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2266 Words
CAPÍTULO 17 — EU NÃO GOSTO DE ESPERAR Narrador: Vicente Eu odiava perder tempo. Odiava gente atrasada, compromisso desorganizado e qualquer situação que me obrigasse a mudar meus planos por causa dos outros. Talvez fosse mania minha, mas gostava de saber o que ia acontecer e quando ia acontecer. Por isso, quando cheguei à faculdade e descobri que o horário da tutoria tinha sido alterado, minha primeira reação foi mandar todo mundo à merda. — Tá de s*******m comigo, p***a? — resmunguei, lendo o e-mail da coordenação pela terceira vez. Eu tinha reorganizado meu dia para estar ali. Adiado uma conversa com meu pai, dispensado Jorge de um compromisso que tínhamos combinado e separado aquele tempo para resolver logo a merda de Estatística. Agora, precisava esperar. Mandei uma mensagem para Mirella. Eu: Tu vem ou não? A resposta demorou alguns minutos. Mirella: Estou chegando. Precisei terminar um serviço antes de vir. Olhei para a tela, irritado. Eu: A gente tinha horário marcado. Mirella: Eu sei. E avisei à coordenação que precisava ajustar por causa do meu trabalho. Estou indo direto para a faculdade. Soltei o ar pelo nariz. — p**a que pariu, Jorge. Tua culpa. Meu melhor amigo, sentado ao meu lado no banco do corredor, virou a cabeça. — Minha culpa por quê, c*****o? — Por ter me convencido a levar essa tutoria a sério. Jorge começou a rir. — Ah, não fode, Vicente! Agora a culpa é minha porque tu tem que estudar? — Vai tomar no cu. — Tu tá nervosinho porque a professora atrasou? Olhei feio para ele. — Não começa. — Ih, tá bom. Vou deixar o casal discutir em paz. — Casal é o c*****o! A gargalhada dele ecoou pelo corredor, e eu tive vontade de acertar uma almofada na cara daquele desgraçado. Antes que pudesse responder, vi Mirella aparecer na entrada. Ela vinha andando depressa, com a bolsa pendurada no ombro e alguns fios de cabelo escapando do que parecia ter sido um penteado feito às pressas. Usava uma calça jeans, uma blusa simples e tênis. O rosto demonstrava cansaço, mas ela continuava com aquela expressão determinada que me irritava e, ao mesmo tempo, despertava minha curiosidade. Quando chegou perto, parou diante de mim. — Desculpa a demora. Olhei para o relógio. — Quinze minutos. Ela apertou os lábios, respirando fundo. — Eu sei contar, Vicente. Jorge soltou uma risada ao meu lado. Mirella olhou para ele. — Oi. Você deve ser o Jorge, né? Meu amigo abriu um sorriso enorme. — O próprio! Finalmente conheci a mulher que tá fazendo meu irmão estudar. — Não sou mulher de ninguém — ela respondeu imediatamente. Jorge levou a mão ao peito. — Gostei! Tem personalidade. — Jorge, some daqui — falei. — Ih, ficou com ciúme da amizade? — Vai se f***r! Ele se levantou, ainda rindo, e deu dois tapinhas no meu ombro. — Boa aula, professor. E tenta não levar uma surra da Estatística. — Vaza! Jorge foi embora gargalhando, e Mirella acompanhou a cena com um sorriso discreto. Esperei até ele desaparecer pelo corredor antes de voltar a falar. — Tu poderia ter avisado que ia chegar atrasada. O sorriso dela sumiu. — Eu avisei à coordenação que precisava mudar o horário. Estou vindo direto do trabalho. — E eu tenho que adivinhar isso? Mirella me encarou. — Não. Você só precisa entender que eu também tenho compromissos. — Todo mundo tem compromisso, garota. — Então você deveria saber que nem tudo acontece do jeito que a gente quer. A resposta me irritou porque fazia sentido. Mesmo assim, não estava disposto a dar o braço a torcer. — Eu reorganizei meu dia inteiro pra estar aqui. — E eu estou tentando conciliar meu emprego com a faculdade. Não estou brincando de ser tutora, Vicente. Eu preciso trabalhar para pagar minhas contas. A maneira como ela falou me fez reparar melhor em seu rosto. Havia olheiras discretas sob os olhos e uma tensão nos ombros. A bolsa parecia pesada, e ela ainda segurava um caderno contra o peito. Eu não tinha pensado nisso. Para mim, a tutoria era mais uma obrigação que precisava cumprir. Para ela, era uma oportunidade que exigia preparação e organização, além de todo o resto que já fazia. Mas minha irritação ainda falava mais alto. — Tu sabe com quem tá falando? — perguntei, perdendo a paciência. Mirella não piscou. — Com um aluno que precisa aprender Estatística. Foi isso que me disseram. Fiquei calado. Caralho. A garota tinha uma capacidade impressionante de me deixar sem resposta. Ela ajeitou a bolsa no ombro e continuou: — Se você acha que eu não tenho condições de cumprir essa função, pode conversar com a coordenação e pedir outra pessoa. Mas não vou abandonar meu emprego para atender aos seus caprichos. Aquela última palavra bateu no meu orgulho. Caprichos. Ninguém costumava falar comigo daquele jeito. Não porque eu fosse algum santo, mas porque as pessoas geralmente preferiam evitar uma discussão comigo. Mirella parecia não ter recebido o aviso. — Tu terminou? — perguntei. — Por enquanto. — Ótimo. Vamos estudar, então. Ela me olhou por um instante, como se estivesse decidindo se valia a pena continuar discutindo. Depois entrou na sala. E eu fui atrás. — Abre na página que eu marquei — Mirella pediu, sentando-se à minha frente. Tirei o caderno da mochila. — Tu trouxe alguma coisa além de ordem hoje? — Trouxe exercícios. Posso guardar se você preferir continuar reclamando. — Tá bom, p***a. Já entendi. Ela abriu a própria pasta e colocou algumas folhas sobre a mesa. — Hoje vamos revisar distribuição de probabilidades e interpretação dos resultados. Quero ver como você está resolvendo os exercícios sozinho. — Eu já sei resolver. — Ótimo. Então não vai ter dificuldade. Olhei para ela. Aquele sorriso pequeno era uma provocação disfarçada. Eu tinha certeza. Comecei a resolver a primeira questão, tentando me concentrar apesar da irritação que ainda sentia. Mirella não falou nada durante os primeiros minutos. Ficou revisando algumas anotações, deixando que eu trabalhasse. Quando terminei, empurrei o caderno na direção dela. — Pronto. Ela conferiu o cálculo. — Certo. Olhei para ela, desconfiado. — Só isso? — Você quer que eu reclame também? — Não. Só achei que você fosse encontrar algum defeito. Mirella soltou uma risada. — Não vou inventar erro onde não existe, Vicente. Fiquei observando enquanto ela explicava a próxima questão. Dessa vez, prestei atenção de verdade. Ela tinha uma maneira clara de organizar as informações, sem ficar usando palavras complicadas só para parecer inteligente. Quando eu errava, apontava exatamente onde estava o problema. Quando acertava, seguia em frente. Sem bajulação. Sem medo de me contrariar. E, principalmente, sem aquela necessidade irritante de me tratar como se eu fosse especial. — Tu sempre gostou dessa matéria? — perguntei, depois de terminar outro exercício. — Não é minha favorita, mas gosto de entender como as coisas funcionam. — Isso parece resposta de quem gosta de estudar. — E você parece alguém que só gosta de estudar quando a prova está chegando. Soltei uma risada curta. — Tá me conhecendo rápido demais, professora. — Você não é tão difícil de entender. Ergui as sobrancelhas. — Ah, não? — Não. Você se distrai, quer terminar tudo depressa e fica irritado quando alguém aponta que está errado. Apoiei os braços na mesa. — E o que mais? Mirella pareceu perceber que eu estava provocando. — Que você fala demais quando não quer admitir que precisa de ajuda. Sorri. — Tu gosta de me analisar? — Eu gosto de ensinar. Você é que não para de me dar material. Dessa vez, ri de verdade. A tensão do começo da sessão começou a desaparecer, e, quando percebi, já estávamos discutindo uma questão como se não tivéssemos quase brigado no corredor. Eu fazia uma pergunta, ela respondia. Eu questionava um detalhe, ela me mostrava o raciocínio. Em alguns momentos, eu tentava provocar, mas Mirella devolvia na mesma moeda. Era uma dinâmica diferente de tudo a que eu estava acostumado. E não era r**m. Quando o horário se aproximou do fim, eu estava resolvendo um exercício mais complexo, concentrado nos cálculos. — Confere aí — falei, virando o caderno. Mirella analisou a resposta e apontou para a última linha. — Aqui você precisa ajustar esse valor. Franzi a testa, revisei a conta e percebi o erro. — Ah, c*****o. É verdade. Corrigi o resultado. Ela conferiu novamente. — Agora está certo. Encostei na cadeira, satisfeito. — Viu? Estou evoluindo. — Está. Olhei para ela. Mirella guardou as folhas na pasta, sem fazer festa nem transformar aquilo num acontecimento extraordinário. Aquilo me incomodou um pouco. Eu tinha me esforçado. Queria ouvir alguma coisa além de uma palavra. — Tu é econômica nos elogios, hein? Ela levantou os olhos. — Você quer que eu minta? — Não. — Então pronto. Você está melhorando. Mas ainda precisa estudar sozinho durante a semana. Soltei uma risada. — Tu não perde uma oportunidade. — Nem você. Ficamos nos olhando por um instante, e percebi que o sorriso dela era diferente quando não estava irritada comigo. Mais leve. Quase bonito demais para alguém que passava boa parte do tempo me dando bronca. Afastei o pensamento antes que ele fosse longe demais. Mirella terminou de guardar os materiais e se levantou. — Quinta-feira, no mesmo horário, se a coordenação confirmar. Levantei também. — Tu vai estar aqui? Ela me olhou, confusa. — Se confirmarem, sim. Por quê? Dei de ombros. — Só perguntando. — Então está perguntado. Pegou a bolsa e caminhou até a porta. — Até quinta, Vicente. — Até, Mirella. Ela saiu sem olhar para trás. Fiquei alguns segundos parado, observando a porta fechada. Eu não gostava de esperar. Não gostava de mudanças de horário e muito menos de gente que parecia determinada a me contrariar em tudo. Ainda assim, quando Mirella foi embora, a sala pareceu ficar silenciosa demais. E eu odiei perceber isso. Meu celular começou a tocar quando eu estava saindo do prédio. Sara. Atendi enquanto atravessava o estacionamento. — Fala. — Nossa, que entusiasmo! — ela respondeu. — Está ocupado? — Tô saindo da faculdade. — De novo? Franzi a testa. — Como assim, de novo? — Vicente, você anda passando mais tempo nessa faculdade do que antes. A gente quase não se vê, e, quando eu ligo, você está sempre ocupado. Abri a porta do carro, mas não entrei. — Eu tenho umas coisas pra resolver. — Que coisas? — Faculdade, Sara. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Você está fazendo isso por causa daquela história das suas notas? — Também. — E quem é a pessoa que está te ajudando? Olhei para o prédio por onde Mirella havia desaparecido. Não sabia por que a pergunta me incomodou. Talvez porque eu não estivesse acostumado a prestar tanta atenção em alguém que, até poucos dias atrás, nem existia na minha rotina. — É uma tutora da faculdade — respondi. — Uma tutora? — É, p***a. Uma tutora. Ela me ajuda com Estatística. — E você precisa estudar com ela tantas vezes assim? Fechei os olhos por um instante. Aquela conversa estava começando a me cansar. — Sara, eu tenho que melhorar minhas notas. Não vou resolver isso faltando aos encontros. — Você poderia ter me contado que estava tão ocupado. — Eu não sabia que precisava apresentar relatório da minha agenda. — Não começa, Vicente. Passei a mão pelo rosto. — Então não transforma uma coisa simples numa discussão. Ela soltou uma risada sem humor. — Engraçado. Quando você quer me ver, nunca parece difícil arrumar tempo. Agora que eu quero saber o que está acontecendo, você fica irritado. Fiquei quieto por alguns segundos. Eu sabia que Sara queria mais de mim do que eu estava disposto a oferecer. Já tínhamos conversado sobre isso, e eu não pretendia prometer um relacionamento só para evitar uma discussão. Mas também não estava com paciência para aquela conversa naquele momento. — Eu estou estudando, Sara. Só isso. — Espero que seja só isso mesmo. A frase me fez franzir a testa. — Que p***a você quer dizer com isso? — Nada. Esquece. — Sara… — Tenho que desligar. Depois a gente conversa. Ela encerrou a ligação antes que eu pudesse responder. Fiquei olhando para o celular, irritado. Não gostava de cobrança, muito menos de insinuações. Eu não estava fazendo nada de errado. Estava tentando resolver um problema na faculdade, e não tinha obrigação de transformar cada compromisso numa discussão. Guardei o aparelho e entrei no carro. Mas, quando liguei o motor, minha cabeça voltou para a sala de estudos. Para o jeito como Mirella me enfrentou no corredor. Para a resposta que me deixou sem palavras. E para aquela pergunta simples que eu tinha feito antes de ela sair. Tu vai estar aqui? Eu queria que ela estivesse. Não porque fosse bonita — embora fosse. Não porque gostasse de provocar — apesar de fazer isso muito bem. Eu queria voltar a sentar diante dela, abrir o caderno e descobrir qual seria a próxima resposta atravessada que receberia. A constatação me fez soltar uma risada incrédula. — Ah, vai tomar no cu, Vicente — murmurei para mim mesmo. Eu tinha problemas suficientes para resolver. E não precisava de mais um. Muito menos de uma garota que parecia ter prazer em me tirar do sério. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Vicente está começando a gostar da companhia de Mirella, mas Sara já percebeu que algo mudou. Será que esse ciúme vai trazer confusão? ❤️
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