10

4888 Words
CAPÍTULO 10 — VICENTE Acordei com o celular vibrando em cima da mesa de cabeceira e a primeira coisa que fiz foi esticar o braço para desligar aquela merda. Nem tinha aberto os olhos direito e já estava de saco cheio do dia que nem tinha começado. Desde a reunião com o diretor, parecia que todo mundo tinha resolvido cuidar da minha vida. Meu pai cobrando responsabilidade, a faculdade mandando e-mail, a coordenação organizando acompanhamento e, para completar, Jorge não perdia uma oportunidade de me lembrar que eu estava precisando de ajuda para passar em Estatística. Porra, eu tinha vinte e seis anos. Não era um moleque de quinze que precisava de alguém pegando na minha mão para fazer as coisas. Virei de barriga para cima e encarei o teto do quarto. Minha vontade era desligar o celular, virar para o outro lado e dormir até a hora do almoço. Só que eu sabia que, se fizesse isso, meu pai descobriria e transformaria uma simples manhã perdida em mais um sermão sobre compromisso, disciplina e todas aquelas palavras que ele adorava jogar na minha cara. Peguei o celular e vi três notificações da faculdade, duas mensagens de Jorge e uma de Sara. Abri primeiro a conversa do meu melhor amigo. Jorge: Bom dia, futuro engenheiro. Já estudou hoje ou tá esperando o milagre cair do céu? Revirei os olhos. Eu: Vai tomar no cu, Jorge. A resposta veio quase imediatamente. Jorge: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Jorge: Tá estressadinho, irmão? Quer que eu leve uma mamadeira? Eu: Quero que tu arrume alguma coisa útil pra fazer. Jorge: Tô fazendo. Tô cuidando da educação do meu amigo. Joguei o celular na cama, soltando uma risada curta apesar da irritação. Aquele desgraçado tinha um talento especial para me tirar do sério. Se existisse uma faculdade para formar filho da p**a inconveniente, Jorge seria o melhor aluno da turma. Levantei, entrei no banheiro e tomei uma ducha demorada. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, tentei organizar mentalmente as coisas que precisava resolver. Tinha aula, precisava conferir umas atividades atrasadas e, em algum momento, teria de participar daquele acompanhamento acadêmico que o diretor praticamente enfiara goela abaixo. Eu ainda não tinha entendido como uma simples dificuldade em uma disciplina tinha virado um problema tão grande. Tudo bem, minhas notas não estavam uma maravilha. Eu faltava a algumas aulas, entregava trabalhos atrasados e nem sempre tinha paciência para ficar horas sentado ouvindo professor falar. Mas eu nunca tinha sido burro. Quando queria aprender alguma coisa, aprendia. O problema era que eu não queria passar minhas noites estudando fórmulas enquanto tinha uma vida inteira acontecendo do lado de fora da sala. Só que, aparentemente, essa explicação não convencia ninguém. Terminei o banho, vesti uma calça jeans escura e uma camiseta preta. Passei a mão pelo cabelo, peguei o relógio e saí do quarto procurando meu celular, que continuava jogado em cima da cama. Antes de descer, parei diante do espelho por alguns segundos. A expressão fechada já fazia parte da minha cara. Não me incomodava. Era melhor que as pessoas pensassem duas vezes antes de vir com conversa fiada. Desci as escadas e encontrei a casa silenciosa. O cheiro de café vinha da cozinha, misturado ao de pão quente. Caminhei pelo corredor, passei pela sala e notei que tudo estava no lugar. As almofadas do sofá estavam alinhadas, a mesa de centro não tinha uma marca sequer, o chão brilhava e até os objetos que eu costumava largar espalhados pareciam ter sido organizados por alguém com uma paciência do c*****o. Entrei na cozinha e encontrei meu pai sentado à mesa, lendo alguma coisa no celular enquanto tomava café. — Até que enfim resolveu aparecer — ele comentou, sem levantar os olhos. — Bom dia pra você também. Peguei uma xícara, servi café e me sentei do outro lado da mesa. Vitor deixou o celular de lado e me observou por alguns segundos. — Tem aula hoje? — Tenho. — Vai? Ergui os olhos para ele. — Não, pai. Vou colocar uma foto minha na faculdade e mandar para o professor acreditar que eu apareci. Ele apertou os lábios, claramente sem achar graça. — Não precisa responder tudo com ironia, Vicente. — E você não precisa perguntar se eu vou à aula como se eu tivesse doze anos. — Então pare de agir como se tivesse doze anos. Soltei o ar pelo nariz e tomei um gole de café. Lá estava. Nem cinco minutos de conversa e já estávamos naquela merda outra vez. — Vai começar cedo hoje? — Não estou começando nada. Estou conversando com meu filho. — Conversa é quando os dois falam e se escutam. Você só quer me dizer o que eu tenho que fazer. Vitor apoiou os braços na mesa. — Porque parece que, se eu não disser, você não faz. — Eu me viro muito bem sozinho. — É mesmo? Porque, pelo que fiquei sabendo, suas notas não estão mostrando isso. Apertei a xícara entre os dedos. — c*****o, pai. De novo essa p***a? — Sim, de novo. Até você entender que existe uma diferença entre ter capacidade e usar essa capacidade. — Eu sei estudar. — Então prove. Fiquei olhando para ele, sentindo a irritação subir pelo peito. O pior não era nem ouvir aquelas cobranças. Era a sensação de que, para o meu pai, eu nunca fazia nada certo o suficiente. Se eu tirava uma nota boa, era minha obrigação. Se tirava uma nota r**m, virava uma reunião familiar. — Você fala como se eu não fizesse nada da vida — rebati. — Tenho minhas responsabilidades, resolvo meus problemas e sei muito bem o que acontece ao meu redor. — Suas responsabilidades não se resumem ao que você resolve aqui dentro ou às coisas que faz quando está comigo. Você está construindo um futuro, Vicente. Ou deveria estar. — Meu futuro, meu c*****o. A mandíbula dele se contraiu. — Cuidado com o jeito que fala comigo. — Então para de querer decidir tudo por mim! O silêncio caiu entre nós. Por um instante, nenhum dos dois disse nada. Eu sabia que tinha passado do ponto, mas estava cansado de sentir que cada conversa precisava terminar com meu pai me lembrando do que esperava de mim. Ele queria um filho preparado, disciplinado, capaz de assumir tudo o que um dia cairia sobre seus ombros. Eu entendia isso. Não era i****a. Só não suportava a ideia de que ele já tivesse decidido quem eu deveria ser antes mesmo de me perguntar quem eu queria me tornar. Vitor respirou fundo e passou a mão pelo rosto. — Você acha que eu gosto de ficar cobrando? Acha que eu acordo pensando em como vou infernizar sua vida? — Às vezes parece. Ele me encarou com uma expressão que não consegui interpretar de imediato. — Eu perdi muita coisa nesta vida, Vicente. E não quero ver você desperdiçando as oportunidades que tem. Meu maxilar travou. Eu sabia do que ele estava falando, mesmo sem ele precisar mencionar o nome dela. Minha mãe. Isabel. Fazia três anos que ela tinha morrido, mas havia dias em que a lembrança parecia tão recente que eu quase conseguia ouvir a voz dela pela casa. Lembrava do jeito como me chamava quando eu chegava tarde, das broncas que dava quando eu deixava tudo espalhado e da maneira como conseguia me fazer rir mesmo quando eu estava com raiva do mundo. Depois que ela morreu, alguma coisa em mim se fechou. Eu não gostava de admitir isso, muito menos de conversar sobre o assunto. Meu pai também não era o tipo de homem que se sentava para falar sobre saudade. Ele transformava a dor em trabalho, em responsabilidade, em ordens. Eu transformava a minha em noites sem dormir, festas, mulheres e qualquer coisa que me ajudasse a não pensar demais. Não era uma solução bonita, mas era a que eu tinha encontrado. — Não usa a mãe no meio dessa conversa — falei, mais baixo, porém sem suavizar a voz. — Eu não estou usando sua mãe. — Então não fala como se tudo o que eu faço fosse uma forma de desperdiçar a vida. Vitor desviou o olhar por um instante. — Eu não quero que você termine vivendo de qualquer jeito porque nunca parou para pensar no que realmente quer. Dei uma risada sem humor. — E você sabe o que eu quero? — Estou tentando descobrir. — Não parece. Parece que você já tem tudo planejado. Faculdade, responsabilidades, o que eu vou assumir, como eu tenho que me comportar… Só faltou escolher a roupa que eu vou vestir. — Você está confundindo orientação com controle. — E você está confundindo ser meu pai com ser dono da minha vida. A frase saiu mais dura do que eu pretendia. Vi a expressão dele mudar, mas não retirei o que disse. Não sabia fazer isso. Quando eu estava irritado, preferia sustentar a discussão a admitir que alguma coisa tinha me atingido. Vitor se levantou, pegou a xícara e a levou até a pia. — Não sou dono da sua vida, Vicente. Se fosse, teria tomado decisões por você há muito tempo. Mas sou seu pai e não vou fingir que está tudo bem quando vejo você caminhando para um problema que poderia evitar. — Eu não estou caminhando para problema nenhum. — Espero que esteja certo. Ele pegou o celular e saiu da cozinha sem dizer mais nada. Fiquei sentado, encarando o café que já começava a esfriar. A discussão não tinha terminado em rompimento. Não era a primeira vez que a gente se desentendia e, provavelmente, não seria a última. Ainda assim, havia alguma coisa desagradável no silêncio que ficava depois. Eu sabia que meu pai se preocupava comigo. Sabia também que ele tinha perdido a esposa e que, desde então, tentava manter tudo sob controle como se qualquer coisa fora do lugar pudesse desmoronar o restante da família. Só que eu não era uma das empresas dele. Não era uma reunião, um negócio ou um problema que ele pudesse resolver com uma ordem. Eu era o filho dele. E, às vezes, parecia que ele tinha esquecido disso. Terminei o café, peguei as chaves do carro e saí antes que a conversa recomeçasse. O ar da manhã bateu no meu rosto quando atravessei a entrada da casa. Um dos funcionários me cumprimentou, e eu respondi com um movimento de cabeça, seguindo até a garagem. Foi quando reparei novamente na organização da residência. A casa estava impecável. Não havia copos esquecidos, roupas jogadas ou poeira nos móveis. Até a sala, que costumava ser o primeiro lugar a denunciar minhas noites de preguiça, estava em ordem. Meu pai tinha contratado alguém para cuidar da limpeza. Eu sabia disso havia algum tempo, mas nunca tinha perguntado quem era a pessoa. Para mim, aquilo fazia parte do funcionamento normal da casa. Assim como havia gente responsável por cuidar do jardim, manter os ambientes em ordem e resolver outras tarefas, havia alguém encarregado da limpeza. Não era desprezo. Eu simplesmente nunca tinha considerado necessário conhecer a funcionária. Eu não estava em casa a maior parte do dia, e ela também não precisava de mim para fazer o trabalho dela. O combinado funcionava, a casa ficava limpa e cada um seguia sua vida. Entrei no carro, liguei o motor e saí. No caminho até a faculdade, tentei me concentrar no trânsito e esquecer a discussão com meu pai. Não adiantou muito. As palavras dele continuaram martelando na minha cabeça, principalmente aquela parte sobre desperdiçar oportunidades. Eu tinha oportunidades, sim. Nunca precisei fingir que não. Tive acesso a uma boa educação, não precisei escolher entre pagar uma conta e comprar comida e nunca passei pela humilhação de depender de alguém para ter onde dormir. Meu sobrenome abria portas que talvez permanecessem fechadas para outras pessoas. Mas isso não significava que tudo fosse simples. Eu também tinha minhas cobranças, minhas obrigações e um futuro que parecia ter sido escrito por outras pessoas. A diferença era que, quando eu reclamava, ninguém enxergava a pressão. Só enxergavam um cara mimado que tinha tudo nas mãos e não sabia aproveitar. Talvez, em algumas coisas, eles estivessem certos. Não que eu fosse admitir isso em voz alta. Estacionei na faculdade, peguei a mochila no banco do passageiro e segui para o prédio das salas. Assim que passei pelo corredor principal, encontrei Jorge encostado perto de uma coluna, mexendo no celular. Ele levantou a cabeça e abriu um sorriso debochado. — Olha quem apareceu! O orgulho da família Carvalho! — Começou, p***a? — Ih, tá nervoso. Brigou com o papai de novo? Continuei andando, e ele veio atrás de mim. — Tu tem um radar para problema, né? — perguntei. — Não consegue passar um dia sem encher meu saco? — Consigo. Mas aí minha vida perde a graça. — Vai procurar uma mulher pra incomodar. — Tô tentando. Só que as mulheres que eu procuro querem atenção, carinho, mensagem de bom-dia… — Nossa, que tragédia. Pessoas querendo ser tratadas como pessoas. Jorge levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido. — c*****o, irmão! Tá até filosófico hoje. O velho finalmente conseguiu mexer com teu coração? — Vai se f***r. Ele caiu na gargalhada. Seguimos pelo corredor, desviando de alguns alunos que conversavam perto das salas. Jorge continuou me provocando até perceber que eu não estava no humor habitual para as brincadeiras. Ele me conhecia bem o suficiente para saber quando eu estava apenas irritado e quando alguma coisa tinha ficado presa na minha cabeça. — Falando sério agora — disse ele, diminuindo o tom. — O que rolou lá na tua casa? — Nada. — Ah, claro. E eu sou padre. — Tu não cala a boca, não? — Só quando você começa a falar que nem gente. Parei perto de uma janela e olhei para ele. — Meu pai acha que eu sou um irresponsável. Jorge ergueu as sobrancelhas. — E tu acha que ele tá errado? — Vai começar também? — Não, irmão. Só tô perguntando. — Eu sei muito bem o que faço. — Beleza. Mas saber o que faz não significa que você esteja fazendo tudo certo. Fiquei encarando aquele desgraçado por alguns segundos. — Tu combinou com meu pai de me infernizar hoje? — Nem precisa combinar. Você facilita muito o trabalho. Balancei a cabeça, soltando uma risada curta. — Vocês são um bando de filhos da p**a. — Somos. Mas somos teus amigos, então você tem que aguentar. Ele me deu um tapa no ombro e começou a andar outra vez. Eu o acompanhei até a sala, mas a conversa continuou na minha cabeça. O problema era que, por mais que eu quisesse mandar todo mundo se f***r, eu sabia que não podia simplesmente ignorar a faculdade. O diretor já tinha deixado claro que a situação estava sendo acompanhada, e meu pai provavelmente receberia qualquer nova reclamação antes mesmo de eu ter a chance de inventar uma desculpa. Eu precisava resolver aquilo. Não porque estivesse apaixonado pelos estudos. Não porque tivesse acordado de repente com vontade de ser o melhor aluno da turma. Eu só queria recuperar minhas notas, evitar mais uma reunião e acabar com aquela cobrança constante. Se precisava de acompanhamento para isso, então que fosse. Desde que não transformassem minha vida num inferno maior do que já estava. A aula passou devagar. Tentei prestar atenção, anotei parte do conteúdo e respondi a algumas perguntas quando o professor chamou meu nome. Não estava completamente perdido, mas também não podia fingir que acompanhava tudo com a mesma facilidade de antes. Quando o sinal anunciou o fim da aula, guardei o material e peguei o celular. Havia um e-mail novo da coordenação. Abri a mensagem e li o conteúdo rapidamente. A faculdade informava que o processo de organização do acompanhamento acadêmico estava em andamento e que eu receberia, em breve, as informações sobre o profissional ou estudante responsável por me ajudar em Estatística. Também reforçava que eu deveria respeitar os horários definidos e comparecer aos encontros programados. Soltei um palavrão baixo. — Que foi? — Jorge perguntou, aparecendo ao meu lado. Mostrei a tela. Ele leu e abriu um sorriso tão grande que tive vontade de jogar o celular na cabeça dele. — c*****o! Agora vai mesmo, hein? — Não começa. — Não, irmão, tô feliz por você. Imagina só: o grande Vicente Carvalho, acompanhado de perto, fazendo tarefa e entregando atividade no prazo. — Mais uma gracinha e eu enfio esse celular no teu cu. Jorge riu, sem se abalar. — Tu devia agradecer. Pelo menos alguém vai ter paciência pra te ensinar. — E quem disse que essa pessoa sabe ensinar? — Ah, pronto. Agora o problema é o professor? — Eu não conheço essa pessoa, Jorge. Não sei se explica bem, se tem paciência ou se vai ficar falando comigo como se eu fosse burro. — Então você vai descobrir quando encontrar. — Se for alguém que não sabe p***a nenhuma, vou perder meu tempo. Jorge cruzou os braços e me olhou com uma expressão de falsa seriedade. — Vou te contar uma coisa, meu parceiro: talvez o problema não seja a pessoa que vai te ensinar. Talvez seja você, que já tá procurando defeito antes mesmo de conhecer. Fiquei em silêncio por um instante. — Terminou? — Por enquanto. — Ótimo. Guardei o celular no bolso e segui em direção à saída. Jorge veio comigo, ainda falando sobre como seria engraçado me ver sentado numa mesa, estudando enquanto alguém explicava fórmulas. Ignorei a maior parte das provocações. Na área externa, paramos perto dos carros. O sol estava forte, e o movimento de alunos indo e vindo deixava o estacionamento cheio. Jorge encostou no próprio veículo e me encarou. — Vai fazer o quê agora? — Vou resolver umas coisas. — Coisas ou vai fugir do estudo? — Tenho responsabilidades fora daqui, sabia? — Sei. Só não sabia que elas incluíam fugir de professor. — Tu tá pedindo pra levar uma porrada. — E tu tá pedindo pra repetir Estatística. Mostrei o dedo do meio, e ele gargalhou. Apesar da irritação, a presença de Jorge ajudava a aliviar um pouco a tensão. Ele podia ser inconveniente, debochado e um verdadeiro pé no saco, mas era um dos poucos que conseguiam falar comigo sem ficar pisando em ovos. Não precisava me agradar, nem fingir que eu tinha razão em tudo. Talvez por isso eu tolerasse tanta merda vinda dele. — Vai lá, engenheiro — disse ele, abrindo a porta do carro. — E, pelo amor de Deus, tenta não expulsar o tutor nos primeiros cinco minutos. — Se ele merecer, eu expulso. — Claro que expulsa. Você é um amor de pessoa. Entrei no meu carro sem responder e saí do estacionamento. O resto do dia foi ocupado por compromissos que eu não podia simplesmente ignorar. Passei em casa, resolvi algumas pendências e precisei atender ligações relacionadas a assuntos que meu pai esperava que eu acompanhasse. Não gostava de admitir, mas algumas daquelas responsabilidades realmente exigiam minha atenção. Eu só não queria que cada uma delas se transformasse numa justificativa para controlar o restante da minha vida. No meio da tarde, recebi uma ligação da coordenação da faculdade. Olhei para o número desconhecido por alguns segundos antes de atender. — Alô? — Boa tarde, senhor Vicente Carvalho? Aqui é Daniela, da coordenação acadêmica. Endireitei a postura. — Sou eu. — Estou entrando em contato para confirmar que seu acompanhamento acadêmico em Estatística está sendo organizado. A seleção da pessoa responsável está em andamento, e precisamos reforçar algumas informações sobre sua disponibilidade. Passei a mão pela nuca. — Certo. O que vocês precisam? — Os encontros serão presenciais, em horários definidos pela coordenação, de acordo com a disponibilidade do tutor e a sua. A intenção é trabalhar o conteúdo que você apresenta mais dificuldade, revisar exercícios e acompanhar sua evolução ao longo das semanas. — E quem escolhe os horários? — A coordenação organiza os encontros. Vamos considerar sua grade de aulas e os horários informados pela pessoa responsável, mas será necessário que você se adapte ao cronograma acordado. Soltei o ar devagar. — Então eu não posso escolher o horário que for melhor para mim? — Pode informar sua disponibilidade, senhor Vicente. O que não podemos garantir é que todos os encontros aconteçam exatamente nos horários que o senhor preferir. O acompanhamento precisa funcionar para os dois lados. A resposta me incomodou mais do que deveria. — Tá. E essa pessoa já sabe o que está fazendo? Houve uma pequena pausa do outro lado da linha. — O processo de seleção considera o desempenho acadêmico, os requisitos do programa e a disponibilidade dos estudantes envolvidos. A pessoa escolhida terá condições de acompanhar o conteúdo de Estatística dentro das orientações da faculdade. — Isso não responde exatamente à minha pergunta. — Compreendo sua preocupação, mas a indicação é feita pela coordenação justamente para garantir que o acompanhamento seja adequado. Pedimos que o senhor dê uma oportunidade ao processo antes de tirar conclusões. Apertei a mandíbula. Eu não gostava de receber respostas prontas. Muito menos quando vinha acompanhada de uma recomendação para que eu tivesse paciência. — Beleza. Vou esperar. — Obrigada pela compreensão. Assim que o nome for confirmado e o primeiro horário estiver definido, o senhor receberá uma mensagem com todas as informações. — Certo. Desliguei e fiquei olhando para o celular. Dê uma oportunidade ao processo. Era impressionante como todo mundo parecia ter decidido que eu precisava aprender a ter paciência. Meu pai queria paciência com as responsabilidades. O diretor queria paciência com o acompanhamento. Jorge queria paciência com a pessoa que me ensinaria. E eu só queria que aquela merda terminasse logo. Joguei o celular no banco ao lado e liguei o carro. Antes de sair, porém, meus olhos passaram pela tela outra vez. A mensagem da coordenação ainda estava aberta, e a palavra acompanhamento parecia maior do que todas as outras. Eu não fazia ideia de quem seria a pessoa escolhida. Não sabia se seria alguém da minha turma, de outro período ou até alguém com uma personalidade tão insuportável quanto a minha. Só sabia que teria de me sentar diante dela e admitir, ainda que temporariamente, que precisava de ajuda. A ideia não me agradava. Na verdade, me irritava profundamente. Mas eu não tinha muita escolha. Quando cheguei em casa, encontrei meu pai na sala, conversando ao telefone. Ele fez um gesto para que eu esperasse enquanto terminava a ligação. Aproveitei para largar a mochila no sofá e caminhar até a cozinha. A casa continuava impecável. A mesa estava organizada, os móveis limpos e não havia nada fora do lugar. Passei os olhos pelo ambiente sem prestar muita atenção, peguei uma garrafa de água e bebi alguns goles. Meu celular vibrou. Era outra mensagem da faculdade. Dessa vez, não se tratava apenas de um aviso genérico. A coordenação informava que o primeiro encontro seria confirmado após a definição final do tutor e que eu deveria manter livre um dos períodos indicados na minha disponibilidade. O horário seria obrigatório, e eventuais alterações precisariam ser solicitadas com antecedência. Li duas vezes. — p**a que pariu… — Algum problema? — meu pai perguntou, entrando na cozinha. Virei a tela para ele. — A faculdade está organizando minha agenda como se eu não tivesse mais nada para fazer. Vitor leu a mensagem com calma e devolveu o aparelho. — Estão tentando organizar o acompanhamento que você precisa. — Você fala como se eu tivesse pedido isso. — Você não precisa pedir para receber ajuda. Soltei uma risada sem humor. — Lá vem você de novo. — Não estou discutindo, Vicente. Só estou dizendo que talvez essa seja uma oportunidade de resolver uma dificuldade antes que ela fique maior. — Eu não sou incapaz de resolver minhas coisas. — Então aproveite o acompanhamento e mostre isso. Olhei para ele, contrariado. Era sempre assim. Meu pai conseguia transformar qualquer frase numa cobrança, mesmo quando parecia estar tentando ajudar. Talvez ele nem percebesse o efeito que causava. Talvez acreditasse que pressionar era a única maneira de me fazer reagir. — E se a pessoa não souber ensinar? — perguntei. — Você vai descobrir quando conhecer. A resposta me fez estreitar os olhos. — Impressionante. Você e Jorge estão repetindo o mesmo discurso agora? Vitor franziu a testa. — Jorge não tem nada a ver com isso. — Esquece. Peguei a garrafa de água e me preparei para sair da cozinha, mas meu pai falou antes que eu alcançasse a porta. — Vicente. Parei, sem me virar completamente. — O quê? — Você não precisa gostar de tudo o que acontece na sua vida. Mas precisa aprender a lidar com as coisas que não pode simplesmente ignorar. Fiquei quieto por alguns segundos. Eu poderia ter respondido atravessado. Poderia ter dito que ele não entendia p***a nenhuma do que eu sentia ou que estava cansado de ouvir conselhos. Mas alguma coisa na expressão dele me fez engolir as palavras. — Vou resolver isso — respondi. — Espero que sim. Saí da cozinha sem prolongar a conversa. No meu quarto, larguei a garrafa sobre a mesa e me sentei na beirada da cama. O dia tinha sido uma sequência de cobranças, e eu estava começando a entender que não conseguiria me livrar daquilo apenas fingindo que não existia. Abri o aplicativo da faculdade e conferi novamente os avisos. Nenhum nome havia sido informado. Nenhuma foto. Nenhuma descrição da pessoa que ficaria responsável por me acompanhar. Apenas a confirmação de que a coordenação estava finalizando a organização e de que eu receberia os detalhes em breve. Era o suficiente para me deixar impaciente. Eu queria saber quem era, como trabalhava e quanto tempo levaria para conseguir recuperar minhas notas. Não estava interessado em criar amizade, muito menos em transformar aquilo numa experiência inesquecível. Queria aprender o que precisava, fazer as avaliações, melhorar meu desempenho e voltar a cuidar da minha vida sem alguém me lembrando a cada cinco minutos que eu estava atrasado. Abri a conversa com Jorge. Eu: A coordenação ligou. O acompanhamento tá sendo organizado. Jorge: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Eu: Se tu mandar mais uma risada, vou te bloquear. Jorge: Calma, professor. Já sabe quem é a pessoa? Eu: Ainda não. Jorge: Tomara que seja alguém com muita paciência. Eu: Por quê? Jorge: Porque vai precisar. Balancei a cabeça, mas acabei sorrindo de canto. Eu: Vai se f***r. Jorge: Também te amo, irmão. Joguei o celular na cama e me levantei. Precisava tomar um banho, trocar de roupa e sair um pouco. Não ia passar a noite pensando numa pessoa que nem conhecia e num acompanhamento que ainda nem tinha começado. Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo. Mais tarde, depois de resolver algumas coisas, voltei para casa e encontrei outra mensagem da coordenação. Dessa vez, havia uma informação mais concreta. O primeiro encontro tinha sido agendado. Peguei o celular e abri o e-mail. Assunto: Confirmação do primeiro encontro — Acompanhamento de Estatística Li a mensagem com atenção. A coordenação informava que o tutor selecionado seria confirmado oficialmente no comunicado seguinte, mas que eu já deveria reservar o horário definido para a primeira sessão. O encontro aconteceria presencialmente, em uma sala de estudos da faculdade, e minha presença era necessária para que o acompanhamento começasse dentro do cronograma. O horário estava indicado logo abaixo. Franzi a testa. Não era um horário que eu teria escolhido por vontade própria. Eu precisaria reorganizar parte da minha rotina e chegar à faculdade com antecedência, sem a possibilidade de aparecer quando desse na telha. Rolei a tela até o fim. Havia uma observação em destaque: o acompanhamento fazia parte do plano de recuperação acadêmica definido pela coordenação, e as faltas sem justificativa poderiam comprometer a avaliação do programa. — Ah, mas que inferno… — murmurei. Sentei na cama, apoiei os cotovelos nos joelhos e fiquei encarando o e-mail. Agora não era mais uma possibilidade distante. Não era apenas uma ameaça do diretor ou uma conversa irritante com meu pai. Havia um horário, um local e uma obrigação concreta esperando por mim. Eu teria de comparecer. Gostando ou não. Passei a mão pelo rosto, respirei fundo e bloqueei o celular. Aquela pessoa ainda não tinha nome para mim. Era apenas o tutor que a faculdade escolhera, alguém que provavelmente chegaria com cadernos, exercícios e uma paciência que eu não tinha a menor intenção de testar — pelo menos não de propósito. Eu só queria terminar aquilo logo. Não fazia ideia de que, em breve, uma pessoa que eu ainda não conhecia começaria a ocupar um espaço muito maior na minha rotina do que eu estava disposto a permitir. Naquele momento, porém, meu único pensamento era simples: eu apareceria no horário marcado, faria o que precisava ser feito e provaria que conseguia recuperar minhas notas. Depois disso, ninguém teria motivo para continuar se metendo na minha vida. Ou era nisso que eu queria acreditar. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Vicente já tem dia e horário para conhecer seu tutor, mas será que vai conseguir controlar essa arrogância? No próximo capítulo, Mirella vai precisar conciliar seus sonhos com uma rotina cada vez mais apertada! ✨
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD