Capítulo 1: Sombras do Passado

2003 Words
Richard Cole havia acabado de completar sua terceira semana de liberdade, depois de passar quase três anos em reabilitação para combater seu vício em drogas. A jornada de recuperação tinha sido árdua, uma luta diária contra os demônios interiores que o haviam consumido durante anos. Aos 35 anos, ele se encontrava em um novo começo, embora não exatamente de seu desejo. Sua vida havia se tornado um quebra-cabeça de cacos que ele não sabia como montar. A noite estava escura e silenciosa no pequeno apartamento que ele havia alugado para recomeçar. Sentado em sua poltrona, ele se afundava em seus pensamentos escuros. Desejava que pudesse simplesmente esquecer o passado, apagar as memórias que o atormentavam. Seus olhos azuis estavam sombreados de tristeza, e as olheiras sob eles contavam a história de noites sem sono e angústia. Seu irmão mais velho, Daniel, havia sido seu maior apoiador durante a reabilitação, o que gerou ainda mais tensão entre eles. Richard sabia que sua família havia sofrido por sua causa, e ele não conseguia deixar de se sentir culpado por isso. A relação com Daniel estava particularmente abalada, uma vez que ele havia dedicado anos tentando ajudar Richard a sair do abismo do vício. Tudo começou com a morte de sua noiva, Emily, um evento que marcou o início de sua espiral descendente para o abuso de substâncias. A lembrança daquele dia permanecia como uma ferida aberta em sua alma. Ele se via de volta à noite chuvosa em que o telefone tocou, trazendo as notícias devastadoras. O som do choro de Emily, os paramédicos tentando reanimá-la, e a sensação de impotência diante da morte de seu grande amor assombravam seus pesadelos constantemente. No canto da sala, uma pequena mesa continha um álbum de fotos que Richard nunca tinha coragem de abrir. Um retrato de Emily e ele, sorrindo, no dia do noivado, estava na capa. Ele o encarava por um momento, sentindo o peso da saudade que jamais poderia aliviar. Richard ansiava pelo perdão, tanto de si mesmo quanto de sua família, mas a ferida em seu coração parecia incurável. Foi então que o som da campainha da porta interrompeu seus pensamentos sombrios. Ele não estava esperando ninguém e não costumava receber visitas. Richard se levantou lentamente e atravessou o corredor até a porta da frente. Quando a abriu, ele ficou boquiaberto. Diante dele estava Sarah, uma figura do passado que ele tentara esquecer. Ela estava pálida e parecia exausta, os olhos inchados de chorar. Em seus braços, ela segurava um bebê, envolto em um cobertor. "Richard..." Ela murmurou, sua voz trêmula. Ele não conseguia encontrar palavras. Seu coração começou a acelerar, a ansiedade subindo rapidamente. "Sarah? O que você está fazendo aqui?" Com lágrimas nos olhos, Sarah o encarou. "Você precisa cuidar dele. Ele é seu filho, Richard." As palavras a atingiram como um raio. Richard sentiu como se o mundo tivesse parado de girar. Seu filho? Ele estava atordoado, não conseguindo processar a informação. Seu filho, fruto de um passado que ele preferiria esquecer. "Isso não pode ser verdade", murmurou ele, finalmente encontrando sua voz. "Como você pode afirmar uma coisa dessas?" Sarah engoliu em seco e se esforçou para falar. "Faz tempo, Richard. Muito tempo. Eu não sabia a quem recorrer, e ele precisa de um lar, de um pai." A relutância e os questionamentos inundaram a mente de Richard. Ele estava sóbrio agora, tentando se reerguer, mas ser pai não estava nos planos. Ele se lembrava de Sarah, de seu relacionamento tumultuado e das brigas que os separaram. Ele havia sido deixado em pedaços pela morte de Emily e, na época, Sarah não conseguia entendê-lo. A última coisa que ele queria era mais complicações. "Sarah, eu não posso simplesmente aceitar isso. Você precisa me dar explicações, detalhes. Como isso aconteceu? Por que você não me disse antes?", ele exigiu, sentindo a raiva borbulhar junto com o choque. Sarah olhou para o bebê com tristeza e ansiedade. "Richard, eu prometo que explicarei tudo, mas não agora. Eu não posso. Por favor, só cuide dele por enquanto." Ela se aproximou, segurando o bebê em direção a ele. Richard vacilou, olhando para a criança que agora estava em seus braços. Era um bebê pequeno, com olhos curiosos e cabelo escuro. A semelhança com ele era inegável. Ele olhou de volta para Sarah, ainda cheio de perguntas e relutância. "Você tem que me dizer tudo, Sarah. Por que está fazendo isso?" Ela não respondeu diretamente, mas sua expressão era de angústia. "Por favor, apenas cuide dele. Ele está seguro com você. Eu confio em você, Richard." O bebê começou a chorar, e Richard sentiu uma onda de pânico. Ele não estava preparado para ser pai, não depois de tudo o que acontecera em sua vida. Mas, ao olhar nos olhos do bebê indefeso, algo se moveu dentro dele, um instinto paterno que ele não sabia que possuía. Com um suspiro profundo, ele concordou relutantemente. "Tudo bem, vou cuidar dele por enquanto, mas você precisa voltar e me contar a verdade." Sarah assentiu, ainda chorando. Ela deu um beijo na testa do bebê e depois olhou para Richard com gratidão. "Obrigada, Richard. Você não vai se arrepender." E com isso, ela se afastou, deixando Richard com um turbilhão de emoções e dúvidas. O bebê, agora em seus braços, olhou para ele com curiosidade e uma centelha de reconhecimento nos olhos. O bebê estava chorando incontrolavelmente nos braços de Richard, um choro agudo que parecia ecoar por toda a casa. Ele olhou para a criança com desespero, sentindo seu coração acelerar. Era como se o bebê pudesse sentir o pânico que ele estava experimentando, tornando o choro ainda mais alto. "Calma, calma, está tudo bem", Richard murmurou, balançando o bebê suavemente em seus braços. Ele estava suando, os olhos arregalados de medo. "Por favor, pare de chorar." Ele se movia pela sala, tentando encontrar alguma coisa que pudesse acalmar o bebê. Ele tentou cantar uma canção de ninar, mas sua voz estava desafinada e trêmula. O bebê não pareceu se importar, continuando a chorar com força total. Em sua busca desesperada, Richard encontrou uma garrafa de leite em uma sacola que Sarah deixara para trás. Ele pegou a mamadeira e tentou alimentar o bebê. No entanto, o bebê recusou, fazendo caretas e empurrando a mamadeira com a mãozinha. "Você não tem fome, é isso?", Richard perguntou ao bebê, que não podia responder. Ele se sentiu um completo novato na paternidade, sem a menor ideia de como acalmar a criança. O choro do bebê continuou, e Richard começou a sentir-se mais angustiado a cada segundo que passava. Ele segurou o bebê de forma insegura, tentando lembrar as técnicas que vira em filmes ou leu em livros sobre como acalmar um bebê. Mas na prática, nada disso parecia funcionar. "Por favor, o que você quer?" Richard implorou ao bebê, sentindo uma sensação de impotência tomar conta dele. "Por que você está fazendo isso comigo?" Em meio ao caos, houve um breve momento de alívio quando o bebê soltou um pum. Richard arregalou os olhos, surpreso, mas um sorriso involuntário escapou de seus lábios. "Bem, pelo menos você não está sofrendo com cólicas", ele murmurou, sentindo-se grato por essa pequena vitória. No entanto, o choro do bebê logo recomeçou com força total, e Richard suspirou, percebendo que estava completamente perdido. Ele não fazia ideia de como acalmar o bebê, como fazê-lo parar de chorar. A sensação de desamparo começou a pesar sobre ele. Ele olhou para o bebê com uma mistura de amor e frustração. E então, uma terrível realidade o atingiu: ele não sabia o nome da criança. Como ele poderia acalmar o bebê se nem sabia como chamá-lo? "Eu não sei o seu nome", murmurou ele, sentindo-se um pai terrível por não saber algo tão básico. "Eu não sei nada sobre você, e agora você está aqui, chorando sem parar, e eu não tenho ideia do que fazer." O choro do bebê parecia uma cacofonia ensurdecedora, e Richard começou a se questionar como a situação havia chegado a esse ponto. Por que Sarah apareceu do nada com um bebê e o deixou com ele? Como ele explicaria essa situação para seu irmão, Daniel, que lutara tanto para ajudá-lo a se recuperar? Como enfrentaria seus pais? A cada instante que passava, a angústia de Richard aumentava. Ele percebeu que estava em território desconhecido, enfrentando um problema que ele não estava preparado para resolver. Ele ansiava por respostas, por orientação, por qualquer coisa que pudesse acalmar o bebê e, ao mesmo tempo, acalmar seus próprios medos e inseguranças. O bebê continuou a chorar, sem sinais de parar, e Richard se viu cercado por um abismo de incerteza. Ele não tinha ideia de como navegar por essa nova realidade que tinha sido repentinamente jogada em seu colo. O choro do bebê continuava, ecoando pela sala e pela mente de Richard, como um martelo implacável. Ele segurava a criança nos braços, uma sensação de desespero crescendo dentro de si. Cada choro parecia uma lâmina afiada cortando através de sua frágil confiança. "Por favor, por favor, pare", sussurrou ele para o bebê, enquanto lágrimas de frustração começavam a se formar em seus olhos. A angústia e o medo o envolviam, e ele lutava para se manter calmo. Em um ato de desespero, ele começou a fazer caretas engraçadas na esperança de distrair o bebê. Ele abriu os olhos bem grandes, cruzou os olhos, fez caretas engraçadas com a boca, mas o bebê parecia indiferente às suas tentativas de entretenimento. A criança continuou a chorar, e Richard não tinha ideia do que fazer. "Eu sou um pai de primeira viagem terrível", ele confessou ao bebê, sentindo uma tristeza profunda e esmagadora. "Eu não sei o que estou fazendo. Não tenho experiência com bebês, e você merece alguém melhor do que eu." A tristeza se instalou nele, e ele lutou contra as lágrimas que ameaçavam rolar por seu rosto. Não estava preparado para essa responsabilidade, não estava pronto para ser pai. Ele ainda estava se recuperando de seus próprios demônios, e agora essa nova reviravolta o atingira como um trem desgovernado. As horas passaram, e o choro do bebê parecia interminável. Richard sentia-se à beira do colapso emocional. Ele começou a considerar seriamente a ideia de levar o bebê até a polícia. Ele não tinha provas de que era o pai da criança, e toda a situação era absurda. Ele não queria ser acusado de sequestrar um bebê. Com passos lentos e decididos, ele se dirigiu à porta. Ele olhou para trás, para o bebê nos braços, e sentiu seu coração se partir. Mas ele não tinha escolha, era o único caminho que podia enxergar naquele momento. Ele abriu a porta, pronto para encarar a realidade e enfrentar as consequências de sua decisão. No entanto, antes que pudesse dar o primeiro passo, o bebê agarrou sua barba com força. Surpreso, ele olhou para baixo e viu o pequeno rosto do bebê olhando para ele, seus olhos cheios de curiosidade. Uma faísca de reconhecimento e alegria brilhou nos olhos da criança. Ela agarrou a barba de Richard com mais força e deu um sorriso adorável. Foi um daqueles momentos mágicos que fez com que todos os pensamentos de desistir desaparecessem. Richard sentiu seu coração se aquecer e, pela primeira vez naquela noite, ele sorriu. "Você é um danado, sabia? Estava prestes a desistir de você, mas agora..." Ele suspirou. "Acho que temos muito o que aprender juntos, não é mesmo?" O bebê riu, e Richard percebeu que esse era apenas o começo de sua jornada como pai. Ele podia não saber como resolver todos os problemas, mas uma coisa era certa: ele não desistiria facilmente. Com o bebê ainda segurando sua barba com firmeza, Richard fechou a porta, decidido a enfrentar os desafios que estavam à sua frente. Havia muito a aprender, e ele estava disposto a fazê-lo por aquele sorriso adorável e pela nova vida que havia entrado em sua existência de maneira tão inesperada.
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