O primeiro beijo: A ruptura do controle
Xavier Lancaster
Eu estava na minha ala, na frente da lareira, bebendo o último gole de uísque. O post-it que deixei para Daniela no bloco de anotações ainda me incomodava. "Encontre sua voz novamente." Era uma confissão. Um gesto de i********e que eu, o mestre do distanciamento emocional, não deveria ter feito. Não por uma "noiva de mentira".
Eu tentei justificar: é estratégico. Se ela estivesse em paz, voltaria ao trabalho mais rápido, preservando a fachada do nosso noivado. Mas a verdade era que eu gostei da ideia de ser a razão do conforto dela. Eu havia gostado de segurá-la na neve, sentindo o calor do corpo dela contra o meu.
O relógio marcava três da manhã. Tentei me forçar a pensar em balanços financeiros, em hotéis, em qualquer coisa que não fosse o cheiro dela. Falhei.
Então, ouvi. Um ruído suave na escada de madeira.
Daniela.
Ela parou na entrada da minha sala de estar, a luz do fogo delineando sua silhueta. Ela vestia um robe de seda fino que m*l escondia a vulnerabilidade de seu corpo. O cabelo solto, os olhos arregalados, refletindo as chamas. Ela era uma tentação proibida.
— Xavier? — A voz dela era um sussurro, que soava alto no silêncio do chalé.
Eu levantei. Meu coração, que eu achava ser feito de aço, começou a bater com uma força irracional. Mantenha a calma. Mantenha o controle.
— O que houve? Olívia está bem?
— Sim. Olívia está ótima. — Ela deu um passo à frente, e então outro. — Eu vim... eu vim perguntar sobre as flores e o bloco de notas.
Eu cruzei os braços, tentando erguer a barreira que ela havia, silenciosamente, quebrado.
— É um chalé luxuoso, Daniela. Eu me certifico de que os hóspedes sejam bem tratados.
— Não seja ridículo. — A resposta dela foi firme. — Lírios-do-vale não são "tratamento". São pessoais. Você não faz gestos pessoais a menos que...
Ela parou, incapaz de formular a pergunta. E eu não queria que ela a fizesse, porque eu não tinha a resposta. Eu não me apaixonava. Eu controlava.
— Apenas vá para a cama, Daniela. Você precisa de descanso.
Eu dei um passo para trás, uma tentativa desesperada de criar espaço. Mas ela não me deixou. Ela foi mais rápida, avançando e tocando meu peito com a palma da mão.
O toque dela, leve, foi como um choque elétrico que percorreu cada nervo meu. Minhas defesas desmoronaram. Eu não pensei em status, não pensei em imprensa, não pensei em "noiva de mentira". A única coisa que existia era a pele dela sob a seda e a confusão brutal em meu peito.
O ódio que eu tinha por ser fraco se transformou em atração irresistível.
Segurei o pulso dela com a mão, e o meu aperto foi involuntariamente possessivo.
— Você não deveria ter vindo até aqui, Daniela. Você não tem ideia do que está fazendo. Não pode estar nas minhas mãos e querer que eu recue depois.
— Tenho uma ideia muito boa — ela disse, a voz cheia de desafio e desejo. — Você moveu o mundo por mim, Xavier. Diga-me por quê.
Eu não pude dizer. Não com palavras.
Minha intenção era afastá-la, mas meu corpo me traiu. Eu a puxei para mim com uma força que era quase uma rendição. Minha boca encontrou a dela.
O beijo não foi suave; foi uma liberação. Foi a prova de que eu não estava no controle. A boca dela era doce do chocolate de horas atrás, e ela respondeu com uma intensidade que desfez todos os meus planos. Minhas mãos deslizaram pela cintura dela, apertando-a contra o meu corpo. Eu a queria, e o meu desejo era uma fúria. Aquele beijo não era de um noivo de fachada. Era o beijo de um homem que havia sido pego de surpresa pelos sentimentos que ele achava que não possuía.
Eu quebrei o beijo, ofegante, testa contra a dela, o mundo girando.
— O que... o que foi isso? — Ela sussurrou.
— O começo do seu pagamento, Daniela. — Eu disse, a voz rouca. Mas a mim mesmo, eu confessei: Foi o fim da minha paz.
A manhã seguinte: A fachada quebrada
Daniela Marçal
Acordei com o sol mais brilhante que já vi na vida. Não entrava pela janela com a fúria do meio-dia, mas com a calma dourada de quem conhece o seu poder. E, apesar da luz deslumbrante, a primeira coisa que senti foi o calor do peito de Xavier e o sabor de uísque e desejo da noite passada.
Eu m*l dormi. Cada pormenor do beijo, a rendição dele ao toque, a sua voz rouca de confissão forçada, repetia na minha mente. A minha mão ainda parecia formigar no sítio onde ele a tinha agarrado. Ele havia dito que aquele beijo era o "começo do meu pagamento", mas o meu pagamento sentia-se mais como a perda total de controle.
Levantei e vesti a primeira roupa confortável que encontrei na nova mala que ele me havia providenciado (claro, tudo era prêt-à-porter e impecável). Olhei no espelho. Eu parecia calma, mas por dentro, estava uma confusão. Como é que eu iria encarar o homem que tinha movido o céu e a terra para me beijar, e depois, imediatamente, tinha voltado a ser o bilionário frio?
Ao descer as escadas, respirei fundo, preparando o meu rosto para a performance. Eu era a noiva grata e em apuros, e ele, o meu noivo e salvador.
A cena na cozinha aberta era de uma domesticidade falsa que quase me fez rir.
Olívia estava sentada no balcão, a comer panquecas com xarope de ácer, enquanto Xavier, de t-shirt preta e calças casuais, lia calmamente um artigo de jornal no seu tablet em frente a uma chávena de café. Ele estava impecável. O cabelo estava arrumado, os seus gestos eram de uma tranquilidade absoluta, como se a noite passada nunca tivesse existido. O único sinal de que ele era humano era o ligeiro vapor que subia do seu café.
— Mamãe! — Olívia gritou, sorrindo com um bigode de xarope. — O papai fez panquecas! E eu o ajudei.
Forcei um sorriso e fui até ela, dando um beijo. Tentei ignorar Xavier, mas senti o peso do seu olhar.
— Bom dia, Xavier. — A minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
Ele finalmente baixou o tablet. Os seus olhos encontraram os meus. E, por um breve, perigoso momento, a frieza desapareceu. Vi um vislumbre de confusão, de ardor, e algo que se parecia muito com arrependimento por ter perdido o controle.
— Bom dia, Daniela. — A sua voz era baixa, profissional, sem vestígios de rouquidão. — Dormiu bem?
A pergunta era uma provocação silenciosa. Claro que não dormi. Passei a noite a sentir a sua boca na minha.
— Sim. Perfeitamente. — Menti com o mesmo à-vontade que ele usava nos seus negócios.
Peguei uma chávena de café. Enquanto me servia, a minha mão tremeu um pouco, e tive que me apoiar no balcão. Foi aí que ele se levantou. Não fez alarde, não fez barulho. Apenas se moveu para ficar ao meu lado.
— Está a precisar de mais açúcar? — perguntou ele, a voz neutra, mas a sua presença era avassaladora.
— Não. Está ótimo. — Eu não o olhei.
Ele ficou parado, ombro a ombro, perto o suficiente para que eu sentisse o calor residual do seu corpo. Ele era uma muralha silenciosa. Olívia estava a rir das suas panquecas, completamente alheia à eletricidade tensa que nos envolvia.
— A propósito, Daniela. — A sua voz era um sussurro, inaudível para Olívia. — A imprensa ainda está a cobrir o chalé por satélite. A nossa fachada tem que ser mais convincente, não menos.
Ele estava a falar sobre o noivado, sobre o contrato. Mas a minha mente estava a gritar: Você quer que seja mais convincente depois do que aconteceu?
— E o que é que isso significa, Xavier? — perguntei eu, baixando o tom de voz.
Ele virou o rosto para mim. Estávamos nariz a nariz, e era impossível ignorar a sua proximidade.
— Significa que, quando Olívia não estiver a olhar... — O seu olhar fixou nos meus lábios. — eu espero a mesma intensidade que teve na neve e que teve no meu quarto.
Ele sorriu, mas não era um sorriso gentil. Era um desafio. Um convite. Ele havia perdido o controle uma vez, e agora, estava a transformar a minha emoção numa ferramenta de negócio.
Eu não soube o que responder, apenas que o meu coração estava a bater num ritmo que nada tinha a ver com panquecas ou café.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰