O jantar e as sombras do passado
Xavier Lancaster
O cheiro de alho e manjericão invadia a cozinha da mansão. Eram poucas as vezes que eu me dedicava a essa função, mas cozinhar me acalmava. Então hoje pareceu uma boa oportunidade. Com um avental que eu roubei da minha própria filha, dotes culinários que tive que aprender quando estudava fora e um desejo de paz. Me dediquei a alimentar a meninas hoje.
Em um tecido cor-de-rosa e coberto de corações, podia ser uma quebra de paradigmas que eu mesmo construí. Queria que Marina e Olivia que ocupavam a minha cozinha nesse momento, me vissem como o Xavier, não o CEO ou um Lancaster.
Agitava uma panela com molho bolonhesa. O ritmo lento e metódico da tarefa era um alívio bem-vindo, uma âncora na turbulência emocional que o dia trouxe para todos nós.
No balcão, Marina descascava batatas para o purê, seu rosto geralmente jovial agora carregado por uma sombra de preocupação. Olívia, estavam sentadas na mesa da cozinha, concentradas em corta frutas, segundo a mesma, seria bom comer algumas frutas de sobremesa. Falou a menina que ama doces, mas estava preocupada em comer frutas na sobremesa.
O silêncio delas era atípico, uma prova da seriedade do dia.
- Acho que exagerei no queijo, não acha? - Tentei quebrar o gelo, apontando a panela.
Marina sorriu fracamente, sem levantar os olhos. - Para mim, nunca é exagero. Para a Dani, talvez..." Ela parou, a voz sumindo.
Desliguei o fogo e encostando-me na bancada, observando a amiga da minha futura esposa, a mesma amiga que morava no Brasil sendo vizinhas. Sabia que o motivo da aflição dela ia além de temperos, Marina compartilhava segredos com a Daniela. Segredos esses que eu não fazia ideia ainda do que me escondiam. Eu sentia que tinha mais por baixo da história de resiliência da Daniela, mas não sabia de fato o que a deixava com o olhar perdido às vezes. Como se fugisse do Brasil a qualquer custo.
- Ela está dormindo. Deixei a porta entreaberta. - Disse, referindo a Daniela. - O cansaço dela era palpável, não apenas físico, mas algo mais profundo que ele tentava, de forma desajeitada, honrar e proteger.
Marina largou a faca e soltou um suspiro pesado, cruzando os braços.
- O que você quer saber realmente, Xavier? Não está me rondando porque viu que estava com fome. Você quer colher informações. - Direta como a amiga.
- Sabe que eu investigue a vida da Daniela, não sabe? Antes de tudo, eu sempre faço isso.
- Tola seria se acreditasse que não. - Diz na defensiva.
- Fiz isso antes dela vir morar com a gente, sou meio metódico com certas coisas.
- Você tem sua menina para proteger, nunca iriamos recriminar a atitude um pai protegendo a seu bem mais preciso.
- De fato... - Digo cortando mais alguns temperos. - Só que tem coisas que eu não consigo saber por detetives, com dinheiro e poder. Tem segredos que ficam bem guardados, Marina. É esses segredos que me incomodam. Não gosto de ser pego de surpresa, por isso faço o meu dever de casa bem feito. – Ela ri amargamente.
- Por isso a minha amiga está com o seu rosto em todos os sites, revistas e até telejornais. – Pigarreio.
- É melhor nós contarmos a narrativa, que eles saberem que ela é a minha estagiaria, perto de perder o visto e que foi enganada por um i****a chamado Paul, não acha? – Marina revira os olhos.
- Que seja...
- Marina, não quero ser inimigo de ninguém, eu somente quero cumprir a minha promessa. Eu quero proteger e cuidar da sua amiga. Preciso saber se tenho com o que me preocupar.
- Não acha que está perguntando para a pessoa errada? - Marina diz sem se abalar.
Estreitei meus olhos. Havia tentado desvendar o mistério que cercava Daniela. Eu sentia que tinha algo mais, um detalhe que eu tinha deixado passar.
- Qual é a relação da Daniela com o padrasto? - Marina engole seco.
Era esse caminho que eu queria ir, precisava saber do porque a Daniela estava tão apavorada em ter a sua vida exposta. Ela não tinha uma história r**m, ela era um bom exemplo que mesmo com todas as dificuldades, ainda se pode almejar algo grande para a sua vida.
- O que você sabe sobre esse cara, Marina? Seja lá o que for, se está fazendo a Dani tremer desse jeito, não pode ser bom. - Joguei a isca.
Eu sabia que tinha algo errado no novo casamento da mãe da Dani, mas não tinha ainda o fio da meada para puxar.
Continuo vendo o seu silêncio.
- Ela me confessou que queria ter uma família diferente da sua. Então, deduzi que na primeira tentativa da mãe de ter uma família foi falha. O pai da Daniela era um monstro, ela cresceu naquele inferno, e somente ficou bem quando o pai morreu. - Marina permanece calada. - Mas porque ela não fala bem do segundo casamento da mãe? Orlando, certo? Ele é o padrasto dela... Sei que é um i****a, mas a mãe dela está feliz, era isso que deveria importar, não é mesmo? Porque não vejo a Dani falar bem do padrasto, nem que seja que ele é bom para a mãe? Ele pode ser um i****a apostador, mas trata o filho deles bem, então porque eu sinto que tem algo de errado?
Marina mordeu o lábio, hesitando.
- É a história da Dani, Xavier. Que a persegue desde o final da sua adolescência, indo para a sua fase adulta. Ela me contou há anos, sob a promessa de nunca, nunca contar a ninguém. - Ela olhou para Olívia, certificando-se de que estavam distraídas. - Eu não sei todos os detalhes, só o suficiente para saber que é a razão pela qual ela construiu um muro ao redor da mãe e de si mesma. O nome dele é Orlando. Padrasto dela. Ela o faz para protege a própria mãe. Daniela diz que ninguém nunca acreditaria na sua palavra, e pior que eu sei disso, pois eu também não fui ouvia quando necessário. As pessoas não nos levam a sério por “N” motivos, mas quem paga não são outros, além das vítimas.
O ar na cozinha ficou pesado. Permaneci em silêncio, incentivando-a a continuar. Marina dá de ombros, ela estava decidida e me dizer mais.
- A mãe da Dani é a pessoa mais incrível que eu já conheci, mas quando se trata de relacionamentos... – Marina pensa em algo. - Ela tem uma cegueira, e como se ela não enxergasse mais nada além de quem ela estava envolvida. Uma vez que se apaixona, ela deixa a pessoa ser a autoridade. E o Orlando... - Marina fez uma careta de nojo. - Ele era um predador. Fofo e charmoso no começo, mas um parasita que virou um... um monstro. Ela me disse que ele traía a mãe dela o tempo todo, mas o medo dela não era esse.
Fecho os punhos sobre a bancada, sentia meus pensamentos ferverem.
- O que era, Marina? - A minha voz estava baixa, controlada.
Marina balançou a cabeça, incapaz de terminar de contar o que eu queria saber.
Levei a mão ao rosto, sentindo o peso daquelas informações, mesmo não sendo ditas com clareza, me davam um rumo para saber a verdade.
Olhei para o corredor, após terminar a comida, iria chamar ela para comer.
Senti o gelo escorrer pelas minhas veias. Eu a tinha deixado dormir, pensando que o descanso apagaria o peso do dia, mas bastou eu me aproximar do quarto para ouvir. Um grito agudo, seguido de um choro descontrolado. Não era um sonho calmo.
- Daniela? Dani? - Eu a chamei, desesperado.
Ela abriu os olhos, piscando contra a pouca luz do abajur. O pânico ainda estava lá.
- O que foi? - Ela perguntou, confusa, olhando ao redor. - Cadê as meninas?
Eu me sentei na beirada da cama, aflito. Os gritos dela tinham sido guturais, reais.
- Você estava dormindo. As meninas saíram para te deixar descansar. O dia foi difícil... – Meus olhos estavam fixos nela. - Eu estava vindo te chamar para jantar, mas no corredor eu ouvi seus gritos. Você estava gritando para alguém ir embora.
Vi a cor sumir do rosto dela. Ela engoliu em seco, a lembrança a atingindo com força.
- Não sei se foi sonho, eu lembrança, mas você estava desesperada.
Ela se encolheu, não na cama, mas no tapete felpudo da Olívia, tentando se afastar da dor. O meu instinto tomou conta. Eu não sou um homem que espera. Puxei-a para o meu colo, abraçando-a com força.
Não importava quem ela era para mim. Noiva, mãe da minha filha, hóspede, a mulher que me intrigava. Naquele momento, ela era apenas alguém precisando de proteção. Para minha surpresa, ela se agarrou a mim. Eu senti seu corpo relaxar naqueles braços que a apertavam, como se tivesse encontrado o único lugar seguro do mundo.
- Xavier, eu preciso proteger a minha mãe. - Ela soluçou contra meu peito. Eu m*l percebi que ela estava chorando como uma criança perdida.
- Já cuidei disso. - Eu murmurei, beijando o topo da sua cabeça. O alívio de já ter antecipado um dos seus medos foi imenso. - Antes mesmo de você aceitar o meu pedido.
Ela se afastou um pouco para me olhar, os olhos inchados.
- Não me pergunte o porquê, mas sim, sua mãe está segura. Amanhã você vai poder falar com ela. - Vê-la acalmar um pouco, ainda que minimamente, foi a minha única recompensa.
- Dani... - Eu tentei a pergunta que estava presa na minha garganta desde a conversa com Marina. - O que ele te fez?
Ela se agarrou mais forte a mim, enterrando o rosto novamente. - Depois, eu juro que conto depois...
Eu engoli seco. A lealdade dela à promessa de Marina e o medo eram uma barreira poderosa, mas ela havia acabado de ceder. Ela estava no meu colo, chorando. Era uma quebra de muro que eu não podia forçar.
- Eu vou cobrar. - Eu disse, sem rodeios, aceitando a trégua temporária.
- Eu sei... – Ela sabia que não tinha para onde fugir.
Eu apenas a segurei. A informação era vital, mas a cura dela era mais urgente. Por agora, ela estava segura. E eu faria o inferno pagar quando ela estivesse pronta para me dar o que eu desejava ouvir.
A história dela não era apenas uma lembrança r**m; era uma sombra viva, um trauma que a estrangulava até no sono. Eu sabia que tinha mais coisa, mas preciso ouvir da principal personagem dessa narrativa.