Todo dia era a mesma coisa. Ele levantava, calçava tênis, shorts e uma camisa de corrida. Seu relógio não podia esquecer, fundamental para marcar o tempo. Sua bolsa com a garrafa também, hidratar-se era de suma importância.
William Abner adorava o corpo atlético. Um físico forte e bonito compensava as rugas nos rostos, a barba e cabelos grisalhos, que ele insistia em gastar centenas de reais nas melhores tintas do mercado para disfarçar.
Seu império financeiro cobria todas as suas crises de meia idade. Os filhos do seu primeiro casamento já caminhavam com as próprias pernas, tinham as próprias empresas que o pai bilionário deu uma ajudinha para decolar.
Alessandra Mendonça tinha dois anos a menos que o filho mais velho dele, 25 anos. O que significava que seu marido era trinta anos mais velho que ela. Uma grande diferença, mas a experiência a atraiu. Além do mais, William Abner era um cavalheiro.
Não, ela não se juntou a ele por causa do dinheiro ou de ausência paterna, como você deve estar pensando, ela o amava. E o pai dela, além de ser seu melhor amigo, era dono de uma multinacional quase duas vezes mais rica que o império do marido.
E Alessandra Mendonça tinha suas próprias conquistas também, não por acaso possuía a própria marca de roupas de grife, na qual ela chegou a trabalhar como estilista algumas vezes por prazer. Ela amava desenhar roupas para o corpo feminino, respeitar as curvas e a suavidade. Era uma arte.
No entanto, Alessandra odiava correr, portanto, nunca acompanhava o marido de cinquenta e cinco anos na sua rotina matinal de exercícios. Ela odiava qualquer treino de cardio, o suor escorrendo pelo seu corpo, sujando sua roupa. Era nojento.
Ela apreciava essas coisas apenas na hora do sexo. Apreciava não, aprendera a ignorar. E como aquele homem tinha um fogo, ela não sentia carência nenhuma, nada a fazia pensar em procurar alguém mais jovem. Ela o amava, era feliz.
Então um dia resolveu fazer uma surpresa. Era um sábado de julho, cedo pela manhã. William se levantou cedo como sempre para seguir com sua rotina. Ele correria uma hora, meia hora indo e voltando nos quilômetros que seu esforço permitia alcançar.
Alessandra esperou a porta se fechar e se levantou, cedo, do jeito que odiava. Vestiu as roupas e calçou o tênis que comprou sem que ele soubesse. Minutos depois, estava na rua preparada para correr pelas ruas de São Pietro.
Quando começou a correr, imediatamente começou a suar e percebeu o quão sedentária estava apesar de exibir uma cintura fininha e uma barriga livre de pneuzinhos. Reduziu a corrida para um caminhar ritmado, os prédios altos provendo a sombra que precisava, se bem que o sol nem nascera direito.
Minutos depois, ela avistou William, também caminhando em ritmo moderado. Ele ficaria tão feliz em vê-la, perdera as contas de quantas vezes o marido a convidou para o exercício e ela recusara, até que enfim ele desistiu e não pediu mais por meses. Sim, um detalhe importante: eles estavam casados há oito meses.
Nem um ano se passara, mas ela o amava tanto. E se pudesse, teria filhos com aquele homem o mais rápido possível, para que eles tivessem tempo o bastante de serem criados por eles e se tornassem seres humanos de valores ideais. A diferença de idade era realmente triste às vezes.
Seguindo com a corrida, faltando alguns metros para alcançá-lo, outra mulher o interceptou com um toquinho no ombro. William parou, olhou, reconheceu e sorriu. Uma amiga, Alessandra pensou. E uma amiga linda, provavelmente da mesma idade que ela. Nunca se considerou ciumenta, mas gostava de cuidar do que era seu, então se apressou para alcançar o seu homem.
Entretanto, antes que conseguisse, o próprio William puxou a “amiga” pela cintura e deu um beijo caloroso. Imediatamente, Alessandra parou e se escondeu detrás de uma árvore. Maldita hora que decidiu começar a correr. Maldita hora que decidiu se casar com um coroa dependente de Viagra.
— Filho de uma put@ — ela xingou consigo mesma, mas não saiu do lugar e não iria confrontá-lo. Ainda não.
Alessandra pensou friamente e pegou seu celular, seguiu acompanhando os dois à distância. Era hora de obter boas provas para um divórcio que acabaria com a vida do infeliz, do jeito que ele merecia. Do jeito que a primeira esposa não fez, Alessandra faria. Seria o inferno na terra.