A Perfeição Insuportável
Xavier Lancaster
Dois Dias Depois...
Eu estava na minha sala de reuniões privadas, olhando para a tela. O projeto Macau tinha avançado três passos em dois dias. A negociação direta de Peter com o Governo, a minha solução, tinha funcionado. Mas não era a minha eficiência que estava no auge; era a clarividência dela que pairava sobre a sede como um wifi de altíssima velocidade.
Eu tinha fugido para a minha fortaleza de vidro, procurando o ar-condicionado frio e o cheiro a papel e poder. Mas o perfume floral e o eco da sua voz estavam por todo o lado. Ela voltou ao trabalho no dia seguinte, impecável. Não apenas impecável, mas perfeita ao extremo.
Daniela Marçal se sentou na sua cadeira de estagiária, ao lado da minha, e não era mais a estagiária discreta. Era a noiva de contrato que eu tanto queria, vestida com um blazer de corte irrepreensível. Um que eu tinha comprado na Suíça, pois precisava sair de casa pelo menos por meia hora, mas minha cabeça estava em Daniela Marçal. Quando dei por mim, estava comprando roupas em um shopping para a minha filha e para a minha futura esposa.
Pensei que era a roupa certa para a minha futura esposa. O cabelo estava apanhado num coque escultural, e os seus olhos castanhos brilhavam com uma confiança que beirava a arrogância controlada.
Ela não estava ali para aprender; ela estava ali para dominar.
Na reunião de due diligência para a aquisição do Hotel Viena, ela não falou, mas quando o CFO apresentou a análise de risco, os seus olhos se levantaram. Um olhar. Foi tudo o que bastou. Peter engoliu em seco e recuou, reanalisado os números.
- O que foi, Peter? - perguntei, a minha voz seca, mas o meu maxilar tenso.
- Nada, Xavier. Apenas a Marçal… o olhar dela. Pensei que o retorno do capital estava ligeiramente otimista demais no cenário base. - ele murmurou, corrigindo uma planilha em tempo real.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, de satisfação silenciosa, que não era dirigido a Peter, mas a mim. Era a sua forma de dizer: Eu sou funcional. E a minha função é ser melhor que você.
Eu sentia a minha própria eficiência a ser desafiada, não por um oponente, mas por um ativo que eu tinha criado e agora não podia controlar. O meu sistema estava a sofrer uma sobrecarga. Eu queria a raiva, queria a discussão, queria o olhar de desafio aberto, porque isso eu sabia como combater. Mas ela estava me dando perfeição, e a perfeição era incontornável.
A gota d’água veio no final da tarde.
Eu estava a sair da minha sala, a caminho do penthouse executivo para uma chamada, quando passei pela estação de trabalho dela. Ela estava a folhear um relatório, concentrada, a luz do final da tarde a realçar os contornos do seu rosto. Ela estava mais bonita do que nunca. O meu sistema interno registou que o blazer de linho cinzento que ela usava acentuar a linha dos ombros que eu tinha abraçado.
E então o vi. David. O meu braço direito. Ele estava curvado sobre a mesa da secretária dela, os seus ombros perigosamente perto, a cabeça quase tocando o coque escultural.
Ele riu. RIU. Um riso fácil demais, corporativo demais.
- É brilhante, Dani. Não sei como você viu esse buraco logístico no projeto. - David disse, e usou o apelido. Não “Marçal,” nem “Daniela.” “Dani.”
Ela levantou os olhos, e o seu sorriso era quente. Aberto. Um sorriso que eu só vi quando ela estava a rir com Olívia, ou quando me beijou na Suíça. Um sorriso que não pertencia à Lancaster & Associates, e muito menos a David.
O ar na minha garganta ficou preso. O meu sangue subiu à cabeça. O CEO metódico e frio desapareceu. No seu lugar, havia uma raiva primitiva que eu não sentia desde a minha juventude.
Ela estava ali, impecável, com as roupas que eu comprei, a ser simpática demais com um dos meus funcionários, e a ser elogiada por um trabalho que ela estava a fazer perfeitamente.
Eu caminhei, sem pensar, para a mesa. Não bati. Não falei. Apenas parei ao lado dela, a minha presença a bloquear a luz, a projetar uma sombra ameaçadora sobre os dois.
David recuou, o riso morreu na garganta. Ele viu a expressão no meu rosto.
Daniela levantou os olhos para mim. O olhar de cortesia calibrada estava de volta, mas havia uma faísca de conhecimento que me dizia que ela tinha percebido a minha falha de sistema.
- Xavier. - ela disse, a voz profissional e límpida. - Estávamos a rever o plano B para a licença de Macau. David sugeriu…
Eu a cortei, a minha voz, um trovão baixo que ecoou pelo andar executivo.
- David tem as suas próprias tarefas, Marçal. - eu disse, a forçar o uso do sobrenome, na vã esperança de me agarrar ao profissionalismo. Olhei para o meu braço direito. - Volte ao seu escritório, David. E concentre-se em Viena. A Marçal está sob o meu controle direto para este projeto. Tem o hotel do Brasil, Dani. Temos que rever esses contratos.
David assentiu apressadamente, recuando. Ele fugiu, compreendendo o perigo.
Fiquei ali, em pé, a respirar fundo, a tentar recuperar o controlo. Olhei para ela, a sua beleza estonteante, realçada por minhas compras.
- Eu não a quero paquerando os meus funcionários, Marçal. - eu grunhi, inclinado sobre a secretária, a minha voz agora é um sussurro de fúria. - Este não é um clube social. Mantenha o seu comportamento profissional.
Ela sorriu, com um sorriso pequeno e devastador. O sorriso de quem venceu.
- Eu sou o seu ativo funcional prioritário, Xavier. - ela disse, a sua voz baixa e sedosa. - Estou a manter a minha performance perfeita. E se a minha performance for agradável para a equipe, é seu problema. Talvez você devesse estar menos preocupado com o meu sorriso e mais preocupado com a sua relação de trabalho com a sua noiva.
Ela fechou o relatório. E eu percebi. Ela não estava a paquerar. Ela estava a mostrar que era indispensável para toda a equipe, não apenas para mim.
A minha raiva me transformou em pânico. O controle estava a escorrer pelos meus dedos. E o pior de tudo: eu não queria que ela parasse de sorrir. Eu só queria que ela sorrisse para mim.
Eu estava a cair. Literalmente. O chão de mármore do andar executivo parecia instável sob os meus sapatos caros. A sala de reuniões, o meu santuário de controle, se tornaram o palco da minha rendição. A voz dela, a Daniela Marçal, ressoava na minha cabeça, as palavras ainda ecoavam dentro de mim.
O pânico era uma onda fria, escorrendo por mim. Eu, Xavier Lancaster, o homem que orquestrou fusões multimilionárias, estava a perder o controlo sobre a única coisa que importava. E era tudo por causa de um sorriso, de um blazer que eu comprei e de um apelido "Dani" que o David, meu braço direito, se atreveu a usar.
Eu não fui para o penthouse. Não consegui. Eu precisava de ar, precisava de um ponto de verificação externo, e o único homem na minha vida que nunca se preocupou com o meu império e que entendia de emoções era o Brian. Ele era o meu oposto, o meu escape.
Caminhei pelo corredor, m*l notando o silêncio dos meus funcionários. Bati na porta dele, sem dar tempo para que ele me convidasse a entrar. Ele levantou os olhos do seu monitor, e o seu sorriso habitual de playboy corporativo se apagou. Ele viu o furacão nos meus olhos.
-Xavier? - disse ele, a sua voz séria. - O que aconteceu? Parece que acabou de perder uma aquisição hostil.
Eu fechei a porta atrás de mim e deixei cair no sofá de couro. Apoiei os cotovelos nos joelhos, as mãos a apertarem a minha cabeça. A minha voz saiu como um rosnado frustrado.
- É a Marçal. - articulei. - Ela... ela está insuportável. Está... ela é... a perfeição. O projeto Macau, o Viena, tudo. Ela não comete um erro. O Peter estava a corrigir. Eu... Eu comprei a roupa. E o David estava a rir com ela. A chamar de 'Dani'.
Eu levantei a cabeça, a minha fúria misturava
com a vulnerabilidade.
- Eu não quero paquerar os meus funcionários, Brian. Ela é a minha noiva. É meu. Eu perdi o controle. Ela está fazendo de propósito.
Brian ouviu, sem me interromper. Ele pegou uma garrafa de água da mesa do bar e atirou para mim. - Bebe isto. Você está a ferver.
Ele esperou que eu bebesse metade da garrafa antes de falar, e as suas palavras me atingiram com a precisão de um míssil.
- Você não está zangado porque ela está a 'paquerar' ou porque ela está sendo elogiada. Você está aterrorizado. - declarou Brian. - Aterrorizado porque ela está a provar que é indispensável para toda a tua equipa e não apenas para ti. E isso significa que o teu contrato e o teu controlo não a prendem. O único que pode prender é você, Xavier.
A minha garganta apertou. Eu sabia que ele estava certo. A minha fúria era apenas medo disfarçado.
- Eu só... eu só queria que ela sorrisse para mim. - confessei, a minha voz agora é um sussurro rouco. - O sorriso que ela deu ao David, era... aberto. Eu só a vi sorrir assim com a minha filha. Eu só queria ser a razão.
Brian encostou-se ao sofá, com os seus olhos fixos nos meus.
- Escuta bem, Xavier. Os teus pais não queriam amar. Eles queriam tudo, menos serem um casal apaixonado. Eles eram a união de ativos perfeita. - fez uma pausa, e o peso da sua honestidade era esmagador. - Você tem a chance de ser diferente. Tem a Daniela Marçal. Ela é brilhante, é linda, e você... você gosta dela. E o teu 'gostar' é mais do que funcional, ou já tinha acabado com este contrato há muito tempo.
Eu levantei a mão para interromper, mas ele ignorou.
- Não se trata de controle. Tratava de vontade. Você não tem de ser como eles. Eles escolheram a miséria emocional e a conveniência. Você tem a chance de ter um casamento bom, Xavier. Só precisas de querer.
As palavras dele me desarmaram. Toda a minha vida foi uma fuga e uma tentativa de ser o triplo do homem que o meu pai era, mas eu estava a cair na mesma armadilha: a armadilha de usar o controlo como substituto da ligação.
Ele tinha razão. Eu tinha tudo para ter um casamento bom com a Daniela. Eu só precisava deixar o controle escorrer e estender a mão.
Eu respirei fundo, o ar mais frio no meu peito. Eu não estava zangado; eu estava apaixonado e aterrorizado por isso.
- O que é que eu faço, Brian? - perguntei, a minha voz desprovida de qualquer vestígio de CEO. Eu era apenas um homem a pedir conselhos.
- Deixa ela ser o que deseja. - ele respondeu, com um pequeno sorriso. - E tira ela do escritório. Não como ativo, mas como noiva. Leva ela para fora, Xavier. Mostrar o sorriso dela, mas fora da Lancaster & Associates. E deixa o David para lá. Ele percebeu o perigo, confia em mim.
Ele viu a resolução a regressar aos meus olhos, mas agora era uma resolução emocional. Eu não iria lutar contra a perfeição dela; eu ia reivindicar.
Eu levantei, com uma nova energia, não de raiva, mas de propósito.
- Obrigado, Brian. - disse eu, com um aceno de cabeça. Eu sabia exatamente o que tinha de fazer.
Eu tinha de tirar a Daniela do meu escritório e levar para o meu mundo. Não para a testar, mas para a conquistar.