Sarah fechou o caderno devagar e ficou alguns segundos com as mãos sobre a capa, como quem sela uma decisão irrevogável. A dor continuava ali, pulsando em cada batida do coração, mas começava a ceder espaço para algo diferente — um misto de indignação e determinação que ela conhecia muito bem. Era o mesmo sentimento que a mantivera firme quando estudava para o exame da ordem, quando todos diziam que seria impossível conseguir pontuação máxima logo na primeira tentativa. Era aquela chama silenciosa que surgia sempre que alguém duvidava do seu valor.
Levantou-se, respirou fundo e foi até o quarto do filho. Abriu a porta com cuidado e encontrou Henrique dormindo, com o rosto sereno, abraçado ao pequeno urso marrom que carregava desde o nascimento. Sarah inclinou-se e depositou um beijo suave na testa do menino. No exato instante em que seus lábios tocaram a pele dele, uma certeza atravessou o seu peito: ela iria protegê-lo de tudo, inclusive da injustiça.
Voltando ao quarto, pegou o notebook, sentou-se à escrivaninha e abriu o arquivo com o contrato social do escritório de André. A cada cláusula revisada, as imagens da conversa daquela manhã voltavam à mente, mas Sarah se obrigava a manter a razão acima da emoção. Nada é mais eficaz que o direito bem aplicado, pensou. Lembrou‐se de uma aula do último semestre, na qual um dos professores mais respeitados de Alure, juiz aposentado, havia dito: “Em Isis, a partilha de bens, quando há contribuição indireta, deve ser reconhecida como legítima. Não importa se o nome está ou não no contrato. O que importa é a prova da colaboração.”
Sarah deslizou os dedos pelas teclas como se estivesse redigindo mais uma petição para um grande cliente. Contudo, naquele caso, o cliente era ela mesma. Iniciou um rascunho de inventário de bens adquiridos nos últimos cinco anos: escritório, contas bancárias, investimento em fundos de renda fixa, dois veículos, a casa em Salt e a casa de veraneio à beira do lago Halie. Anexou uma tabela e, ao lado de cada item, acrescentou comentários sobre sua participação nos lucros e na construção intelectual das teses utilizadas por André.
Ouviu um leve barulho na cozinha. O menino acordara. Fechou o notebook e foi encontrá-lo. Henrique apareceu de pijama azul claro, esfregando os olhos com as mãozinhas pequenas e sorrindo com seu jeitinho que lembrava muito o tio, Henrique mais velho.
— Mamãe… hoje é dia da gente montar o castelo de Lego?
Sarah sorriu com ternura e se agachou para abraçá-lo.
— Claro que é, meu amor. Vamos fazer o maior castelo do mundo.
Enquanto preparava o café da manhã dele — pão tostado com geleia e leite morno — sentiu o telefone vibrar sobre a mesa. Era uma mensagem de André. Respirou fundo antes de abrir.
“Podemos conversar sobre os termos do divórcio? Acredito que podemos resolver isso de forma amigável e sem envolver advogados.”
Sarah leu a mensagem duas vezes. Depois ergueu o olhar e percebeu, pela janela da cozinha, os primeiros raios de sol refletindo nas árvores que margeavam o bairro. A cidade de Salt despertava lentamente, com sua beleza serena e suas ruas largas que mais pareciam pintadas à mão. Ela passou o dedo sobre a tela e digitou com calma, sem pressa:
“Podemos sim. Mas gostaria de lembrar que, conforme a legislação vigente em Isis, o patrimônio construído durante o casamento é fruto de esforço comum. Portanto, iniciarei os procedimentos legais nos próximos dias. Vamos resolver da melhor forma possível — mas com base na lei.”
Enviou a mensagem e deixou o celular sobre a mesa, sem esperar resposta. Pegou o filho pela mão e foram juntos para sala brincar de castelo. Sentou-se no tapete, cercada de peças coloridas, e pela primeira vez desde o anúncio do divórcio, sentiu um pequeno sopro de paz.
Enquanto o filho montava a torre, ela olhou pela janela mais uma vez e pensou:
Hoje começa a minha luta. E ninguém vai me calar.