1. O pedido de divórcio

759 Words
Sarah deixou a xícara de café repousar lentamente sobre o mármore branco da cozinha, enquanto o vapor ainda dançava no ar e o aroma suave de baunilha se espalhava pela casa silenciosa. A luz do início da manhã atravessava as cortinas de linho, iluminando o porta-retratos sobre o balcão — ela com André, sorrindo, logo após a inauguração do escritório. Naquela época, o mundo parecia bastante simples: amor, trabalho duro e um futuro construído lado a lado. Nada sugeria que aquela manhã, seria o ponto de ruptura que mudaria completamente o rumo da sua vida. O som da porta da sala se abrindo tirou-a dos pensamentos. André entrou em passos curtos e controlados, vestindo o terno cinza claro que Sarah havia ajudado a escolher quando ele ganhou seu primeiro grande caso. Mas o olhar dele estava diferente — frio, distante, como quem já havia tomado uma decisão. — Você pode sentar um minuto? — perguntou, com a voz tensa. Ela percebeu que ele não tirou a pasta da mão nem afrouxou a gravata. Sentou-se mesmo assim, com um leve sorriso que carregava uma esperança quase ingênua. — Aconteceu alguma coisa? — Não… não é isso. — Ele fez uma pausa, evitando o olhar dela. — Na verdade… temos que conversar. Sarah sentiu o estômago apertar e ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram uma eternidade. — Está tudo bem, André? Ele respirou fundo, como se precisasse reunir coragem para pronunciar as próximas palavras. — Eu… eu quero o divórcio, Sarah. O mundo desabou com uma única frase. Ela arregalou os olhos, tentando entender se havia ouvido corretamente. — Divórcio? — a palavra escapou como um sussurro. Ele finalmente olhou para ela, mas sem nenhum vestígio de arrependimento — apenas um misto de cansaço e determinação. — Eu não amo mais você… e acho que você já percebeu isso faz tempo. Eu… — engoliu em seco — Amanda está grávida. Sarah sentiu todas as forças deixarem seu corpo. Um silêncio pesado se instalou. Tudo parecia surreal — a cozinha bem arrumada, o cheiro de café, a luz da manhã — como se aquele ambiente tivesse sido arrancado de outra vida. — Amanda… — ela repetiu lentamente, como se testando o nome — a estagiária? — Sim. E eu não quero esconder nada. Pretendo me casar com ela. Um turbilhão de lembranças passou por sua mente: as noites estudando até tarde ajudando André com os casos mais complexos, as madrugadas em claro organizando documentos e petições, o orgulho que sentiu quando ele foi eleito o advogado mais promissor de Isis. Todo o esforço que havia feito mesmo durante sua gravidez de risco para que ele pudesse crescer. E agora, ele simplesmente a descartava. — Então… depois de tudo o que fiz por você… — disse ela, a voz trêmula mas firme — você me troca por uma garota ambiciosa que m*l sabe interpretar um código tributário? Ele franziu a testa: — Isso não tem a ver com competência, Sarah. Tem a ver com… sentimentos. E com o fato de que Amanda está esperando um filho meu. Sarah se levantou devagar e apoiou as mãos sobre a mesa, tentando recobrar a respiração. — Sabe qual é a diferença entre nós dois, André? Você venceu no tribunal, mas perdeu qualquer senso de ética fora dele. Você sabe o que significa, em Isis, o artigo 227 do Código Civil? “O casamento implica deveres recíprocos de respeito, fidelidade e apoio mútuo.” André desviou o olhar. Ela continuou, sem se exaltar: — Mas não se preocupe. Eu aceitarei o divórcio. Só quero que saiba que todos os bens adquiridos durante os últimos cinco anos serão considerados patrimônio comum. Inclusive o seu escritório. Ele arregalou os olhos. — Meu escritório…? — Meu trabalho também está nele — respondeu, com um leve sorriso amargo. — Cada parecer, cada petição, cada tese tributária inovadora surgiu da minha mente. E eu posso comprovar isso, se quiser contestar. André permaneceu calado, sentindo seu próprio rosto perder a cor. Sarah respirou fundo, pegou a xícara de café e, com dignidade, disse apenas: — Vá. E seja feliz com a sua Amanda. Ele hesitou, mas acabou saindo sem responder. A porta se fechou com um estalido seco que ecoou pela casa inteira. Sarah soltou um suspiro longo e sentiu uma lágrima escorrer silenciosa enquanto olhava a cidade através da janela — as árvores balançando ao vento, as ruas tranquilas de Salt acordando devagar. Foi então que ela sussurrou para si mesma: — Eu vou recomeçar… e dessa vez, por mim.
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