Capítulo 20

1532 Words
Capítulo 20 Xavier Lancaster Durante a última hora, tentei colocar meus pensamentos no lugar. As palavras de Daniela ainda ecoam na minha mente, não queria admitir, mas tinha errado. Como pude falar tudo aquilo sem dar a ela o direito de resposta? Somente Daniela Marçal para ter tamanha coragem: me olhar nos olhos e dizer aquelas palavras sem nem gaguejar. Não sei se fico orgulhoso ou possesso de raiva por ouvir aquilo e não poder lembrá-la de com quem ela estava falando. Ainda assim, não estávamos na minha empresa, e o que Daniela faz fora dela não é da minha conta, nem do meu domínio. Depois de passar anos com o controle total dos meus passos, deveres e poderes, ciente de quem eu sou, de onde vim e o que todos esperam de mim, é difícil me adaptar para tentar ser o menos invasivo possível com Daniela. Levarei um bom tempo para me atualizar sobre tudo que devo ou não fazer com ela. Esse universo feminino, que eu só conhecia através de princesas e penteados mirabolantes, agora teria outra vertente. Agora eu teria que entrar em um mundo à parte ou em uma nova fase de tudo que já passei com a minha filha de quatro anos. Sinto-me como em um videogame: a cada fase que passo, a próxima consegue ser bem pior do que a anterior. É o mundo onde eu não posso falar coisas que deixariam minha estagiária zangada, com raiva e querendo jogar o mundo na minha cabeça. Teria que aprender a ser menos grosseiro em minhas palavras, mesmo que a intenção não seja machucar. Ninguém sabe o quanto eu tive que aprender para ser um pai para Olivia. Agora, teria que aprender a não ser um babaca com Daniela Marçal, mesmo me fodendo para os seus sentimentos. Eu já tinha sinalizado que me arrependia, pedi desculpas, mesmo ela não me deixando completar a frase. Eu não tinha o direito de falar o que falei, mas Daniela também estava sendo dramática. Será que somente eu vejo isso? Já peguei pesado com ela a ponto de perguntar se ela comprou ou forjou o diploma. Sei que é ridículo falar isso para uma profissional séria como Daniela, mas na hora da raiva e ao ver seu erro, eu falei, e ninguém fez esse drama todo na minha cabeça. Fui tão c***l com ela no trabalho, mas jamais imaginei que ela iria se irritar por eu falar a verdade fora da empresa. Pelos céus! Eu era um homem tão bom de lábia na minha juventude, e agora sou um i****a que m*l consegue manter uma conversa decente com uma pessoa normal, e, o que é pior, eu preciso dela. Me sinto estressado, pois não estou me reconhecendo. Por que estou tão mexido com a explosão de Daniela? É como se eu a tivesse ferido com uma facada bem no meio do coração. Como se tivesse negado algo importante ou até mesmo colocado sua vida em risco. Eu somente falei que Paul não a amava e que tinha um motivo oculto para esse namoro. Entretanto, não foi interpretado assim. Eu somente fui sincero e disse que Paul não era o homem que ela pensa que é. Agora eu tenho que pagar por falar a verdade? Era um inferno ter razão e não ser bem interpretado. Após a conversa com a Daniela, ficou claro que não tinha como recuperar o tempo perdido, não podia apagar as palavras ditas, mesmo que fossem verdades e doem. Acreditei que seria mais fácil ter uma conversa decente com Daniela, mas não era tão simples assim. No trabalho, eu saberia exatamente o que falar, solicitar e pedir. Daria as regras, as metas e o que espero dela, mas não posso fazer isso com sua vida pessoal. Ainda mais quando eu tenho que fazer parte dela, mas eu preciso me casar com Daniela. Não tinha muito tempo para tentar achar outra pessoa, fora que Olivia gostava da garota. Era isso ou nada. Suspiro frustrado. Odeio quando as coisas saem do meu controle. Por isso que eu odeio interagir com outras pessoas. Odeio depender de terceiros, odeio não poder dar ordens e ser obedecido sem questionamentos. Olivia é mais fácil de se lidar do que a minha possível esposa por contrato. Minha filha é uma criança, tem esse detalhe. — Inferno… — digo, me sentindo sufocado com as paredes do meu quarto. Precisava espairecer. Arrumei-me rápido, peguei minha chave e disse a Violeta que iria dar uma volta. — Cuidado, está tarde e a cidade está movimentada por causa do jogo — ela disse. Deixo a senhora tricotar algo ao lado da cama da minha pequena. Saí com rumo certo, pois era lá que eu me lembrava que nem tudo era empresa e Olivia, e que eu ainda tinha que me tirar o estresse. Foi assim que vim parar em um clube que não frequentava sempre, mas vinha quando me sentia fora de controle. Estacionei na porta, e logo meu carro foi para o estacionamento. Apresentei a minha carteira de m****o para o recepcionista. Era um clube de cavalheiros de luxo da cidade, um lugar frequentado pela elite. Entrei no local com a mesma áurea com que entro na minha empresa. Frio, sabendo exatamente o que quero e sem querer perder tempo com trivialidades. Passei o olhar para todos. Alguns rostos eram conhecidos, outros nem tanto, mas todos pararam para ver o recém-chegado adentrar o lugar. — Boa noite, senhor Lancaster. A mesma mesa de sempre? — O gerente logo estava ao meu lado, com sua excelente eficiência. — Sempre, Menezes, a de sempre… — Logo sou levado para o lugar, e não demoro muito a ser servido com a minha bebida favorita. Aproximo-me de uma mesa de poker com apenas duas pessoas, a mesa que sempre costumo jogar. Acredito que a última vez que estive nesse clube foi quando briguei feio com Daniela, aliás, quando eu gritei tudo que desejava e ela saiu para chorar no banheiro. Não precisava falar da forma que falei com ela, mas fiz porque vi Paul em uma reunião anterior. Ele estava começando a me dar trabalho. Aqui estou eu, mais uma vez, porque perdi a cabeça com Daniela Marçal, a mulher que tem o dom de me deixar fora de órbita com as suas perguntas impertinentes. O clube exalava masculinidade. Era o reduto masculino, cheio de mesas com jogos, bebidas e um ar de despreocupação. — Posso me juntar aos senhores? — Pergunto antes de sentar, vendo que tinha uma figurinha conhecida por mim. Brian era meu amigo de infância, ele é meu advogado em casos fora da empresa. Ele andava viajando, e, pelo jeito, chegou e veio jogar para tirar o estresse. — Quanto tempo, Lancaster? — Brian me cumprimenta. — Eu nem acredito que você esteja aqui… — Chegou hoje? — Ele confirma. — Sim, vim para cá na esperança de me aliviar, mas jamais acreditaria que você estaria aqui. Cadê a Olivia? — Dormindo o sono dos inocentes… — Ainda bem que está aqui, assim te conto o que eu consegui na negociação que você tanto queria… — Estendo a mão. — Hoje não, quero somente jogar e ganhar dinheiro do meu amigo… — Brian me analisa. — Sabe há quantos anos você não me chama de “amigo”? — Reviro os olhos. — Não faça assim, me deixe apreciar tal fala… — Muitos… então, não quero falar da empresa, hotéis e qualquer coisa que seja envolvida com trabalho — digo por fim, deixando claro que não queria falar de nada além da empresa. — Okay…, mas sabe que amanhã tem que te entregar um relatório completo, não sabe? — Aceno que sim. — O que aconteceu com o meu chefe turrão? — Mostrou o dedo para ele. — Aí está! - A partida vai começar... - Alguém diz. — Obrigado. — Ocupamos as cadeiras vagas. — Esse aqui é meu melhor amigo, que é muito desleixado comigo — Ele me apresenta ao homem que dava as cartas. Nos cumprimentamos num breve aperto de mão. — O que está tirando o sono, essa hora você já estaria descansando em casa. - Olho as minhas cartas. — Nada demais... — Ainda acha que tem o poder de me enganar? - Brian diz sem nem olhar para a minha cara. Suspiro. — É complicado... — Uma mulher tem o poder de acabar com a vida de um homem — Brian brinca. — Só que no seu caso, eu sei que nenhuma mulher tem esse poder, nenhuma além da pequena Olívia. Vejo o meu jogo, era bom, mas não podia dar brechas para Brian. - Ou tem uma mulher nessas duas semanas que estive fora? - Pigarro e olho para as minhas cartas. - Como é que é? - Ele coloca as suas cartas viradas para baixo e me encara. - O que aconteceu nessas duas semanas? - Olho para ele. - Só tenho que me casar para não perder a guarda da minha filha... - Digo saboreando a metamorfose que acontece no rosto de Brian. - Tá brincando? - n**o. - Sabe que eu nunca brinco. - Seu filho da p***!
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