CAPÍTULO 20 — DEBAIXO DA CHUVA
Narradora: Mirella
— Não é possível que esse ônibus esteja demorando tanto!
Olhei para o relógio do celular pela quinta vez e senti meu estômago apertar. Eu já estava atrasada, minha bateria marcava cinco por cento e, para completar, o céu tinha escurecido de um jeito que prometia uma tempestade daquelas.
A manhã tinha começado toda errada. Uma das pessoas responsáveis pela organização da casa onde eu trabalhava precisou alterar o horário do serviço, e eu aceitei adiantar algumas tarefas porque precisava daquele dinheiro. Achei que conseguiria terminar a tempo de chegar à faculdade, mas o transporte resolveu colaborar com o desastre.
Quando finalmente entrei no ônibus, mandei uma mensagem para a coordenação explicando o atraso. Tentei fazer o mesmo com Vicente, mas o celular travou antes de eu conseguir enviar.
— Ah, não, meu amor… Não faz isso comigo agora — murmurei, apertando a tela.
Nada.
A bateria acabou poucos minutos depois.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos.
Eu já conseguia imaginar a cara de Vicente quando me visse. O homem parecia ter nascido com um relógio no lugar do coração. Bastava eu respirar fora do horário combinado para receber uma reclamação.
E eu não estava com disposição para ouvir desaforo.
Quando finalmente cheguei à faculdade, a chuva começou a cair.
Primeiro, algumas gotas grossas. Depois, em questão de segundos, o céu desabou.
Corri até a entrada do prédio, protegendo a bolsa contra o peito. Meu cabelo estava úmido, minha blusa tinha algumas manchas de água e eu estava tão irritada que precisava fazer um esforço para não xingar o mundo inteiro.
Assim que entrei, vi Vicente perto da sala de estudos.
Ele estava encostado na parede, com o celular na mão e uma expressão que anunciava problemas.
Ótimo.
Era exatamente o que faltava no meu dia.
— Finalmente — ele disse, assim que me viu.
Nem bom-dia.
Nem perguntou se estava tudo bem.
Só aquela palavra, acompanhada de um olhar atravessado.
Deixei a bolsa no ombro e respirei fundo.
— Bom dia para você também.
— Tu tá atrasada.
— Nossa, sério? Ainda bem que você avisou. Eu achei que tinha chegado ontem.
Ele guardou o celular no bolso.
— Qual é, Mirella? Eu tô te esperando há um tempão.
— E eu não estou aqui por diversão, Vicente. Tive um problema com o trabalho e o ônibus demorou. Meu celular descarregou antes que eu conseguisse te avisar.
— Custava ter se organizado melhor?
A pergunta me fez encará-lo.
— Como é que é?
— Tu ouviu.
Soltei uma risada sem humor.
— Você acha mesmo que eu escolhi ficar esperando ônibus debaixo de um céu prestes a cair na minha cabeça?
— Não foi isso que eu disse.
— Foi exatamente o que você insinuou!
Vicente passou a mão pelo cabelo, impaciente.
— c*****o, garota! Eu só queria saber por que tu não avisou!
— E eu acabei de explicar! Meu celular descarregou. Você quer que eu faça o quê? Que eu peça emprestado o telefone de todo mundo no ônibus para dar satisfação?
Ele ficou calado por um instante.
Aproveitei para continuar, porque já estava cansada daquela mania dele de achar que tudo precisava acontecer do jeito que queria.
— Eu tenho trabalho, faculdade, contas para pagar e uma vida fora desses encontros. Estou tentando conciliar tudo sem deixar ninguém na mão. Não posso controlar o trânsito, o ônibus ou a chuva!
Vicente me encarou com o maxilar contraído.
— Tu acha que só tu tem problema?
— Não. Mas sou eu quem está ouvindo você reclamar como se eu tivesse feito isso de propósito.
O silêncio entre nós ficou pesado.
Eu estava cansada, com fome e molhada. Não tinha a menor intenção de passar o resto da tarde discutindo com um homem que parecia incapaz de compreender que o mundo não girava ao redor dele.
Peguei a bolsa com mais firmeza.
— Se você não quiser fazer a sessão hoje, tudo bem. A gente remarca. Mas eu não vou ficar aqui sendo tratada como se tivesse cometido um crime porque me atrasei.
Dei um passo para sair, mas ele chamou meu nome.
— Mirella.
Parei, sem me virar imediatamente.
— O quê?
A voz dele veio menos agressiva.
— Vamos entrar. A gente conversa lá dentro.
Olhei para a chuva que batia violentamente contra as janelas.
Depois voltei a encará-lo.
— Eu não quero discutir mais.
— Nem eu, p***a. Só vamos estudar.
Hesitei.
No fim, entrei na sala com ele.
A sessão começou num silêncio desconfortável.
Vicente abriu o caderno e tentou resolver os exercícios, enquanto eu organizava minhas anotações. Ainda estava irritada, e ele parecia saber disso, porque, pela primeira vez desde que nos conhecemos, não fez nenhuma piada sobre minha maneira de falar.
Depois de alguns minutos, ele empurrou o caderno na minha direção.
— Confere.
Analisei os cálculos.
— Aqui está certo. Mas você precisa justificar essa etapa.
Ele explicou o raciocínio, e eu concordei.
— Agora sim.
Vicente apoiou as costas na cadeira.
— Tu ainda tá p**a comigo?
Levantei os olhos.
— Você quer a resposta sincera ou a que vai fazer você parar de perguntar?
Ele soltou uma risada curta.
— A sincera.
— Então sim.
— c*****o…
— Você pediu.
Ele balançou a cabeça, mas havia um pequeno sorriso no canto da boca.
— Tá. Eu fui grosso.
Fiquei surpresa.
— Foi.
— Não precisa ficar tão feliz, p***a. Não costumo pedir desculpa duas vezes.
Eu ri antes de conseguir me controlar.
— Você nem pediu desculpa direito!
— Ah, Mirella, vai se f***r!
Dessa vez, nós dois rimos.
A tensão diminuiu um pouco, e conseguimos terminar os exercícios sem outra discussão. Vicente estava prestando atenção, fazendo perguntas e, para minha surpresa, até anotando as explicações sem reclamar.
Quando encerramos a sessão, a chuva continuava forte.
Olhei pela janela e suspirei.
— Maravilha. Agora só falta eu descobrir como vou chegar em casa.
Vicente pegou a mochila.
— Eu te levo.
Virei para ele imediatamente.
— Não precisa.
— Mirella, olha essa chuva, c*****o.
— Eu estou vendo.
— Então aceita a carona.
Balancei a cabeça.
— Prefiro esperar diminuir.
Ele olhou pela janela e depois voltou para mim.
— Tu pode ficar esperando até amanhã.
— Eu me viro.
— Eu sei que tu se vira. Não foi isso que eu perguntei.
A resposta me deixou sem reação por um instante.
Vicente se aproximou da porta, mas esperou que eu pegasse minhas coisas.
— Vem, garota. Eu não vou te cobrar por uma carona.
Olhei para ele com desconfiança.
— Você tem certeza? Porque, pelo seu comportamento, parece que vai me mandar uma fatura depois.
Ele soltou uma gargalhada.
— Tu não presta, p***a.
— Aprendi com você.
— Então vem logo antes que eu me arrependa.
Fiquei olhando para a chuva mais uma vez.
Eu não gostava de depender de ninguém. Muito menos de um homem que conseguia me irritar em menos de cinco minutos.
Mas também não era orgulhosa a ponto de ignorar uma solução sensata só para provar que podia fazer tudo sozinha.
— Está bem — concordei. — Obrigada pela carona.
Vicente abriu um sorriso convencido.
— Olha só! Ela sabe agradecer!
— Não estraga o momento.
— Tá bom, professora.
Saímos juntos, correndo até o estacionamento. A chuva molhou meus braços e parte da minha calça, e eu precisei proteger a bolsa contra o peito para não molhar os materiais da faculdade.
Vicente destravou um carro preto, abriu a porta do passageiro e fez um gesto para que eu entrasse.
O veículo era bonito, espaçoso e tinha aquele cheiro amadeirado que eu já associava a ele.
Assim que me sentei, puxei o cinto.
Vicente entrou, ligou o motor e ajustou o ar-condicionado.
— Qual é o endereço?
Passei o nome da rua e expliquei o caminho.
Ele começou a dirigir, concentrado no trânsito complicado pela chuva.
Por alguns minutos, ficamos em silêncio. Eu observava as gotas escorrendo pelo vidro, tentando organizar mentalmente tudo o que ainda precisava fazer naquela noite.
Foi Vicente quem interrompeu o silêncio.
— Tu trabalha em quantas casas?
Olhei para ele.
— Por quê?
— Curiosidade.
— Você tem muita curiosidade sobre a minha vida.
Ele sorriu sem tirar os olhos da rua.
— E tu tem muita dificuldade em responder uma pergunta simples.
— Trabalho em algumas casas, dependendo dos serviços que consigo.
— E ainda faz faculdade?
— Sim.
— Arquitetura e Urbanismo, né?
Assenti, surpresa por ele ter lembrado.
— Isso.
— Deve ser puxado pra c*****o.
Olhei para ele com mais atenção.
Aquela era a primeira vez que Vicente comentava sobre minha rotina sem fazer uma provocação ou transformar o assunto em discussão.
— É puxado. Mas é o que eu quero.
— Desde pequena?
Sorri discretamente.
— Desde que comecei a reparar nas casas, nos prédios, nas ruas… Eu gostava de imaginar como os lugares poderiam ser diferentes. Como uma mudança na organização de um espaço podia melhorar a vida das pessoas.
Vicente lançou um olhar rápido na minha direção.
— p***a. Tu fala disso e parece outra pessoa.
Franzi a testa.
— Outra pessoa como?
— Sei lá. Fica mais animada.
Baixei os olhos, sem saber exatamente o que responder.
Talvez porque quase ninguém perguntasse sobre meus sonhos com tanto interesse. Geralmente, as pessoas queriam saber como eu conseguiria pagar a faculdade, quanto ganhava ou se não seria melhor procurar um emprego que desse dinheiro mais rápido.
Vicente não fez nenhuma dessas perguntas.
— É porque eu gosto disso — respondi.
Ele assentiu e voltou a prestar atenção no trânsito.
Por alguns minutos, achei que a conversa terminaria ali.
Então ele perguntou:
— Tu mora onde mesmo?
— Na Rocinha.
Vicente virou o rosto para mim tão depressa que precisei me segurar no banco.
— O quê?
— Na Rocinha — repeti, estranhando a reação. — Você conhece?
Ele ficou me olhando por alguns segundos.
Depois soltou uma risada incrédula.
— Tu mora na Rocinha e nunca me reconheceu?
Franzi a testa.
— Eu deveria reconhecer você por quê?
O sorriso desapareceu lentamente do rosto dele.
Pela primeira vez desde que entrei naquele carro, Vicente pareceu não saber o que dizer.
Ele voltou os olhos para a rua, apertou as mãos no volante e soltou o ar pelo nariz.
— c*****o…
Meu estômago começou a se apertar.
— O que foi?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Tu realmente não sabe quem eu sou?
— Não! E você está começando a me assustar.
Vicente estacionou por um instante perto do meio-fio, num trecho seguro, e virou o corpo na minha direção.
— Meu nome é Vicente. Isso tu já sabe.
— Até aí, nenhuma novidade.
Ele soltou uma risada nervosa.
— Eu sou filho do Vitor.
O nome não me disse muita coisa imediatamente.
Então ele completou:
— Do Vitor que comanda a Rocinha.
Senti o estômago afundar.
Fiquei olhando para ele, esperando que dissesse que estava brincando. Que aquilo era alguma piada de mau gosto. Que eu tinha entendido errado.
Mas Vicente não sorriu.
— Você está falando sério? — perguntei, quase num sussurro.
— Tô.
Afastei-me um pouco no banco, como se precisasse de espaço para organizar os pensamentos.
De repente, algumas coisas começaram a fazer sentido: o jeito como ele falava, a confiança exagerada, a facilidade com que parecia resolver qualquer problema e a maneira como esperava que as pessoas simplesmente aceitassem suas decisões.
Eu não sabia o sobrenome dele, não conhecia sua família e nunca tinha me interessado em descobrir quem comandava cada parte da comunidade.
Minha vida já tinha problemas suficientes.
Eu só sabia que o mundo do tráfico tinha levado minha mãe.
E não queria qualquer proximidade com aquilo.
— Você é filho do homem que comanda a comunidade? — perguntei novamente, ainda tentando assimilar.
— Sou.
Passei a mão pelo rosto.
— Meu Deus…
Vicente me observava em silêncio.
— Qual foi, Mirella? Tu tá me olhando como se eu tivesse acabado de confessar um assassinato.
Virei para ele, indignada.
— Você acabou de me dizer que é filho do homem que comanda a Rocinha! O que esperava que eu fizesse? Que batesse palmas?
Ele ficou sério.
— Não. Só não esperava que tu não soubesse.
— Eu não conheço você fora da faculdade! E, sinceramente, nunca tive interesse em conhecer quem manda na comunidade.
A última frase saiu mais dura do que eu pretendia.
Vicente percebeu.
— Por quê?
Olhei para a janela.
A chuva continuava caindo, e as luzes dos carros se espalhavam pelo asfalto molhado.
Eu não queria falar sobre minha mãe. Não naquele momento, não dentro do carro de um homem que, até poucos minutos antes, era apenas meu aluno arrogante.
Mas também não queria fingir que aquele assunto não me atingia.
— Porque eu já perdi gente demais por causa da violência — respondi, mantendo os olhos na rua. — E não quero me aproximar de nada que me faça lembrar disso.
O silêncio tomou conta do carro.
Dessa vez, Vicente não fez piada.
Não me pressionou.
Apenas voltou a dirigir quando o trânsito permitiu, respeitando o silêncio que eu precisava.
E, de alguma maneira, aquilo me deixou ainda mais desconcertada.
Eu não sabia o que pensar dele agora.
O homem que me provocava durante as sessões, que discutia por causa de exercícios e que parecia incapaz de aceitar uma resposta atravessada não era apenas um universitário com dinheiro e sobrenome importante.
Ele era parte de um mundo que eu havia aprendido a temer.
E eu não queria fazer parte daquele mundo.
Quando o carro parou perto da minha rua, a chuva já tinha diminuído um pouco.
Soltei o cinto e peguei a bolsa.
— Obrigada pela carona.
Vicente assentiu.
— Mirella…
Parei antes de abrir a porta.
— O quê?
Ele pareceu procurar as palavras.
— Eu não sou responsável por tudo o que acontece na comunidade.
Olhei para ele.
— Eu não disse que era.
— Mas tá me olhando como se fosse.
Suspirei.
— Eu não conheço você o suficiente para dizer quem você é, Vicente. Só sei que essa realidade me assusta. E tenho meus motivos.
Ele ficou quieto.
Não tentou se justificar, não insistiu para que eu mudasse de opinião.
Apenas assentiu lentamente.
— Tá. Eu entendo.
Abri a porta e saí do carro, protegendo a bolsa da chuva que ainda caía.
Antes de fechar, olhei para ele uma última vez.
— Até o próximo encontro.
— Até, Mirella.
Fechei a porta e caminhei para casa sem olhar para trás.
Quando entrei, encostei as costas na porta e fechei os olhos.
Eu precisava de um banho, comida e algumas horas de sono.
Mas, acima de tudo, precisava pensar.
Porque agora eu sabia quem Vicente era.
E não fazia ideia de como conseguiria continuar sentando diante dele, estudando Estatística e fingindo que aquela revelação não tinha mudado absolutamente nada.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Mirella descobriu quem Vicente realmente é, mas será que conseguirá separar o homem que conheceu na faculdade do mundo que tanto teme? 🔥