CAPÍTULO 18 — NÃO CONFUNDE AS COISAS
Narradora: Mirella
— Se você continuar olhando para esse celular, vai acabar fazendo um buraco na tela.
Levantei os olhos e encontrei Camila me encarando do outro lado da mesa da cantina.
— Estou vendo o horário.
— Sei. E eu sou a própria Beyoncé.
— Camila, pelo amor de Deus!
Ela caiu na gargalhada, roubando uma batata frita do meu prato.
— Tá bom, não vou perguntar nada. Só acho engraçado você ficar toda distraída depois de passar a manhã inteira reclamando daquele homem.
— Eu não estou distraída por causa dele.
— Claro que não. Você só falou o nome dele umas quinze vezes desde que chegou.
Revirei os olhos e peguei meu suco.
— Ele é meu aluno. Preciso pensar nas atividades que vou preparar.
— E nas tatuagens dele também?
Quase engasguei.
— VOCÊ É DOENTE!
Camila bateu na mesa, rindo tanto que uma garota sentada perto de nós olhou feio.
— Fala baixo, mulher! Eu só perguntei!
— Perguntou porque é uma intrometida.
— Sou sua melhor amiga. Faz parte do contrato.
Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.
O problema era que Camila não estava completamente errada. Vicente tinha uma aparência difícil de ignorar, e eu seria hipócrita se dissesse que não tinha reparado nisso. Mas uma coisa era reconhecer que um homem era bonito. Outra, muito diferente, era permitir que essa constatação virasse alguma coisa.
Eu tinha objetivos demais para perder o foco por causa de um cara arrogante.
— Vamos mudar de assunto — pedi.
— Vamos. Você vai à biblioteca depois da aula?
— Vou.
— Ótimo. Eu tenho umas coisas para resolver e depois te encontro.
Assenti, aliviada por finalmente encerrarmos aquela conversa.
Pelo menos, até o universo decidir me testar de novo.
A sessão com Vicente terminou no início da tarde.
Ele tinha conseguido resolver os exercícios propostos, embora tivesse reclamado de metade deles e tentado discutir comigo sobre uma fórmula que, segundo ele, não fazia o menor sentido.
— Faz sentido, sim — falei, guardando meus materiais. — Você só não gosta porque precisa prestar atenção.
Ele encostou na cadeira, com aquele sorriso debochado.
— Tu adora dizer que eu sou desatento.
— E você adora provar que estou certa.
— Tu é sempre assim com seus alunos?
— Só com os que me dão trabalho.
Vicente riu, e eu precisei me concentrar em fechar a bolsa para não ficar olhando para ele por tempo demais.
— Quinta-feira, então? — ele perguntou.
— Quinta-feira.
— Não vai fugir de mim?
Olhei para ele.
— Fugir? Você se acha tão importante assim?
— Um pouquinho.
— Pois diminui esse pouquinho.
Ele levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— c*****o, Mirella! Tu não tem coração, não?
— Tenho. E ele está mandando você fazer os exercícios em casa.
Saí da sala antes que ele encontrasse outra provocação.
Quando chegamos ao corredor, havia algumas pessoas circulando perto da entrada. Eu estava procurando meu celular dentro da bolsa quando ouvi uma voz feminina.
— Vicente!
Ele virou a cabeça.
Uma mulher bonita, muito bem arrumada, vinha na nossa direção. Usava uma roupa que parecia custar mais do que tudo o que eu tinha no guarda-roupa e caminhava com a confiança de quem já conhecia aquele ambiente.
Ela foi direto até ele, passou os braços pelo pescoço dele e deu um beijo demorado em sua boca.
Desviei os olhos imediatamente.
Não porque me importasse.
Só porque não tinha a menor vontade de assistir à i********e alheia.
— Demorou pra me responder — ela reclamou, ainda perto dele.
— Tava ocupado, Sara.
— Eu percebi.
O olhar dela finalmente encontrou o meu.
Foi rápido, mas suficiente para que eu notasse a mudança em sua expressão. Os olhos passaram pelo meu rosto, pela minha roupa simples e pela bolsa pendurada no meu ombro.
— E essa é…?
Vicente se afastou um pouco dela.
— Mirella. Minha tutora.
Sara ergueu as sobrancelhas.
— Sua tutora?
— É.
— Ah.
Aquele pequeno som carregava uma quantidade impressionante de desconfiança.
Forcei um sorriso educado.
— Oi.
— Oi — ela respondeu, sem sorrir de volta.
Vicente pegou o celular e conferiu uma notificação.
— Vou ali resolver uma coisa. Já volto.
Sara segurou o braço dele.
— Agora?
— É rapidinho.
Ele se afastou antes que ela respondesse, deixando nós duas perto da janela.
Eu poderia ter aproveitado para ir embora, mas estava terminando de guardar meus materiais quando Sara resolveu falar.
— Você estuda aqui também?
— Estudo.
— Qual curso?
— Arquitetura e Urbanismo.
Ela assentiu lentamente.
— Entendi.
Continuei organizando a bolsa, esperando que a conversa terminasse ali.
Não terminou.
— Faz muito tempo que você conhece o Vicente?
Levantei os olhos.
— Não. Começamos o acompanhamento acadêmico recentemente.
— E vocês ficam sozinhos nessas sessões?
A pergunta me fez franzir a testa.
— Sara, eu sou tutora dele. É assim que funciona.
Ela cruzou os braços.
— Não precisa ficar na defensiva. Só estou perguntando.
Respirei fundo.
— E eu estou respondendo.
Sara soltou uma risadinha sem humor.
— Olha, vou te dar um conselho. O Vicente é acostumado a ter tudo o que quer. Ele gosta de atenção, gosta de mulher em cima dele e sabe muito bem como conseguir isso.
A maneira como ela falou me incomodou.
— Não sei por que você está me contando isso.
— Porque já vi muita garota se aproximar dele achando que vai conseguir alguma coisa.
Fiquei olhando para ela, tentando compreender aonde queria chegar.
Então entendi.
E a irritação veio na mesma hora.
— Você está insinuando que eu estou me aproximando dele por interesse?
Sara inclinou a cabeça.
— Eu não disse isso.
— Não precisa. Está bem claro.
Ela me examinou de cima a baixo mais uma vez.
— Só acho importante você saber que o Vicente vive em outro mundo. Ele tem dinheiro, influência, uma família importante. Não é qualquer garota que consegue fazer parte da vida dele.
Senti meu rosto esquentar.
Não de vergonha.
De raiva.
— Ainda bem que eu não estou tentando fazer parte da vida dele.
Sara abriu a boca, mas continuei antes que pudesse me interromper.
— Eu trabalho com ele por causa da faculdade. Tenho minhas aulas, meus compromissos e meus próprios problemas para resolver. Não preciso do dinheiro dele, não estou atrás do sobrenome dele e muito menos quero disputar homem com alguém.
Ela pareceu surpresa com a firmeza da minha resposta.
— Você está levando isso muito a sério.
— Porque você está me desrespeitando.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
— Eu só estou tentando evitar que você se machuque.
— Então pode ficar tranquila. Eu sei cuidar de mim.
— Mirella, não precisa—
— Preciso, sim. Você veio até mim para falar sobre o homem com quem se relaciona, como se eu tivesse alguma intenção escondida. Eu nem sabia quem você era até alguns minutos atrás.
Sara ficou vermelha.
— Eu não tenho relacionamento com ele.
A resposta saiu rápida demais.
Olhei para ela, surpresa.
— Então vocês estão fazendo o quê?
Ela apertou os lábios.
— Isso não é da sua conta.
— Concordo. Assim como minha vida não é da sua.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Eu estava nervosa, mas não pretendia recuar. Já tinha passado por situações demais na vida para aceitar que alguém me tratasse como se meu trabalho ou minha condição financeira me tornassem inferior.
Eu podia ser pobre.
Podia trabalhar limpando casas.
Podia precisar contar cada real antes de gastar.
Mas não precisava me humilhar para caber no mundo de ninguém.
— Espero que tenha entendido — falei, ajeitando a bolsa no ombro. — Eu vim estudar. Não estou aqui para tomar o lugar de ninguém.
— Tomar meu lugar? — Sara repetiu, ofendida. — Você se acha importante demais.
— Não. Só acho que você deveria resolver suas inseguranças com a pessoa certa.
— Que garota atrevida!
— Já me disseram isso hoje.
Ouvi uma voz masculina atrás de nós.
— Tá acontecendo alguma coisa aqui?
Vicente havia voltado.
Sara se virou imediatamente.
— Nada.
Ele olhou para ela, depois para mim.
— Engraçado. Porque eu ouvi meu nome daqui.
Não respondi.
Não queria transformar aquela situação numa discussão maior. Peguei a bolsa e dei um passo para o lado.
Sara, porém, ainda estava irritada.
— Eu só estava conversando com a sua tutora.
Vicente estreitou os olhos.
— Conversando sobre o quê?
— Sobre você.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Ah, pronto. Agora até minha vida acadêmica virou assunto?
— Não começa, Vicente!
— Quem começou foi tu, p***a. A Mirella tá aqui pra me ajudar com a faculdade. Se tu tem algum problema comigo, fala comigo. Não fica enchendo o saco dela.
Fiquei surpresa.
Não porque ele tivesse me defendido, mas porque não esperava que fosse cortar a conversa daquela maneira.
Sara cruzou os braços.
— Você está defendendo ela?
Vicente deu um passo na direção dela.
— Estou dizendo pra tu parar de arrumar confusão onde não tem.
— Eu não arrumei confusão nenhuma!
— Então acabou o assunto.
O tom dele foi tão firme que Sara ficou calada por alguns segundos.
Eu não gostava de conflitos e muito menos de estar no meio de um problema que não era meu. Por isso, aproveitei a pausa para me despedir.
— Eu preciso ir.
Vicente virou o rosto para mim.
— Mirella, espera…
— Não precisa.
Ele franziu a testa.
— Eu só queria—
— Eu ouvi o que você disse. Obrigada, mas sei me defender sozinha.
A expressão dele mudou.
Não parecia irritado. Parecia ter entendido que eu não queria transformar aquela intervenção em uma dívida.
— Tá — respondeu, depois de uma pausa.
Olhei para Sara uma última vez.
— Com licença.
E fui embora.
Não queria ouvir mais nada, nem dar espaço para que aquela mulher interpretasse minha presença de outra maneira.
Enquanto caminhava pelo corredor, senti o coração acelerado. Eu estava com raiva, mas também incomodada com o fato de Vicente ter presenciado parte daquela conversa.
Não queria que ele pensasse que eu precisava ser defendida.
Muito menos que confundisse a situação com alguma espécie de i********e entre nós.
Eu era sua tutora.
E era melhor que continuasse assim.
Camila me encontrou perto da biblioteca, sentada num banco, tentando terminar uma mensagem para a coordenação.
Bastou olhar para o meu rosto para perceber que havia alguma coisa errada.
— O que aconteceu?
— Nada.
Ela estreitou os olhos.
— Mirella.
Suspirei.
— Conheci a Sara.
Camila arregalou os olhos.
— A ficante do Vicente?
— Pelo visto, sim.
— E aí?
Contei o que havia acontecido, desde o beijo no corredor até as insinuações sobre eu estar interessada nele por causa do dinheiro.
Camila ficou indignada.
— Ah, não! Quem ela pensa que é? Você devia ter mandado essa mulher cuidar da própria vida!
— Eu mandei.
— E o Vicente?
Hesitei por um instante.
— Ele ouviu parte da conversa e pediu que ela parasse.
Camila me encarou com um sorriso que começou pequeno e foi crescendo.
— Olha só…
— Não começa.
— Eu não falei nada!
— Mas está pensando.
Ela se sentou ao meu lado.
— Tá bom, vou perguntar de outro jeito. Você ficou mexida porque ele te defendeu?
— Não.
— Mirella…
— Camila, eu fiquei irritada porque fui acusada de uma coisa que não fiz. Só isso.
— E porque ele é bonito?
— CAMILA!
Ela caiu na gargalhada.
— Tá bom! Parei! Mas, amiga, você não pode fingir que não existe uma tensãozinha aí.
Olhei para ela, incrédula.
— Que tensão, criatura? A gente discute mais do que conversa!
— Às vezes é assim que começa.
— Não começa nada. Ele tem a vida dele, eu tenho a minha. E eu não quero me meter em confusão com mulher nenhuma.
Camila ficou mais séria.
— Eu sei. Só não quero que você se convença de que não pode sentir nada por alguém porque está ocupada demais tentando sobreviver.
Aquelas palavras me fizeram perder o sorriso.
Baixei os olhos para as mãos.
— Não é isso.
— Então o que é?
Demorei um pouco para responder.
— Eu só não quero perder o foco. Passei tempo demais lutando para conseguir estudar. Não posso deixar que um homem, por mais bonito que seja, transforme tudo numa bagunça.
Camila segurou minha mão.
— E não precisa. Você pode conhecer alguém sem abandonar seus sonhos. Mas também não precisa decidir agora o que sente ou deixa de sentir.
Respirei fundo.
Eu sabia que ela estava tentando me ajudar. Ainda assim, preferia manter distância daquela possibilidade.
Vicente era complicado demais.
E eu não tinha a menor intenção de descobrir até onde aquela complicação poderia chegar.
— Vamos para a biblioteca — pedi, levantando.
Camila sorriu.
— Vamos. Mas, se ele mandar mensagem hoje, você vai me contar.
— Não vou.
— Vai, sim.
— Camila!
— Amiga, eu te conheço desde antes de você saber fazer delineado. Não adianta mentir pra mim!
Acabei rindo, e nós seguimos para dentro do prédio.
Tentei me concentrar nos estudos pelo resto da tarde. Consegui adiantar parte das leituras e organizar algumas atividades, mas, de vez em quando, minha memória insistia em voltar àquele corredor.
Ao olhar de Vicente quando percebeu a discussão.
À maneira como ele cortou Sara.
E ao fato de que, depois de tudo, eu ainda não sabia exatamente o que pensar dele.
Já estava em casa quando recebi uma mensagem.
Vicente: Mirella, fiquei com uma dúvida naquele último exercício.
Olhei para a tela e soltei uma risada sem humor.
Estatística.
Claro.
Abri o caderno, encontrei a questão e reli os cálculos antes de responder.
Eu: Qual parte?
Ele mandou uma foto do exercício, circulando uma etapa específica.
Expliquei o raciocínio em algumas mensagens, mostrando onde ele precisava prestar atenção e como conferir o resultado.
A resposta chegou pouco depois.
Vicente: Agora entendi.
Sorri, satisfeita por ele ter conseguido resolver.
Eu: Ótimo. Tenta fazer outro parecido amanhã para fixar.
Vicente: Tu nunca descansa?
Franzi a testa.
Eu: Como assim?
Vicente: Tu trabalha, estuda, ainda fica me mandando exercício. Não cansa, não?
Fiquei olhando para a mensagem.
Era uma pergunta simples, mas eu não esperava que ele demonstrasse interesse pela minha rotina.
Eu: Canso. Mas preciso fazer as coisas.
A resposta dele demorou um pouco.
Vicente: Tu sempre foi assim?
Mordi o lábio, pensando no que responder.
Eu: Assim como?
Vicente: Teimosa. Parece que prefere se matar de trabalhar a aceitar ajuda.
Meu sorriso desapareceu.
Não gostei da maneira como ele colocou aquilo. Talvez porque estivesse perto demais de uma verdade que eu não costumava admitir em voz alta.
Eu: Eu aceito ajuda quando ela não vem acompanhada de cobranças.
Dessa vez, ele respondeu quase imediatamente.
Vicente: Tá me chamando de cobrador?
Eu: Se a carapuça serviu…
Apareceram os três pontinhos na tela.
Depois, a mensagem chegou.
Vicente: Tu é impossível, sabia?
Eu: Você já disse isso.
Vicente: E continuo certo.
Sorri, balançando a cabeça.
Eu deveria encerrar a conversa. Já tinha respondido à dúvida acadêmica, e não havia motivo para continuar trocando mensagens.
Mas, antes que eu pudesse me despedir, ele mandou outra.
Vicente: Posso te perguntar uma coisa que não tem nada a ver com a faculdade?
Meu coração deu uma batida mais forte.
Fiquei olhando para a tela, desconfiada.
Eu: Depende da pergunta.
A resposta veio segundos depois.
Vicente: Tu tem namorado, Mirella?
Fiquei imóvel.
Li a mensagem uma vez.
Depois outra.
E mais uma.
— Ah, não… — murmurei, sentando na beirada da cama.
Aquele homem não podia estar falando sério.
Digitei uma resposta, apaguei e comecei de novo.
Eu: Por que você quer saber?
A resposta dele apareceu quase imediatamente.
Vicente: Curiosidade, p***a.
Soltei uma risada nervosa.
Curiosidade.
Era sempre assim que as confusões começavam, não era?
E eu tinha a sensação de que Vicente estava prestes a se tornar a maior delas.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Vicente começou perguntando sobre Estatística, mas terminou querendo saber da vida amorosa de Mirella. O que será que ele vai fazer quando descobrir a resposta? ❤️