.
Guardei o caderno, tomei um banho e me deitei. O corpo estava exausto, mas minha cabeça continuava trabalhando. Eu precisava organizar os horários, calcular os gastos e pensar em maneiras de estudar sem comprometer o emprego.
Quando o celular vibrou sobre a mesinha, achei que fosse mais uma mensagem de Camila.
Peguei o aparelho e percebi que a notificação vinha do e-mail cadastrado na faculdade.
Franzi a testa.
Naquela altura, eu já havia recebido algumas mensagens automáticas sobre a matrícula, então pensei que fosse apenas mais uma confirmação. Abri o aplicativo sem muita expectativa.
Mas o assunto me fez sentar na cama.
Solicitação de comparecimento à coordenação — Mirella.
Meu coração começou a bater mais depressa.
Abri a mensagem.
“Prezada Mirella,
Após a análise do seu desempenho no processo seletivo, gostaríamos de convidá-la para uma conversa com a coordenação acadêmica sobre uma possível oportunidade de trabalho vinculada às atividades de apoio aos estudantes.
Pedimos que compareça à coordenação para receber informações sobre os requisitos, as atribuições e os próximos procedimentos.
Aguardamos sua confirmação de disponibilidade.”
Li o texto uma vez.
Depois, novamente.
Uma oportunidade de trabalho.
Ligada aos estudos.
Eu ainda não sabia do que se tratava, nem se realmente teria alguma chance. A mensagem não garantia contratação, e eu não queria me iludir antes de entender as condições.
Mesmo assim, não consegui esconder o sorriso que apareceu no meu rosto.
Talvez fosse uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra. Talvez me ajudasse a continuar estudando sem precisar escolher entre pagar as contas e comprar os materiais da faculdade.
Talvez fosse mais um passo na direção da vida que eu tanto desejava construir.
Apoiei o celular sobre o peito e soltei o ar devagar.
— Obrigada, meu Deus — sussurrei.
Pensei em responder imediatamente, mas decidi ler a mensagem mais uma vez para ter certeza de que não havia deixado passar nenhuma informação importante. Depois, comecei a digitar uma resposta confirmando meu interesse e perguntando qual seria o melhor horário para comparecer.
Enviei a mensagem e deixei o celular sobre a mesa.
Eu não sabia o que me esperava naquela coordenação.
Não sabia quem estaria presente, qual seria a proposta ou se conseguiria conciliar mais uma responsabilidade com tudo o que já fazia.
Só sabia que, se aquela porta estivesse realmente se abrindo, eu não deixaria o medo me impedir de bater.
Apaguei a luz e me acomodei na cama, abraçando o travesseiro.
A saudade da minha mãe continuava comigo, mas naquela noite consegui adormecer pensando no futuro, e não apenas no que havia perdido.
Eu tinha conseguido a bolsa.
Tinha dado o primeiro passo.
E, ao que tudo indicava, outra oportunidade estava prestes a surgir.
Só não imaginava que aquela possibilidade de trabalho acabaria me aproximando de um homem que representava praticamente tudo aquilo de que eu sempre tentei manter distância.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e me contem o que acharam dessa conquista da Mirella! 🌙❤️ Será que essa nova oportunidade vai ajudar nossa menina a realizar seus sonhos? No próximo capítulo, vamos acompanhar Vicente diante de um problema que ele não vai conseguir resolver sozinho… 👀🔥