CAPÍTULO 6 — VICENTE
VICENTE
Acordei com o celular vibrando em cima da mesa de cabeceira e uma p**a vontade de jogar aquela merda contra a parede.
Abri os olhos devagar, ainda meio perdido, e estiquei o braço para pegar o aparelho. A claridade que entrava pela janela já iluminava boa parte do quarto, e eu sabia que tinha passado da hora de levantar. Quando vi as notificações acumuladas na tela, soltei um suspiro irritado.
Mais mensagens da faculdade.
Porra, será que aquela gente não tinha mais nada para fazer?
Desbloqueei o celular e encontrei o aviso que havia recebido na noite anterior. A convocação para conversar com a direção continuava ali, como se estivesse me esperando abrir os olhos para estragar o meu dia.
— Que inferno, irmão…
Joguei o celular sobre a cama e me levantei. Eu não estava a fim de pensar em faculdade, muito menos em nota. Tinha coisas suficientes para me preocupar sem precisar acrescentar mais uma dor de cabeça à lista.
Entrei no banheiro, tomei um banho demorado e me arrumei para sair. Vesti uma calça jeans, uma camiseta escura e coloquei um relógio no pulso. Antes de deixar o quarto, conferi o celular mais uma vez, respondi duas mensagens e ignorei o restante.
Aquela reunião poderia esperar.
Pelo menos era o que eu pretendia acreditar.
Quando desci, encontrei meu pai tomando café. Ele ergueu os olhos assim que me ouviu chegar, mas não comentou nada de imediato.
— Bom dia — falei, puxando uma cadeira.
— Bom dia.
Peguei uma xícara e me servi de café. Por alguns segundos, ficamos em silêncio, e eu aproveitei para comer alguma coisa antes de sair.
— Vai passar o dia na rua? — ele perguntou.
Olhei para ele por cima da xícara.
— Vou pra faculdade.
— Espero que preste atenção nas aulas.
Soltei uma risada sem humor.
— Começou cedo hoje, hein, pai?
Vitor largou o talher sobre o prato.
— Eu só fiz uma observação.
— E eu só tô tomando café. Não precisa transformar isso numa reunião.
Ele me encarou, mas não respondeu. Talvez tivesse entendido que eu não estava disposto a repetir a discussão da noite anterior. Ou talvez estivesse apenas esperando o momento certo para voltar ao assunto.
De qualquer maneira, terminei de comer, deixei a xícara na pia e peguei a chave do carro.
— Até mais tarde.
— Vicente.
Parei perto da porta e olhei para trás.
— Que foi?
— Não esquece o que conversamos ontem.
Minha mandíbula se contraiu.
— Pode deixar.
Saí antes que ele encontrasse outra coisa para me cobrar.
Entrei no carro, liguei o motor e segui em direção à faculdade. O trânsito estava um pouco carregado, e precisei diminuir a velocidade em alguns trechos. Aproveitei o caminho para colocar uma música e tentar esquecer os problemas que estavam me esperando.
Não funcionou tão bem quanto eu gostaria.
A cada sinal fechado, lembrava da conversa com meu pai. A cada notificação que aparecia na tela do painel, pensava na convocação da faculdade. Eu estava começando a ficar de saco cheio de todo mundo achar que tinha o direito de decidir o que eu precisava fazer.
Quando cheguei ao campus, encontrei Jorge perto de um dos corredores, conversando com dois conhecidos. Assim que me viu, ele abriu um sorriso debochado.
— Olha quem resolveu aparecer! Pensei que o papai tivesse te trancado no quarto e confiscado teu celular.
Desci do carro e tranquei a porta.
— Bom dia pra você também, filho da p**a.
Jorge começou a rir.
— Ih, tá de mau humor. Que novidade!
— Vai se f***r.
— c*****o, Vicente, tu acordou mordido hoje? Comeu alguma coisa estragada ou foi saudade da Sara?
Revirei os olhos e passei por ele.
— Não enche meu saco, Jorge.
Ele veio atrás de mim, ainda se divertindo com a situação.
— Ah, agora entendi. Brigou com o coroa de novo?
— Não.
— Então foi a faculdade.
Continuei andando.
— Tu virou vidente, p***a?
— Não preciso ser vidente pra saber que tu fica com essa cara quando alguma coisa te incomoda.
Parei perto de uma coluna e me virei para ele.
— Tu não tem aula, não, desgraça?
— Tenho. Mas conversar contigo é muito mais educativo.
— Então tu tá precisando de uma educação diferente, porque essa tua boca ainda vai te arrumar um problema.
Jorge colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Olha como ele fala comigo! Depois de tantos anos de amizade, é assim que tu me trata?
— Quer que eu te trate como? Com flores?
— Uma transferência bancária também serve.
Soltei uma gargalhada curta, balançando a cabeça.
— Tu é um aproveitador do c*****o.
— E tu é rico. Cada um com seus problemas.
Seguimos pelo corredor, conversando besteira até chegarmos perto das salas. Jorge me contou uma história sobre um conhecido que tinha se metido numa confusão por causa de uma mulher, e eu aproveitei para zoar a cara dele quando ele admitiu que já tinha passado por algo parecido.
Era sempre assim com a gente. Podíamos estar de cabeça quente, mas bastavam algumas provocações para a conversa ficar mais leve.
O problema era que Jorge não sabia a hora de parar.
— Mas falando sério, irmão, tu precisa resolver essa parada da faculdade — ele comentou quando entramos no corredor onde ficava a nossa sala.
Meu sorriso desapareceu.
— Lá vem tu de novo.
— Tô falando numa boa. Tu não pode ficar empurrando tudo com a barriga.
— E tu agora virou meu pai?
— Deus me livre. Já basta ter que aturar tu desse jeito. Imagina se eu tivesse que te criar!
Dei um empurrão leve no ombro dele.
— Vai tomar no cu.
Jorge riu, mas continuou.
— Papo reto, Vicente. Tu sabe que não é burro. Só precisa parar de achar que tudo vai se resolver sozinho.
Olhei para ele por alguns segundos antes de desviar o rosto.
Aquela era uma das poucas coisas que me incomodavam de verdade: quando alguém dizia que eu não estava me esforçando o suficiente, porque, no fundo, eu sabia que havia um pouco de verdade naquilo.
Eu não era incapaz de aprender. Nunca fui. Quando alguma coisa me interessava, conseguia passar horas tentando entender até encontrar uma solução. O problema era que eu não tinha paciência para insistir em algo que considerava inútil.
E Estatística estava começando a parecer exatamente isso.
— Eu só tô com dificuldade numa matéria — respondi.
Jorge arqueou as sobrancelhas.
— Ih, c*****o! Finalmente admitiu!
— Não começa.
— Tu acabou de falar que tá com dificuldade. Vou até anotar a data. É um momento histórico.
— Jorge, na moral, cala essa boca.
Ele levantou as mãos, ainda sorrindo.
— Tá bom, professor. Qual é a matéria que tá acabando com a tua paz?
Respirei fundo.
— Estatística.
Jorge ficou me encarando por dois segundos e depois começou a rir tão alto que algumas pessoas olharam na nossa direção.
— Não acredito, p***a! Estatística? Tu tá perdendo a guerra pra uns números?
— Tu quer que eu te dê um soco?
— Calma, c*****o! Só tô tentando entender como o homem que resolve tudo na base da cara fechada tá apanhando de uma tabela.
— Tu nem sabe o que eu tô estudando.
— E nem preciso! Só de imaginar tu sentado na frente de um monte de conta, com essa tua cara de quem quer matar alguém, já melhora meu dia.
Agarrei o braço dele e o puxei para perto.
— Escuta aqui, seu arrombado. Se tu continuar rindo, eu vou te fazer engolir essa tua língua.
Jorge tentou segurar a risada, mas não conseguiu.
— Foi m*l, irmão. Foi m*l! — Ele respirou fundo. — Mas, falando sério, por que tu não pede ajuda pra alguém?
Soltei o braço dele.
— Porque eu consigo resolver essa merda sozinho.
— Tá conseguindo tanto que a faculdade tá te convocando, né?
Meu rosto fechou na mesma hora.
Jorge percebeu que tinha acertado em cheio.
— Ih, então é verdade? — perguntou, agora com menos brincadeira. — A direção te chamou mesmo?
— Chamou.
— E tu vai?
— Pelo visto, vou ter que ir.
Ele soltou um assobio baixo.
— Aí complicou.
— Obrigado pela solidariedade, p***a.
— Tô sendo sincero. O diretor não costuma chamar aluno pra conversar só porque tá com saudade.
Revirei os olhos.
— Eu sei.
O sinal tocou, e nós entramos na sala. A aula passou sem grandes acontecimentos, embora eu tenha me distraído mais do que deveria. Tentei prestar atenção ao conteúdo, anotei algumas coisas e respondi quando o professor fez uma pergunta diretamente para mim.
Mas minha cabeça continuava voltando à convocação.
Eu sabia que precisava melhorar em Estatística. Também sabia que não poderia continuar faltando a algumas atividades e deixando exercícios acumularem. O que me irritava era a sensação de estar sendo obrigado a fazer tudo sob pressão, como se eu não tivesse capacidade de organizar minha própria vida.
Quando a aula terminou, guardei o material na mochila e saí com Jorge. Ele ainda tentou me convencer a almoçar com os amigos, mas eu disse que precisava resolver algumas coisas antes.
— Tu vai pra casa? — ele perguntou.
— Talvez.
— Vai estudar?
Olhei para ele com uma expressão que o fez começar a rir novamente.
— Não abusa da minha paciência, Jorge.
— Tá bom, tá bom. Mas, se tu precisar de ajuda, me chama.
Fiquei surpreso com a oferta.
— Tu sabe Estatística?
Ele abriu um sorriso enorme.
— Claro que não, p***a! Mas posso ficar do teu lado enquanto tu sofre.
— Tu é um merda.
— Um merda que te ama, irmão.
Balançando a cabeça, me despedi dele e fui até o carro.
Eu poderia ter ido direto para casa, mas não estava a fim de ficar sozinho com meus pensamentos. Decidi dirigir um pouco, passar em alguns lugares e resolver o que fosse possível antes de voltar.
Enquanto esperava em um semáforo, meu celular tocou.
Era Sara.
Atendi pelo viva-voz.
— Fala.
— Nossa, que animação! — ela respondeu, com a voz carregada de ironia.
— Bom dia pra você também.
— Já é quase hora do almoço, Vicente.
— Então boa tarde.
Ouvi um suspiro do outro lado.
— Você tá impossível.
— Tô dirigindo, Sara. Fala logo o que tu quer.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Queria saber se a gente vai se ver hoje.
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Não sei. Tenho umas coisas pra resolver.
— Você sempre tem alguma coisa pra resolver.
A frase veio acompanhada de uma irritação que eu reconheci imediatamente.
— Sara…
— Não, deixa eu terminar. Faz dias que você tá distante. Quando eu ligo, você responde como se eu estivesse atrapalhando. Quando a gente se encontra, você fica olhando o celular ou diz que precisa ir embora. Eu não sei o que tá acontecendo com você.
Apertei o volante.
— Eu tô com umas questões da faculdade pra resolver e meu pai também tá me enchendo o saco. Não tem nada a ver contigo.
— Então por que parece que você não quer mais ficar comigo?
Soltei o ar devagar.
Aquela era uma conversa que eu não queria ter enquanto dirigia, muito menos naquele momento. Sara não era uma mulher r**m. Era bonita, divertida e sabia ser agradável quando não estava tentando transformar cada encontro em uma discussão sobre o que éramos.
Mas nós já tínhamos conversado sobre isso.
Mais de uma vez.
— Eu nunca disse que não quero ficar contigo — respondi. — Só não tô disponível o tempo inteiro.
— Eu não tô pedindo que você fique disponível o tempo inteiro, Vicente. Só queria um pouco de consideração.
— E eu tô te tratando m*l?
— Às vezes, sim.
A resposta me fez ficar em silêncio por alguns segundos.
Eu poderia ter discutido, dito que ela estava exagerando ou encerrado a ligação. Mas, por mais que não gostasse daquela conversa, também não tinha intenção de fingir que não estava entendendo o que ela queria dizer.
— Olha, Sara, vou ser sincero contigo. Eu gosto de ficar contigo. Gosto da tua companhia, gosto quando a gente tá junto. Mas tu sabe desde o começo que eu não tô procurando namoro.
— Eu sei.
— Então não quero que tu crie uma expectativa que eu nunca prometi corresponder.
Ela respirou fundo.
— Eu não tô pedindo casamento, Vicente.
— Eu sei.
— Nem tô dizendo que a gente precisa colocar um nome nisso agora. Só não quero sentir que você me procura quando tá com vontade e depois desaparece quando tem alguma coisa mais interessante pra fazer.
Passei a mão pela nuca, impaciente.
— Eu não tô tentando te fazer de i****a.
— Mas às vezes parece.
Aquela resposta me irritou, embora eu soubesse que não adiantaria elevar o tom.
— Então me diz o que tu quer que eu faça, Sara. Porque eu já te falei como as coisas são entre a gente. Não vou te prometer uma coisa que não quero cumprir só pra tu ficar satisfeita por alguns dias.
Do outro lado, houve um silêncio prolongado.
— Você é sempre assim? — ela perguntou por fim.
— Assim como?
— Frio. Como se nada tivesse importância.
Apertei os lábios.
— Eu não sou obrigado a sentir o que tu quer que eu sinta.
— Eu não quero obrigar você a nada.
— Então pronto.
A resposta saiu mais seca do que eu pretendia.
Sara ficou quieta, e por alguns segundos pensei que ela tivesse desligado. Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Tá bom, Vicente. Esquece. Não vou ficar insistindo numa coisa que você não quer.
Eu sabia que ela estava magoada. Podia ouvir isso na maneira como tentava controlar a voz, mas não sabia o que dizer sem alimentar uma esperança que não queria oferecer.
— Não precisa ficar assim. Eu só tô sendo honesto.
— É. Você sempre é muito honesto quando quer deixar claro que não deve nada a ninguém.
A frase me incomodou.
— Não distorce o que eu tô falando.
— Não estou distorcendo nada. Você deixou sua posição bem clara. Eu entendi.
Ela encerrou a ligação antes que eu pudesse responder.
Fiquei olhando para o painel por alguns segundos, sentindo a irritação crescer. Não gostava de discussões, principalmente quando considerava que já havia deixado tudo esclarecido desde o início.
Guardei o celular e voltei a dirigir.
Eu não queria um relacionamento. Não queria prestar contas, explicar cada decisão ou ficar preocupado com o que outra pessoa esperava de mim. Já tinha meu pai, a faculdade e um monte de responsabilidades que eu não havia pedido.
Não precisava acrescentar mais uma.
Ainda assim, enquanto seguia pela rua, pensei na última frase de Sara.
Ela não estava completamente errada ao dizer que eu me comportava como se não devesse nada a ninguém. Eu realmente não gostava de sentir que alguém esperava alguma coisa de mim. Quando percebia que uma pessoa começava a querer mais do que eu estava disposto a oferecer, minha primeira reação era me afastar.
Era mais fácil assim.
Sem promessas, sem cobranças e sem precisar explicar por que eu não conseguia entregar algo que, para outras pessoas, parecia tão simples.
Continuei o resto do dia tentando esquecer a conversa. Passei em alguns lugares, resolvi pequenas pendências e voltei para casa no meio da tarde.
Meu pai não estava por perto quando cheguei, e isso me proporcionou alguns minutos de paz. Subi para o quarto, deixei a mochila sobre a cadeira e me joguei na cama.
Peguei o celular, abri uma rede social e fiquei passando as publicações sem prestar muita atenção. Jorge havia enviado um vídeo i****a, e eu respondi com um palavrão acompanhado de uma risada. Depois, abri a conversa com Sara.
A última mensagem dela continuava sem resposta.
Pensei em escrever alguma coisa, mas desisti.
Não tinha o que acrescentar.
Bloqueei a tela e fiquei olhando para o teto, tentando decidir o que faria naquela noite. Poderia sair, chamar os amigos e esquecer os problemas por algumas horas. Era o que eu costumava fazer quando alguma coisa me incomodava.
Mas a convocação da faculdade continuava no fundo da minha cabeça.
Peguei o celular novamente e abri o aplicativo acadêmico. Procurei as notas, conferi algumas informações e encontrei atividades que ainda precisava entregar. Minha expressão ficou cada vez mais fechada.
Eu sabia que estava deixando muita coisa acumular.
Havia faltado a algumas aulas, feito trabalhos sem a dedicação necessária e adiado exercícios porque sempre acreditava que poderia resolver tudo depois. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas agora a situação parecia estar saindo do meu controle.
— Que merda… — murmurei.
Joguei o celular sobre a cama e me levantei. Fui até a janela, abri um pouco mais a cortina e fiquei observando o movimento do lado de fora.
Eu não gostava de admitir que precisava de ajuda. Talvez porque, desde muito cedo, tivesse aprendido que demonstrar dificuldade dava às pessoas uma oportunidade de questionar minha capacidade. Na minha realidade, ninguém parecia disposto a esperar que você aprendesse alguma coisa no seu próprio tempo. Esperavam resultados, postura e decisões rápidas.
Meu pai era assim.
Eu também havia me tornado assim.
E talvez fosse justamente por isso que eu não tinha paciência comigo mesmo quando alguma coisa não saía como eu queria.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, era uma mensagem de Jorge.
Jorge: E aí, desgraça, vai sair hoje ou vai ficar em casa chorando por causa da Estatística?
Revirei os olhos e respondi.
Eu: Vai tomar no cu, irmão.
Jorge: KKKKKKKK então tá confirmado que tu tá m*l.
Eu: Não tô m*l, p***a. Só tô resolvendo umas coisas.
Jorge: Resolver coisas significa estudar?
Eu: Jorge, eu juro que vou te bloquear.
Jorge: Te amo também, meu parceiro. Qualquer coisa, chama.
Soltei uma risada curta e deixei o celular de lado.
Apesar das brincadeiras, eu sabia que podia contar com Jorge. Ele era um dos poucos que conseguiam me provocar sem transformar tudo numa disputa de orgulho. Talvez porque me conhecesse desde antes de eu aprender a esconder tão bem o que sentia.
Mas nem mesmo ele poderia resolver aquela situação por mim.
A faculdade precisava de uma resposta, e eu não poderia continuar fingindo que o problema desapareceria se eu simplesmente parasse de olhar para ele.
No começo da noite, desci para comer alguma coisa. Encontrei meu pai na sala, conversando ao telefone. Esperei que terminasse antes de passar pela porta, mas ele encerrou a ligação assim que me viu.
— Vicente, precisamos conversar.
Fechei os olhos por um instante.
Era impressionante como aquele homem conseguia identificar o momento exato em que eu estava começando a relaxar.
— Sobre o quê agora?
— Sobre a faculdade.
Virei o rosto para ele.
— Como é que tu sabe?
— Recebi uma ligação mais cedo.
Meu estômago se contraiu.
— Uma ligação de quem?
— Da instituição onde você estuda.
Passei a mão pelo cabelo, já irritado.
— c*****o, pai! Agora a faculdade vai ficar te ligando por qualquer merda?
— Não foi por qualquer merda, Vicente. Eles me informaram que seu rendimento está abaixo do esperado e que você foi convocado para uma conversa com a direção.
Fiquei olhando para ele sem responder.
Era exatamente o que eu precisava: mais uma pessoa sabendo de um problema que eu ainda nem tinha conseguido resolver.
— Eu já recebi a mensagem — falei.
— E pretende fazer alguma coisa a respeito?
— Pretendo comparecer à reunião.
— Não foi isso que perguntei.
Minha paciência começou a se esgotar.
— Então pergunta direito, p***a!
Vitor se levantou do sofá.
— Não fale comigo nesse tom.
— E tu não precisa agir como se eu tivesse cometido um crime! Eu tirei notas ruins, c*****o. Não matei ninguém.
— O problema não é apenas a nota. É a sua postura. Você tem condições de estudar, tem estrutura para se dedicar e, mesmo assim, deixa tudo para a última hora. Não quero que continue tratando suas obrigações dessa maneira.
Aquelas palavras me atingiram porque eram parecidas demais com o que eu já vinha pensando.
Mas eu preferia morrer a admitir isso naquele momento.
— Tá bom, pai. Eu vou resolver.
— Espero que sim.
— Pode ficar tranquilo.
Ele me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando descobrir se eu estava falando sério ou apenas querendo encerrar a conversa.
— Vicente, não estou tentando dificultar sua vida. Só quero que você entenda que existem consequências para as escolhas que faz.
Soltei uma risada irônica.
— Engraçado. Todo mundo adora falar de consequência quando é pra me cobrar alguma coisa.
— Porque você parece se esquecer delas quando está fazendo o que quer.
A resposta me deixou sem palavras por um instante.
Meu pai aproveitou o silêncio para continuar:
— Você não precisa gostar de todas as minhas decisões. Mas precisa aprender a lidar com as suas. Se a faculdade está apontando um problema, vá até lá, escute o que têm a dizer e resolva. Não transforme uma situação que pode ser corrigida numa guerra contra todo mundo.
Desviei o olhar.
Eu odiava quando ele falava de maneira tão direta, porque não me dava muito espaço para encontrar uma resposta que não parecesse uma desculpa.
— Eu já disse que vou resolver.
— Então faça isso.
A conversa terminou ali, mas meu humor já estava uma merda.
Voltei para o quarto, peguei o celular e conferi a mensagem da faculdade mais uma vez. Dessa vez, em vez de ignorá-la, abri o calendário e verifiquei o horário indicado na convocação.
A reunião estava marcada para o dia seguinte.
Eu teria de comparecer à direção e ouvir o que o responsável pela instituição tinha a dizer sobre meu desempenho. Não havia como adiar sem correr o risco de piorar ainda mais a situação.
Soltei o ar devagar e me sentei na beirada da cama.
— Beleza. Vamos acabar logo com essa p***a.
Tentei me convencer de que seria apenas uma conversa. Eu iria até lá, ouviria as exigências, explicaria que estava ocupado com outras responsabilidades e encontraria uma maneira de resolver o problema sem deixar que ninguém se metesse demais na minha vida.
Simples.
Pelo menos era o que eu esperava.
Pouco depois, uma nova notificação apareceu no celular. Abri a mensagem e encontrei a confirmação oficial do horário da reunião, acompanhada de um aviso de que minha presença era necessária para discutir meu rendimento e definir os próximos passos.
Li tudo até o fim.
Dessa vez, não havia como fingir que não tinha visto.
Amanhã eu teria de encarar aquela situação de frente.
Joguei o celular sobre a cama, passei as mãos pelo rosto e soltei um suspiro pesado.
Eu ainda não sabia como aquela conversa terminaria, mas tinha certeza de uma coisa: não estava disposto a ouvir ninguém me dizer o que fazer com a minha vida.
O problema era que, pela primeira vez em muito tempo, talvez eu não tivesse tanta escolha quanto imaginava.
Mensagem da autora: Deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙 Será que Vicente vai conseguir sair dessa sem perder a paciência? No próximo capítulo, Mirella poderá receber a notícia que tanto espera… ❤️