Willisburgo.
De onde vem esse nome? Preciso me lembrar de perguntar para o tio provavelmente velho de Eloise. Tento não demonstrar tamanha admiração pela cidade. É pequena, mas bem limpa e arrumadinha. Com vários hotéis e um enorme hospital com o nome de Robert Downey. Segundo Eloise foi dado em homenagem ao avô dela, depois da sua luta pela cidade e família.
Já faz uns minutos que Eloise entrou em uma loja pequena e sem o nome. O motorista também desceu, me deixando sozinha. Respiro fundo e encosto no banco, meu celular toca o famoso som que não ouvia á um tempo. Uma mensagem curta, que me faz engolir o choro e secar os olhos.
Emma, como estão as coisas por aí?
- Mãe. - Olho para a tela do celular. - Se você soubesse.
Toco na tela do celular e inicio a explicação de sempre. "Bem", mesmo que meu dia esteja tão nublado que nem a música que sai do meu violino me ajuda a melhorar, ou quando me sinto um lixo toda vez que algum homem me leva para casa e acabo gritando quando ele ameaça entrar, ou quando bebo como meu pai e acabo chorando por querer a vida que eu tinha antes mesmo de nascer, ou...
- Emma. - Eloise bate a porta do carro. - Está falando com quem?
- Que susto. - Enfio o celular no bolso. - Era a minha mãe. Mais tarde eu respondo ela.
- Não vamos para o palácio, está muito cheio. Vou te levar para a casa de campo, minha família vai jantar com a gente. - Eloise fala.
- Sua família quem?
- Meus tios, Susan e minha prima pequena. - Ela bate palmas. - Vamos tratar de algumas coisas.
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Horas depois eu ainda estou ansiosa, minhas roupas ainda não me fazem me sentir melhor, e nem meu cabelo ajuda. Tenho as unhas em tamanhos uniformes e meu sapato alto está passado até de mais. Tentei colocar um vestido, mas achei curto, depois uma calça, mas também achei um pouco velha de mais.
- Está linda Emma. - Eloisa para na porta do quarto.
- Claro que estou. - Respiro pesadamente. - Você é mais alta que eu, sua calça em mim fica tipo a roupa da nossa mãe quando a gente tem doze anos. Sobra nas pernas e nos p****s. - Sento na cama. - Estou horrorosa.
- Não, não está. Olha, seu cabelo castanho combinou com a blusa preta, e as calças ninguém vai reparar.
- Se alguém falar eu te mato. - Me olho no espelho. - Você....
A campainha toca, nõs duas ficamos em silêncio, Eloise dá uma risadinha amarela e sai do quarto.
- d***a. Agora não tem mais volta; - Respiro fundo e saio do quarto.
Nunca um corredor foi tão apertado em toda a minha vida, e nem a escada tão irregular. Lá em baixo Eloise brinca com um menina de colo, em seguida outra maior abraça ela. Mais duas pessoas. Um homem alto e com o padrão de beleza perfeito, olhos azuis, cabelos negros, e mais a frente uma outra mulher, cabelos negros, olhos claros também, mas tem graça no jeito de falar, sorri na forma certa, anda com postura e com certeza é a musa do bonitão. Ele está atento a qualquer movimento que ela faz, e mesmo que a conversa não seja direcionada a ele, quando ela fala ele sorri, muito provavelmente não é da piada, mas do orgulho palpável que sente. Eu desço mais um degrau de vagar, para ninguém me ver, mas tropeço e faço até a criança de colo me olhar.
- Tio, Susan, essa é a Emma. - Eloise aponta para mim. - Emma, esses são tio Mathew e a esposa dele, Susan. E essas são Emily e Sophie. - Emily é a mais velha das duas, deve ter uns doze anos, enquanto Sophie deve ter uns dez meses ou menos.
Me pego pensando como a mais velha é loira de olhos verdes, e a mais nova tem a cor dos pais, a bochecha rosa, olhos azuis e cabelos negros. Mesmo dessa idade os cabelos dela já estão presos no topo da cabeça, formando um coqueirinho.
- Olá. - Levanto a mão .
Susan sorri, as meninas também, só o Mathew não, embora não me trate m*l. Eu diria um tanto pensativo, calado.
- Bom. O jantar já está na mesa. Anthony vai chegar mais tarde? - Eloise pergunta.
- Não querida, ele está com um pouco de dor de cabeça, disse que amanhã virá aqui m***r a saudade.
Eloise fica um pouco triste, mas acena e nos leva até a sala de jantar. E como de costume, fico calada absorvendo toda a conversa e esperando ser chamada para alguma. Do outro lado da mesa a mais velha das meninas, Emily, me encara, posso jurar que ela ri, não para mim, mas de mim.
- Emma. - Eloise me chama. - Amanhá é aniversário do meu tio, conversei com a Susan e disse que você toca em eventos.
- Poderia tocar na festa dele? - Susan me pede com a voz doce e baixa. - Será surpresa, eu mesma tocaria, mas tenho umas coisas para fazer. - Ela aponta para as meninas.
- Claro. - Impossivel negar alguma coisa. - Que horas devo estar pronta?
- Meia noite. - Eloise fala como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Meia noite? - Minha voz fica mais aguda. - Meia noite de amanhã?
- Daqui a exatamente quatro horas. - Mathew olha no relógio de pulso.
- Já estão todos prontos,os músicos não vão mais vir, e eu não levo jeito para tocar músicas de jovens. - Susan me encara. - Se disser que não, irei entender.
- Não. Quer dizer, sem problemas, vou estar lá, ou onde quer que seja.
- è muito gentil Emma. - Susan aperta a minha mão. - Qualquer hora ainda quero tocar com você.
A sobremesa aparece na minha frente, como mecanicamente. Uma colher depois da outra, até o prato estar limpo, ou quase. Ouço aqui e ali alguma coisa. Minha mente na verdade está focada na música que irei tocar, como tocar e onde tocar.
Susan levanta delicadamente da cadeira, o esposo se coloca de pé na mesma hora, e então se despedem. Emily me pede um abraço, me agarra e fala no meu ouvido;
- Eu vi que a sua roupa está grande. - Ela fala no bem baixinho.
- Eu também vi que você não tomou banho ainda, e para a sua idade não tem p****s. - Falo sorrindo.
A garota me solta sem graça e cheira a roupa.
- Até daqui a pouco queridas. - Susan manda um beijo e some pela porta.
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