POV Danila
Alguma coisa mudou.
Nos primeiros dias, pensei que fosse apenas cansaço, talvez o peso da produção começando a se acumular sobre Ariana. Mas agora, depois de tantas interações frias e conversas que nunca passam do estritamente necessário, tenho certeza de que não é só isso.
Ela está me evitando.
No set, tudo parece normal. Filmamos nossas cenas, ensaiamos quando necessário, e ela continua profissional como sempre. Mas há um distanciamento sutil que antes não existia. Seu olhar nunca encontra o meu por muito tempo, seus sorrisos são ensaiados, e suas respostas são curtas. Como se estivesse tentando criar uma barreira invisível entre nós.
E o pior? Eu sinto falta dela.
Sinto falta da Ariana que discutia detalhes do roteiro comigo por horas, que fazia piadas durante os intervalos e que, mesmo tentando esconder, demonstrava confiança em mim. Agora, ela está sempre ocupada com outra coisa, sempre fugindo antes que eu possa falar qualquer coisa além do texto das cenas.
Estou no meio do set, observando enquanto ela fala com Richelle e Lucas. Seu corpo está relaxado, mas eu noto a forma como seus ombros tensionam ligeiramente quando percebe que estou olhando. Ela finge não ver, mas eu sei que viu.
— Ok, o que foi que eu fiz? — murmuro para mim mesmo.
— Talvez a pergunta certa seja: o que você não fez...
A voz de Lucas surge ao meu lado, e eu me viro para encará-lo. Ele tem aquele olhar de quem já sabe de alguma coisa que eu ainda não descobri.
— Ela está estranha — comento, sem esconder minha frustração.
Lucas cruza os braços e observa Ariana à distância. — Você só percebeu agora? Achei que um ator experiente como você fosse mais atento.
Reviro os olhos. — Muito engraçado. Agora, sério, o que aconteceu?
Ele dá de ombros. — Talvez ela esteja tentando manter o foco. Talvez queira evitar distrações.
— Distrações? — repito, sem entender totalmente onde ele quer chegar.
Lucas solta uma risada baixa. — Você realmente não percebe o efeito que tem sobre ela, né?
Fico em silêncio por um momento. Meus olhos voltam para Ariana, que agora está rindo de algo que Richelle disse. O riso dela é genuíno, mas ainda assim, há algo ali... algo que parece f*****o.
— Então, o que eu faço? — pergunto, sem tirar os olhos dela.
Lucas solta um suspiro exagerado, como se eu fosse o mais lerdo do mundo. — Talvez você precise dar um passo à frente em vez de esperar que ela resolva sozinha.
Eu olho para ele, considerando suas palavras.
...
A cobertura de Ariana está cheia. Risadas e conversas se misturam ao som ambiente, e eu deveria estar aproveitando a noite como todo mundo. Mas não estou.
Meu olhar segue um padrão repetitivo: encontro Ariana no meio da multidão, vejo Mark ao lado dela e sinto meu sangue ferver.
Ele está perto demais.
Desde que chegou, Mark tem monopolizado a atenção dela. Primeiro, trouxe uma taça de vinho como se fosse um gesto inocente. Depois, fez questão de sentar ao lado dela no sofá, inclinando o corpo como se compartilhassem um segredo. E agora, ele está falando algo próximo ao ouvido dela, arrancando um sorriso.
Sorriso esse que já foi meu.
Cruzo os braços, tentando conter a irritação. Ariana parece confortável, mas também perceptivelmente consciente da minha presença. Várias vezes durante a noite, peguei ela desviando o olhar para mim, como se esperasse uma reação. Como se quisesse ver se eu me importo.
E eu me importo.
Lucas se aproxima com uma cerveja na mão e um sorriso travesso. — Se você encarar mais um pouco, Mark vai pegar fogo.
Solto uma risada curta e sem humor. — Talvez seja a solução.
— Ou talvez você devesse fazer alguma coisa a respeito, em vez de ficar parado feito um guarda-costas ciumento.
Olho para ele, mas Lucas apenas dá um gole na cerveja, satisfeito com seu próprio comentário.
Volto a atenção para Ariana. Ela agora está perto do bar, com Mark ao lado, e ele toca levemente seu braço ao falar algo. Esse pequeno contato é o suficiente para me fazer soltar um suspiro pesado.
Chega.
Largo a garrafa na mesa mais próxima e começo a caminhar na direção dela. Assim que me aproximo, Ariana percebe minha presença e ergue as sobrancelhas, surpresa. Mark também me olha, mas ignoro completamente sua existência.
— Ariana — digo, minha voz firme. — Posso falar com você?
Ela pisca algumas vezes, claramente sem esperar minha interrupção. — Agora?
— Agora.
Ela hesita, mas depois assente, murmurando algo para Mark antes de se afastar comigo. Ele nos observa sair, e posso sentir seu olhar em minhas costas. Mas não me importo.
Ariana cruza os braços quando paramos perto da sacada, onde a cidade se estende iluminada abaixo de nós. — O que foi?
Poderia fingir, poderia dizer que era algo sobre o filme ou que só queria conversar, mas a verdade está na ponta da minha língua antes que eu possa evitar.
— Você está fazendo isso de propósito?
Ela franze a testa. — Fazendo o quê?
— Se aproximando dele. Me ignorando. Fingindo que não sente nada.
Ela abre a boca para responder, mas fecha logo em seguida. Seus olhos refletem o brilho das luzes da cidade, e por um momento, vejo algo ali—algo que ela está tentando esconder.
— Eu não sei do que você está falando, Danila.
Solto uma risada curta. — Sabe, sim.
O silêncio se instala entre nós. A tensão é palpável, e eu sei que estou pressionando uma barreira que ela não quer atravessar. Mas eu também sei que estou certo.
Afinal, a única pessoa que Ariana está tentando enganar aqui... é ela mesma.
Ariana desvia o olhar, mordendo o lábio inferior. É um sinal claro de que está nervosa, tentando encontrar uma resposta que me faça recuar. Mas não vou. Não dessa vez.
— Danila…— Ela começa, soltando um suspiro. — Não estou tentando enganar ninguém.
Dou um passo mais perto, cruzando os braços. — Então olha nos meus olhos e diz que não sente nada.
Ela me encara, os olhos castanhos carregando um turbilhão de emoções que ela se recusa a admitir. Mas não diz nada.
Aproximo-me um pouco mais, diminuindo a distância entre nós. — Se não sente nada, por que evita ficar sozinha comigo? Por que sempre dá um jeito de sair quando me aproximo? Por que se incomoda quando percebe que estou olhando?
Ela engole em seco, o peito subindo e descendo rapidamente. Tento decifrar sua expressão, mas Ariana sempre foi difícil de ler quando quer esconder algo.
— Isso não importa — ela finalmente diz, cruzando os braços como se precisasse de uma barreira entre nós. — O que importa é o filme. O projeto. Não posso me distrair com nada além disso.
Sorrio de canto, balançando a cabeça. — E Mark? Ele não é distração?
Ela bufa, desviando o olhar. — Mark é um amigo.
— Ótimo — murmuro. — Então não vai se importar se eu fizer isso.
Antes que ela possa reagir, levanto uma das mãos e afasto uma mecha de cabelo que caiu em seu rosto, os dedos roçando suavemente sua pele. Ariana prende a respiração, os olhos arregalados.
— Isso não significa nada — ela sussurra, mas sua voz não tem firmeza.
— Não? — provoco, deixando minha mão descansar na lateral do seu rosto por um segundo e então aproximo meus lábios dos seus.
Ela não desvia. Não se afasta.
O beijo é rápido. Apenas o toque de nossos lábios um no outro, mas só isso já foi capaz de desfazer todas as minhas estruturas.
Ela pisca algumas vezes, como se tentasse recuperar o controle da situação. Então, endireita os ombros e me encara. — Isso não muda nada, Danila.
Cruzo os braços, observando-a com um misto de frustração e fascínio. — Se você diz.
Ariana suspira pesadamente e dá um passo para trás, como se precisasse de distância. — Precisamos voltar para a festa.
Assinto lentamente, permitindo que ela se afaste, mas sem tirar os olhos dela. Sei que essa conversa mexeu com ela, sei que o que estou sentindo não é unilateral. E, mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que parar de fugir.
Por agora, deixo que vá. Mas isso está longe de acabar.