Capítulo 23

1348 Words
Capítulo 23 A Mente de Xavier Lancaster Xavier Lancaster O que anda passando na cabeça da minha estagiária ultimamente? Daniela Marçal era tão obediente e centrada, nunca sequer cogitou me questionar, e agora falava o que queria e me deixava à beira da loucura com suas atitudes. Por que mudou tanto em tão pouco tempo? Logo agora que minha concentração deveria estar cem porcento focado em manter a guarda da minha pequena Olivia, e não em como a minha estagiária parecia feliz por receber as flores daquele babaca. Minha atenção tem que se voltar para os grandes negócios da minha família, para as construções espalhadas pelo mundo e para a manutenção dos meus hotéis de luxo no topo. No entanto, Daniela vem se mostrando o oposto de tudo que imaginei. Minha estagiária tinha que dar "defeito" justamente agora e me deixar desfocado? Tenho que focar nos documentos que lotam minha mesa, não em como ela consegue ser tão irritante a ponto de me deixar sem palavras. Sei que não sou o melhor chefe do mundo, tenho plena consciência disso, e não perco uma noite de sono por esse motivo. Sou o que sou e não vou mudar. Aqui na empresa, a última palavra é a minha, e é isso que preciso lembrar à minha estagiária. Minha empresa é grande porque sou assim: frio, calculista e centrado. O que ninguém entende é que sou desprovido de sentimentos, e não me culpo por isso. Vejo as melhores oportunidades em momentos que todos me recriminam. A questão é que não se chega ao topo com um coração mole e dizendo "sim" a tudo. Não me esforço para ser diferente e não faço a menor questão de agradar ninguém. Sou bem direto, e não faço a menor questão de esconder isso. Para mim, todos têm que pensar o pior. Não gosto de atenção, de fama, de pena ou que me achem fraco. A única coisa que importa é a eficiência. Do zelador à secretária da presidência, todos têm regalias que nenhuma outra empresa daria. Porque eu teria que me modificar para agradar alguém? Preciso dos seus serviços, e não de sua amizade ou compreensão. Sou assim mesmo e não tenho tempo nem vontade de mudar. Cresci vendo todas essas atitudes darem certo para o meu tio, então por que seria diferente comigo? O que ainda me incomoda é o jeito que Daniela vê a vida que passa diante de seus olhos. Seu profissionalismo está sendo lapidado por mim, e tenho orgulho disso. Daniela chegou sem saber nada, eu ensinei tudo e espero não me arrepender. Ela foi aprendendo e me orgulho por não ter perdido a cabeça, e sim ensinado. Ela mexe comigo de alguma forma. Ainda não sei por quê, mas mexe, mexe mais do que eu gostaria de admitir. E nem posso admitir. Não posso reclamar da sua postura como minha estagiária, mas... sempre há um "mas". Sempre há um ponto a ser discutido e lapidado. A forma como ela vê os outros me desconcerta por completo! Daniela ainda é boa demais para ser centrada e colocar as coisas no lugar que devem estar. Sempre simpática! Sempre animada! Sempre amorosa... Olivia a ama por causa disso. Hoje foi uma luta para ela ir para a escola, pois queria vir para o escritório ficar com a Daniela em sua mesa cheia de doces e lápis. Elas me desarmam assim, não consigo me concentrar em ser o chefe ao ver suas atitudes tão... meigas. É tão difícil ser neutra? Olivia ama aquela mulher que recebeu flores... Por que Paul não desiste da Daniela? Me peguei encarando aquelas flores e querendo jogar no primeiro balde de lixo que visse pela frente. A que ponto eu cheguei? Querendo jogar flores fora porque estava puto com a situação. As flores não tinham culpa de nada! Era um pedido de desculpas, claro que era. Paul queria me mostrar que ainda tinha o controle. Droga! Brian tem que achar alguma sujeira sobre Paul, eu preciso de algo para chantagear. Olho para o relógio e nada de Daniela Marçal... Conto de um até dez, mas não adianta muito. Daniela queria me testar e estava conseguindo me tirar do sério. — DANIELA MARÇAL! — Grito, irritado. Sei que Daniela Marçal tem palavras feias em sua mente, não preciso de bola de cristal para saber. Espero que ela entre na minha sala apressada. — Estava fofocando, Senhorita Marçal? — Daniela colocou rapidamente a pasta que pedi há tempos em minha mesa. Seus olhos verdes ficam límpidos, suas narinas se dilatam e sua boca sempre se contorce. Muitas vezes, a palavra "i****a" é o que leio em seus lábios. Ela sempre me chama de i****a quando está nervosa ou chateada comigo, claro que nunca abertamente e voltada para mim, mas em seus murmúrios. Daniela pensa que não ligo para ela, que a cobro porque não tenho mais nada a fazer. No entanto, eu a cobro porque sei que ela aguenta toda a demanda. Ela só não foi efetivada ainda porque eu a estava testando, e agora preciso desse trunfo para mantê-la perto e me casar com ela. Sempre fico nessa corda bamba com ela, a deixando com raiva e depois feliz. Arrumo mais trabalho que podemos fazer em pouco tempo, e ficamos os dois aqui. Ela, de certa forma, virou a minha principal companhia, além de que eu preciso saber sobre aquelas malditas flores. — Não estava fofocando... — Acabo rindo de lado, folheando os papéis. — Claro que não, é coisa da minha cabeça. — Digo, debochado. Na maioria do tempo sou um babaca com ela, eu sei. Mas não posso ser bom com ela e um carrasco com os outros. Na minha cabeça, todos têm que pensar o pior de mim. — Os papéis estão em suas mãos, vai precisar de mais alguma coisa? — Olho para ela. — Sim, me explique os relatórios que fez. Preciso de você a manhã toda! — Daniela quase desmaia na minha frente com tal afirmação. Ela pensou que eu iria liberar ela logo, mas não posso, tenho que a manter aqui para saber exatamente o que está fazendo. Vou ganhar no cansaço, aqui embaixo dos meus olhos ela não terá tempo para conversar com Paul. — Depois, vai almoçar comigo em uma reunião, e não aceito uma negativa. — Ela agora estava com raiva. — Tem compromisso? — Pergunto apenas por perguntar. — Será que você tem noção de quantas mulheres e homens queriam estar me auxiliando na linha de frente de uma grande rede de hotéis, Daniela? — Ela assente com a cabeça. — Será que somente eu vejo o grande potencial que você tem? Daniela, de longe, era a melhor candidata na época: sem filhos, sem família por perto, sem vida na cidade e recém-formada. Vinda do Brasil, era minha ligação direta com o grande empreendimento que eu estava criando lá. Um diamante bruto a ser lapidado por mim, é claro. Era somente aperta nos lugares certos e teria uma estagiária multifuncional para me ajudar a ser o maior empresário da Europa. Não queria nada disso antes, mas se era para deixar um legado para Olivia, então faria tudo ser maior do que jamais imaginaram que seria. — Pode almoçar comigo, ou vou atrapalhar algum encontro seu? — Daniela respira fundo. - Não quero atrapalhar... - Digo debochado. — Estou livre, e irei com você no almoço. — Ela sorri mais falso que uma nota falsa. — Boa menina... — Aponto para a cadeira. — Vamos trabalhar? — Ela suspira fundo. Queria me matar. Lá fora ela pode. Aqui dentro não. Daniela se senta e me repassa todo o relatório feito com muito esmero por ela. Entre a sua voz, penso em como sou um filho da p*** às vezes. Em meus devaneios, me lembro de um detalhe, um micro detalhe que está me consumindo. Não posso mandar no seu querer, não posso suprir a falta que coisas triviais fazem a ela. Estava vacilando novamente com ela. Eu não tinha que viver brigando, eu tinha que me casar com ela.
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