Nas mãos do CEO:
Capítulo 13
O cavaleiro e a rainha
Xavier Lancaster
Vi tudo o que Daniela e Olivia faziam através das câmeras que tenho em todos os cômodos da casa. Parece estranho, mas é por segurança e proteção. Somos ricos, alvos para pessoas sem caráter que querem dinheiro a todo custo, então a segurança sempre é minha prioridade, mesmo que, infelizmente, minha privacidade seja exposta através dessas câmeras.
Também há a questão de proteger minha filha, que passa muito tempo com as babás. Por mais que eu confie em todos que cuidam dela, ainda tenho essa neurose de segurança bem enraizada.
Hoje, por exemplo, no shopping, havia pelo menos dez homens disfarçados cuidando da nossa segurança, além dos três que sempre andam comigo e com a minha filha. Eu não abro mão disso. Sempre cuidei e cuido de tudo relacionado a mantê-la segura.
Nunca sofri nada para ter esse cuidado extremo. Acho que ser cuidadoso e meio possessivo já está no meu ser. E tudo se intensificou quando Olivia nasceu. Ela é meu maior bem, minha filha é tudo para mim. O mínimo que posso fazer é cuidar dela, e farei isso com todo o carinho que ainda sei dar.
Estava no meu escritório analisando um contrato que estou disposto a fazer com Daniela Marçal. Seria uma forma de garantir que ela aceitasse minha proposta e não se sentisse invadida. Um contrato seria bom para deixar tudo às claras, uma opção para a própria segurança dela.
Soa frio e distante ter um contrato para estipular limites, condições e regras, mas eu só conheço o mundo assim: me resguardando e protegendo o outro lado também.
Estava redigindo algo que beneficiava ambas as partes: eu precisava do casamento, e ela, da cidadania. Seria uma troca justa, ambos se ajudariam.
Não que eu vá apresentar a proposta a ela hoje. Neste final de noite, quero testar algumas coisas antes de dar esse próximo passo. Saber até onde vai a relação que ela afirma ter com Paul.
Estava bebendo meu vinho tinto quando ouço seus passos incertos pelo corredor principal da casa. Viver em uma mansão com poucos moradores é assim: dá até para ouvir o eco pela casa toda, de tão silenciosa que é.
— Ela demorou para dormir? — Digo, assim que ela me olha incerta.
Daniela estava na porta do meu escritório, mas parecia tão distante, o seu olhar estava em tudo, menos em mim. E não sei por que, mas isso me incomodou. Parece que ela é imune à minha presença às vezes, ou tenta a todo custo se manter distante.
— Não, Olivia estava agitada porque é a minha primeira vez nesta casa enorme e exagerada... — Acabo rindo da sua honestidade. — Mas, na centésima história, a pequena dormiu...
Era bonito ver a interação das duas. Não sei por que não pude ver a própria mãe da minha filha fazer isso, já que Elisa sempre priorizou tudo, menos a criança que era para ser o mundo dela.
Já para Dani, era fácil, era até natural. Vi tudo pela câmera, mas queria estar lá com elas e participar daquilo também.
— Tenho que conversar com você sobre a Olivia — ela diz, me testando.
Eu sei que Olivia pediu para Dani dormir aqui em casa.
— Tem algo para me contar? — Dani me avalia. — Fale, sou todo ouvidos...
Ela reúne coragem e me conta:
— Olivia pediu para que eu dormisse aqui, ela quer me ver amanhã... — diz sem graça. — Estou com medo de ir embora e...
Acabo sorrindo com um sentimento diferente.
— Entendo... — O quarto dela já estava arrumado. — Posso organizar um quarto para você.
Ela suspira satisfeita.
Daniela olha para a enorme foto que tem em cima da lareira, era minha e da Olivia.
— Quer tomar um vinho comigo? — Dani volta a sua atenção para mim.
— O que está acontecendo com você, Xavier? — Suspiro.
— Quer tomar um vinho comigo? — Eu me levanto. — Estou querendo conversar, saber mais sobre você, e, se desejar, também posso contar algumas coisas sobre mim e a minha filha.
Daniela me olha com atenção.
— Vai me contar tudo o que eu gostaria de saber? — Aceno que sim. — Okay...
Mostrou o sofá de couro que tinha no meu escritório. Poderia levá-la para as diversas salas que tem nesta casa, mas no escritório eu tenho certeza de que ela vai ficar mais à vontade.
— E a Olivia... — Dani pega a taça de vinho que ofereço a ela. — Você disse que liberou a babá dela...
Eu tinha uma adega no escritório. Passava mais tempo aqui do que em qualquer outro lugar desta casa, além do quarto da minha filha.
— Tenho um sistema de vídeo que está por toda a casa — digo ligando a televisão e lá estava a minha filha dormindo tranquila na sua cama. — Qualquer coisa, é só olhar lá.
Dani sorri satisfeita.
— Você pensa em tudo... — diz, bebendo o seu vinho.
— Tanto que já providenciei roupas para você... — Ela me olha.
— Xavier... — Eu a corto.
— Eu sempre cuido de tudo, Daniela. Acho que nesses quatro anos trabalhando para mim, você já deve ter entendido que não gosto de ser contrariado, então aceite o que estou lhe proporcionando. Não é nada demais.
Ela suspira frustrada, mas concorda.
— O que você quer saber de mim, Daniela? — Bebo um pouco do vinho. — Eu até imagino o que você quer saber, mas quero ouvir da sua boca.
Daniela me olha com atenção.
— O que aconteceu com a mãe da Olivia? — Direta.
Eu sabia que ela iria me perguntar isso, mas sempre era difícil falar dessa parte da nossa vida. Sento-me ao seu lado. O cheiro dela era doce, provocativo. Não sei explicar o que tanto me atraía naquele cheiro.
— Casei com a mãe da Olivia — digo, tentando não dar muita corda para Daniela se enrolar. — Não amava Elisa, mas fazia o que eu podia e o que eu não podia nos anos em que estivemos juntos, tudo para fazer nossa relação ser minimamente confortável.
Dani me olha com os olhos arregalados.
— Eu e Elisa nos casamos sob um contrato. Nenhum dos dois se amava, mas tínhamos famílias com renome. Precisávamos nos casar por causa do legado, da família e das vontades dos patriarcas de nossas famílias.
— Era um casamento sobre contrato?
— Sim, nada além disso... — Ela olha para um ponto distante.
— E a Olivia, fazia parte do contrato? — Eu a olho.
Não precisava mentir para ela, mesmo que não visse Olivia como uma cláusula, mas somente como algo que acontece em toda a família. Toda família tem que ter filhos, herdeiros, e Olivia era a herdeira de duas famílias importantes.
— Herdeiros sempre são necessários em famílias como a minha — digo apenas.
— Tudo por causa do legado... — Eu n**o.
— Tinha sim, uma cláusula que me obrigava a ter filhos, mas nunca me prendi a ela. Olivia veio como um bálsamo em minha vida, algo que eu não esperava que fosse me mudar tanto, e para melhor.
— Se não tivesse a cláusula, você teria a Olivia?
Essa pergunta me pegou.
— É a ordem natural das coisas... — Ela não estava convencida. — Se eu tivesse me casado, eu teria filhos em algum momento, porque eu iria querer passar tudo o que tenho e realizo para meu herdeiro.
— Entendi... — Ela tinha seu tempo para pensar, não iria força a me entender.
— Diferente da mãe da Olivia, pela qual não consegui ter esse sentimento, a minha filha é tudo para mim. Não vivo sem a minha menina, não vou ser hipócrita e falar que desejava ser pai, mas quando me tornei, eu mergulhei fundo. — Agora ela sorri. — Encurtando a história... — Volto ao que interessa. — Elisa sofreu um acidente. Olivia era pequena, e eu praticamente virei tudo para ela e para ela.
— Que lástima...
— Já passou, não quero falar mais sobre a mãe da Olivia, é um assunto pesado para mim. — Ela assente.
— Agora eu sei disso. Gosto quando é sincero comigo. Não precisa mentir, Xavier — ela me olha. — Sei que tem o legado, a herança, mas há um homem que não desejava tanto estar onde está... — Acabo sorrindo. — O que te salvou foi o amor da Olivia. — Ela continua.
— Acho linda a sua entrega para a sua filha, dá para sentir isso... — Ela ri. — Quando entrei aqui, juro que pensei que você parecia Lancelot. Você é um dos mais fiéis e devotos guerreiros do rei, mas tem algo que esconde, uma paixão por algo que se foi ou é proibido, não sei te explicar por que isso veio na minha cabeça...
Bebo um pouco do vinho, vejo que Daniela também está mais leve, mais aberta. Resolvo mostrar que não sou somente um empresário, que sei um pouco de história.
— Lancelot se apaixona instantaneamente por Guinevere quando vai buscá-la em Cameliard, reino de seu pai Leodegrance, para se casar com Arthur. Ele se torna seu cavaleiro privado. Quando ela é capturada por Meleagant, ele parte com Gauvain em seu resgate. A princípio, quando encontrada, Guinevere se mostra decepcionada com Lancelot por ter se excedido em prosseguir o caminho de carreta. Porém, ela o perdoa e eles consomem seu amor. Meleagant aprisiona o cavaleiro, mas este descobre que haveria um torneio no qual a rainha estaria presente. Jurando pela Santa Igreja que retornaria à prisão após o torneio, Lancelot é libertado pela carcereira e entra no torneio sem revelar sua identidade. A pedido de Guinevere, como prova de amor, perdeu os primeiros combates. Porém, também a pedido dela, ele vence os finais e derrota fatalmente Meleagant, levando Guinevere de volta a Camelot. — Conto a história que ela já sabia.
Daniela se anima e não fica para trás.
— Seu amor por Guinevere o afastou de qualquer possibilidade de amar outra mulher. Ela se apaixonou pelo cavaleiro e cuidou de seus ferimentos após uma justa. Lancelot se dispõe a pagar por seus serviços, mas ela quer se casar com ele. O cavaleiro explica que não pode ter desposá-la, pois prometeu nunca se casar (já que sua amada já é casada). — Ela me retruca. Daniela era esperta e sabia aonde eu estava querendo chegar.
— Gostei da comparação, mesmo não sendo devoto ao amor, porque acho que nunca vou amar... — Ela me olha com atenção. — Tenho esse defeito, não acredito no amor, não acho que terei sorte em achar uma mulher para me apaixonar.
— Acho que você não se permitiu, Xavier, não se permitiu ser o cavalheiro de uma bela dama. — diz, terminando sua taça.
Olho para ela por mais tempo do que eu desejava.
— Nisso você tem razão, ainda não encontrei alguém por quem eu pudesse me apaixonar... Não até agora...
Daniela me olha atentamente, estávamos próximos, muito próximos... Meu corpo estava quente. Deveria ser por causa do vinho, mas aquele cheiro dela, aquele maldito cheiro que sempre me atraía...
Quando penso em me afastar, seguro sua mão, não estava raciocinando direito. Os lábios de Daniela eram tão lindos, tão convidativos...
O encanto é quebrado com o maldito telefone dela, que agora vibrava sem parar.
— Deus, preciso atender... — Ela se levanta e vai para a varanda que está aberta.
Eu não podia me apaixonar por Daniela...
Eu não queria que eu sofresse no futuro.
Nunca poderia dar o amor de Lancelot para a sua Guinevere.