Encontro inevitável

1659 Words
Encontro inevitável Daniela Marçal O sorriso que eu mantinha no rosto já estava começando a doer. Meus músculos faciais estavam tensos de tanto projetar a imagem da noiva radiante e segura que a imprensa e os convidados esperavam. Finalmente, Xavier estava preso em uma conversa inevitável sobre alguma fusão de tecnologia perto do Tyrannosaurus rex de gesso, dando-me uma janela de cinco minutos para respirar. Eu me afastei discretamente, rumo a uma mesa de bebidas que parecia um oásis. Peguei uma taça de champanhe, sentindo o frio do cristal nas mãos, já tinha bebido, mas parece que eu precisava de mais álcool em meu corpo. A efervescência era um alívio momentâneo para a pressão que eu sentia no peito. Alta sociedade. Era cansativo. - É um anel bem grande, Dani. O som daquela voz, tão familiar e ao mesmo tempo tão estranha, fez meu estômago despencar. Era Paul. Ele estava parado a menos de um metro, bloqueando minha rota de fuga para a seção de artefatos romanos. Eu me virei lentamente, tomando um gole demorado do champanhe, como se ele fosse a coisa mais interessante no salão. Eu não ia dar a ele a satisfação de me ver vacilar. - Paul. - Eu disse, com um tom monótono e polido, a mesma cortesia que eu usaria para cumprimentar um garçom. - Não te vi por aqui. – Nossa, como eu era mentirosa. Ele riu, um som seco e sem alegria. - Claro que viu. Você me procurou no segundo em que colocou os pés aqui. Todo mundo notou. Inclusive o seu noivo. - Ele fez uma pausa, com os olhos fixos na taça de uísque que ele segurava. - Ele não parece muito feliz com a ideia de você estar sozinha. Acha que vou roubar o “troféu” de volta? Meu sangue começou a ferver. - Você está completamente equivocado. A única razão pela qual eu olhei para você foi ter certeza de que você não faria uma cena, o que, a julgar pela sua abordagem agora, era uma preocupação válida. E eu não sou um troféu, Paul. Nunca fui. - Não? - Ele deu um passo mais perto, a voz baixando para um sussurro que era pura intimidação. - Você trocou um futuro tranquilo comigo por um anel de diamantes e uma vida de ouro com o magnata. Não me diga que isso não é transação. - Ele apontou o queixo para Xavier, que ainda estava de costas, gesticulando fervorosamente. - Ele a comprou. Não há amor nisso, Daniela. Apenas conveniência. Aquelas palavras eram um soco. Elas acertaram a minha maior insegurança, a dúvida que eu tentava sufocar todos os dias. Mas eu não podia ceder. Não agora. - Você tem razão em uma coisa, Paul. Há conveniência - Eu admiti, surpreendendo-o com minha honestidade fria. - A conveniência de não ter que mais me preocupar com um homem que achava que tinha o direito de ditar minhas escolhas de carreira e de vida. Me prender a incerteza. Agora sei exatamente o que esperar, e não viver no acaso que era permanecer ao seu lado. Foram quatro anos, vivendo sem nem conhecer a sua família, eu somente servia para você despejar as suas frustrações. Confesso que eu também fiz muito disso, mas tem uma hora que precisamos crescer e amadurecer com as lutas. Xavier me ofereceu uma chance de sobreviver, de proteger a única pessoa que realmente importa. Você me ofereceu “o vazio”. E essa não é a mesma moeda. Eu senti meus lábios se curvarem em um sorriso duro, cheio de veneno. Meu chefe era um bom professor, e eu estava aprendendo bem com ele. – Agora, se você me der licença, meu noivo está terminando uma negociação de milhões de libras. Não quero que ele pense que estou perdendo meu tempo com ativos de baixo valor. Eu o contornei, mantendo minha postura intacta. Eu senti o olhar dele nas minhas costas, queimando, mas eu não olhei para trás. Eu caminhei de volta para Xavier, para o meu parceiro no contrato e na guerra silenciosa. O espetáculo havia apenas começado, e eu acabava de ganhar a primeira rodada. A Perspectiva de Xavier Lancaster O acordo ainda não foi totalmente definido, mas era claro como um cristal. Um contrato de casamento sem emoção, um estratagema de negócios para ambos os lados. Um escudo social para ela, uma jogada de poder para mim. Daniela Marçal era a peça mais refinada do meu arsenal; controlada, inteligente e ferozmente leal a um propósito, o que a tornava, na visão dele, perfeitamente previsível. Até agora. Ele estava no meio de uma discussão complexa sobre nanotecnologia e aquisições com um CEO excessivamente entusiasmado. Um assunto do tédio lucrativo. Mas, mesmo enquanto gesticulava, citando números e prazos, uma parte da minha mente estava sintonizada no radar que monitorava Daniela. Ela tinha se afastado em direção ao bar, buscando uma trégua na atuação, o que era esperado. O que não estava no script era a aparição de um ativo de baixo valor. Parei de ouvir sobre a cláusula de não concorrência no momento em que vi o ex-namorado de Daniela, Paul, interceptá-la. Não precisava ouvir a conversa; a linguagem corporal era um volume alto e claro na sala. A postura rígida de Daniela, a maneira como ela bebeu o champanhe, a fúria fria que ele reconheceu em seu rosto — uma fúria que eu já havia ensinado a ela a mascarar. O Paul, por outro lado, era óbvio. Arrogante, intrusivo e com uma possessividade irritante. Ele se inclinou para perto dela, invadindo o espaço que era meu, por contrato e presença. Apertou a mandíbula. Não por ciúmes românticos; não sentia "ciúmes". Me sentia ultrajado. Paul estava desrespeitando meu território, meu contrato. Ele estava questionando a validade do negócio, a força de sua escolha. Aquele homem estava tratando Daniela como propriedade, sim, mas, pior, como propriedade em disputa. E ninguém disputava algo que pertencia a mim, Xavier Lancaster. Fiz um esforço consciente para manter o sorriso corporativo no rosto enquanto o CEO tagarelava. Isso é irritante, pensei. É uma distração desnecessária. Não posso permitir que ela seja perturbada por fantasmas do passado. Então, eu vi a reviravolta. Daniela deu um passo para trás, a cabeça erguida. O sorriso que ela exibia era fino, afiado, a arma que ele a havia ensinado a usar quando a frieza pura era mais eficaz que o calor. Ela não estava apenas repelindo Paul; ela o estava aniquilando com precisão cirúrgica, usando termos de negócios que eu nunca havia ensinado, mas que ela havia absorvido perfeitamente. Ativo de baixo valor. A satisfação me atravessou, rápida e inesperada, um flash de aprovação. Bom. Ela aprende rápido. O ex-namorado foi contornado e ficou parado como um i****a enquanto Daniela voltava. Os seus olhos estavam fixos nas costas dela, queimando de ressentimento. E, de repente, a minha irritação se transformou em algo mais denso, algo que se aninhou em seu estômago. Não era ciúmes da mulher. Era ciúmes da reação. Observei o seu retorno, impecável, com o olhar fixo em mim. A determinação em seus olhos, a adrenalina da pequena vitória — ela estava vibrante. Ela não agiu assim por mim. A constatação foi um choque frio. Ela fez isso para proteger seu futuro, seu 'ativo' — o único que importa para ela. A mim. Estendi a mão para ela automaticamente enquanto ela se aproximava, puxando-a para um encaixe perfeito ao seu lado, com a mão firme em sua cintura. - Você demorou. - sussurrei perto do ouvido dela, o tom formal. Ignorando o CEO agora. - Espero que o 'ativo' que a reteve tenha sido valioso. - Ele estava me agradecendo pela oportunidade de me ver tão bem sucedida, Xavier. - Daniela respondeu com uma suavidade gélida, pegando o tom instantaneamente. - Eu informei que o tempo é valioso e que negociações de milhões de libras têm prioridade sobre ativos de baixo desempenho. Apertei mais perto de mim. Ativo de baixo valor. A minha frase, dita por ela, para humilhar o ex que a queria de volta. Olhei para Paul por cima da cabeça de Daniela. Um olhar limpo, sem ameaças óbvias, mas com uma autoridade que congelava a medula óssea. Ela é minha. Por escolha, por contrato, e agora, por aniquilação. Não estava com ciúmes de Paul. Eu estava furioso porque Paul havia feito Daniela sentir-se vulnerável o suficiente para ter que lutar. Mas a verdadeira picada de ciúmes, aquela sutil e inesperada, não era por Daniela. Era pela paixão que ela havia demonstrado naquele confronto. Uma paixão que eu havia pensado que estava inteiramente dedicada ao objetivo deles, e não à pessoa que a havia desafiado. Ela é uma variável muito mais volátil do que imaginei. Sorri, um sorriso que não alcançou meus olhos. Acariciei o anel em seu dedo, eu não ligava para ele, até estar em seu dedo. Eu te comprei por uma razão, Daniela. Não para lutar contra suas velhas guerras. Mas, se você vai lutar, quero ter certeza de que você só usa essa ferocidade para defender a nós dois. Fiz uma anotação mental: a segurança dela precisava ser reforçada. Não contra Paul, mas contra o próprio caos emocional que o ex parecia personificar. Precisava garantir que ela fosse minha, não apenas no papel, mas em sua atenção total. Não estava com ciúmes. Estava apenas ajustando uma variável de risco. - Excelente. - Disse, apertando-a antes de voltar para o CEO confuso. - Vamos prosseguir com os termos. Eu tenho um noivado para celebrar, e minha futura esposa já demonstrou ter um valor inestimável para a minha imagem. Não perderei mais tempo. A minha mente estava a mil. Não sabia o que era aquele sentimento novo, essa necessidade de controle sobre o espaço dela, sobre as emoções dela. Mas não tinha rótulo de "ciúmes". O chamaria de "Otimização Estratégica". E a primeira otimização era garantir que Paul não chegasse nem perto dela novamente.
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