O primeiro brinde

1985 Words
O primeiro brinde Daniela Marçal O ar finalmente clareou. Aquelas últimas palavras de Xavier — “Eu sou seu, Daniela Marçal. E a Olívia é nossa.” — foram mais valiosas do que qualquer contrato de bilhões de euros. Eu podia ver a rendição nos seus olhos, não como derrota, mas como a esperança mais aterrorizante e pura. Ele estava, de facto, desarmado, e cabia a mim guiar para fora do campo de batalha. O sorriso dele era ainda incerto, mas genuíno. Era o primeiro passo, a primeira parcela de tudo que poderíamos fazer. — Bom. — A minha voz suavizou, deixando para trás a armadura da CEO implacável. Estendi a mão e toquei a sua, finalmente transpondo aqueles poucos centímetros que nos separavam. — O CEO metódico fez uma confissão terrível. Vamos, então, celebrar esta trégua. Peguei a garrafa de Château Margaux 1999 e servi o vinho, depois o meu copo. Era o vinho do seu ano de graduação, um símbolo do seu passado. Esta noite, ele brindava no futuro. — Ao nosso voto — declarei, levantando o copo, com a minha mão ainda a cobrir a dele por um breve momento. Ele sorriu de lado, pois o brilho nos seus olhos era perigoso. Ele tocou o meu copo, e o som do cristal fez eco no silêncio. Nos ajeitamos confortavelmente, sem o peso de antes, e de repente, o restaurante de cobertura de vidro e luz fria parecia o nosso lar. Os garçons trouxeram os nossos pratos. Imagino que Xavier tenha planeado o jantar, mas agora era o nosso jantar. — Podemos, por favor, ter uma conversa de casal normal agora? — perguntei, se sentindo mais leve. — Defina normal, Marçal — respondeu ele, a sua voz ainda com o tom de CEO, mas agora havia um toque de diversão. — Normal é falar sobre o que realmente importa. Tipo… a Olívia. — Eu sorri. — Ela faz anos no próximo fim de semana, Xavier. O que é que o Pai Solteiro Perfeccionista planeou dar de presente para ela? Os seus ombros relaxaram, e ele riu, uma risada baixa e verdadeira. - Algo de princesa, provavelmente um cavalo ou uma carruagem. - Olho para Xavier chocada. - Nossa! Eu tinha encomendado na sss um kit de pintura de rosto, mas vou ter que avaliar meu presente. - Xavier ri relaxado como nunca antes. - Seu presente é perfeito, Dani. Eu que sou exagerado. - Acabei rindo. - Um cavalo? - Ele ri. - Sim, um potro, ele poderia crescer juntos. - Não achei a ideia r**m. Xavier poderia se dar ao luxo de dar isso à filha. - Acho que ela iria gostar. - Xavier fica com os olhos abertos e atentos. - Acha mesmo? - Concordei. - Assim, poderíamos ir passar finais de semana no aras do meu avô. - Sim, o presente da Olívia ficaria lá. Eu tenho certeza que ela vai amar fazer aulas e ter um cavalo. - Xavier coça o queixo definido pensativo. Me encosto na cadeira. — Vai ser uma catástrofe com tema de princesa, provavelmente. Eu reservei um dos salões com temática, seu amigo ajudou muito. Agora teríamos que ver somente as roupas que alugamos para a festa. - Não sei se devemos convidar os meus pais. Olívia adora a ideia de ter a minha mãe a ensinar a etiqueta adequada para os chás. - Xavier fala sem muita emoção. — Os seus pais virão. — Afirmei, com um encolher de ombros. — Nós somos a nova "União de Ativos", lembra-se? E agora somos reais, eles vão amar a oportunidade. Mas vou garantir que a festa seja sobre a alegria de uma criança de cinco anos, não sobre o plano de sucessão da Lancaster. Os Detalhes do "Casamento Conveniente" Eu mudei de assunto, inclinando a cabeça. Havia um ponto de controle que ainda me incomodava. — Falando em planejamento, quando é que este nosso casamento é conveniente, que agora é real, será? Que eu me lembre, Elvira te deu um mês. Ele parou de comer e franziu a testa, a sua expressão tensa. — Não tínhamos um dia, Daniela. Eu tinha… uma data limite para o contrato, mas o casamento não seria assinado antes de o acordo estar resolvido. Eu não tinha pressa, tinha tudo sob controle. Um arrepio percorreu a minha espinha. Era uma prova da sua natureza controladora. Ele estava disposto a me deixar sob a incerteza do meu estatuto para manter o seu tempo de controlo. — Entendo. — Baixei a minha voz para que ela se tornasse sedosa e perigosa novamente. — Não ter um dia de casamento, Xavier, era o meu ponto de maior vulnerabilidade. Eu não podia planejar a minha vida, nem a minha carreira, nem mesmo sonhar com o nosso futuro. Era o seu controle mais subtil e mais c***l. Não vou permitir isso no nosso casamento de verdade. — Você está certa. — Ele baixou os olhos, aceitando a crítica sem defender-se. Era um novo Xavier. — Você escolhe o dia. Não precisa ser amanhã, mas defina uma data para que você possa planejar a sua carreira e o seu futuro conosco. Seria na próxima semana, mas pode escolher o dia. - Olho para ele medindo se brigo ou deixo para lá. — Aceito. Vou começar a planear a cerimónia do nosso voto. E, claro, a minha estratégia de carreira. Ele parou de comer, a sua atenção estava totalmente em mim. Ele estava a absorver a minha nova liberdade. — O que o fez ir tão fundo para me desafiar esta noite, Marçal? — perguntou ele, o tom sério. — Você podia ter ficado com o dinheiro e o poder. Por que a exigência de amar de volta? Eu sorri, mas este sorriso tinha a verdade por trás da minha decisão. — Eu amei sozinha por demasiado tempo. Você melhor do que ninguém sabe o quanto esperei por Paul. Eu sou uma mulher que está acostumada a avançar sem permissão. Eu tive de lutar por tudo, a minha carreira, o meu valor. E percebi, no silêncio dos Alpes, depois de me beijar, que eu tinha de lutar por você também. Inclinei sobre a mesa, os meus olhos fixos nos dele, a minha determinação a brilhar. — Não era sobre ser sua estagiária ou esposa de fachada, Xavier. Era sobre ver o homem por trás do CEO. Eu tinha duas opções: ser a sua Union de Ativos silenciosa e aceitar que o meu amor seria em segredo e não correspondido, ou ir lá e dizer o que eu queria. Eu não podia viver o resto da minha vida à espera que o grande Xavier Lancaster me dissesse que me amava. Eu precisava saber se o homem que beijou a mulher que precisava de ser resgatada existia. Eu arrisquei tudo, meu futuro no Reino Unido, o seu dinheiro... tudo. Porque para mim, um casamento de verdade com o homem que eu amo é o único ativo que realmente importa. Peguei o copo, e bebi o vinho, saboreando a minha vitória. Olhei para Xavier, que me observava com uma mistura de adoração, medo e uma nova faísca de desejo. — É a sua vez de lutar agora, Xavier. Eu pus todas as cartas na mesa. Eu sou sua, mas só se for um jogo de equipa. O ar no restaurante de cobertura podia ser frio, mas a nossa mesa irradiava um calor que não tinha nada a ver com a climatização. Xavier assimilou a minha última declaração — "É a sua vez de lutar agora." — com uma intensidade silenciosa que eu reconheci como aceitação. Ele terminou o seu copo de vinho e pousou na mesa. O CEO metódico estava de volta, mas a sua agenda tinha mudado drasticamente. — Gosto de desafios, Marçal — ele disse, um brilho perigoso a voltar aos seus olhos, mas agora era dirigido a mim, não a uma sala de reuniões. — E você acabou de me dar o maior da minha vida. Mas por hoje, o meu cérebro de gestor precisa de um erro de sistema completo. Ele levantou-se e estendeu a mão para mim. — O restaurante é a minha armadura. Esta conversa precisa de ser em um terreno neutro. Vamos para casa. Ver a Olívia. E ter uma conversa informal junto à lareira. Não como ativos, mas como... algo mais perto do que você exige. Agarrei a sua mão, e o toque foi firme e prometido. — Gosto desse plano, Xavier. Lição de casa prática. O motorista, que parecia perfeitamente acostumado à natureza imprevisível do meu noivo, nos conduziu de volta para a mansão Lancaster. Dentro do carro, o silêncio era diferente. Não era de negócios, nem tenso. Era o silêncio do novo. — O que é que os casais normais fazem no carro depois de uma confissão de amor? — perguntei, a minha voz baixa. Ele se virou para mim, e pela primeira vez, vi a confusão no seu rosto que não era sobre finanças. — Não faço a mínima ideia. — Ele hesitou, depois fez o mais humano dos gestos. Pegou a minha mão, apertando de leve. — Eles dão as mãos? Eu ri, inclinando a cabeça para o seu ombro. — É um começo. A minha agenda para esta noite inclui: desligar o seu telemóvel de trabalho, acender a lareira e fazer o nosso chocolate quente da Suíça. — O meu telemóvel não se desliga. — Ele resmungou, mas eu não o soltei. — O CEO metódico precisa de ser contrariado. Desligue hoje. Chegámos a casa e a Olívia, já de pijama, correu para nos abraçar, os seus olhos a brilhar. Ver a alegria de Xavier ao vê-la, o calor imediato que ele sentia por ela, era a prova de que ele podia amar. Ele só precisava de ser ensinado a transferir esse amor para mim. Depois de a colocar na cama, com a promessa de uma manhã de filmes, descemos. A casa estava silenciosa, exceto pelo crepitar suave da lareira que Xavier tinha acendido. Enquanto ele preparava o chocolate quente, misturando o pó e o leite, um ritual que me lembrava a Suíça, senti finalmente em casa. Quando ele me entregou a caneca, sentei no chão, perto do fogo, e ele se sentou na poltrona grande. Eu não queria barreiras, por isso dei um olhar que exigia mais proximidade. Ele cedeu, vindo sentar no tapete ao meu lado. — O meu telemóvel está desligado, Daniela. — Ele sussurrou, a sua voz perto de mim. — Estou aqui. O que é que me vai ensinar primeiro? Olhei para ele, o homem que lutava contra a sua própria natureza. — A primeira lição é esta: amar não é uma transação ou uma gestão de risco. É simplesmente estar presente. Estar presente sem o controle. — Tomei um gole do chocolate quente. — Hoje, você me deu a sua verdade mais assustadora. Eu dei a minha. Agora, vamos falar sobre os pequenos medos. — Os meus pais nunca me amaram como eu amo a Olívia. Não sinto falta deles. E tenho medo de que se eu me permitir sentir por você, você vá embora e eu perca a única pessoa que se preocupa conosco por quem eu não paguei. — Ele confessou, olhando para as chamas. O meu coração apertou. Pus a minha caneca de lado e estendi a mão, tocando suavemente o seu rosto. — Você não me paga para amar a sua filha, Xavier. E não há contrato para o meu coração. — Eu inclinei, os meus lábios próximos aos seus. — Eu não vou embora, a menos que você me mande. E se você quiser saber como é amar, vai ter de arriscar. Vai ter de me beijar, não como o seu ativo, mas como a sua mulher. E vai ter de me dizer o que sente, nem que seja só "complicado e excitante", como eu o descrevi.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD