Pedido de casamento
Xavier Lancaster
Ajudo Olívia a levar sua mochila até o quarto. Fomos ao hospital apenas por precaução, mas minha filha estava bem. Graças a Deus, nada de pior aconteceu, e isso era um peso a menos na minha consciência. Nunca me perdoaria se algo tivesse acontecido com a minha pequena, ainda mais nas circunstâncias que ocorreu.
Eu ainda iria descobrir tudo, mesmo prometendo para Daniela que não iria fazer nada. Sou um caçador, não presto para ficar sentando vendo machucarem a minha menina e ainda pensarem que podem escapar.
Que tipo de criança faz bullying com cinco anos de idade?
Estava estarrecido, queria confortar os pais da criança, nunca falaria com um menor, mas os pais era outra história.
Entramos no quarto da pequena ainda quieta demais, Olívia ainda processava tudo que aconteceu, e eu também.
Daniela e Violeta foram pegar o jantar na cozinha, minha governanta e babá da minha pequena estava verdadeiramente horrorizada pelo o que aconteceu com a pequena.
Já era tarde, e Olívia tinha feito todos os exames que eu solicitei, o que nos fez demorar mais do que o previsto na emergência. Durante todo o tempo, minha estagiária esteve ao meu lado, acalmando Olívia e fazendo as perguntas que minha mente não conseguia formular por causa da raiva que ainda sentia de mim mesmo.
— Vem aqui, Olívia. — Coloco-a sentada na cama e me sento ao seu lado. — Sei que você não quer falar sobre o que aconteceu na escola, mas precisa me contar por que caiu. O papai precisa saber para te ajudar. Não posso deixar essa história cair no esquecimento. Preciso ter certeza de que essa situação nunca mais vai acontecer filha. Papai está aqui para te defender e fazer sempre o certo.
Olívia mexia as mãos, nervosa. Ela era outra criança quando estava com Daniela. Me doía vê-la tão fechada ao meu lado.
— J-jura que não vai ficar bravo? — Seus olhos demonstravam tanto medo.
Eu teria que me controlar.
— Juro. É a promessa de um rei para uma princesa encantadora. — Estendo meu dedo mindinho para que ela sele a promessa. — Esta é a nossa promessa de mindinho.
- Eu fiquei chateada, meu amiguinho dizia que eu não tinha mãe. - Suspiro. — Papai, eu quero uma mamãe. Sou a única da turma que não tem uma mamãe… — Aquelas palavras me partiram por dentro.
— Filha, eu queria que fosse tão fácil assim… — Digo, passando a mão em seu cabelo. — Os seus amigos ficaram falando que você não tinha mãe, é isso? — Olívia acena que sim.
— Eu contei que a tia Dani ia ser a rainha da minha festa. Eles riram porque disseram que só podia ser a rainha quem casasse com o rei. O senhor não é casado, então eles falaram que eu estava mentindo. Mas eu não estou mentindo, eu estava falando a verdade. A tia Dani é a rainha da minha festa.
— Filha, se a tia Dani falou que é a rainha, é porque ela será a rainha do nosso castelo. — Olívia me olha mais animada.
— Você jura? — Eu podia ver a dúvida em seus olhos. — A tia Dani sempre vai embora, e eu sinto saudades dela. — Passo a mão pelos meus cabelos. — Não quero que ela vá embora nunca mais… — Diz, começando a chorar novamente.
— Olívia… — Minha raiva pela escola até passa. Agora, minha única preocupação era a tristeza da minha filha.
— Você confia no papai? — Olívia me abraça. — Então, tenha mais um pouco de paciência, sim? O papai vai resolver essa situação, está bem?
— A tia Dani vai ser a minha nova mamãe? — Aceno que sim.
— Oba! — Olívia fala, mais animada.
— Por enquanto, é o nosso segredo. O papai vai ter que conversar com a tia Dani primeiro. — Minha filha me presenteia com seu melhor sorriso.
— Eu espero, papai. — Somos encontrados abraçados pela minha estagiária.
— Como estamos? — Daniela entra com uma bandeja com muita comida. — Trouxe tudo que uma princesa precisa para ficar linda e forte. — Diz, colocando a bandeja no criado-mudo.
— Quantas pessoas vão comer esse tanto de comida? — Pergunto, estarrecido pelo exagero da minha estagiária.
— Devo lembrar que Olívia não tomou café da tarde, que já são oito da noite e ela precisa comer e descansar. — Diz, pegando um prato com macarrão com queijo. — Fiquei sabendo que esse é o seu prato favorito, mocinha. — Olívia ri, animada, e come a sua comida com a ajuda de Daniela.
Eu me sentia um intruso na interação das duas. Olívia comeu o prato todo, tomou suco e comeu frutas com chocolate de sobremesa. Tudo sob a supervisão de Daniela. Parecia que aquela mulher tinha nascido para ser a mãe da minha filha.
— Tia Dani… — Olívia já tinha tomado banho, escovado os dentes e agora estava de pijama, pronta para dormir.
— Pode falar, meu amor… — Daniela estava pronta para desligar a luz principal.
— No dia do meu aniversário, eu vou pedir que você seja a minha mamãe. — Daniela fica paralisada. Eu rio como há muito tempo não fazia.
— Filha, não era para ter falado o seu desejo. Só pode falar quando apagar as velas. — Olívia leva a mão à boca.
— Eu não sabia… — Diz, triste.
— Não se preocupa. A tia Dani vai procurar por uma estrela cadente para você fazer o seu pedido. — O ânimo de Olívia é renovado.
— Você podia morar aqui, tia Dani? Eu amo meu papai, mas ter vocês dois aqui é tão bom. — Olho para Daniela, que já não sabia o que falar. — Promete isso? Promete ficar comigo para sempre? Eu vou pedir para a estrela também. — Olívia tem o dom de deixar as pessoas sem palavras.
Faço carinho em seus cabelos.
— Vai dormir, mocinha. Amanhã é um novo dia… — Beijo sua testa, e Daniela faz o mesmo.
Saímos do quarto em silêncio.
— Olívia dormiu rápido, deve ser por causa dos medicamentos.
Ao chegar na sala, olho para Daniela, que estava com aquele olhar perdido, como se tivesse sido atropelada por um caminhão.
— Vem jantar comigo. — Digo, em um tom mais seco. — E não é um pedido. — Eu sabia que ela iria rejeitar.
Daniela Marçal
Ao entrar na sala de jantar da mansão, a primeira impressão é de um espaço vasto e imponente, onde cada detalhe foi meticulosamente planejado para evocar uma sensação de grandiosidade e história. O ambiente é dominado por uma paleta de cores ricas, com tons de mogno escuro, dourado envelhecido e veludo profundo que se complementam, criando uma atmosfera de luxo e formalidade.
No centro, uma imensa mesa de jantar de madeira maciça, capaz de acomodar confortavelmente vinte convidados, serve como peça central. Sua superfície polida reflete o brilho suave das velas e a luz filtrada pelas grandes janelas em arco que se estendem do chão ao teto. As cadeiras, entalhadas em madeira escura e estofadas em veludo carmesim, são dispostas em pares, transmitindo uma sensação de simetria e ordem.
O teto alto é adornado por um impressionante lustre de cristal veneziano, que irradia uma luz cintilante e projeta padrões intrincados nas paredes. As paredes, por sua vez, são revestidas com painéis de madeira esculpida e decoradas com tapeçarias flamengas, que retratam cenas de caça e paisagens bucólicas. Ao fundo, uma grande lareira de mármore branco com entalhes ornamentados proporciona uma fonte de calor e um ponto focal acolhedor. As cortinas de seda pesada, presas por grandes abraçadeiras douradas, emolduram as janelas, e o piso de parquet escuro, com desenhos geométricos, é coberto por um grande tapete persa feito à mão, que adiciona calor e um toque de cor vibrante ao ambiente.
A sala de jantar da mansão não é apenas um lugar para refeições, mas um espaço onde a tradição e o luxo se entrelaçam, convidando a momentos de celebração e conversas memoráveis.
— Gostou? — Ele tenta puxar assunto.
— Sua casa é maravilhosa, em cada cômodo eu me assusto mais.— Paro diante do prato onde eu sabia que tinha que me sentar, mas estava assustada com tudo o que aconteceu antes de chegar ali.
Xavier não tinha aquele ar arrogante, aquela frieza que emanava de seu ser. Ele estava mexido, preocupado com o que a filha estava passando.
Ele passa por mim com a intenção de puxar a cadeira para que eu me sentasse. Xavier podia ser um mala, mas era, ao menos, educado.
— Quero conversar com você. — O jantar é servido.
— O que é tão importante que não pode esperar a sobremesa? — Ele ri de lado.
- Certo, bom apetite... - Começamos a comer, mas dava para ver o quanto ele estava ansioso para falar o que desejava.
— Estou preocupado com a Olívia.
Imediatamente, fico em alerta, como um animal selvagem que se sente ameaçado.
— O que aconteceu? Foi por causa do que aconteceu na escola? — Ele afirma que sim.
— Preciso de uma mãe para a Olívia, Daniela. E agora não é mais algo que eu possa adiar. Minha filha está sofrendo, e isso é demais para mim.
— Xavier… — Fecho os olhos com força. — Não sei onde você quer chegar com essa história.
— Você sabe. Lá no fundo do seu coração, você sente. — Engulo em seco, porque eu sentia. — Você a ama como eu. — Uma lágrima cai do meu olho e mancha a toalha que deveria valer o meu aluguel de um ano.
— Entenda que não estou falando isso somente pelo que aconteceu na escola. Eu já estou pensando nisso desde que a minha sogra me colocou contra a parede.
— Xavier, eu nunca…
— Eu quero que você seja a mãe da minha filha. — Ele me olha tão intensamente que eu podia ver os seus olhos azuis mais escuros que o normal.
Eu repouso o talher que estava na minha mão. O macarrão até perdeu a importância nesse momento.
— Você ouviu o que ela quer pedir como desejo no aniversário dela? — Coloco as duas mãos no rosto. — Não é a primeira vez que ela me pede para ser a mãe dela.
Não sabia se falava que era o que eu mais queria, ou se era loucura dar ouvidos àquele homem.
— Isso é golpe baixo… — Digo, assustada.
— Casa comigo? Vamos ser a família que a Olívia precisa… — Eu me levanto de supetão.
Viro-me e corro. Eu apenas corro daquela sala, onde eu tinha acabado de ouvir o que mais queria e o que mais me assustava.