A trajetória para a neve

1680 Words
A trajetória para a neve Xavier Lancaster Fechei a porta do carro blindado com um baque seco, o som mais agradável que ouvi em dias. Dentro daquele casulo, a histeria da rua finalmente se calava. Havia gasto milhões para garantir que este momento "a fuga" fosse perfeito. Nenhum atraso, nenhuma falha. Olívia se aninhou no banco, tranquilamente. Crianças são simples; dão valor ao conforto imediato. Daniela, no entanto, ainda estava tensa, o medo preso em seus ombros. Olhei-a de soslaio. Ela afundou no couro macio, à exaustão, vencendo a adrenalina. — A Suíça, Xavier... Isso é... loucura. — Ela murmurou, a voz como um suspiro de pena. Tirei os óculos escuros. Era importante que ela visse meus olhos agora. — Loucura é o que eles estavam fazendo com você. Eu comprei a única coisa que o dinheiro pode garantir: privacidade absoluta. O Chalé Saint-Moritz não tem vizinhos, não tem sinal de telefone para curiosos. É o lugar onde você pode esquecer seu nome por um tempo. A verdade era que eu não estava apenas comprando privacidade para ela; eu estava comprando tempo. Tempo isolado, só para nós. — E as minhas obrigações? Meu trabalho? — Eu cuidei disso. Minha equipe divulgou uma nota de que você está "em viagem de saúde urgente" para o exterior. Seu telefone está desligado. Você está invisível. — Fiz uma pausa, deixando o olhar se fixar no dela. O calor do meu foco devia ser sentido. — Você pode me agradecer quando estiver respirando ar puro nos Alpes. Por enquanto, apenas descanse. Ela não precisava de permissão para descansar, mas precisava da minha. Eu gostava desse controle sobre seu bem-estar. O carro entrou na pista de taxiamento privada. O jato estava lá, esperando. Um Falcon 8X, discrição e velocidade máxima. Não era um luxo para impressionar; era uma ferramenta para o meu objetivo. Abri a porta e peguei Olívia no colo. Ela era surpreendentemente leve. A confiança da criança em meus braços era um peso agradável, uma responsabilidade que eu aceitava de bom grado, mudei a minha vida por causa de minha filha. Daniela observou. Eu podia sentir o olhar dela, a forma como a cena afetava. Ao chegarmos ao hall do jato, Olívia, quase dormindo, murmurou no meu pescoço: — Obrigada por me levar à neve, papai. Sorri. Um sorriso genuíno, algo que eu raramente dava ao mundo, só para a sua mãe Daniela. Quando Olívia estava acomodada em um assento-cama, voltei para Daniela. O espaço no jato era limitado, íntimo. Perfeito. — Eu não fiz isso pela mídia, Daniela. — Eu disse, a voz baixa, o tom final. — Eu fiz isso por você. E por mim. Não esperei por uma resposta. Fui para a cabine, sentindo o rugido suave dos motores. Enquanto o jato ganhava velocidade, eu me permitia sentir a satisfação. Daniela Marçal estava a bordo, a caminho do meu refúgio particular. A partir de agora, o mundo dela foi ditado pela minha presença. O Voo: O Jogo Começa O Falcon decolou com a suavidade que eu exijo de tudo que carrego meu nome. Dispensei a comissária de bordo com um aceno rápido. A cabine precisava estar absolutamente vazia. Eu não aceitaria testemunhas para o que viria a seguir. Olívia dormia, imperturbável, coberta pela manta de cashmere. Agora, restava apenas nós dois. Eu me acomodei na poltrona adjacente à dela e servi um Macallan 18. Não era para relaxar; era para manter as mãos ocupadas enquanto eu a observava. Daniela estava encolhida, com os olhos fechados, mas eu via a tensão nos cantos da boca dela. Ela era a definição de beleza sob pressão, mas a fragilidade atual me irritava. Eu queria ela forte, não quebrada. Eu tenho você agora. O pensamento me trouxe uma satisfação quase física, um senso de propósito restaurado. Longe do barulho, longe daquele bando de parasitas da mídia. Percebi que ela estava tremendo levemente. O ar no jato está sempre mais frio na altitude. Levantei-me, peguei o cobertor mais grosso e o desdobrei sobre ela com o máximo cuidado. Ao me inclinar, o perfume leve, floral, o cheiro dela me invadiu. Por um instante, senti o ímpeto irracional de beijar ela ali, enquanto estava vulnerável. Me contive. Este não era o momento para a paixão; era o momento para a estratégia. Meus dedos roçaram o cabelo dela. Foi rápido, mas o toque me despertou mais do que o uísque. — Não sou um bandido, Xavier. — Ela murmurou, os olhos ainda fechados. Ela não dormia. - Não sou bandido para fugir. - Ela estava certa. Retornei à minha poltrona, pousando a taça. — Não. Você é minha única fraqueza pública. E eles estavam te usando para me atingir. — Então isso não é sobre me proteger? É sobre proteger seu império? Eu sorri no escuro. Ela era inteligente. — É a mesma coisa, Daniela. Se você está bem, meu mundo está em ordem. E eu não permito que meu mundo seja desorganizado por fofocas baratas. Você está sendo aclamada, mas tem pessoas que estão ganhando dinheiro te difamando, e isso, isso eu não posso permitir. — Inclinei-me, o corpo projetado para a frente, diminuindo o espaço entre nós. — O que está claro agora é que não podemos voltar. Não ainda. Nós temos, literalmente, milhares de quilômetros de neve entre nós e o problema. Ela finalmente abriu os olhos. O olhar cansado foi substituído pela curiosidade. Ela estava mordendo a isca. — E o que você espera, Xavier, que aconteça nessas... milhares de quilômetros? Essa era a pergunta crucial. Eu não falaria de amor. Eu falaria de realidade. — Eu espero que você veja que eu sou o único porto seguro que você tem. Que eu sou o único capaz de mover o céu e a terra para garantir seu bem-estar. E, francamente, Daniela... — Minha voz ficou baixa, quase um sussurro, e carregada de promessa. — eu espero que você comece a me ver, não apenas como um resgate, mas como um destino. Eu não a tirei de tudo isso para sermos apenas amigos. Eu me recostei, satisfeito. Eu havia plantado a semente. O avião era meu casulo, e o silêncio que se seguiu não era mais vazio, mas sim, a expectativa do que viria. O jogo havia começado no momento em que ela pisou neste avião, e eu tinha a vantagem do controle. Daniela Marçal O pouso foi quase imperceptível. Uma leve trepidação, um zunido do trem de aterrissagem, e então, um silêncio total. A noite ainda era profunda, mas a luz exterior, refletida em algo branco e vasto, inundava a cabine. Eu me senti zonza ao descer a escada do jato particular. O ar frio me atingiu como um soco. Não era o frio úmido da cidade, mas um frio limpo, cortante, que queimava os pulmões de forma revigorante. Olívia, envolta em um casaco de neve que parecia ter sido feito sob medida, em cinco minutos, estava animada, inalando o cheiro de pinho e gelo. Xavier estava ao meu lado, um vulto sólido de casaco de lã escura. Ele não precisava falar; a paisagem falava por ele. Estávamos em uma pista privada, cercada por picos escuros e enormes que pareciam tocar o céu. Não havia prédios, não havia luzes da cidade, e, mais importante, não havia flashes. — Saint-Moritz. — A voz dele era baixa, grave, mas parecia reverberar no silêncio da montanha. — A altitude vai te cansar no início. Respira fundo, Daniela. Você está segura. Ele me guiou até um veículo que parecia um tanque de luxo: uma SUV preta, equipada para a neve. Olívia estava maravilhada, e eu tentei focar na alegria dela para não entrar em pânico. Não estávamos apenas longe; estávamos isoladas. A viagem foi curta, mas a subida foi íngreme e sinuosa. Eu olhava pela janela, hipnotizada. As árvores cobertas de neve pareciam esculturas de cristal sob a fraca luz da lua. Então, ele surgiu. O Chalé Saint-Moritz. Não era uma cabana. Era uma obra-prima de madeira escura e vidro, encaixada perfeitamente na encosta. Todas as luzes estavam acesas, transformando-o em um farol quente contra o frio da noite. Xavier abriu a porta principal e me empurrou para dentro. Fiquei paralisada no hall de entrada. O cheiro de lenha queimando e baunilha me envolveu. A sala de estar era de uma beleza quase ofensiva: uma lareira de pedra do chão ao teto crepitava alegremente, um tapete de pele de animal (que parecia incrivelmente macio) cobria o piso, e a vista... A vista era a montanha inteira. As paredes de vidro mostravam um oceano de neve, estrelado por um céu limpo e vasto que eu nunca vi antes. — É nosso por tempo indeterminado. — Xavier disse, tirando o casaco com uma facilidade que o fazia parecer ainda maior. — Todas as suas necessidades foram atendidas. Eu não conseguia piscar. A diferença entre a cela de luxo em que eu vivia em Nova York e este santuário era gritante. Era um lugar onde o mundo não tinha permissão para entrar. Xavier não havia me resgatado; ele havia me reivindicado. Olívia correu para a lareira, e sua risada inocente quebrou o feitiço. — É mágico, mamãe! Eu olhei para Xavier, que a observava com uma ternura contida. Ele havia criado essa magia. Ele havia me arrancado da minha vida e plantado na dele. Não por um dia, mas por tempo indeterminado. — Isso é... demais, Xavier. — Eu m*l consegui formar a frase. — Não sei como vou pagar por isso. Ele se virou, e seus olhos penetrantes encontraram os meus. Não havia mais a preocupação do empresário; havia a intenção do homem. — Não se preocupe com a moeda, Daniela. — Ele caminhou lentamente em minha direção, diminuindo a distância que eu tanto tentava manter. — O pagamento é muito mais pessoal. O calor da lareira parecia aumentar, e o silêncio lá fora se tornou a trilha sonora do que estava prestes a acontecer entre nós. Eu estava presa. Não mais pela mídia, mas pela intensidade e pelo poder desse homem. Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD