CAPÍTULO 1 — MIRELLA
Oiii, tudo bem? Meu nome é Mirella, tenho 23 anos e sou moradora da Rocinha, no Rio de Janeiro. Antes de começar a contar minha história, preciso avisar que minha vida está longe de ser um conto de fadas. Não tenho dinheiro, não tenho uma família grande para me apoiar e muito menos uma vida fácil. O que tenho são meus sonhos, minha força de vontade e as lembranças da mulher que me ensinou a nunca desistir, mesmo quando tudo parece estar dando errado.
Hoje fazem sete dias desde o maior tiroteio que essa comunidade já viu nos últimos tempos. Sete dias desde que minha vida mudou de uma maneira que eu jamais imaginei. A semana está sendo corrida, cansativa e, acima de tudo, muito triste. Tem momentos em que consigo me distrair com o trabalho, com os estudos e com as coisas que preciso fazer, mas basta ficar sozinha por alguns minutos para meus pensamentos voltarem para o mesmo lugar.
Minha mãe.
Puta merda, como dói pensar nela e lembrar que não vou mais encontrar seu sorriso quando abrir a porta de casa. Não vou mais ouvir sua voz perguntando se já comi, se estou cansada ou se preciso de alguma coisa. Não vou mais receber aquele abraço apertado que fazia qualquer problema parecer pequeno.
Às vezes, ainda me pego pensando que vou chegar em casa e encontrá-la sentada na cozinha, esperando por mim. Em outras ocasiões, acordo no meio da noite com a sensação de que ouvi sua voz me chamando. Então lembro da verdade, e o vazio volta a ocupar meu peito.
Minha mãe morreu durante aquele tiroteio. Ela não tinha nada a ver com os conflitos que acontecem aqui, não estava envolvida com ninguém e não merecia ter sua vida interrompida daquela maneira. Era uma mulher trabalhadora, simples e honesta, que passava os dias fazendo o possível para que eu tivesse oportunidades melhores do que as que ela teve.
E foi embora sem me ver realizar o maior sonho que nós duas compartilhávamos.
Mas, mesmo com toda essa dor, eu não posso desistir.
Minha mãe sempre me dizia que eu precisava ser uma mulher forte, correr atrás dos meus objetivos e nunca permitir que as dificuldades decidissem meu destino. Ela repetia que a pobreza não era vergonha, que trabalhar honestamente era motivo de orgulho e que estudar seria uma das maneiras de eu conquistar minha independência.
Eu guardo cada palavra dela dentro de mim.
Sei que, de algum lugar, ela está olhando por mim. Gosto de acreditar que continua ao meu lado, mesmo que eu não consiga mais segurá-la pela mão. E é por ela, por tudo o que vivemos e por tudo o que ainda quero conquistar, que vou continuar lutando.
Hoje também é um dia muito importante para o meu futuro.
Vou fazer uma prova que poderá mudar a minha vida. Dependendo da minha nota, terei a oportunidade de conquistar uma bolsa de estudos para cursar Arquitetura e Urbanismo em uma faculdade particular. Desde pequena, sonho em ser arquiteta. Sempre gostei de desenhar casas, imaginar ambientes e pensar em como transformar espaços simples em lugares bonitos e acolhedores.
Minha mãe adorava quando eu mostrava meus desenhos. Mesmo quando eram apenas rabiscos feitos em folhas usadas, ela olhava para cada um como se eu tivesse criado a casa mais bonita do mundo.
— Um dia, minha filha, você ainda vai construir casas lindas. E eu vou entrar em cada uma delas me gabando de que a arquiteta é minha menina — ela dizia, toda orgulhosa.
Só de lembrar, meus olhos se enchem de lágrimas.
Respiro fundo e passo as mãos pelo rosto, tentando afastar o choro. Não posso passar o dia inteiro chorando, por mais que uma parte de mim queira se esconder debaixo das cobertas e não sair de lá nunca mais.
Tenho uma vida para reconstruir.
E preciso começar hoje.
Acordo antes mesmo de o despertador tocar. O relógio marca cinco e vinte da manhã, e o céu ainda está escuro. Por alguns segundos, permaneço deitada, olhando para o teto do pequeno quarto onde moro. O silêncio da casa é tão grande que consigo ouvir o barulho distante das motos passando pela comunidade.
Viro o rosto para o lado e observo o espaço vazio na cama ao lado da minha.
Era ali que minha mãe costumava sentar para conversar comigo antes de dormir.
A garganta aperta, e sinto aquela vontade absurda de chorar novamente.
— Bom dia, mãe — sussurro, com a voz embargada. — Cuida de mim hoje, tá? Eu preciso muito que dê tudo certo.
Fico alguns segundos em silêncio, como se esperasse uma resposta. Depois me levanto, porque, infelizmente, as contas não vão desaparecer só porque estou triste.
Vou até o banheiro, lavo o rosto e escovo os dentes. Prendo meus cabelos castanhos em um coque desajeitado e visto uma calça jeans simples, uma blusa básica e meu tênis mais confortável. Escolho uma roupa que possa usar para trabalhar sem me preocupar em sujá-la demais.
Na cozinha, preparo um café rápido. Como um pedaço de pão com manteiga, tomo um pouco de café e separo os materiais que vou precisar para a prova. Confiro meus documentos duas vezes, coloco uma garrafa de água na bolsa e guardo um pequeno caderno onde anotei algumas fórmulas e assuntos que revisei durante a semana.
Antes de sair, olho mais uma vez para a casa.
É pequena, tem móveis simples e algumas coisas que ainda preciso consertar. Mesmo assim, foi o nosso lar. Cada canto guarda uma lembrança da minha mãe, e ainda não tive coragem de mexer em tudo o que ela deixou.
Fecho a porta e desço pelas ruas da Rocinha.
A comunidade já está começando a acordar. Algumas mulheres caminham apressadas para o trabalho, comerciantes levantam as portas dos estabelecimentos e o cheiro de pão fresco vindo de uma padaria se mistura ao aroma do café que escapa das casas.
Conheço bem essas ruas. Cresci aqui, aprendi a andar por esses becos e sei que, por trás de cada porta, existem pessoas lutando para sobreviver e conquistar uma vida melhor.
Também sei que a realidade não é bonita o tempo todo.
O tráfico está presente, os conflitos fazem parte do cotidiano e pessoas inocentes acabam pagando por situações que não escolheram viver. Foi justamente isso que aconteceu com minha mãe.
Eu tenho raiva dessa realidade. Tenho raiva de ver famílias sofrendo, de ouvir crianças falando sobre tiros como se fosse algo normal e de saber que tanta gente perde a vida sem ter feito absolutamente nada.
E, sinceramente, tenho nojo de traficante.
Não me importa se o homem tem dinheiro, se anda cercado de pessoas ou se todos abaixam a cabeça quando ele passa. Para mim, poder nenhum justifica o sofrimento de uma mãe que perde um filho ou de uma filha que precisa aprender a viver sem a própria mãe.
Talvez algumas pessoas pensem diferente. Eu não julgo quem tenta sobreviver como pode, mas sei muito bem o tipo de vida que quero para mim.
Não quero dinheiro fácil, não quero depender de homem nenhum e não quero me envolver com gente que vive de violência.
Quero estudar, trabalhar, me formar e construir meu futuro com minhas próprias mãos.
É só isso que peço.
Chego à primeira casa pouco antes das seis da manhã. Trabalho como faxineira em várias residências, e cada cliente tem seus horários e suas exigências. Algumas casas são pequenas, outras enormes. Algumas famílias deixam tudo organizado, enquanto outras parecem acreditar que a empregada deve fazer milagres em poucas horas.
Bato à porta da primeira residência, e a empregada que trabalha ali comigo em alguns dias abre para me deixar entrar.
— Bom dia, Mirella.
— Bom dia! Tudo bem?
— Tudo. Você chegou cedo hoje.
— Tenho uma prova importante mais tarde, então preciso adiantar o serviço.
Ela me deseja boa sorte, e entro para começar a limpeza.
Minha rotina é assim: varro, passo pano, limpo banheiros, tiro o pó dos móveis, lavo o que precisa ser lavado e deixo cada ambiente organizado. Não tenho vergonha do meu trabalho. Pelo contrário, tenho orgulho de ganhar meu dinheiro honestamente.
O que me cansa não é limpar uma casa. É saber que, por mais que eu me esforce, o dinheiro m*l dá para cobrir as despesas. É precisar escolher entre comprar alguma coisa de que estou precisando e guardar o valor para os materiais da faculdade. É chegar em casa com os pés doloridos e ainda precisar estudar.
Mas continuo.
Às sete e meia, termino o primeiro serviço e sigo para a segunda residência. A dona da casa não está, como acontece na maioria dos lugares onde trabalho. Recebo as orientações que ela deixou, pego os produtos de limpeza e começo tudo novamente.
Quase nunca vejo meus patrões.
Alguns deixam as chaves comigo, outros combinam os horários em que posso entrar e sair. Conheço as casas muito melhor do que conheço as pessoas que moram nelas. Sei onde ficam os produtos, quais pisos precisam de mais cuidado e como limpar cada móvel sem estragar nada.
Às vezes, encontro fotografias de viagens, roupas caras, perfumes importados e objetos que custam mais do que eu conseguiria juntar em vários meses de trabalho.
Não fico invejando.
Cada pessoa tem sua realidade, e a minha não será sempre assim. Pelo menos é nisso que acredito.
Enquanto limpo uma sala enorme, penso na prova. Repito mentalmente as fórmulas que estudei, lembro dos exercícios que errei durante a revisão e tento imaginar como serão as questões.
— Meu Deus, me ajuda! Eu estudei tanto. Não deixa eu esquecer tudo justo hoje — murmuro, passando um pano sobre a mesa.
Dou uma risadinha sozinha, porque, se alguém me visse conversando com a mesa, provavelmente acharia que enlouqueci.
Mas não enlouqueci.
Só estou cansada, nervosa e tentando manter a cabeça no lugar.
Perto das nove horas, termino o segundo serviço e confiro o celular. Tenho uma mensagem de Camila, minha melhor amiga.
Camila: Amiga, acordou? Tá preparada pra arrasar nessa prova?
Sorrio imediatamente. Camila é uma das poucas pessoas capazes de me fazer sorrir mesmo nos dias em que parece que o mundo está desabando. Ela é extrovertida, engraçada e adora sair, dançar e aproveitar a vida. Somos diferentes em muitas coisas, mas nossa amizade é uma das melhores partes da minha vida.
Eu: Acordei faz tempo, mulher. Já tô trabalhando desde cedo.
Camila: Tu não descansa nunca, não? Kkkkkk. Desse jeito vai virar uma máquina de limpar casa.
Eu: Kkkkkk. Para, menina! Preciso trabalhar.
Camila: Precisa nada, precisa é passar nessa prova e virar uma arquiteta rica pra me dar uma casa bonita.
Eu: Ah, pronto! Já quer se aproveitar de mim antes mesmo de eu entrar na faculdade.
Camila: Claro, amiga. Eu acredito no teu potencial. Já estou planejando meu futuro na sua mansão.
Não consigo segurar a risada.
Eu: Vai sonhando, Camila.
Camila: Agora falando sério. Você estudou, se esforçou e merece essa oportunidade. Vai dar tudo certo. Sua mãe ficaria muito orgulhosa de você.
Meu sorriso diminui um pouco quando leio a última frase. Sinto os olhos arderem, mas dessa vez não é somente tristeza. É saudade misturada com gratidão por ter alguém que entende o quanto esse sonho significa para mim.
Eu: Obrigada, amiga. De verdade. Tô com muito medo, mas vou dar o meu melhor.
Camila: É isso! E depois da prova você vai me contar tudo. Nada de sumir, hein?
Eu: Pode deixar.
Guardo o celular e termino de limpar a casa.
Às dez e meia, sigo para a terceira residência do dia. Essa é maior que as anteriores, com uma sala espaçosa, móveis elegantes e uma cozinha que parece ter saído de uma revista. O proprietário quase nunca está presente quando trabalho, e a casa costuma permanecer vazia durante boa parte do dia.
Faço meu serviço com cuidado, sem mexer em nada que não seja necessário. Gosto de deixar tudo impecável, porque sei que a confiança dos clientes é o que me permite continuar trabalhando.
Enquanto limpo a bancada da cozinha, olho pela janela e vejo parte da comunidade lá embaixo. As casas se espalham pelo morro, umas ao lado das outras, formando aquele emaranhado de construções que tanta gente de fora observa sem conhecer as histórias de quem vive aqui.
A Rocinha é enorme. Tem ruas movimentadas, becos estreitos, comércios, escolas, famílias trabalhadoras e pessoas que passam a vida inteira sem conhecer todos os cantos do lugar onde moram.
Eu mesma não conheço metade da comunidade.
E não faço ideia de que, em algum lugar desse mesmo morro, existe um homem cuja vida está prestes a se cruzar com a minha de uma maneira que eu jamais desejaria.
Um homem que representa justamente tudo aquilo de que quero manter distância.
Mas ainda não sei disso.
Por enquanto, meu único objetivo é terminar o trabalho, chegar à faculdade e fazer a prova que pode mudar meu futuro.
Perto do meio-dia, finalmente concluo a limpeza. Minhas costas doem, meus dedos estão ressecados por causa dos produtos e meus pés parecem implorar por descanso. Mesmo assim, confiro tudo uma última vez, guardo meus materiais e pego a bolsa.
Antes de sair, olho para o relógio.
Ainda tenho tempo.
Vou precisar almoçar alguma coisa, revisar minhas anotações e seguir para o local da prova. Se tudo correr bem, talvez eu consiga realizar o sonho que venho alimentando há tantos anos.
Fecho a porta e começo a caminhar.
No caminho, passo por um pequeno comércio e compro um salgado para comer mais tarde. Não posso gastar muito, então escolho o que cabe no meu orçamento. Depois sigo até o ponto de ônibus, onde encontro outras pessoas esperando.
Sento-me em um banco, retiro o caderno da bolsa e começo a revisar as últimas anotações.
Leio uma fórmula, depois outra. Tento me concentrar, mas minha cabeça insiste em voltar para minha mãe.
Penso em como ela ficaria feliz se me visse entrando naquela faculdade. Imagino seu sorriso, seus olhos brilhando e sua voz dizendo que sabia que eu conseguiria.
Engulo o choro e aperto o caderno contra o peito.
— Eu vou conseguir, mãe. Eu prometo.
O ônibus aparece alguns minutos depois. Guardo o caderno, levanto-me e entro, procurando um lugar para sentar. A viagem é longa, e aproveito o caminho para revisar mentalmente o conteúdo.
Do lado de fora, a cidade continua seguindo seu ritmo. Pessoas atravessam as ruas, carros buzinam e vendedores anunciam seus produtos. Para muita gente, é apenas mais um dia comum.
Para mim, pode ser o começo de uma nova vida.
Quando finalmente desço do ônibus, confiro o endereço mais uma vez e caminho até a entrada do prédio. Observo a estrutura, as paredes bem cuidadas e os estudantes que entram e saem carregando mochilas, livros e materiais.
Respiro fundo.
É aqui.
O lugar onde meu futuro pode começar a tomar forma.
Ajeito a alça da bolsa no ombro, seguro meus documentos e caminho até a entrada, repetindo para mim mesma tudo o que minha mãe costumava dizer.
Eu sou forte.
Eu sou capaz.
E não vou desistir.
Não depois de tudo o que vivi. Não depois de tudo o que perdi. E muito menos agora, quando estou tão perto de conquistar algo que sempre sonhei.
Ainda não sei se conseguirei a bolsa. Não sei como será minha vida daqui para a frente e muito menos o que o destino está preparando para mim.
Só sei que, naquele momento, com o coração acelerado e as mãos um pouco trêmulas, dou o primeiro passo em direção ao futuro que tanto desejo.
E, sem imaginar, também dou o primeiro passo em direção a uma história que vai mudar tudo o que acredito sobre a vida, sobre as pessoas e sobre o amor.
Mas isso é assunto para outro dia.
Agora, preciso fazer essa prova.
Torçam por mim, porque eu vou precisar!
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Uma mensagem da autora para vocês, minhas leitoras! ❤️
Oiii, minhas lindas! Sejam muito bem-vindas a A Obsessão do Traficante! Estou muito feliz por ter vocês aqui comigo em mais essa história. 🥹❤️
Hoje conhecemos um pouquinho da Mirella, uma jovem batalhadora que, mesmo depois de perder a pessoa mais importante da sua vida, continua lutando para realizar seus sonhos. Quero que vocês acompanhem cada passo dela, porque muita coisa ainda vai acontecer!
Me contem nos comentários: vocês gostaram de conhecer a Mirella? Acham que ela vai conseguir conquistar a bolsa de estudos e realizar o sonho de ser arquiteta? E o que será que o destino está preparando para essa menina que tem tanta certeza de que nunca vai se envolver com um traficante?
Será que a vida vai colocar no caminho dela justamente alguém que representa tudo aquilo que ela mais rejeita? 👀🔥
Não se esqueçam de comentar, favoritar o livro e acompanhar os próximos capítulos. Quero muito saber a opinião de vocês e ter cada uma pertinho de mim durante essa história!
Um beijo enorme, minhas lindas, e nos vemos no próximo capítulo! ❤️🥰
Com carinho, Vanessa Leite Franco.