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1930 Words
CAPÍTULO 16 — A CASA DO FILHO DO ROBERTO Narradora: Mirella — Eu vou acabar perdendo a paciência com aquele homem, Camila. Juro por Deus! Falei ao telefone enquanto destrancava o portão da residência onde trabalharia naquela manhã. A bolsa pesava no meu ombro, o sol já estava forte e eu ainda tinha uma lista enorme de coisas para resolver antes de voltar para casa. Do outro lado, minha melhor amiga soltou uma gargalhada. — Bom dia pra você também, criatura! m*l acordou e já tá falando de homem? — Não é qualquer homem. É o meu aluno. — Aham. O aluno bonito. — Camila! — Que foi? Tu mesma disse que ele é bonito. Entrei na casa e deixei a bolsa com meus pertences no cantinho onde costumava guardá-la. A residência era grande, elegante e sempre tinha alguma coisa para fazer, mas eu já estava me acostumando à rotina. — Ele é bonito, sim. Infelizmente, porque a personalidade estraga tudo. — Meu Deus, amiga! Agora eu quero conhecer esse homem. — Você quer conhecer qualquer homem que eu mencione por mais de trinta segundos. — Mentira! Eu sou uma mulher seletiva. — Você chamou o entregador de pizza de amor ontem. — E ele foi muito educado comigo! Comecei a rir. — Você não presta, Camila. — E você está fugindo do assunto. O que esse bonito fez? Peguei os produtos de limpeza e fui para a sala. — Chegou atrasado, ficou questionando se eu tinha capacidade para ensinar, reclamou dos exercícios e ainda teve coragem de dizer que eu sou mandona. — Mas tu é mandona. Parei de passar o pano na mesa. — Camila, eu vou desligar. — KKKKKKKKK! Tá bom, tá bom! Mas me diz uma coisa: ele é daqueles bonitos metidos que sabem que são bonitos? Pensei em Vicente encostado na cadeira, com aquele sorriso debochado e a mania irritante de achar que sempre tinha uma resposta para tudo. — Exatamente esse tipo. — Ih, amiga… Esses são perigosos. — Perigosos para a minha paciência, isso sim. — Sei. A maneira como ela disse aquela palavra me fez estreitar os olhos, mesmo sabendo que ela não podia me ver. — Nem começa a inventar história na tua cabeça. Eu estou trabalhando, estudando e tentando pagar minhas contas. Não tenho tempo para me meter com homem. — Eu não falei nada! — Mas pensou. — Tá bom, mãe. Vou deixar você trabalhar. — Engraçadinha. Desliguei antes que ela voltasse a me provocar. O silêncio da casa me permitiu finalmente me concentrar. Comecei pela sala, limpando os móveis, organizando as almofadas e tirando o pó das superfícies. Depois, passei para o corredor e os outros cômodos que estavam incluídos no serviço. Eu gostava de deixar tudo bem-feito. Não porque alguém estivesse fiscalizando cada movimento meu, mas porque aquele trabalho era uma das coisas que me mantinham de pé. Cada diária representava dinheiro para as contas, para a alimentação e para continuar estudando sem precisar depender de ninguém. Quando terminei de organizar a sala, fui até a mesa lateral para limpar a superfície. Foi aí que reparei nos livros. Havia alguns materiais universitários empilhados perto de um notebook, além de folhas com cálculos e anotações. Não era nada incomum. O filho do seu Roberto estudava, e eu já tinha visto livros espalhados pela casa em outras ocasiões. Mesmo assim, uma folha chamou minha atenção. Estatística. Parei por um instante. — Olha só… — murmurei. — Parece que essa matéria está acabando com a vida de mais alguém. Aproximei-me apenas o suficiente para ler o título, sem tocar nos papéis. Eu tinha recebido orientações claras de seu Roberto: não mexer em documentos pessoais, não abrir gavetas e não reorganizar o que não fosse necessário. Eu respeitava isso. Além de ser uma questão profissional, eu não gostaria que alguém mexesse nas minhas coisas sem autorização. Voltei à limpeza, mas a coincidência continuou na minha cabeça. Estatística era uma disciplina que muita gente achava complicada. Não tinha nada de extraordinário encontrar exercícios daquele tipo numa casa de alguém que frequentava a faculdade. Ainda assim, lembrei de Vicente reclamando da matéria, fazendo contas de qualquer jeito e olhando para mim como se eu tivesse inventado os exercícios só para irritá-lo. Sorri sozinha. — Pelo menos não é o único sofrendo. Balancei a cabeça e continuei trabalhando. Eu nem sabia direito o que estava fazendo aquele homem ocupar tanto espaço nos meus pensamentos. Talvez fosse porque ele tinha sido a novidade dos últimos dias. Talvez porque fosse difícil esquecer alguém que parecia fazer questão de testar minha paciência a cada cinco minutos. Ou talvez eu só precisasse parar de pensar nele. O que seria ótimo. Porque eu não pretendia transformar um compromisso acadêmico em mais uma preocupação. Perto do meio-dia, eu já tinha terminado boa parte do serviço e fui para a cozinha preparar um lanche rápido que havia levado de casa. Sentei por alguns minutos, comi meu sanduíche e aproveitei para responder às mensagens acumuladas. Camila havia enviado uma sequência de áudios. Coloquei um dos fones e apertei o play. — Amiga, eu estava pensando aqui… Você precisa admitir que está curiosa para saber mais sobre esse Vicente. Não precisa gostar dele, não precisa querer casar, não precisa nem beijar o homem. Mas curiosa você está! Quase engasguei com a água. — Meu Deus do céu! — resmunguei, pausando o áudio. Mandei uma mensagem. Eu: Você precisa arrumar uma ocupação urgente. A resposta chegou na mesma hora. Camila: Minha ocupação é cuidar da sua vida amorosa, já que você não cuida. Eu: Minha vida amorosa está ótima sem ninguém. Camila: Tá ótima mesmo. Tão ótima que tu sabe até o cheiro do perfume do homem? Fiquei imóvel. Como aquela criatura sabia? Ah, sim. Eu tinha mencionado que Vicente usava um perfume amadeirado quando contei sobre o primeiro encontro. Fechei os olhos, derrotada. Eu: Eu vou bloquear você. Camila: Bloqueia nada. Depois vai querer me contar as novidades. Joguei o celular sobre a mesa, rindo contra a minha vontade. Camila era uma peste, mas era a minha peste. Voltei a comer e, depois de descansar um pouco, retomei o trabalho. Limpei a cozinha, organizei os espaços combinados e conferi se não havia deixado nada para trás. Quando terminei, a casa estava impecável. Guardei os produtos, lavei as mãos e peguei a bolsa. Antes de sair, dei uma última olhada ao redor para verificar se tudo estava no lugar. Meu celular tocou. Era seu Roberto. — Oi, seu Roberto. Boa tarde! — Boa tarde, Mirella! Está tudo certo por aí? — Está, sim. Acabei de terminar o serviço. — Ótimo. Meu filho comentou que a casa está ficando muito bem cuidada. Ele gostou bastante da organização e pediu que mantivéssemos os dias combinados. Sorri, aliviada. — Que bom! Fico feliz que ele esteja satisfeito. — Você consegue continuar às terças e quintas? Talvez eu precise acrescentar uma terceira diária em algumas semanas, mas conversamos com antecedência. Pensei na minha agenda, nos horários da faculdade e na tutoria que ainda estava sendo organizada. — As terças e quintas eu consigo manter, seu Roberto. Sobre uma terceira diária, preciso conferir meus horários antes de confirmar, mas podemos conversar, sim. — Perfeito. Não quero atrapalhar seus estudos. Sei que você está se esforçando bastante para concluir a faculdade. A gentileza dele me tocou. — Obrigada por entender. Estou tentando organizar tudo para dar certo. — E vai dar. Você é responsável, Mirella. Continue assim. Despedi-me, guardei o celular e tranquei a porta conforme havia sido orientada. Saí da residência com uma sensação de alívio. Aquele trabalho era importante para mim, e saber que o serviço estava agradando ao contratante significava que eu poderia continuar contando com aquela renda. No caminho para o ponto de ônibus, comecei a fazer as contas mentalmente. Faculdade, transporte, alimentação, materiais, contas de casa… Eu precisava aproveitar cada oportunidade, mas também precisava tomar cuidado para não assumir mais compromissos do que conseguiria cumprir. O acompanhamento acadêmico poderia ajudar bastante. Eu só precisava descobrir como encaixá-lo na minha rotina. Como se meus pensamentos tivessem chamado o problema, meu celular vibrou. Era uma mensagem da coordenação. Abri imediatamente. O texto informava que, devido a um ajuste na disponibilidade do estudante, o próximo encontro precisaria acontecer em um horário diferente do inicialmente previsto. A coordenação solicitava que eu verificasse a possibilidade de comparecer no novo horário e respondesse confirmando ou indicando alguma incompatibilidade. Li a mensagem duas vezes. Depois abri minha agenda. O novo horário coincidia justamente com uma das diárias na casa do filho de seu Roberto. — Não, não, não… — murmurei, parando na calçada. Passei a mão pela testa e fiz as contas novamente, como se os números fossem mudar por pena de mim. Não mudaram. Se aceitasse o novo horário, precisaria negociar a diária. Se recusasse, talvez a coordenação tivesse que reorganizar o acompanhamento, e eu não queria começar minha participação criando dificuldades. Eu precisava encontrar uma solução. Digitei uma resposta perguntando se existia alguma flexibilidade no horário, mas não enviei imediatamente. Queria pensar com calma antes de me comprometer com alguma coisa. Meu celular vibrou outra vez. Camila: Já terminou o serviço? Eu: Terminei. Mas surgiu um problema. Camila: O que foi? Expliquei a coincidência dos horários e recebi uma ligação segundos depois. — Amiga, calma — Camila disse assim que atendi. — Você ainda não perdeu nada. Primeiro, conversa com a coordenação. Depois, fala com seu Roberto. Talvez dê para ajustar a diária. — Eu sei, mas não quero ficar mudando tudo em cima da hora. — Então explica a situação. Você está tentando conciliar três coisas importantes. Não tem como adivinhar quando os horários vão mudar. Suspirei. — Eu só queria que as coisas fossem um pouquinho mais fáceis. A voz dela ficou mais suave. — Eu sei, Mi. Mas olha o tanto que você já conseguiu. Você conquistou a bolsa, está trabalhando e ainda apareceu essa oportunidade. Não precisa resolver a vida inteira hoje. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Era verdade. Às vezes, eu me cobrava tanto que esquecia de reconhecer o quanto já estava fazendo. — Obrigada, amiga. — Não agradece ainda. Você me deve um espetinho quando receber o próximo pagamento. Ri. — Sabia que tinha alguma coisa por trás desse discurso motivacional! — Claro, mulher! Amizade também exige investimento. Desliguei mais leve e voltei a olhar para a mensagem da coordenação. Eu não sabia ainda como resolveria o conflito, mas tinha certeza de que não queria abrir mão da oportunidade sem tentar negociar. Respondi que tinha interesse em manter o acompanhamento e que precisava confirmar a compatibilidade do novo horário com um compromisso profissional já agendado. Pedi que me informassem se existia outra possibilidade. Enviei a mensagem e guardei o celular. O ônibus chegou pouco depois, e subi ainda pensando na agenda, nos exercícios de Estatística e no estudante que me dava tanto trabalho. Eu precisava me concentrar naquilo que realmente importava. Na faculdade. No trabalho. No meu futuro. E, principalmente, em não deixar que um certo homem arrogante ocupasse mais espaço na minha cabeça do que já estava ocupando. Porque uma coisa era certa: eu tinha responsabilidades demais para ficar perdendo tempo pensando no sorriso debochado de Vicente. Mesmo que, contra a minha vontade, aquele sorriso insistisse em aparecer na minha memória. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Mirella está prestes a descobrir que conciliar trabalho e tutoria não será tão simples. E se o próximo encontro a colocar ainda mais perto daquele metido? 🔥
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