O Primeiro Passo

1010 Words
Capítulo 2 - O Primeiro Passo Maria Alice estava tão mergulhada nos próprios pensamentos que nem percebeu o quanto o tempo tinha passado. O som da música ainda ecoava em sua mente, e a coreografia parecia ter se gravado nela, como se fosse algo que ela já soubesse de cor. A dança fluía de maneira tão natural, tão livre, que ela quase não sentia seu corpo se mover. Era como se tivesse se perdido no momento, como se o resto do mundo tivesse desaparecido e ela fosse, de fato, só a dança. Mas logo, a realidade voltou, firme e forte. O Instituto Cristalino era um lugar muito diferente de tudo o que ela conhecia. Aqui, tudo parecia ser tão perfeito, tão polido. Os espelhos que tomavam conta das paredes refletiam não só as bailarinas, mas também os seus próprios medos. Medos de não ser o suficiente, de não se encaixar naquele mundo. O professor Carlos entrou na sala, e o clima ficou imediatamente mais denso. Ele era o tipo de pessoa que parecia não se importar com os detalhes à sua volta, alguém que passava uma impressão de que sabia exatamente o que queria. E Maria Alice não sabia o que pensava dele. Era difícil saber o que ele via nas outras pessoas, mas ele olhava para ela com uma intensidade que quase fazia seu estômago revirar. Quando ele falou seu nome, a voz dele soou grave, quase como se cada palavra fosse pesada. “Maria Alice,” ele começou, e ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha. “Você tem algo raro. Não é algo que vejo todos os dias. Mas, aqui, no Instituto Cristalino, você vai ter que lutar muito para conquistar seu espaço. A dança é exigente, e o que importa é o seu esforço, sua dedicação.” As palavras dele ressoaram dentro dela. Era o tipo de coisa que ela sempre soubera, mas que agora parecia se tornar ainda mais real, mais palpável. Não bastava ser boa. Não bastava ter talento. Ela teria que suar a camisa, e muito. Maria Alice não sabia bem o que responder, mas as palavras surgiram, firmes. “Eu estou disposta,” disse ela, mais para si mesma do que para o professor. “Eu quero estar aqui. Quero aprender.” O professor Carlos olhou para ela, como se estivesse decidindo algo em sua mente. Ele apenas assentiu, sem dizer mais nada, o que deixou Maria Alice um pouco ansiosa. Ela tinha a sensação de que o que ele realmente queria dizer estava além das palavras. Mas não era o momento para questionar. Ele fez um gesto com a mão, convidando-a a segui-lo. Maria Alice se virou para olhar a mãe. Maria das Dores estava no canto da sala, com um sorriso suave, mas que transmitia tanto orgulho quanto uma leve tensão. A mãe sempre acreditou nela, mas agora era o momento de provar que ela estava certa. De provar que Maria Alice realmente tinha o que era necessário para estar ali. “Vai dar tudo certo, minha filha,” Maria das Dores disse com a voz calma, mas firme. “Você é forte, e esse é o seu caminho.” Maria Alice sentiu um misto de gratidão e ansiedade. Ela sabia que a jornada seria difícil, mas, ao mesmo tempo, sabia que não podia voltar atrás. A porta estava aberta, e ela tinha dado o primeiro passo. O professor Carlos indicou que ela se posicionasse no centro da sala. O estúdio estava silencioso, com todas as atenções voltadas para ela. Ela sentiu os nervos começarem a apertar o peito, mas, ao mesmo tempo, uma voz interior a acalmava. Era hora de deixar os medos de lado e mostrar a todos o que ela tinha. Fechou os olhos por um momento, se concentrando na batida da música que começou a tocar. Ela conhecia aquela melodia, sabia cada ritmo, cada pausa. Era uma peça que ela já tinha ensaiado muitas vezes, e isso a tranquilizou um pouco. Era sua chance. O momento que ela tanto esperava. Quando a música começou de fato, Maria Alice se entregou à dança, sentindo os movimentos fluírem com uma facilidade que ela não esperava. Era como se seu corpo soubesse o que fazer, como se ele já tivesse dançado aquela coreografia mil vezes. Cada movimento parecia uma extensão de sua própria alma. Ela não pensava mais nos passos, ela simplesmente se deixava levar pela música. O professor a observava com atenção, mas Maria Alice não conseguia desviar o olhar. Estava completamente envolvida, se deixando consumir pela dança. O tempo parecia desaparecer, e, por um momento, ela não se importou com mais nada. Só a dança, só o agora. Quando a música terminou, ela abriu os olhos e se viu de volta à realidade. O estúdio estava silencioso, e os olhares estavam todos voltados para ela. O professor Carlos não disse nada de imediato, apenas a observou com uma intensidade que quase fazia o ambiente ficar ainda mais tenso. “Você tem talento,” ele disse, finalmente, e a voz dele parecia mais suave, como se estivesse contemplando o que acabara de ver. “Mas talento sozinho não basta. Você vai precisar trabalhar muito, Maria Alice. A dança exige mais do que apenas um bom movimento. Ela exige de você.” Ela respirou fundo. As palavras dele ainda estavam ecoando em sua cabeça. Trabalhar. Ela sabia disso, mas agora estava mais claro do que nunca. Não seria fácil. Nada seria fácil. Mas Maria Alice estava disposta a lutar por isso. Ela se virou para olhar para sua mãe novamente, que sorria, mas com uma expressão que deixava claro que sabia que o caminho da filha seria árduo. E Maria Alice não se sentia sozinha. O apoio da mãe, sua confiança, estavam ali, silenciosos, mas firmes. “Agora, minha filha, você vai aprender a ser uma verdadeira dançarina,” disse Maria das Dores, e suas palavras foram como um bálsamo para a alma de Maria Alice. Ela sabia que, enquanto tivesse sua mãe ao seu lado, nada seria impossível.
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