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1784 Words
CAPÍTULO 19 — DEPOIS DAS DEZ Narrador: Vicente Eu devia estar dormindo. Eram quase dez e meia da noite, eu tinha uma lista de exercícios para terminar e, no dia seguinte, precisava resolver umas coisas com meu pai antes de ir para a faculdade. Mas estava deitado na cama, com o celular na mão, esperando uma garota responder à minha pergunta. Tu tem namorado, Mirella? Quando mandei aquela mensagem, achei que ela fosse responder de uma vez. Talvez dissesse que sim, talvez dissesse que não. Não era uma pergunta tão complicada. Só que Mirella parecia gostar de me deixar esperando. O celular vibrou. Mirella: Você não respondeu por que quer saber. Sorri, passando a língua pelos lábios. Eu: c*****o, tu é desconfiada assim com todo mundo? Mirella: Só com quem faz perguntas pessoais do nada. Eu: A gente conversa há um tempinho já. Mirella: A gente estuda junto, Vicente. Não é a mesma coisa. Ri sozinho. — Que garota difícil, p***a. Digitei outra mensagem. Eu: Tá bom, professora. Foi curiosidade. Mirella: Curiosidade sobre a minha vida amorosa? Eu: Exatamente. Mirella: Você não tem uma série para assistir? Um amigo para incomodar? Uma prova para estudar? Soltei uma gargalhada tão alta que ouvi meu pai bater na porta. — Vicente? Tá tudo bem aí? — Tá, pai! — Tá rindo de quê? Olhei para a tela, onde Mirella acabara de mandar outra mensagem. Mirella: E não esquece os exercícios de amanhã. Mordi o lábio para segurar o sorriso. — Nada, não! Tô estudando! Meu pai resmungou alguma coisa do outro lado, provavelmente sem acreditar em uma palavra, e se afastou. Voltei para a conversa. Eu: Tu é insuportável, sabia? Mirella: Você já me disse isso. Eu: E continuo certo. Mirella: Então estamos de acordo em alguma coisa. Fiquei olhando para a mensagem, sorrindo como um i****a. Era impressionante como aquela garota conseguia transformar uma conversa simples numa disputa. Eu provocava, ela devolvia. Eu tentava conseguir uma resposta, ela me fazia outras três perguntas. E o pior? Eu estava gostando. Eu: Mas tu ainda não respondeu. Mirella: Você é insistente, hein? Eu: Quando quero saber de alguma coisa, sim. Mirella: Então vai continuar sem saber. Joguei a cabeça no travesseiro e ri. — Filha da p**a… A vontade de insistir era grande, mas eu não queria dar a ela a satisfação de perceber o quanto aquela resposta me interessava. Por isso, mudei de assunto. Eu: Tá fazendo o quê agora? Mirella: Conversando com um homem inconveniente. Eu: Bonito pelo menos? A resposta demorou alguns segundos. Mirella: Convencido. Eu: Não foi isso que perguntei. Mirella: E eu não sou obrigada a responder tudo o que você pergunta. Sorri, sentindo uma satisfação absurda com aquela troca. Eu: Tu sempre fala assim com homem? Mirella: Só com os que acham que podem mandar em mim. Eu: Então comigo tu vai ter bastante trabalho. Mirella: Já percebi. Agora vai estudar. Ri novamente. A garota tinha conseguido me dar uma bronca por mensagem sem nem estar na minha frente. E eu, que costumava perder a paciência quando alguém tentava me controlar, estava ali obedecendo parcialmente à ordem dela: abri o caderno, resolvi mais duas questões e mandei uma foto das respostas. Eu: Pronto. Feliz? Mirella: Vou conferir. Esperei. Aqueles poucos minutos pareceram ridículos. Eu já tinha recebido respostas de homens que trabalhavam comigo, mensagens de Jorge, ligações que precisava retornar e cobranças do meu pai. Nada daquilo exigia a minha atenção como aquela tela. Finalmente, o celular vibrou. Mirella: Duas certas. Na terceira, você errou a interpretação do enunciado. Fechei os olhos. — Não é possível, p***a! Eu: Tu tá inventando erro pra me manter aqui. Mirella: Claro. Minha grande missão de vida é impedir você de dormir. Eu: Sabia que tinha alguma coisa por trás disso. Mirella: Refaz a terceira questão, Vicente. Fiz o que ela pediu. Dessa vez, li o enunciado com mais calma, percebi onde tinha me confundido e corrigi a resposta. Eu: Agora foi. Mirella: Agora foi. Parabéns. Sorri para a tela. Eu: Olha aí! Um elogio de verdade. Vou até tirar print. Mirella: Não se acostuma. Eu estava prestes a responder quando Jorge ligou. Atendi com o celular encostado à orelha. — Fala, desgraçado. — Tu tá fazendo o quê? — Nada. — Nada? São quase onze da noite, tu tá acordado e não respondeu minhas mensagens há uma hora. — E daí? — E daí que eu te conheço, p***a. Tu só ignora o mundo assim quando tá ocupado com alguma coisa interessante. Olhei para a conversa aberta. — Tô resolvendo uns exercícios. Jorge ficou em silêncio. Depois começou a rir. — Não acredito. — Não acredita no quê, c*****o? — Tu tá estudando por vontade própria? — Vai tomar no cu, Jorge. Ele gargalhou ainda mais. — Peraí… Tem alguém te ajudando? — Tenho uma tutora. Tu sabe disso. — Sei. A tutora. O jeito como ele enfatizou a palavra me fez apertar os olhos. — Fala logo o que tu quer. — Quero saber se tu tá estudando Estatística ou tentando conquistar a professora. Levantei da cama. — Tu tá ficando maluco. — Então por que tá sorrindo? Passei a mão pelo rosto. — Eu não tô sorrindo, p***a! — Tá, sim! Tô ouvindo tua voz, desgraçado! Tu tá com aquela voz de quem tá aprontando. — Jorge, eu vou desligar. — Calma, c*****o! Só tô perguntando. Qual é o nome dela mesmo? — Mirella. A resposta saiu antes que eu pensasse. Do outro lado, Jorge ficou quieto por um segundo. Depois soltou uma gargalhada tão alta que precisei afastar o celular do ouvido. — TU SABE O NOME DELA DE COR! — É MINHA TUTORA, p***a! — E eu sou o papa! — Vai se f***r! Ele continuou rindo. — Tá bom, irmão. Não vou te atrapalhar. Só não esquece de estudar, hein? Vai que a professora resolve te dar uma prova oral. — Desliga essa merda! Encerrei a ligação. Fiquei alguns segundos olhando para o celular, irritado com Jorge e comigo mesmo. Eu não estava tentando conquistar ninguém. Gostava de conversar com Mirella porque ela era engraçada, tinha personalidade e não ficava me bajulando. Só isso. Não precisava transformar aquilo em outra coisa. Muito menos porque Jorge tinha decidido encher meu saco. Voltei para a conversa. Eu: Meu amigo é um i****a. Mirella: O Jorge? Franzi a testa. Eu: Como tu sabe? Mirella: Você vive reclamando dele. Ri. Eu: O desgraçado acha que eu tô tentando te conquistar. A mensagem foi enviada antes que eu percebesse o que tinha escrito. Fiquei imóvel. — Ah, p**a que pariu… Tentei pensar numa maneira de consertar aquilo sem parecer um completo i****a. Os três pontinhos apareceram na tela. Sumiram. Voltaram. Então chegou a resposta. Mirella: E você está? Meu sorriso desapareceu. Caralho. Agora ela tinha virado o jogo. Fiquei olhando para a pergunta por tempo demais. Eu poderia fazer uma piada. Poderia dizer que ela se achava importante. Poderia responder qualquer merda e mudar de assunto. Mas, pela primeira vez naquela noite, não encontrei uma resposta que me parecesse boa. Eu: Tu gostaria que eu estivesse? Assim que enviei, soltei uma risada incrédula. Eu estava flertando com a minha tutora. E nem sabia em que momento a conversa tinha chegado àquele ponto. A resposta demorou. Um minuto. Dois. Eu estava quase mandando outra mensagem quando o celular vibrou. Mirella: Boa noite, Vicente. Estude mais e pare de me fazer perguntas sem sentido. Soltei uma gargalhada. — Desgraçada! Ela tinha encerrado a conversa sem responder. E eu estava sorrindo feito um i****a. Eu: Fugiu da pergunta, professora? Nenhuma resposta. Eu: Mirella? Nada. Eu: Tá me ignorando? A mensagem foi entregue, mas ela não respondeu. Joguei o celular na cama e passei as mãos pelo rosto. — Vai tomar no cu, Vicente. Eu tinha passado a noite tentando descobrir se ela tinha namorado e terminei sem saber absolutamente nada. Só sabia que ela conseguia me deixar curioso, irritado e entretido ao mesmo tempo. E aquilo era um problema. Porque eu não costumava insistir tanto em algo que não podia controlar. Deitei, apaguei a luz e fiquei olhando para o teto. O celular vibrou uma última vez. Peguei depressa. Era uma mensagem da coordenação lembrando o horário da próxima sessão. Franzi a testa. Amanhã? Abri a agenda e conferi o compromisso. Eu tinha certeza de que Mirella estaria lá. Ela não parecia o tipo de pessoa que faltava sem avisar. Ainda assim, antes de dormir, abri a conversa mais uma vez. Nenhuma mensagem nova. Deixei o celular ao meu lado e fechei os olhos. Não estava esperando que ela mandasse outra mensagem. Claro que não. Só estava conferindo. Na manhã seguinte, cheguei à faculdade no horário combinado. Sentei na sala de estudos, coloquei o material sobre a mesa e esperei. Cinco minutos. Dez. Quinze. Mirella não apareceu. Mandei uma mensagem. Eu: Tu tá vindo? Aguardei um pouco, mas não recebi resposta. Liguei para a coordenação e fui informado de que ela havia comunicado um imprevisto, mas que ainda estavam tentando ajustar a situação. Desliguei, irritado. — p**a que pariu! Peguei o celular e mandei outra mensagem. Eu: Mirella, aconteceu alguma coisa? Dessa vez, não escrevi outra provocação. Não perguntei se ela estava me ignorando nem fiz piada sobre a pontualidade. Eu só queria saber o que tinha acontecido. Mas a resposta não veio. Levantei, guardei o material e saí da sala. Eu não gostava de esperar, muito menos de ficar sem saber o que estava acontecendo. E, embora ainda não estivesse disposto a admitir, a ausência dela tinha mexido comigo mais do que deveria. Peguei o celular e liguei para a coordenação novamente. — Preciso saber se ela está bem — falei, tentando controlar o tom de voz. — Não quero informações pessoais. Só preciso saber se o encontro vai ser remarcado. A funcionária me garantiu que entraria em contato assim que tivesse uma confirmação. Encerrei a ligação e fiquei parado no corredor, olhando para a tela. Mirella tinha uma rotina cheia. Eu sabia disso. Trabalhava, estudava e tentava organizar a própria vida sem depender de ninguém. Talvez tivesse acontecido alguma coisa no serviço. Talvez fosse um problema com a faculdade. Talvez simplesmente não pudesse responder. Eu não tinha como saber. Mas, enquanto caminhava em direção ao estacionamento, percebi que não estava mais irritado apenas porque tinha perdido uma sessão de estudos. Eu queria saber onde ela estava. E por que, pela primeira vez desde que a conheci, não conseguia parar de pensar nela. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Vicente passou a noite provocando Mirella e agora está preocupado com o sumiço dela. O que será que aconteceu? ❤️
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