Sarah deixou a xícara de café repousar lentamente sobre o mármore branco da cozinha, enquanto o vapor ainda dançava no ar e o aroma suave de baunilha se espalhava pela casa silenciosa. A luz do início da manhã atravessava as cortinas de linho, iluminando o porta-retratos sobre o balcão — ela com André, sorrindo, logo após a inauguração do escritório. Naquela época, o mundo parecia bastante simples: amor, trabalho duro e um futuro construído lado a lado. Nada sugeria que aquela manhã, seria o ponto de ruptura que mudaria completamente o rumo da sua vida.
O som da porta da sala se abrindo tirou-a dos pensamentos. André entrou em passos curtos e controlados, vestindo o terno cinza claro que Sarah havia ajudado a escolher quando ele ganhou seu primeiro grande caso. Mas o olhar dele estava diferente — frio, distante, como quem já havia tomado uma decisão.
— Você pode sentar um minuto? — perguntou, com a voz tensa.
Ela percebeu que ele não tirou a pasta da mão nem afrouxou a gravata. Sentou-se mesmo assim, com um leve sorriso que carregava uma esperança quase ingênua.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não… não é isso. — Ele fez uma pausa, evitando o olhar dela. — Na verdade… temos que conversar.
Sarah sentiu o estômago apertar e ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
— Está tudo bem, André?
Ele respirou fundo, como se precisasse reunir coragem para pronunciar as próximas palavras.
— Eu… eu quero o divórcio, Sarah.
O mundo desabou com uma única frase. Ela arregalou os olhos, tentando entender se havia ouvido corretamente.
— Divórcio? — a palavra escapou como um sussurro.
Ele finalmente olhou para ela, mas sem nenhum vestígio de arrependimento — apenas um misto de cansaço e determinação.
— Eu não amo mais você… e acho que você já percebeu isso faz tempo. Eu… — engoliu em seco — Amanda está grávida.
Sarah sentiu todas as forças deixarem seu corpo. Um silêncio pesado se instalou. Tudo parecia surreal — a cozinha bem arrumada, o cheiro de café, a luz da manhã — como se aquele ambiente tivesse sido arrancado de outra vida.
— Amanda… — ela repetiu lentamente, como se testando o nome — a estagiária?
— Sim. E eu não quero esconder nada. Pretendo me casar com ela.
Um turbilhão de lembranças passou por sua mente: as noites estudando até tarde ajudando André com os casos mais complexos, as madrugadas em claro organizando documentos e petições, o orgulho que sentiu quando ele foi eleito o advogado mais promissor de Isis. Todo o esforço que havia feito mesmo durante sua gravidez de risco para que ele pudesse crescer. E agora, ele simplesmente a descartava.
— Então… depois de tudo o que fiz por você… — disse ela, a voz trêmula mas firme — você me troca por uma garota ambiciosa que m*l sabe interpretar um código tributário?
Ele franziu a testa:
— Isso não tem a ver com competência, Sarah. Tem a ver com… sentimentos. E com o fato de que Amanda está esperando um filho meu.
Sarah se levantou devagar e apoiou as mãos sobre a mesa, tentando recobrar a respiração.
— Sabe qual é a diferença entre nós dois, André? Você venceu no tribunal, mas perdeu qualquer senso de ética fora dele. Você sabe o que significa, em Isis, o artigo 227 do Código Civil? “O casamento implica deveres recíprocos de respeito, fidelidade e apoio mútuo.”
André desviou o olhar. Ela continuou, sem se exaltar:
— Mas não se preocupe. Eu aceitarei o divórcio. Só quero que saiba que todos os bens adquiridos durante os últimos cinco anos serão considerados patrimônio comum. Inclusive o seu escritório.
Ele arregalou os olhos.
— Meu escritório…?
— Meu trabalho também está nele — respondeu, com um leve sorriso amargo. — Cada parecer, cada petição, cada tese tributária inovadora surgiu da minha mente. E eu posso comprovar isso, se quiser contestar.
André permaneceu calado, sentindo seu próprio rosto perder a cor. Sarah respirou fundo, pegou a xícara de café e, com dignidade, disse apenas:
— Vá. E seja feliz com a sua Amanda.
Ele hesitou, mas acabou saindo sem responder. A porta se fechou com um estalido seco que ecoou pela casa inteira. Sarah soltou um suspiro longo e sentiu uma lágrima escorrer silenciosa enquanto olhava a cidade através da janela — as árvores balançando ao vento, as ruas tranquilas de Salt acordando devagar. Foi então que ela sussurrou para si mesma:
— Eu vou recomeçar… e dessa vez, por mim.