CAPÍTULO 15 — NÃO ME TESTA
Narrador: Vicente
Eu já tinha decidido que aquela tutoria não ia tomar conta da minha vida.
Duas ou três sessões, eu aprendia o suficiente para recuperar minhas notas e pronto. Voltava a cuidar das minhas coisas sem ter uma garota me olhando como se eu fosse um moleque irresponsável.
O problema era que Mirella parecia ter nascido justamente para testar a minha paciência.
— Tu tá atrasado de novo — foi a primeira coisa que ela disse quando entrei na sala.
Olhei para o relógio.
— Três minutos, p***a.
— Continua sendo atraso.
Joguei a mochila sobre a mesa e puxei a cadeira.
— Bom dia pra tu também, princesa.
Ela ergueu os olhos do caderno.
— Não me chama de princesa.
— Prefere o quê? Meu amor?
Mirella fechou a caneta com tanta força que quase achei que ela fosse quebrar.
— Prefiro que você abra o caderno.
Soltei uma risada.
Caralho, aquela garota era uma figura.
Não porque fosse engraçada de propósito. Era justamente o contrário. Mirella falava comigo como se eu fosse qualquer sujeito que tivesse encontrado na rua. Não parecia impressionada com minhas roupas, meu relógio ou a maneira como eu me comportava.
E eu estava acostumado a causar algum efeito nas pessoas.
Com ela, parecia que eu só causava irritação.
— Fez os exercícios? — perguntou.
Abri o caderno e mostrei as folhas.
— Tá tudo aí.
Ela começou a conferir, e eu aproveitei para pegar o celular. Tinha algumas mensagens de Jorge, uma ligação perdida e um assunto pendente com meu pai. Respondi rapidamente, até ouvir a voz dela.
— Vicente.
— Fala.
— Olha pra mim quando eu estiver falando contigo.
Levantei a cabeça devagar.
— Tu tá falando sério?
— Muito.
— c*****o, tu é mandona pra c****e.
— E você é distraído pra c****e. Estamos quites.
Ri, balançando a cabeça.
— Tu não cansa de me responder, não?
— Você não cansa de me dar motivo.
Ela virou o caderno na minha direção e apontou para uma questão.
— Essa aqui está errada.
Olhei para a conta.
— Não tá, não.
— Está.
— Mirella, eu fiz o cálculo duas vezes.
— E errou duas vezes.
Passei a mão pelo rosto.
— p**a que pariu.
— Refaz.
— Eu já fiz!
— E vai fazer de novo.
Olhei para ela, esperando que desistisse ou pelo menos demonstrasse alguma hesitação.
Nada.
Mirella cruzou os braços e ficou me encarando com uma tranquilidade que me irritava mais do que qualquer provocação.
— Tu sempre manda nos outros assim? — ela perguntou.
— Quando funciona, sim.
Ela soltou uma risadinha debochada.
— Então deve ser uma experiência nova encontrar alguém que não obedece.
Fiquei olhando para aquela boca atrevida.
Não era possível.
Eu tinha conhecido a garota havia pouco tempo e já estava pensando em todas as respostas que poderia dar para fazê-la perder aquela pose.
— Tu gosta de me desafiar, né, garota?
— Eu gosto de ensinar. Você é que transforma tudo numa disputa.
— Talvez porque tu goste de ganhar.
— Talvez porque você não goste de estar errado.
A resposta acertou em cheio.
Inclinei o corpo sobre a mesa.
— Cuidado, Mirella.
Ela sustentou meu olhar.
— Com o quê?
Por um instante, a sala pareceu ficar silenciosa demais.
Os olhos dela não fugiram dos meus, e eu percebi que aquela garota podia até ficar nervosa com a minha proximidade, mas não ia me dar o gostinho de demonstrar.
O canto da minha boca se ergueu.
— Tu é abusada pra c*****o.
— E você continua sem refazer a questão.
Desgraçada.
Peguei o lápis.
— Tá bom. Vamos acabar logo com essa merda.
Quarenta minutos depois, eu já tinha entendido que não conseguiria me livrar daquela sessão apenas fazendo o mínimo.
Mirella percebia cada vez que eu tentava pular uma etapa. Se eu respondesse sem explicar o raciocínio, ela perguntava como tinha chegado àquele resultado. Se eu me distraísse com o celular, ela parava de falar e esperava até eu guardar o aparelho.
Era como estudar com alguém que tinha prazer em me pegar no erro.
E o pior era que funcionava.
— Agora explica por que escolheu essa fórmula — ela pediu.
Expliquei.
Ela ouviu, conferiu a conta e assentiu.
— Certo.
Esperei.
Ela voltou a escrever no próprio caderno.
Franzi a testa.
— Só isso?
Mirella levantou os olhos.
— Só isso o quê?
— Acertei. Tu não vai falar mais nada?
— Quer que eu faça uma festa?
— Um elogio não mata ninguém.
Ela apoiou o cotovelo na mesa, pensativa.
— Você resolveu corretamente uma questão que antes estava errando. Parabéns.
Fiquei encarando a cara séria dela.
— Vai se f***r, Mirella.
Ela caiu na risada.
E, p***a, eu não esperava aquilo.
Até então, Mirella parecia estar sempre pronta para me dar uma resposta atravessada. Mas, quando ria de verdade, o rosto inteiro mudava. Os olhos ficavam mais vivos, o sorriso se abria e ela parecia esquecer por alguns segundos que precisava manter aquela postura séria comigo.
Acabei sorrindo também.
— Tá rindo de quê, c*****o?
— Da sua cara!
— Minha cara é linda, p***a.
Ela riu ainda mais.
— Você não tem um pingo de humildade?
— Pra quê? Já tenho outras qualidades.
— Convencido.
— Tu já falou isso.
— E vou continuar falando enquanto você continuar dando motivo.
Meu celular vibrou sobre a mesa. Era Jorge.
Atendi sem tirar os olhos do caderno.
— Fala, desgraçado.
— E aí, professor? Tá aprendendo alguma coisa ou continua passando vergonha?
Olhei para Mirella, que fingia não prestar atenção na conversa.
— Vai tomar no cu, Jorge.
Meu amigo gargalhou do outro lado.
— Ih, tá estressado! A tutora tá te dando trabalho?
— Essa garota é insuportável.
Mirella ergueu uma sobrancelha.
— Estou ouvindo, viu?
Jorge ouviu também.
— OPA! Então é bonita e ainda escuta tudo? Gostei dela, irmão!
— Cala a boca, p***a.
— Manda um beijo pra professora!
Encerrei a ligação na cara dele.
Mirella estava mordendo o lábio para não rir.
— Seu amigo é sempre assim?
— Infelizmente.
— Parece divertido.
— Tu não conhece o Jorge. O maluco não tem limite.
— Pelo menos ele parece ter bom humor.
— Ah, pronto. Agora vai defender o desgraçado?
Ela deu de ombros.
— Estou só constatando.
Balancei a cabeça, mas não consegui segurar o sorriso.
Voltei para os exercícios, embora uma parte da minha atenção continuasse presa naquela garota.
Era estranho.
Eu não precisava gostar dela. Não precisava descobrir o que fazia nos fins de semana, com quem conversava ou por que ria daquele jeito. Mirella era minha tutora, e a gente tinha um compromisso acadêmico.
Só isso.
Era o que eu repetia para mim mesmo.
Quando terminamos a última questão, Mirella recolheu as folhas e conferiu minhas respostas.
Eu estava esperando outra crítica, algum comentário sobre a minha falta de atenção ou uma bronca porque eu tinha errado uma conta no começo.
Ela apenas colocou o caderno diante de mim.
— Essa você conseguiu resolver sozinho.
Olhei para a questão.
— Consegui.
— E explicou o raciocínio corretamente.
Esperei mais alguma coisa.
Ela fechou a própria pasta.
— Está melhorando.
Só isso.
Sem exagero, sem me tratar como um gênio e sem aquela animação forçada de quem quer agradar.
Era um reconhecimento simples, mas me deixou satisfeito de um jeito que eu não esperava.
— Então eu não sou tão burro quanto tu imaginava? — provoquei.
Mirella soltou o ar pelo nariz.
— Eu nunca disse que você era burro.
— Mas pensou.
— Pensei que você fosse preguiçoso.
Levei a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— p***a, essa doeu.
— Sobrevive.
Ri e fechei o caderno.
— Tu é sempre tão simpática no final das sessões?
— Com alunos que colaboram, sim.
— Então vou ter que me esforçar pra ganhar teu carinho?
A pergunta saiu num tom de brincadeira, mas percebi que ela ficou quieta por um instante.
Depois, Mirella ergueu o queixo.
— Meu carinho não faz parte do programa, Vicente. A gente está aqui para estudar.
Sorri devagar.
— Tá bom, professora. Entendi o recado.
Ela começou a guardar as coisas.
Eu deveria ter feito o mesmo e ido embora. Tinha outras responsabilidades, meu pai provavelmente queria falar comigo e Jorge já devia estar planejando alguma merda para a noite.
Mas fiquei sentado, observando Mirella organizar os materiais com cuidado.
— Quinta-feira, mesmo horário? — perguntei.
— Se você não se atrasar.
— Vou tentar.
— Tente bastante.
Levantei, coloquei a mochila no ombro e caminhei até a porta com ela.
No corredor, algumas pessoas conversavam perto das janelas. Mirella parou ao reconhecer um cara que vinha na nossa direção.
— Oi! — ela cumprimentou, sorrindo.
O sujeito abriu um sorriso de volta.
— Mirella! Sumida, hein?
— Eu? Você que desapareceu!
Ele riu e começou a conversar com ela como se os dois se conhecessem havia muito tempo. Mirella parecia à vontade, fazendo piada e rindo das respostas dele.
Fiquei parado a poucos passos, com a mão no bolso.
Que p***a era aquela?
Ela m*l conseguia me dar um elogio sem parecer que estava pagando uma dívida, mas com aquele cara estava sorrindo como se ele tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo.
O sujeito falou alguma coisa que não consegui ouvir. Mirella deu um empurrãozinho no braço dele, rindo.
Senti meu maxilar travar.
Ridículo.
Eu não tinha absolutamente nada a ver com quem ela conversava.
Mirella não era minha namorada. Não era minha ficante. Não era p***a nenhuma além da garota que me ajudava a estudar.
Mesmo assim, aquela cena estava me incomodando.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Jorge.
Eu: Tu conhece um cara da faculdade que anda com a Mirella?
A resposta veio quase imediatamente.
Jorge: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Franzi a testa.
Eu: Qual é a graça, filho da p**a?
Jorge: Tu tá perguntando do macho da tua tutora?
Eu: Não é macho de ninguém. Só quero saber quem é o desgraçado.
Jorge: Ah, claro. Pesquisa acadêmica.
Revirei os olhos.
Eu: Vai se f***r.
Jorge: Tá com ciúme, irmão?
Travei a tela e guardei o celular.
— Ciúme é o c*****o — murmurei.
Mirella se despediu do sujeito e finalmente veio na minha direção. Quando passou por mim, lançou um olhar curioso.
— Você ainda está aqui?
— Tô esperando uma resposta.
Ela franziu a testa.
— De quem?
— Não é da tua conta.
Mirella me olhou por dois segundos e soltou uma risada curta.
— Nossa, que simpatia.
— Vai encontrar teu amigo, Mirella.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Meu amigo?
— O cara ali.
— Ah. O Gabriel.
Gabriel.
Agora o desgraçado tinha nome.
— Tá — respondi, seco.
Ela me observou com uma expressão divertida.
— Você está estranho.
— Eu sou estranho.
— Isso eu já percebi.
Mirella ajeitou a bolsa no ombro e começou a andar. Antes de se afastar, virou o rosto para mim.
— Não esquece de fazer os exercícios, Vicente!
— Vai cuidar da tua vida, garota!
Ela riu e continuou pelo corredor.
Fiquei olhando até ela desaparecer na curva.
Meu celular vibrou outra vez.
Jorge: Descobriu o nome do rival?
Digitei uma resposta, apaguei e guardei o aparelho sem enviar nada.
Rival?
Que rival, p***a?
Eu não estava disputando mulher nenhuma.
Mas, enquanto descia as escadas, percebi que ainda lembrava do sorriso que Mirella tinha dado para Gabriel.
E isso me irritou mais do que qualquer exercício de Estatística.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Vicente jura que não está com ciúme, mas será que acredita mesmo nisso? No próximo capítulo, Mirella vai descobrir que trabalhar na casa de alguém pode esconder uma surpresa daquelas! ❤️