Um pedido sem palavras
Xavier Lancaster
O silêncio na mansão era tão denso que quase se podia tocá-lo. O ar, pesado, parecia conspirar contra qualquer tentativa de respiração tranquila. A discussão ainda não havia começado, mas a tensão já estava lá, espremida entre os dois corpos no sofá. Daniela, com o olhar fixo no copo de suco que segurava, revirava a bebida com a ponta do canudo, como se procurasse respostas em um redemoinho laranja. Eu, por outro lado, olhava para o horizonte cinzento de Londres pela janela, como se a resposta estivesse em algum lugar no céu.
A noite anterior havia sido um furacão. Um turbilhão de emoções, perguntas e, principalmente, omissões. O pedido, se é que se podia chamar aquilo de pedido, havia sido um evento atípico, uma demonstração longe de ser por amor, tão pragmática que parecia mais um plano de negócios do que uma declaração. Eu era conhecido por minha frieza calculada, havia estendido a mão para Daniela e, sem rodeios, havia dito: "Então, vamos casar, né?".
Ela não correu novamente, Graças a Deus, mas parece que faltou algo, e sinceramente, eu ainda não descobri o que era.
Daniela, em choque, havia aceitado. Mas o "sim" havia saído de sua boca como um sussurro, espremido por um nó na garganta. Não havia pedido formal, não havia anel, não havia joelhos no chão. Apenas uma pergunta, uma constatação fria, jogada ao vento como se fosse algo banal. A ausência de emoção, de romance, havia perfurado o coração de Daniela, deixando uma ferida aberta que agora doía e latejava. Eu sei que sim, ninguém precisava me dizer, eu via em seus olhos.
Eu sabia que ela sonhava com o príncipe encantado chegando de cavalo e lhe prometendo o mundo, e o principal, oferecendo amor.
Eu não era nada disso, no máximo um cavalheiro como a mesma disse uma vez, porque eu estava disposto a cuidar e proteger ela de tudo e todos.
Tudo por Olívia, esse era meu mantra, por isso estava disposto a me casar com aquela mulher.
O silêncio entre nós, uma espécie de armistício, foi quebrado por Daniela, que decidiu atacar primeiro.
- Xavier. - Ela começou, sua voz mais firme do que ela esperava. - Não podemos continuar assim. Precisamos falar sobre isso. O elefante branco no meio da sala.
Sem me virar, respondi com uma voz tão inexpressiva quanto o meu olhar refletido na janela.
- Sobre o quê? Eu pedi você em casamento, você aceitou. O que mais tem para falar? - Não queria me aprofundar mais, não queria dar ilusões para ela. - Todos sabem, fiz questão o RH saber e avisar a todos. Não quero ninguém falando do nosso relacionamento falso.
Daniela soltou o canudo, o som do plástico ecoando no silêncio da sala.
- O quê mais tem para falar? Você está brincando comigo? - Sua voz estava aguda. - Xavier, você me pediu em casamento como se estivesse me pedindo para passar o sal. Não houve nada. Nenhuma emoção. Nenhum romance. Nada! Eu sei que você fez isso por causa da Olívia, e sei que nem deve entender o que estou falando. - Se levanta. - Mas você já espalhou por toda a empresa que estávamos juntos, que iríamos nos casar. Ato coreto da sua parte, mas já parou pra pensar como a sociedade vai absorver essa notícia? O que vão pensar de mim? Vão achar que eu estou lhe dando o golpe da barriga ou que perdeu uma aposta. - Acabei rindo sem humor, mas feri o seu ego. - Sei que não é importante pra você, mas pelo menos um anel, um pedido real...algo que não torne essa situação mais humilhante do que já é.
Finalmente me virei para encarar a pessoa que tinha sua razão de certa forma.
- Eu não sei o que você esperava. Eu sou assim. Você me conhece. Não sou um homem de gestos grandiosos. Eu demonstro meus sentimentos de outras formas, cuidado e proteção. Fora que eu já te expliquei que não sei o que é amor.
- Que outras formas? - ela perguntou, a voz subindo uma oitava. - Sei que essa proposta está bem resolvida na sua cabeça. Que eu estou ajudando com a Olívia. Coisa que eu faria sem nada disso, mas infelizmente eu preciso ficar no país. Com o casamento, meus problemas estão resolvidos, mas temos que manter as aparências. Essa é a palavra chave, APARÊNCIA. Não dá para agir como se não fossemos nada além de duas pessoas frias que vão se casar, eu não tenho nem dinheiro para contrabalancear a história de um casamento vantajoso entre famílias.
- Sabe que eu não ligo para isso.
- Eu ligo! Xavier, não estou pedindo amor! Eu estou pedindo cuidado. Parece que me comprou… você está me tratando como um projeto, uma aquisição igual a dos seus hotéis. Uma responsabilidade que terá que arcar.
Me levantei, caminhando até a janela e voltando a olhar para o horizonte.
- Você sabia que eu não sou um homem romântico quando me conheceu. Não finja que está surpresa. Sou seu chefe, mas saiba, não sei ser diferente do que eu sou na empresa. Minha melhor versão é para a Olívia.
- Não estou surpresa com a sua falta de romantismo. Até porque somos estagiária e patrão a quatro anos. Estou surpresa com a sua falta de consideração. Com a sua incapacidade de entender o que um pedido de casamento significa para uma mulher. Para mim!
Daniela se levantou, também, ajeitando as mãos na cintura, seu corpo rígido de raiva e frustração. - Um pedido de casamento não é apenas uma pergunta. É a demonstração do seu desejo de passar o resto da vida comigo, pelo menos essa é a história que temos que passar para a sociedade. Mas você me pediu como se estivesse fechando um contrato, confesso que aceitei por medo de ficar sozinha, mas podemos pelo menos fingir que estamos apaixonados? Assim eu não vou receber julgamentos iguais ao que eu acabei de ouvir do Paul.
- Você quer algo de fachada? Que eu seja algo que não sou para não ficarem achando que esse casamento é tudo, menos uma farsa?
- É... - Os olhos da Dani eram tão tristes.
- Mas é uma farsa. Você quer uma frase? 'Eu te amo, Daniela, e quero casar com você'. Quer flores, doces e tudo que isso implica? Mesmo que sejam atos vazios?
Minha voz era tão destituída de emoção que a frase soou mais como algo negativo. Aquilo foi o golpe final para Daniela, as lágrimas finalmente correndo pelo seu rosto.
- Prefiro atos vazios, do que todos a acharem que tem algo errado em nossa união repentina e sem pé nem cabeça. Olívia também vai achar estranho nos casarmos, e não demonstramos nada além de um penhasco entre a gente - Daniela tinha o seu ponto. - Eu te conheço, Xavier. Eu sei quando você está sendo sincero. No entanto, tem que pensar como as pessoas à nossa volta vão reagir, como vão falar, seremos o tema central, e não quero isso.
O silêncio voltou a pairar no ar, mas agora era um silêncio carregado de mágoa, de palavras não ditas, de sentimentos feridos. O silêncio do fracasso.
Olhei para ela, o corpo tenso, as mãos cerradas em punhos. Sabia que ela estava certa. Na verdade, eu tinha usado de um momento de fraqueza da Daniela para prender ela a essa proposta. Não dei chance dela pensar, perguntarei quando ela ainda estava ferida do término com Paul. Usei o desespero dela em ficar no Reino Unido ao meu favor, e agora estava agindo como um i****a.
Não quero me envolver, mas esqueci o que as pessoas iriam pensar dela, no pedido de ontem ela já tinha me alertado, e eu não sei ouvidos. Queria somente a sua resposta afirmativa.
E agora, as consequências de sua frieza estavam ali, na forma das lágrimas de Daniela.
- Eu...- Falei com a voz falhando pela primeira vez. - O seu silêncio, a sua frieza, eles falam por você. E eles dizem que eu não sou importante o suficiente para você se esforçar, e tudo bem. Não estou esperando amor, mas espero no mínimo, descrição. Que as pessoas pelo menos comprem uma história bonitinha de amor. Você falou que era pra confiar. Paul está com raiva, e eu o entendo. Terminei com ele na hora do almoço, e hoje ele descobre que já estou noiva de você. Eu mereço, mas se todos tiverem o mesmo pensamento, eu não sei se sobrevivo.
- Você está correta em tudo que acabou de dizer. - Eu disse, dando um passo em sua direção. - Vou mostrar a minha noiva no coquetel dos Basílios. - Daniela Marçal me olha assustada
- Vou comprar o anel, te pedir em casamento, e no coquetel afastar qualquer rumor negativo sobre a nossa união.
Daniela o olhou, as lágrimas ainda caindo, mas a raiva começando a se esvair, sendo substituída pela incerteza.
- Obrigada.
Ela se virou, indo para o quarto, deixando-me sozinho na sala. O silêncio, antes um escudo, havia se tornado uma barreira. Eu, Xavier Lancaster, o homem frio, o homem pragmático, o homem que sempre tinha a resposta para tudo, finalmente entendi que havia algo que o dinheiro não podia comprar. O status não podia garantir e a razão não podia explicar. Havia algo estranho em mim, me sentia culpado pelo choro de Daniela, sentia culpa por não poder amar aquela mulher como ela merece.
O pedido de casamento havia sido feito. Mas a decisão de casar, a decisão de construir uma vida juntos, a decisão de se abrir para o outro, essa, eu sabia agora, era a mais difícil de todas. Pela primeira vez em minha vida, não sabia o que fazer.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰