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1972 Words
CAPÍTULO 15 — NÃO ME TESTA Narrador: Vicente Eu já tinha decidido que aquela tutoria não ia tomar conta da minha vida. Duas ou três sessões, eu aprendia o suficiente para recuperar minhas notas e pronto. Voltava a cuidar das minhas coisas sem ter uma garota me olhando como se eu fosse um moleque irresponsável. O problema era que Mirella parecia ter nascido justamente para testar a minha paciência. — Tu tá atrasado de novo — foi a primeira coisa que ela disse quando entrei na sala. Olhei para o relógio. — Três minutos, p***a. — Continua sendo atraso. Joguei a mochila sobre a mesa e puxei a cadeira. — Bom dia pra tu também, princesa. Ela ergueu os olhos do caderno. — Não me chama de princesa. — Prefere o quê? Meu amor? Mirella fechou a caneta com tanta força que quase achei que ela fosse quebrar. — Prefiro que você abra o caderno. Soltei uma risada. Caralho, aquela garota era uma figura. Não porque fosse engraçada de propósito. Era justamente o contrário. Mirella falava comigo como se eu fosse qualquer sujeito que tivesse encontrado na rua. Não parecia impressionada com minhas roupas, meu relógio ou a maneira como eu me comportava. E eu estava acostumado a causar algum efeito nas pessoas. Com ela, parecia que eu só causava irritação. — Fez os exercícios? — perguntou. Abri o caderno e mostrei as folhas. — Tá tudo aí. Ela começou a conferir, e eu aproveitei para pegar o celular. Tinha algumas mensagens de Jorge, uma ligação perdida e um assunto pendente com meu pai. Respondi rapidamente, até ouvir a voz dela. — Vicente. — Fala. — Olha pra mim quando eu estiver falando contigo. Levantei a cabeça devagar. — Tu tá falando sério? — Muito. — c*****o, tu é mandona pra c****e. — E você é distraído pra c****e. Estamos quites. Ri, balançando a cabeça. — Tu não cansa de me responder, não? — Você não cansa de me dar motivo. Ela virou o caderno na minha direção e apontou para uma questão. — Essa aqui está errada. Olhei para a conta. — Não tá, não. — Está. — Mirella, eu fiz o cálculo duas vezes. — E errou duas vezes. Passei a mão pelo rosto. — p**a que pariu. — Refaz. — Eu já fiz! — E vai fazer de novo. Olhei para ela, esperando que desistisse ou pelo menos demonstrasse alguma hesitação. Nada. Mirella cruzou os braços e ficou me encarando com uma tranquilidade que me irritava mais do que qualquer provocação. — Tu sempre manda nos outros assim? — ela perguntou. — Quando funciona, sim. Ela soltou uma risadinha debochada. — Então deve ser uma experiência nova encontrar alguém que não obedece. Fiquei olhando para aquela boca atrevida. Não era possível. Eu tinha conhecido a garota havia pouco tempo e já estava pensando em todas as respostas que poderia dar para fazê-la perder aquela pose. — Tu gosta de me desafiar, né, garota? — Eu gosto de ensinar. Você é que transforma tudo numa disputa. — Talvez porque tu goste de ganhar. — Talvez porque você não goste de estar errado. A resposta acertou em cheio. Inclinei o corpo sobre a mesa. — Cuidado, Mirella. Ela sustentou meu olhar. — Com o quê? Por um instante, a sala pareceu ficar silenciosa demais. Os olhos dela não fugiram dos meus, e eu percebi que aquela garota podia até ficar nervosa com a minha proximidade, mas não ia me dar o gostinho de demonstrar. O canto da minha boca se ergueu. — Tu é abusada pra c*****o. — E você continua sem refazer a questão. Desgraçada. Peguei o lápis. — Tá bom. Vamos acabar logo com essa merda. Quarenta minutos depois, eu já tinha entendido que não conseguiria me livrar daquela sessão apenas fazendo o mínimo. Mirella percebia cada vez que eu tentava pular uma etapa. Se eu respondesse sem explicar o raciocínio, ela perguntava como tinha chegado àquele resultado. Se eu me distraísse com o celular, ela parava de falar e esperava até eu guardar o aparelho. Era como estudar com alguém que tinha prazer em me pegar no erro. E o pior era que funcionava. — Agora explica por que escolheu essa fórmula — ela pediu. Expliquei. Ela ouviu, conferiu a conta e assentiu. — Certo. Esperei. Ela voltou a escrever no próprio caderno. Franzi a testa. — Só isso? Mirella levantou os olhos. — Só isso o quê? — Acertei. Tu não vai falar mais nada? — Quer que eu faça uma festa? — Um elogio não mata ninguém. Ela apoiou o cotovelo na mesa, pensativa. — Você resolveu corretamente uma questão que antes estava errando. Parabéns. Fiquei encarando a cara séria dela. — Vai se f***r, Mirella. Ela caiu na risada. E, p***a, eu não esperava aquilo. Até então, Mirella parecia estar sempre pronta para me dar uma resposta atravessada. Mas, quando ria de verdade, o rosto inteiro mudava. Os olhos ficavam mais vivos, o sorriso se abria e ela parecia esquecer por alguns segundos que precisava manter aquela postura séria comigo. Acabei sorrindo também. — Tá rindo de quê, c*****o? — Da sua cara! — Minha cara é linda, p***a. Ela riu ainda mais. — Você não tem um pingo de humildade? — Pra quê? Já tenho outras qualidades. — Convencido. — Tu já falou isso. — E vou continuar falando enquanto você continuar dando motivo. Meu celular vibrou sobre a mesa. Era Jorge. Atendi sem tirar os olhos do caderno. — Fala, desgraçado. — E aí, professor? Tá aprendendo alguma coisa ou continua passando vergonha? Olhei para Mirella, que fingia não prestar atenção na conversa. — Vai tomar no cu, Jorge. Meu amigo gargalhou do outro lado. — Ih, tá estressado! A tutora tá te dando trabalho? — Essa garota é insuportável. Mirella ergueu uma sobrancelha. — Estou ouvindo, viu? Jorge ouviu também. — OPA! Então é bonita e ainda escuta tudo? Gostei dela, irmão! — Cala a boca, p***a. — Manda um beijo pra professora! Encerrei a ligação na cara dele. Mirella estava mordendo o lábio para não rir. — Seu amigo é sempre assim? — Infelizmente. — Parece divertido. — Tu não conhece o Jorge. O maluco não tem limite. — Pelo menos ele parece ter bom humor. — Ah, pronto. Agora vai defender o desgraçado? Ela deu de ombros. — Estou só constatando. Balancei a cabeça, mas não consegui segurar o sorriso. Voltei para os exercícios, embora uma parte da minha atenção continuasse presa naquela garota. Era estranho. Eu não precisava gostar dela. Não precisava descobrir o que fazia nos fins de semana, com quem conversava ou por que ria daquele jeito. Mirella era minha tutora, e a gente tinha um compromisso acadêmico. Só isso. Era o que eu repetia para mim mesmo. Quando terminamos a última questão, Mirella recolheu as folhas e conferiu minhas respostas. Eu estava esperando outra crítica, algum comentário sobre a minha falta de atenção ou uma bronca porque eu tinha errado uma conta no começo. Ela apenas colocou o caderno diante de mim. — Essa você conseguiu resolver sozinho. Olhei para a questão. — Consegui. — E explicou o raciocínio corretamente. Esperei mais alguma coisa. Ela fechou a própria pasta. — Está melhorando. Só isso. Sem exagero, sem me tratar como um gênio e sem aquela animação forçada de quem quer agradar. Era um reconhecimento simples, mas me deixou satisfeito de um jeito que eu não esperava. — Então eu não sou tão burro quanto tu imaginava? — provoquei. Mirella soltou o ar pelo nariz. — Eu nunca disse que você era burro. — Mas pensou. — Pensei que você fosse preguiçoso. Levei a mão ao peito, fingindo estar ofendido. — p***a, essa doeu. — Sobrevive. Ri e fechei o caderno. — Tu é sempre tão simpática no final das sessões? — Com alunos que colaboram, sim. — Então vou ter que me esforçar pra ganhar teu carinho? A pergunta saiu num tom de brincadeira, mas percebi que ela ficou quieta por um instante. Depois, Mirella ergueu o queixo. — Meu carinho não faz parte do programa, Vicente. A gente está aqui para estudar. Sorri devagar. — Tá bom, professora. Entendi o recado. Ela começou a guardar as coisas. Eu deveria ter feito o mesmo e ido embora. Tinha outras responsabilidades, meu pai provavelmente queria falar comigo e Jorge já devia estar planejando alguma merda para a noite. Mas fiquei sentado, observando Mirella organizar os materiais com cuidado. — Quinta-feira, mesmo horário? — perguntei. — Se você não se atrasar. — Vou tentar. — Tente bastante. Levantei, coloquei a mochila no ombro e caminhei até a porta com ela. No corredor, algumas pessoas conversavam perto das janelas. Mirella parou ao reconhecer um cara que vinha na nossa direção. — Oi! — ela cumprimentou, sorrindo. O sujeito abriu um sorriso de volta. — Mirella! Sumida, hein? — Eu? Você que desapareceu! Ele riu e começou a conversar com ela como se os dois se conhecessem havia muito tempo. Mirella parecia à vontade, fazendo piada e rindo das respostas dele. Fiquei parado a poucos passos, com a mão no bolso. Que p***a era aquela? Ela m*l conseguia me dar um elogio sem parecer que estava pagando uma dívida, mas com aquele cara estava sorrindo como se ele tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo. O sujeito falou alguma coisa que não consegui ouvir. Mirella deu um empurrãozinho no braço dele, rindo. Senti meu maxilar travar. Ridículo. Eu não tinha absolutamente nada a ver com quem ela conversava. Mirella não era minha namorada. Não era minha ficante. Não era p***a nenhuma além da garota que me ajudava a estudar. Mesmo assim, aquela cena estava me incomodando. Peguei o celular e mandei uma mensagem para Jorge. Eu: Tu conhece um cara da faculdade que anda com a Mirella? A resposta veio quase imediatamente. Jorge: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Franzi a testa. Eu: Qual é a graça, filho da p**a? Jorge: Tu tá perguntando do macho da tua tutora? Eu: Não é macho de ninguém. Só quero saber quem é o desgraçado. Jorge: Ah, claro. Pesquisa acadêmica. Revirei os olhos. Eu: Vai se f***r. Jorge: Tá com ciúme, irmão? Travei a tela e guardei o celular. — Ciúme é o c*****o — murmurei. Mirella se despediu do sujeito e finalmente veio na minha direção. Quando passou por mim, lançou um olhar curioso. — Você ainda está aqui? — Tô esperando uma resposta. Ela franziu a testa. — De quem? — Não é da tua conta. Mirella me olhou por dois segundos e soltou uma risada curta. — Nossa, que simpatia. — Vai encontrar teu amigo, Mirella. Ela ergueu as sobrancelhas. — Meu amigo? — O cara ali. — Ah. O Gabriel. Gabriel. Agora o desgraçado tinha nome. — Tá — respondi, seco. Ela me observou com uma expressão divertida. — Você está estranho. — Eu sou estranho. — Isso eu já percebi. Mirella ajeitou a bolsa no ombro e começou a andar. Antes de se afastar, virou o rosto para mim. — Não esquece de fazer os exercícios, Vicente! — Vai cuidar da tua vida, garota! Ela riu e continuou pelo corredor. Fiquei olhando até ela desaparecer na curva. Meu celular vibrou outra vez. Jorge: Descobriu o nome do rival? Digitei uma resposta, apaguei e guardei o aparelho sem enviar nada. Rival? Que rival, p***a? Eu não estava disputando mulher nenhuma. Mas, enquanto descia as escadas, percebi que ainda lembrava do sorriso que Mirella tinha dado para Gabriel. E isso me irritou mais do que qualquer exercício de Estatística. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Vicente jura que não está com ciúme, mas será que acredita mesmo nisso? No próximo capítulo, Mirella vai descobrir que trabalhar na casa de alguém pode esconder uma surpresa daquelas! ❤️
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