Manchetes maldosas
Daniela Marçal
Acordei com o estômago embrulhado, o que não tinha nada a ver com a falta de comida. Meu celular vibrava incessantemente na mesinha da cabeceira, uma sinfonia irritante de notificações de notícias e mensagens que não paravam. A primeira coisa que vi ao pegar o aparelho foi o rosto sorridente de Olívia na minha proteção de tela. Agora eu tirava muitas fotos dela, queria fazer um álbum cheio de fotos da sua infância, já que a mesma não tinha muita fotos para recordar no futuro. A doçura daquela foto era um contraste brutal com a turbulência da internet.
Abri o primeiro link. O título, em letras garrafais e sensacionalistas, a fez prender a respiração: "A Noiva Brasileira de Xavier Lancaster: De Estagiária a Milionária? O Passado Oculto de Daniela Marçal".
As manchetes eram uma colagem de meias verdades, especulações e calúnias disfarçadas de jornalismo investigativo. Não demorou para que encontrasse a "bomba" que todos estavam comentando.
A reportagem trazia uma foto da minha juventude, granulada e tirada de algum arquivo obscuro, ao lado de um trecho m*l-intencionado. Fofocas sobre a minha origem humilde, a ausência do pai que morreu após bater muito na mãe. Eles se dedicaram a dizer que a minha mãe era uma mulher forte e batalhadora, que havia trabalhado enfermeira por horas a fio porque não conseguia manter uma casa e filha. Então, eu queria algar ambições maiores que uma vida humilde como a minha mãe, para eles essa era a única explicação para estar com Xavier Lancaster. O tom era claro: falavam que eu era uma interesseira de berço, uma "escaladora social" com um passado problemático.
A parte mais dolorosa, no entanto, era a que tocava em seu pai. Eles desenterraram o histórico de violência dele, os boletins de ocorrência que não deram em nada, pois a justiça brasileira era falha. Diziam até que meu pai era um drogado e, por associação, me pintavam como alguém "danificada" e com "bagagem dramática".
Me levantei e fui até a janela, respirando fundo. Sentia o calor da raiva misturada com a humilhação. Sabia que, ao aceitar o noivado com Xavier, estava assinando um contrato de exposição pública, mas não esperava um ataque tão pessoal e baixo, especialmente atingindo a reputação de minha mãe.
A porta do meu quarto se abriu, e Violeta, entrou, parecendo mais tensa do que o normal.
— Dani, desculpe a invasão, mas o Sr. Lancaster me pediu para vir imediatamente. Ele está em uma reunião horrível com a... bem, com a Sra. Elvira. — Violeta fez uma careta, como se tivesse engolido algo amargo. — Ele ligou para dizer que o circo começou.
Apontei para o tablet, onde as manchetes brilhavam.
— Não precisa dizer. Eu já estou na lona. Violeta, eles estão falando da minha mãe. Do meu... do meu pai. É tudo tão sujo.
Violeta pegou o tablet e leu rapidamente, seu semblante ficando sombrio.
— Isso é vil. A Sra. Elvira não é sutil. O Sr. Lancaster está lidando com ela agora mesmo, Dani. Ele é um leão quando se trata de proteger a Olívia, e você é a linha de frente de proteção da pequena.
Ele não deve saber nem da metade, ele vai fazer algo, fica tranquila.
— Por isso ele mandou eu ficar em casa, ele sabia que iriam revirar tudo depois de ontem. Que eles iriam procurar pelo em ovo.
Violeta se aproximou e a segurou pelos ombros.
— Ele calculou, sim. Mas ele só se importa com uma coisa: a sua capacidade de ser a muralha de Olívia contra o veneno social. E, acredite, ele já está preparando o contra-ataque. Mas você precisa estar firme.
Eu ri, um som seco e sem humor.
— Firme? Acabei de descobrir que, para a sociedade, sou apenas uma oportunista brasileira com um pai violento. Qual é o contra-ataque? Dizer que o CEO Lancaster está se casando com a "Pobreta do Passado Dramático" por amor? Eles não vão acreditar! - Estava desesperada, porque por mais que Violeta soubesse de toda a verdade, as pessoas não sabiam e me julgavam.
— Não é por amor. É por ironia. — Xavier entrou no meu quarto naquele exato momento, dispensando Violeta com um aceno e fechando a porta. Ele ainda estava impecável em seu terno, mas o seu olhar era de aço puro. — Eu acabei de ter a conversa mais satisfatória e repugnante da minha vida com a Elvira. E o seu "passado dramático" é a nossa melhor arma, Daniela.
Ele caminhou até mim, pegou o tablet da minha mão e o desligou, jogando-o no sofá.
— Não leia mais nada. Pelo menos por enquanto.
— Não ler? Xavier, meu nome, o nome da minha mãe, estão sendo arrastados na lama por causa do seu jogo de poder com sua ex-sogra!
— E essa é a beleza do plano. — Ele se inclinou, os olhos fixos nos dela. — A sua "falta de classe social" e o seu "passado de luta" são, para a Elvira, uma catástrofe. Para mim, é a prova de que você é real.
Ele me puxou gentilmente pela mão, me levando para sentar no sofá.
— Você tem razão, Dani. Eles não vão acreditar que eu estou me casando com você por amor, e eu não vou dizer que estou. Eu vou dizer que estou me casando com você porque você é o oposto tóxico do que a minha família e a Elvira prezam. Você é a prova de que eu valorizo a bondade genuína e não a realeza de fachada.
— E o passado? A menção ao meu pai, Xavier? - Estava desesperada.
Falar do meu pai era igual a me dar um soco seco no estômago.
— Isso é o ponto fraco deles, não o nosso. Nós vamos usar isso. — Ele suspirou, o tom ficando mais baixo, quase íntimo. — A sua história de vida, a sua mãe trabalhadora, o fato de você ter tido que lutar, tudo isso fará com que Olívia tenha uma mãe de verdade, não uma marionete social. Eu não vou te proteger da história, Daniela. Eu vou usá-la.
Ele a olhou de forma intensa.
— Eles queriam uma Rainha de linhagem? Eu lhes dou uma Rainha da Resiliência. Eles queriam uma mulher rica? Eu lhes dou uma mulher rica em valores. E eu vou deixar claro que você é a única pessoa que se preocupa com as flores azuis do jardim e com a felicidade real da minha filha, não com a coroa que ela pode usar.
— E como vamos fazer isso? — A raiva começou a ser substituída por uma fria e perigosa determinação.
Xavier sorriu, e era um sorriso de predador.
— Com uma entrevista. Uma coletiva de imprensa, onde você será apresentada como a noiva que eles queriam evitar. Onde eu vou exaltar exatamente o que eles criticam. Onde você vai usar a história da sua mãe como um escudo contra o snobismo deles. E, claro, você vai terminar com o carinho genuíno que dedica a minha filha, provando que o seu foco está na pureza de uma criança, e não no meu dinheiro.
Ele pegou a minha mão e a beijou com respeito.
— Você está pronta para usar a sua verdade contra a vaidade deles, Daniela? É o xeque-mate perfeito.