CAPÍTULO 2 — VICENTE
Fala, minhas lindas! Tudo na paz? Espero que sim, porque por aqui a vida não costuma ser tão tranquila assim. Meu nome é Vicente, tenho vinte e seis anos e moro no morro da Rocinha. Na verdade, essa p***a toda aqui pertence à minha família. Meu pai é quem está no comando atualmente, mas, um dia, quem vai assumir essa responsabilidade sou eu. E, quando esse dia chegar, podem ter certeza de que muita coisa vai continuar do meu jeito.
Antes que alguém comece a me olhar torto, vou logo avisando: não sou nenhum príncipe encantado, muito menos aquele tipo de homem que fica correndo atrás de mulher para ouvir declaração de amor. Meu negócio é outro. Gosto de curtir minha vida, sair com meus amigos, beber, aproveitar uma boa festa e, principalmente, não ter ninguém enchendo meu saco. Relacionamento sério? Tô fora. Já vi gente demais se fodendo por causa de sentimento, e eu não tenho a menor intenção de entrar nessa fila.
Atualmente, ajudo meu pai com as cobranças e a contabilidade do morro. É um trabalho que exige atenção, responsabilidade e, principalmente, saber com quem estamos lidando. Aqui, qualquer vacilo pode virar uma dor de cabeça do c*****o, e eu aprendi desde cedo que não dá para confiar em qualquer um. Meu pai sempre me ensinou a observar mais do que falar, pensar antes de agir e nunca demonstrar fraqueza diante de quem está esperando uma oportunidade para passar por cima de você.
E não pensem que minha vida se resume a isso. Apesar de toda a responsabilidade que carrego nas costas, também sou universitário. Sim, minhas lindas, o bonitão aqui faz faculdade de Engenharia Civil. Ou melhor, frequenta a faculdade, porque estudar mesmo não é exatamente uma das minhas atividades favoritas.
Essa ideia foi praticamente uma exigência do meu pai. Ele é formado em Engenharia, assim como meu avô foi, e, pelo visto, nessa família existe uma tradição que ninguém tem o direito de questionar. Segundo meu velho, eu preciso ter conhecimento, aprender a administrar as coisas e construir alguma coisa além do que já temos. Ele vive dizendo que um homem precisa estar preparado para qualquer situação.
E eu até entendo o lado dele. Meu pai quer que eu tenha uma formação, que saiba lidar com números, projetos e tudo aquilo que pode ser útil no futuro. O problema é que eu nunca tive muita paciência para ficar sentado durante horas ouvindo professor falar sobre assuntos que, na minha cabeça, poderiam ser explicados em quinze minutos.
O mais engraçado é que sempre fui excelente em matemática. Desde moleque, eu olhava para uma conta e encontrava a resposta antes de todo mundo. Meu pai adorava se gabar disso, dizendo que eu tinha puxado a inteligência dele e do meu avô.
Só que parece que essa habilidade resolveu me abandonar justamente quando entrei na faculdade.
Estatística, então, é uma desgraça na minha vida.
Não importa quantas vezes eu tente entender aquela matéria, sempre aparece alguma fórmula nova, algum cálculo diferente ou alguma questão que parece ter sido criada exclusivamente para me tirar do sério. E o pior é que não consigo aceitar a ideia de que uma matéria esteja me vencendo. Eu odeio não saber alguma coisa. Odeio ainda mais quando alguém percebe.
Mas enfim, esse é um problema para outro dia.
Hoje, tenho coisas muito mais interessantes para fazer do que ficar pensando em números e fórmulas. Pelo menos era isso que eu imaginava quando acordei naquela manhã.
Minha vida mudou bastante há três anos, quando perdi minha mãe.
Isabel era o tipo de mulher que conseguia colocar ordem na minha cabeça sem precisar levantar a voz. Tinha um jeito único de me olhar e perceber quando alguma coisa estava errada, mesmo quando eu jurava que estava tudo bem. Ela era professora na faculdade onde estudo e, durante muito tempo, foi a pessoa com quem eu mais gostava de conversar.
Com ela, eu não precisava fingir que sabia tudo. Não precisava bancar o homem durão, nem esconder quando alguma coisa me machucava. Minha mãe conhecia cada parte de mim, inclusive aquelas que eu fazia questão de manter escondidas do restante do mundo.
Quando ela ficou doente, eu achei que conseguiria resolver tudo. Procurei médicos, acompanhei tratamentos e fiz o que estava ao meu alcance. Só que, por mais dinheiro que minha família tivesse, por mais portas que meu sobrenome pudesse abrir, não existia nada que eu pudesse fazer para impedir o câncer de levar a mulher que mais amei na vida.
E isso me destruiu de um jeito que eu nunca admitiria em voz alta.
Depois que ela morreu, a casa ficou silenciosa demais. O lugar onde antes havia risadas, conversas e o cheiro do café que ela preparava passou a parecer grande e vazio. Meu pai também sofreu muito, mas cada um encontrou sua maneira de continuar vivendo.
Eu escolhi não sentir p***a nenhuma.
Pelo menos, foi o que tentei fazer.
Comecei a sair mais, a frequentar festas, a beber até tarde e a ficar com mulheres diferentes. Era muito mais fácil ocupar a cabeça com qualquer coisa do que chegar em casa e lembrar que minha mãe não estaria esperando por mim. Eu não queria perguntas, não queria conselhos e muito menos alguém tentando descobrir o que se passava dentro da minha cabeça.
Foi assim que me acostumei a manter as pessoas por perto apenas enquanto elas fossem convenientes.
Uma noite, uma mulher. Na outra, outra mulher. Sem promessas, sem cobranças e sem aquela conversa irritante sobre o que somos ou deixamos de ser.
Se alguma delas começasse a falar em namoro, eu simplesmente me afastava.
Simples assim.
Atualmente, existe Sara. Bonita, atraente e bastante interessada em mim. Nós ficamos de vez em quando, saímos juntos e nos divertimos, mas nunca prometi nada a ela. Sara sabe que não temos compromisso, embora, às vezes, aja como se tivesse algum direito sobre a minha vida.
E eu não gosto disso.
Não gosto de mulher fazendo cena, perguntando onde estou ou querendo saber com quem passei a noite. Se quero sair, eu saio. Se quero ficar em casa, fico. Não devo satisfação a ninguém além de mim mesmo e, em algumas situações, ao meu pai.
Falando nele, foi justamente a voz do velho que interrompeu meus pensamentos naquela manhã.
— Vicente! Tu vai ficar trancado nesse quarto até quando, p***a?
Olhei para o relógio sobre a mesa de cabeceira e soltei um palavrão. Ainda estava deitado, mexendo no celular, quando deveria estar me preparando para sair.
— c*****o, pai! Já tô levantando!
— Tu tá falando isso faz dez minutos, moleque! Desce logo. Quero trocar uma ideia contigo antes de tu sair!
Revirei os olhos, joguei o celular na cama e me levantei. Tomei um banho rápido, passei a mão pelos cabelos e vesti uma calça jeans escura, uma camiseta preta e meu tênis. Coloquei o relógio no pulso, peguei o celular e conferi as mensagens.
Havia duas de Sara.
Sara: Bom dia, amor. Vai pra faculdade hoje?
Sara: Queria te ver depois da aula. Me avisa.
Soltei uma risada curta ao ler a primeira mensagem. Amor? Essa mulher gostava de se adiantar nas coisas.
Respondi apenas que iria à faculdade e que nos falaríamos depois. Guardei o aparelho no bolso e desci para a cozinha.
Quando cheguei, encontrei meu pai sentado à mesa, tomando café e olhando alguns documentos. Vitor era um homem que impunha respeito apenas com a presença. Não precisava falar alto para que as pessoas entendessem quem ele era. Os anos no comando tinham deixado marcas em seu rosto e um olhar que parecia enxergar muito além do que qualquer pessoa dizia.
— Bom dia, velho — cumprimentei, puxando uma cadeira.
Ele ergueu os olhos para mim.
— Bom dia nada. Tu tá atrasado.
— Ainda nem deu a hora da aula, p***a.
— E tu acha que a vida é só faculdade? Tem coisa pra resolver hoje.
Peguei uma xícara de café e me servi.
— Manda aí.
Meu pai colocou alguns papéis sobre a mesa e começou a falar sobre os compromissos do dia, as contas que precisavam ser conferidas e as pessoas com quem eu deveria conversar. Prestei atenção, fiz algumas perguntas e anotei o que precisava lembrar. Por mais que eu gostasse de curtir a vida, não era irresponsável quando o assunto envolvia a minha família.
Podia não gostar de estudar, mas sabia muito bem que, dentro do mundo em que cresci, distração era um luxo que nem sempre podíamos ter.
— E vê se não vai faltar à aula de novo — ele acrescentou, apontando o dedo na minha direção.
Soltei uma risada debochada.
— Tá preocupado com a minha formação ou quer que eu pare de gastar teu dinheiro?
— Tô preocupado com o homem que tu vai ser quando eu não estiver mais aqui pra resolver as coisas por ti.
A brincadeira morreu na minha boca.
Meu pai raramente falava sobre o futuro daquela maneira. Ele sempre foi um homem duro, acostumado a resolver os próprios problemas e a não demonstrar preocupação. Mas, desde a morte da minha mãe, percebi que ele também carregava um medo silencioso: o de me perder para o mesmo mundo que ajudou a construir.
— Relaxa, velho. Eu sei me virar.
— Eu sei que sabe. O problema é que tu acha que sabe de tudo.
— Porque, na maioria das vezes, eu sei mesmo.
Ele balançou a cabeça, soltando um suspiro cansado.
— Convencido pra c*****o.
— Puxei a quem?
Meu pai acabou rindo, e eu aproveitei para terminar meu café. Apesar das nossas diferenças, nós nos entendíamos de um jeito que poucas pessoas conseguiam compreender. Depois que minha mãe se foi, ficamos apenas nós dois, tentando encontrar uma maneira de seguir em frente sem deixar que a saudade nos engolisse.
Antes de sair, passei pelo escritório para pegar uma pasta que precisava levar comigo. Minha rotina era uma mistura de responsabilidades, faculdade e festas. Em alguns dias, eu m*l conseguia parar para respirar; em outros, inventava qualquer desculpa para fugir das obrigações.
Naquela manhã, porém, eu tinha uma aula que não poderia ignorar.
A maldita Estatística.
Só de pensar naquela matéria, senti uma irritação subir pelo peito.
— Hoje eu resolvo essa p***a — murmurei, entrando no carro.
Eu não fazia ideia de como conseguiria resolver, mas estava decidido a prestar mais atenção. Não queria meu pai descobrindo que eu estava com dificuldades. Muito menos queria que algum professor me tratasse como um i****a só porque eu não conseguia acompanhar aquela maldita disciplina.
Cheguei à faculdade pouco depois, estacionei e desci do carro. Como sempre, alguns olhares se voltaram na minha direção. Eu já estava acostumado. Meu sobrenome era conhecido, minha família tinha influência e, além disso, eu não era exatamente o tipo de homem que passava despercebido.
Atravessei o estacionamento com a mochila pendurada em um dos ombros e o celular na mão. Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho, ignorei outras e segui em direção ao prédio principal.
Foi quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
— Aí, c*****o! Achei que tu tinha morrido, cria!
Virei a cabeça e encontrei Jorge se aproximando com aquele sorriso de quem estava sempre planejando alguma merda.
— Vai tomar no cu, Jorge. Cheguei faz dois minutos.
— Dois minutos nada, p***a. Tô te esperando há mó tempão. Tu ficou fazendo o quê? Comendo a Sara?
Dei um tapa na nuca dele.
— Teu problema é que tu pensa em b****a vinte e quatro horas por dia, mermão.
— E tu vai dizer que não pensa? Ah, para, c*****o! Nós dois somos farinha do mesmo saco.
— Fala por ti.
Jorge gargalhou e passou o braço pelos meus ombros enquanto caminhávamos pelo corredor.
— Então, qual vai ser a boa de hoje? Os moleques tão querendo fazer uma resenha lá em casa.
— Talvez eu apareça.
— Talvez é o c*****o. Tu vai, sim. E chama a Sara, porque aquela mulher fica no meu pé perguntando de ti.
— Problema teu. Eu não mandei tu virar amigo dela.
— Papo reto, tu é um filho da p**a. A mulher é gata, gosta de ti e tu trata ela como se fosse qualquer uma.
Parei de andar e olhei para ele.
— Porque ela é qualquer uma, p***a. Nós ficamos, nos divertimos e cada um segue sua vida. Nunca prometi casamento pra ninguém.
Jorge levantou as mãos, rendendo-se.
— Beleza, patrão. Não tá mais aqui quem falou.
Voltei a caminhar, sem dar importância ao assunto. Jorge era meu melhor amigo e tinha liberdade para falar o que quisesse, mas havia coisas sobre as quais eu não estava disposto a discutir. Principalmente quando envolviam sentimentos.
Entramos no corredor das salas e encontramos dois dos nossos amigos perto das máquinas de café. Assim que nos viram, começaram a falar sobre a festa do fim de semana, discutindo quem iria levar bebida e quem estava devendo dinheiro pela última resenha.
— Olha os dois aí! — um deles gritou. — Pensei que o playboy tinha desistido de estudar.
— Desisti foi de ouvir tua voz, irmão — respondi, arrancando risadas dos outros.
— Tá estressado por quê? A Sara não te deu bom-dia direito?
— Vai se f***r também, p***a.
Os caras caíram na gargalhada. Era sempre assim. Bastava nos juntarmos para começar a provocação, e ninguém escapava das piadas. Eu gostava disso. Com eles, não precisava pensar em contas, responsabilidades ou no peso que meu sobrenome carregava. Podia simplesmente ser um cara de vinte e seis anos tentando aproveitar a vida.
Pelo menos durante alguns minutos.
Foi quando Sara apareceu no corredor.
Ela vinha acompanhada de Rafaela, sua amiga, e estava linda como sempre. Usava uma roupa que destacava seu corpo, os cabelos bem arrumados e um sorriso que aumentou assim que me viu. Caminhou diretamente até mim e passou os braços pelo meu pescoço, depositando um beijo demorado no meu rosto.
— Bom dia, meu lindo! — disse ela, sorrindo.
— Bom dia, Sara.
Ela me olhou de cima a baixo e franziu a testa.
— Você demorou pra responder minhas mensagens.
Olhei para Jorge, que disfarçou uma risada.
— Eu estava ocupado, mulher.
— Ocupado fazendo o quê?
Soltei um suspiro.
— c*****o, Sara. Acabei de chegar. Vai começar?
Ela pareceu perceber o tom da minha voz e mudou a expressão.
— Nossa, só perguntei.
— E eu respondi.
Rafaela lançou um olhar para a amiga, como se estivesse tentando fazê-la deixar o assunto para lá.
Sara, entretanto, não parecia disposta a desistir tão facilmente. Aproximou-se um pouco mais e segurou minha mão.
— Você vai sair comigo depois da aula?
— Ainda não sei. Os caras estão querendo fazer uma resenha.
— Você sempre tem alguma coisa com seus amigos.
— Porque eles são meus amigos, p***a.
O silêncio que veio depois durou apenas alguns segundos, mas foi suficiente para deixar Jorge se divertindo às minhas custas.
— Ih, Sara, deixa o homem respirar — ele comentou. — O cria acabou de chegar.
Ela lançou um olhar atravessado para ele.
— Ninguém está falando com você, Jorge.
— Tá bom, princesa. Só tô tentando ajudar.
— Então ajuda ficando quieto.
Dessa vez, fui eu quem riu.
— Essa foi boa, Jorge. Tomou de graça, mermão.
Ele colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Pô, cria, na frente de todo mundo? Assim tu acaba com a minha moral.
A conversa seguiu entre brincadeiras, até que o sinal avisou que a aula estava prestes a começar. Dei um beijo rápido no rosto de Sara e me afastei.
— Depois a gente se fala.
Ela segurou meu braço antes que eu pudesse ir.
— Promete que vai me ligar?
Olhei para a mão dela em meu braço e depois para seu rosto.
— Sara, não começa.
Ela soltou meu braço devagar, visivelmente contrariada.
— Tudo bem.
Não esperei por outra pergunta. Entrei na sala com Jorge e escolhi um lugar no fundo, onde poderia acompanhar a aula sem ter alguém respirando no meu pescoço.
Pouco depois, o professor chegou e começou a explicar o conteúdo. Abri o caderno, peguei a caneta e tentei me concentrar. Por alguns minutos, até consegui acompanhar. Os números faziam sentido quando eu me dedicava, mas bastava o assunto ficar mais complicado para minha atenção começar a escapar.
Jorge, sentado ao meu lado, rabiscava o canto da folha.
Olhei para ele.
— Tu tá copiando a matéria ou desenhando essa p***a?
Ele virou o caderno na minha direção. Havia um desenho horrível de um professor com a cabeça enorme.
Segurei a risada.
— c*****o, tu é muito i****a.
— Respeita minha arte, cria. Um dia ainda vou ficar famoso.
— Famoso por ser preso por atentado contra o bom gosto.
Ele abafou uma gargalhada, e o professor imediatamente olhou em nossa direção.
— Algum problema aí no fundo?
Endireitei a postura.
— Nenhum, professor.
— Ótimo. Então talvez você possa responder à próxima questão, Vicente.
Porra.
Olhei para o quadro, onde havia uma sequência de cálculos que pareciam ter sido escritos em outra língua. Senti Jorge prender a respiração ao meu lado, claramente se segurando para não rir.
— Pode repetir a pergunta, professor? — pedi, tentando ganhar alguns segundos.
O homem repetiu a questão e ficou esperando.
Passei os olhos pelo quadro, organizei os números mentalmente e comecei a responder. Não tinha certeza absoluta, mas consegui chegar a uma conclusão. O professor ouviu minha explicação, corrigiu um detalhe e assentiu.
— Está no caminho certo. Precisa apenas prestar mais atenção aos passos intermediários.
— Beleza, professor.
Sentei novamente, satisfeito por não ter passado vergonha.
Jorge se inclinou na minha direção.
— Tá vendo? O homem é uma máquina.
— Cala a boca e copia a matéria, p***a.
— Sim, senhor.
O restante da aula passou sem grandes acontecimentos. Quando finalmente fomos liberados, guardei o material e saí com Jorge. Meu celular estava cheio de mensagens, inclusive mais uma de Sara, perguntando se eu já tinha terminado.
Respondi que ainda tinha algumas coisas para resolver e guardei o aparelho.
— Tu vai mesmo deixar a Sara esperando? — Jorge perguntou.
— Ela não tá esperando p***a nenhuma. Eu falei que talvez saísse com ela.
— Tu sabe que ela quer algo sério contigo, né?
Olhei para ele, impaciente.
— E eu já falei que não quero relacionamento sério.
— Tá, mas uma hora tu vai ter que conversar com a mulher.
— Já conversei.
— Então conversa de novo, porque parece que ela não entendeu.
Passei a mão pelos cabelos e soltei um suspiro.
— Qual foi, Jorge? Tu resolveu virar conselheiro amoroso agora?
— Não, c*****o. Só não quero ver tu arrumando confusão desnecessária.
Dei de ombros.
— Ela é adulta. Sabe muito bem o que está fazendo.
Jorge não respondeu de imediato. Apenas me observou com aquela expressão de quem conhecia meus defeitos melhor do que eu gostaria.
— Um dia tu ainda vai encontrar uma mulher que vai fazer tu engolir cada uma dessas merdas que fala.
Soltei uma gargalhada.
— Tá maluco? Isso nunca vai acontecer.
— Anota aí, cria. Vou te lembrar dessa conversa.
— Pode anotar até na testa, p***a. Eu não nasci pra ficar preso a mulher nenhuma.
Ele balançou a cabeça, rindo, e seguimos em direção à saída.
Naquele momento, eu realmente acreditava em cada palavra que dizia. Não queria compromisso, não queria cobranças e não queria ninguém tentando ocupar um espaço que eu mantinha fechado havia três anos.
Minha mãe tinha sido a última pessoa que conheceu o homem que eu era antes de aprender a esconder tudo atrás de uma expressão fria e de piadas debochadas. Depois que ela morreu, eu me acostumei a viver sem olhar muito para dentro de mim.
Talvez por isso meu pai insistisse tanto na faculdade, na responsabilidade e no futuro. Ele queria que eu construísse alguma coisa que não dependesse apenas do nome da nossa família. Queria que eu tivesse opções.
Eu entendia isso, embora raramente admitisse.
Mas havia uma coisa que nem meu pai, nem Jorge, nem qualquer outra pessoa conseguiria mudar: eu não pretendia entregar meu coração a ninguém.
Não depois de ter descoberto como era perder alguém que fazia parte de tudo.
Naquela tarde, deixei a faculdade pensando nas obrigações que ainda tinha para cumprir e na resenha que provavelmente aconteceria à noite. Minha vida seguia o mesmo roteiro de sempre: responsabilidades durante o dia, amigos e festas quando conseguia escapar delas.
Eu gostava daquela rotina. Gostava de saber o que esperar de cada dia e de acreditar que tinha controle sobre tudo ao meu redor.
Mal sabia eu que, enquanto seguia vivendo como se nada pudesse me atingir, a vida estava preparando mudanças que eu jamais teria escolhido por vontade própria.
Mas, naquele momento, eu ainda era apenas Vicente.
O homem que não acreditava no amor, que fugia de qualquer possibilidade de apego e que tinha certeza absoluta de que nunca se apaixonaria.
E vocês sabem como é, minhas lindas: às vezes, a vida tem um senso de humor do c*****o.
Autora falando com vocês ❤️
Quero saber a opinião de vocês! O que acharam do Vicente? Acham que ele é realmente incapaz de amar ou será que ainda existe um lado dele que nem ele mesmo conhece? E sobre a Sara: vocês acham que ela vai aceitar continuar nessa relação sem compromisso ou vai começar a exigir mais dele?
Deixem seus comentários, favoritem a história e acompanhem os próximos capítulos. A participação de vocês é muito importante para mim! ❤️
E me contem uma coisa: vocês acham que o nosso Vicente vai continuar dizendo que nunca vai se apaixonar ou será que o destino vai colocar no caminho dele uma mulher capaz de virar esse mundo de cabeça para baixo? 👀🔥
Um beijo enorme, minhas lindas! Obrigada por estarem aqui comigo. Ainda temos muita história pela frente! ❤️