Um Despertar

1551 Words
Tudo na casa é um caos total. Todos estão consternados, minha sogra teve um colapso de choro e alegria ao saber que seu filho acordou depois de quatro anos em coma, e com a possibilidade de morrer devido ao seu estado grave. A Sra. Eliza está feliz, super contente que seu senhor acordou, seu irmão está incrédulo, preocupado e um pouco feliz, suponho. A casa está cheia de família, neste momento o quarto está cheio de primos, tios e avós paternos. Todos estão comemorando, todos estão agradecendo a Deus pelo incrível milagre na vida de Ares. Até o próprio médico não pode acreditar no que acabou de acontecer. Ele mesmo deixou claro que sua saúde era delicada e que nós devíamos nos preparar para o pior, mas agora ele parece atordoado examinando Ares West, que me olha com olhos de falcão, pronto para me cravar as garras no pescoço.  Estou no final do quarto, afastada de todos, quase ao lado da porta, pronta para fugir se for necessário.  Ele está sentado na cama, com as costas apoiadas no encosto acolchoado, apesar de todos lhe falarem, e ele responde com uma calma aterrorizante, não tirou os olhos de mim, a ponto de me assustar.  Poderia estar feliz por ele, afinal é um ser humano e conseguiu superar a morte. Poderia estar contente, pelo menos, porque o médico disse que ele está em perfeitas condições, que apenas terapia e cuidado serão suficientes para que ele volte a ser o mesmo homem de antes. Poderia pelo menos sorrir aliviada porque seu tormento acabou, mas não consigo fazer isso. Não quando ele me olha com tanto ódio, dando a entender que, a partir de hoje, meu inferno começará.  — Quem é você?  Sua pergunta é direta, fria e sem rodeios.  Todos olham para mim fazendo-me sentir pequena. Eu gostaria de falar com ele como tenho feito enquanto ele estava inconsciente, mas não posso, as palavras ficam presas na minha garganta porque estou aterrorizada. O homem diante de mim, apesar de ter uma expressão serena, exala perigo. Dá para ver que é melhor tê-lo como amigo do que como inimigo.  — Eu... eu sou Abigail. — limpo a garganta para continuar— Sou Abigail, sua esposa.  Desconheço se deveria ter fornecido essa informação tão forte para alguém que acabou de acordar de um coma, mas não penso, não raciocino se estou agindo imprudentemente porque seu olhar sombrio causa estragos em mim.  Sinto que estou sem ar.  Ele me olha sem dizer uma palavra, tudo fica em um silêncio sepulcral, em que até dá para ouvir um alfinete caindo.  —Saia daqui —ele ordena.  Permaneço com os pés fincados no chão sem acreditar na sua ordem. Olho-o impassível, sentindo agora exatamente o que ele sente por mim; desprezo.  Eu estive com ele durante um ano, mesmo que minhas intenções não sejam as mais sensatas, eu falei com ele durante um longo ano, o aconcheguei à noite, o penteava, o barbeava, li livros para ele e cantei alguma música que coloquei no meu celular. Não o amo, mas não fui tão má pessoa a ponto de tratá-lo como um objeto inanimado. Não consigo acreditar que ele me expulse daqui, nem ao menos se dignar a me conhecer um pouco.  — Por acaso não me ouviu? Ou preciso chamar um dos meus homens para que você desapareça da minha vista? — ele pergunta calmo.  Levanto o queixo, não me deixando intimidar pelo perigo que ele emana. Embora por dentro esteja morrendo de medo.  —Não é necessário, eu mesma sairei —digo sem baixar a cabeça.  A Sra. Eliza se aproxima de mim e não hesita em me segurar pelo braço.  Nunca deixo de olhá-lo, até que tenho que dar as costas e sair do quarto. Minhas mãos suam, sinto o tremor nelas. A mulher acaricia minhas costas, dizendo que não devo temer, que seu senhor Ares é uma boa pessoa, e que devo entender que ele acabou de acordar de um coma fatídico.  Sei que ela está certa, mas meu medo tomou conta do meu corpo, e o ressentimento do meu coração.  Peço a ela que traga minhas coisas para o novo quarto para onde ela está me levando, que não deixe nada das minhas pertences lá. Não quero estar perto dele, não quero nem mesmo olhar para o rosto dele. Pelo menos até que minha raiva diminua.  Uma parte de mim concorda com a Sra. Eliza, e só por isso, levarei o resto do dia para extravasar minha raiva e depois tentar estabelecer uma amizade tolerável entre nós dois.  Não suportei um ano presa a ele à toa. Não deixei o Evans à toa.  Me jogo na cama e começo a chorar de raiva, impotência por ter sido tão cruelmente tratada por ele. Sei que não tenho o direito de exigir um tratamento bom, porque no final das contas, minhas intenções não são corretas, mas esperava que ele me tratasse com um pouco de respeito diante de toda a sua família, porque se o senhor da casa não me respeita, os demais o farão? Não acredito nisso.  Choro porque sei que minha vida deu mais uma reviravolta. Minha estadia nesta casa deixará de ser algo agradável para se tornar um inferno. Ares acordou do submundo pronto para travar guerra, para me fazer viver uma agonia total com sua presença. […] Não sei em que momento adormeci, mas a voz da senhora Eliza me faz abrir os meus olhos. — Senhora, a senhora adormeceu com a mesma roupa de ontem. Já amanheceu, a senhora deve descer para tomar o café da manhã. Olho confusa, vejo a minha roupa, também olho para a varanda. Já é dia, os raios de sol iluminam o meu quarto. — Ele está acordado? — Pergunto enquanto esfrego o meu rosto. —Ele está na sala de jantar esperando por você. Você deveria se arrumar rapidamente, se arrumar um pouco para tentar conhecê-lo. Assinto. Ela está certa, se eu quero poder levantar a empresa e manter o status que meus pais têm tido durante o último ano, eu pelo menos tenho que tentar ser sua amiga. Tomo um banho rápido, me visto com algo simples, mas bonito; um vestido sem mangas cor melão. Penteio o meu cabelo para o lado, deixando-o ondulado, e aplico um pouco de maquiagem. Não costumo me arrumar muito, mas se quero que esse homem me tolere, pelo menos devo tentar parecer uma esposa digna. Desço nervosa para a sala de jantar, assim que a senhora Eliza me vê aparecer, ela sorri para mim. Sento-me longe dele, pelo menos a quatro lugares de distância, mas isso parece não importar muito para ele. Ele está sentado em uma cadeira de rodas, na cabeceira da mesa, como o senhor da casa, com uma xícara de café em sua mão, suas costas retas e rosto endurecido. É a primeira vez que o vejo usando algo que não seja o seu pijama de seda, e, para ser sincera, ele parece muito sexy. O preto de sua camisa contrasta perfeitamente com o tom de sua pele. Também se nota alguma musculatura, apesar de estar um pouco magro. —Bom dia. — cumprimento com um nó na minha garganta. Basta olhar para um dos seus cães de guarda, para que ele tire a xícara de sua mão e a coloque sobre a mesa. Ele cruza os dedos sobre suas pernas e me olha como um animal selvagem prestes a me devorar. — Já sei o que vocês fizeram enquanto eu estava em coma. Não os culpo, às vezes costumam conseguir o que querem sempre, apenas pelo fato de eu ter respeito e alta estima por eles. Solto o ar lentamente, sinto um pouco mais de calma ao ouvir que ele não está bravo com isso. — Sua família é muito boa. Tenho certeza de que não têm más intenções. Ele levanta uma sobrancelha espessa e me olha com interesse. — Wow, vejo que se adaptou muito bem a ponto de se casar com um homem que estava em coma. — comenta relaxado, mas algo me diz que ele não está. Eu fico calada sem saber o que dizer a isso. Não é que eu esteja adaptada, é apenas um costume, um que ela mesma me impôs — Se você engravidar, iremos fazer um aborto imediatamente. Não quero um filho com você — diz sem mais. "O que ele me disse?" Meus lábios tremem, sinto que minha alma abandonou meu corpo e tenho certeza de que meu rosto está pálido, mostrando o terror que suas cruéis palavras causaram em mim. — Você ficará na minha casa até descobrirmos se está, ou não, grávida de mim. Se estiver, te levaremos ao médico para retirá-lo de você, você vai se recuperar e então nos divorciamos. Você vai embora e não terá mais nada a ver comigo ou com a minha fortuna. Se não estiver grávida, você também sairá sem nada nas mãos — diz calmamente. Essa tranquilidade em suas palavras é suficiente para fazer meu corpo começar a tremer, sinto minhas têmporas pulsarem e me faltar o ar. Ares West trouxe o inferno para a terra, um que está longe de terminar, e seja qual for o resultado da inseminação artificial, será o meu exílio. A minha desgraça.
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