Capítulo 17

1238 Words
Capítulo 17 Daniela Marçal " Você acha que a sua mãe vai acreditar? – Vejo meu padrasto com aquele sorriso que me deixava com náuseas. – Acha mesmo que ela vai acreditar na filha que somente dar despesas ou no homem que a ama, entende e tenta ajudar ela de todas formas? Porque acha que eu quis a sua mãe? Não era pela beleza dela, sua mãe é desleixada, não se arruma e gosta de comer muito. Eu estou com ela por causa da casa, da vida mansa que eu tenho aqui e principalmente, porque ela já passou tanta coisa nas mãos do seu pai, que ela enxerga a verdade nem se quisesse. – Engulo em seco. - Você é asqueroso... – Digo com repulsa. - Ela me acha maravilhoso! – Diz convencido. – Agora me diz, acha mesmo que ela vai acreditar em você? Eu tinha pegado meu padrasto de conversa fiada com a vendedora da mercearia, depois eu peguei os dois atrás do estabelecimento. O pior que ele não negou, como negar? A questão é que aquele homem começou a me atormentar, me ameaçar e dizer que a minha mãe nunca iria acreditar em mim. Que ele era o homem que ela sempre desejou, e que eu era a filha do homem que a machucou por anos. Na cabeça dele, minha mãe me culpava por tudo que passou, e depois comecei a acreditar também, pois ela foi mudando por causa do meu padrasto e a sua lavagem cerebral. Minha mãe era muito manipulável, ela acreditava em tudo que aquele homem falava. Por isso eu quis ir embora. - Vai contar? – n**o. – Boa menina... – Ele sai para ir atrás de r**o de saia. Eu fiquei ali, na sala onde eu via a minha mãe apanhar, e via meu padrasto passar horas vendo futebol e comendo tudo que a minha mãe comprava. Eu não queria aquela vida, não queria viver sendo ameaçada, pois eu já tentei falar com a minha mãe, mas a mesma dizia que eu estava enganada e com ciúmes No entanto, depois que tudo piorou, meu padrasto tentou me ver tomando banho, e um dia... um dia antes de eu vir para o Reino Unido, ele tentou me beijar. Nossa, depois disso, eu prometi que nunca voltaria para casa, nem que eu ficasse aqui no Reino Unido de forma ilegal.” Acordo suada, nervosa e com aquela memória terrível do meu padrasto bêbado tentando me beijar. - É só um sonho... – Passo a mão na nuca nervosa. Não podia voltar para o Brasil, não queria ficar perto daquele homem, não. Fecho os meus olhos novamente, sou arrastada para outro sonho. “Parecia que estava acordada, mas algumas mudanças sutis no lugar. Como se anos tivessem se passado. Era a casa de Xavier, mais especificamente o quarto da Olívia. Vejo meu reflexo no espelho: o quarto agora era de uma menina que estava crescendo. Vejo um berço no canto, e Olívia lia um livro sentada na cama. Caminho até um espelho grande que tinha no canto do quarto e me assusto com a visão da minha barriga, ela estava grande, eu estava grávida. Quem era o pai dessa criança? A porta se abre, como se fosse dar a resposta exata da minha questão. Por ela passa Xavier, arrumado, com Olívia nos braços. Ela não estava sentada na cama lendo? — Mamãe, mamãe! — Olívia pula do colo do Xavier e vem beijar a minha barriga. — Meu irmãozinho está mexendo? Sinto uma lágrima descer dos meus olhos. Se era um sonho, era algo tão bom, tão perfeito... Por isso era um lindo e doce sonho...” Acordo com batidas na porta. Já era dia, não sei a que horas eu dormi, mas estava tão magoada que demorei para pegar no sono. Depois sonhei com o desgraçado do meu padrasto. — Café em meia hora, Daniela Marçal. — Era a voz de Xavier. — Olívia e eu estamos fazendo o seu café, e esperamos que venha se alimentar conosco. É um pedido, não uma ordem... - Ouço passos se distanciando. Passo a mão no rosto sem saber que horas eram... Como eu pude sentir que aquele sonho era real? As palavras que Xavier me falou ontem à noite vêm como ondas dolorosas. Eu sabia que Paul não me amava, mas ouvir isso era difícil. Ainda mais daquela forma, era como se Xavier me lembrasse que ninguém nunca iria me amar, era como se eu fosse o passatempo, aquela de quem todos eram amigos, namorados, cúmplices, mas nunca a esposa. Pensamentos pesados vieram ontem à noite sobre por que Paul, sobre meu padrasto, sobre a minha mãe que aceitava ser capacho de alguém para não ficar sozinha. Eu queria aquilo para a minha vida? O ciclo estava se repetindo, pois, meu padrasto era um lorde no começo, ele era exatamente como Paul é agora. Se ele me quisesse, não me trataria como uma opção em sua vida. Flores, chocolates e promessas de conhecer a sua família no futuro não eram mais base para um relacionamento de quatro anos. O pior é que, se estou há quatro anos com ele, todos da minha convivência sabem que estamos juntos. Fico pensando o que eles acham da minha relação, de verdade. Eu não era noiva, mas se Xavier teve a audácia de pensar que ele, Paul, estava comigo somente para t*****r, quem dirá o que se passa pela cabeça das outras pessoas. A verdade é que eu nunca fui para os "finalmente" com Paul. Como eu disse, ele sempre se mostrou um cavalheiro, mas ainda não me sentia segura para dar esse próximo passo com ele. Sim, sou antiquada a ponto de querer t*****r com o meu marido, aquele com quem eu fui viver o resto da vida. Acho que era o medo de ser igual a minha mãe, de me entregar tanto ao ponto de me anular. Não sei por que eu não conseguia dar esse passo com ele, mas eu o achava muito cortês para f********o casual, e, bom, depois eu fui empurrando com a barriga. Acho que estava esperando ser a noiva dele de fato. Como nunca veio o pedido, nunca me senti pronta e segura para dar o próximo passo. Não daria algo que seja valioso para mim somente por fazer. Eu queria que fosse mágico, mesmo sabendo que provavelmente iria me frustrar. Eu sou virgem, mas não sou alheia ao universo que isso engloba. Meu celular vibra, e quando olho, me assusto. — Socorro! — Eram dez da manhã e eu dormi como se a casa fosse minha. Me levanto tropeçando em meu próprio pé. Me organizo com tudo que Xavier tinha providenciado para mim. O desgraçado conseguiu roupas, produtos de higiene e até sapatos. Como ele conseguiu, não faço ideia. No banho, é inevitável voltar ao sonho que eu tive. Aliso a minha barriga me lembra que ela estava tão linda, cheia, com um bebê que era meu e do... — Credo! Ter um filho foi meu maior sonho durante muito tempo, sonho esse que desisti. Esse casamento é uma mentira, não posso imaginar uma criança nascendo dessa união estranha que estava somente na minha cabeça. Porque tudo isso vai terminar, cada dia que passa é um dia a menos no nosso contrato. Eu teria que ir embora, voltar para o Brasil. - Eu tenho que resolver a minha vida...
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