Primeira troca de farpas
Capítulo 30
Xavier Lancaster
— Você armou tudo isso, não foi? — Paul me olhava com a sua verdadeira face.
Fisicamente, ainda estávamos no corredor que levava para os banheiros do restaurante, mas, na verdade, ele queria mexer no passado. Queria me acusar de algo que começou por ele, e eu somente estava revidando.
— Não fui eu que queria usar Daniela como um objeto para meu próprio deleite. Foi você quem a enrolou e lhe deu esperanças. Uma mulher inocente que você nunca iria apresentar para sua família.
Paul mordeu a bochecha para conter a raiva.
— Não meta a minha família nessa conversa, Xavier. Se temos problemas desde que éramos jovens, isso não tem nada a ver com a minha família ou com a minha namorada — ele bradou. - Sempre no meu caminho, você não cansa?
- Alto estima você tem, devo admitir, desde sempre se achou de mais Paul. Não estou no seu caminho, sempre foi ou contrário.
- Olha o que você fez por pirraça! - Diz perdendo a pose de cavalheiro.
- Não é pirraça, é uma mulher que saiu desse lugar quebrada! Por causa das suas ações egoístas.
- Esqueça a minha namorada... Eu me entendo com ela, Daniela sempre me escuta e faz o que desejo. - n**o com a cabeça.
- Ela não é sua namorada, é um segredo que esconde da sua família.
- Você não entendi.
— Não? Tenta... - continuo. - Porque a sua mãe não sabe que você namora uma brasileira que está perto de ser deportada? — Paul me olhou, estranhando. — Fora que acredito que Daniela não vai querer te ver depois de tudo que ela precisou hoje.
— Como assim ela vai ser deportada? — Coloquei as mãos no bolso.
Era maravilhoso colocá-lo contra suas próprias ações, palavras e atitudes.
— Que tipo de namorado você é que não sabe que Daniela vai embora no fim do mês? — Paul passou a mão nos cabelos. — Ah, já sei, aquele que tem vergonha da própria namorada. Nunca a apresentou à sua família, fez a menina criar esperanças de um casamento e, agora, vai perder, porque eu duvido que Daniela vai querer te ouvir depois de tudo que presenciou.
— Desde quando você se importa com os sentimentos da sua estagiária? Quantas vezes Daniela veio reclamar do chefe frio e arrogante que ela tinha? - Aquela informação me balançou, mas não daria gosto para ele.
— Não iria fingir ser outra pessoa, Paul. Esse costume é seu, não meu — eu disse, simples.
— Não fale o que você não sabe — ele disse, enquanto eu revirei os olhos.
— Você acha que consegue me enganar como fez nesses quatro anos com a Daniela? Por céus, Paul... Eu sei exatamente o que você queria com a Daniela. Você queria ter acesso à minha empresa, queria saber exatamente o que eu fazia e o que acontecia lá — Paul riu.
— Nem tudo gira ao seu redor, Xavier... — ele disse, despreocupado demais. — Eu tenho os meus motivos para estar com a Daniela, e não são da sua conta.
— De fato, não são, mas é inevitável negar que você não a ama. Está brincando com ela, como já fez no passado.
— Xavier, esse não é o melhor lugar para lavar roupa suja.
— Então me responda, o que você queria com uma pessoa como a Daniela? Porque sabemos que Elisa não valia nada, mas a Daniela é diferente — ele se aproximou e me encarou.
— Não mete a Elisa nessa história! — ele disse, magoado.
— Ah... É verdade, você a amava... Será que a amava? — ele fechou os olhos. — A amava tanto que no primeiro problema a deixou partir. Você nem foi ao enterro da sua amada.
— Cala a boca! — ele avançou, mas eu não me mexi. — Está passando dos limites, Xavier.
— Vai brigar na frente da sua família e noiva?
— Sabrina não é minha noiva... — Neguei com a cabeça.
— Será mesmo? Sua mãe quer netos... — Paul bufou, irritado.
— Por que você resolveu se meter com a minha namorada? — ele perguntou, sem sequer olhar diretamente para meus olhos.
— Ela é a minha estagiária, fora que eu não me meti com a Daniela. Você é que é burro e acabou de perder... — Paul olhou para as mesas, vendo que as pessoas estavam estranhando a sua demora.
— Vou te dar um aviso, Xavier... — Ele ficou a dois palmos do meu rosto. — Não se meta na minha relação com a Daniela. — Eu somente o encarei de igual para igual.
— Daniela Marçal é minha, Paul. Quanto mais cedo você descobrir, melhor será para você. — Ele me olhou, assustado.
— O que você disse? — Eu nunca sorria, mas, dessa vez, queria desestabilizar meu oponente.
— Que Daniela Marçal é a minha próxima esposa, eu vou me casar com ela. Em breve, Daniela se chamará Daniela Lancaster. — Paul me olhou, confuso e sem saber retrucar. — Bom almoço, vai precisar voltar para a sua família quase perfeita. — Dei dois tapinhas em seu ombro e o deixei atônito no corredor.
Ele pode pensar bobagens em relação à Daniela, mas, estranhamente, eu queria marcar território. Quando ele se meteu no meu primeiro casamento, eu não ligava para Elisa. Me casei pôr casar e não nutria nenhum sentimento por ela. No entanto, era diferente com Daniela Marçal. Diferente do meu primeiro casamento, eu, de fato, queria proteger aquela mulher que estou ameaçando com uma partida de volta para sua terra natal.
Quando estava do lado de fora do estacionamento, vi que Daniela limpava uma lágrima solitária dos olhos. Aquilo mexeu comigo de uma forma que não esperava. Não sabia se a dor dela era por gostar do i****a ou porque se sentiu traída ao ver Paul e sua família felizes. Acredito que o sonho dela era ser aceito pela família de Paul, mas tenho certeza de que eles nem sabiam da existência de Daniela na vida dele.
— Vamos? — perguntei, querendo demonstrar que não iria perguntar sobre o fim do seu namoro.
Se ela quisesse falar, falaria em algum momento.
— Por favor... — Meu carro foi estacionado ao nosso lado, me entregaram as chaves e logo estava levando Daniela para longe daquele lugar.
— Quer falar sobre o que aconteceu? — perguntei, olhando para a estrada.
— Sinceramente, não quero falar sobre o meu ex — ela disse, olhando para um ponto distante daquele carro.
Bati de leve no volante. Não gostava de vê-la triste. Por que eu estava tão mexido?
— Daniela, os pais do Paul nem devem saber da sua existência, não leve para o coração e faça ligações que não são reais.
Ela ainda suspirou sem me olhar.
— Não estou chateada com tudo o que eu vi naquele restaurante, eu estou p*** por ter ficado batendo na minha mãe na ponta da faca, só isso... — disse com a voz embargada. - Você sabe exatamente porque nunca fui em apresentada como namorada dele, Xavier. Ele não em apresentou porque sou estrangeira, não tenho a riqueza que aquela mulher tinha... - Ela já chorava novamente. - E daqui a alguns dias terei que ir embora.
Suspiro pesado.
— Pelo amor de tudo que você mais ama, não chore, não comigo perto — eu disse, parando no sinal vermelho.
— Por que eu não posso chorar? — ela perguntou em um tom mais divertido.
Pelo menos estava mais animada.
— Porque eu odeio ver moças bonitas chorando. — Daniela riu.
— Deveras, essa é uma grande novidade sobre Xavier Lancaster — a olhei por um momento. — Achava que você se alimentava das minhas lágrimas de sofrimento — ela ironizou. - E obrigada pela parte que me toca. Não sabia que me achava bonita.
O sinal ficou verde e comecei a dirigir novamente.
- Não vai mais esquecer que eu te chamei de bonita. - Ela não responde, mas também não chora mais.
— Não gostar de ver mocinhas chorando não quer dizer que eu vá concordar com os erros grotescos que elas cometem na empresa. Eu somente não quero te ver chorando por quem não merece uma única lágrima sua, Daniela. — Ela não falou nada.
Não tinha muito o que falar mesmo.
Ela tinha acabado um relacionamento de quatro anos.
- No momento eu somente quero esquecer. - Concordo com ela.
(...)
Quando estávamos próximos do escritório, meu telefone começou a tocar incessantemente. Era como se algo grave tivesse acontecido.
— Estacione e atenda, deve ser algo importante. — Daniela já estava ficando preocupada.
— Não preciso estacionar... — atendi e liguei o viva-voz.
— Alô? — Era da escola da Olivia.
— Senhor Lancaster? — Provavelmente, era a secretária da escola.
— Ele mesmo... — digo, nervoso para saber o que estava acontecendo. Daniela também já me olhava, preocupada.
— Senhor, peço que venha para a escola o mais rápido possível.
Um calafrio percorreu todo o meu corpo.
— O que aconteceu? — Já estava desesperado, e Daniela tinha o mesmo sentimento ao meu lado. - Cadê a minha filha?
— Olivia caiu e bateu a cabeça no parquinho, está na enfermaria sendo cuidada. - A mulher tinha medo em sua voz.
— Meu Deus! — Daniela colocou as mãos na boca, nervosa.
— Chamaram uma ambulância? - A secretária n**a.
- Preciso do Senhor aqui, já fizeram os primeiros exames, mas Olívia está muito nervosa e chama tanto o senhor quanto alguém chamada Daniela.
Olho para Daniela que já chorava novamente.
- Estamos a caminho... - Desligo e mudo o precursor rápido do meu carro.
Minha filha precisava de mim.