Um Sacrifício

2580 Words
O tão aguardado dia finalmente chegou. Meu vestido branco é lindo, os detalhes bordados à mão nas mangas são sutis e requintados. Os cristais na borda do decote em forma de coração dão um toque glamoroso. Meu penteado está perfeito, assim como minha maquiagem. Eu pareço linda, pareço uma princesa, mas não me sinto como uma. Nem toda maquiagem perfeita, nem todas as roupas preciosas do mundo, junto com o vestido mais caro, irão fazer meu coração sorrir. Eu, Abigail Castlle, com apenas dezenove anos, estou prestes a me casar com um homem que está em coma. "Qualquer coisa pela minha família", eu penso. Jackson Castlle, um homem consumido por vícios e jogos de azar, me levou a cometer esse sacrifício. Eu tive que deixar meu verdadeiro amor e me entregar a alguém que nunca conhecerei. É incrível como meu mundo perfeito desabou, tudo por culpa do meu pai. Éramos uma família respeitada na alta sociedade de Nova York. Donos de uma empresa de eletrodomésticos que, durante quarenta anos, foi uma das melhores do país, até o vício entrar em sua vida. Os jogos de azar se tornaram a amante do meu pai, levando-o a se afastar da minha mãe e dos negócios. Ele vivia uma vida de extravagância ao redor do mundo em cassinos, destruindo aos poucos um casamento de vinte e cinco anos, destruindo o lar que conheci quando criança. A vida desenfreada do meu pai fez com que a empresa fosse à ruína. Desde que começou a apostar, as dívidas superaram os ganhos. Se a empresa conseguiu se manter por esses últimos cinco anos, é devido ao legado que ele tem na cidade. Após a queda da empresa, passamos de ser uma família respeitada e com status para uma família de classe média, sem status, sem dinheiro e ridicularizados pela alta sociedade. Deixei de ver meus amigos, deixei de viajar, de usar roupas de grife, de participar de jantares de galas e eventos. Mas nada disso importa, porque nada é pior do que ter vivido a dor de ver o casamento dos meus pais desmoronar. Por isso, meu sacrifício. Há um homem na alta sociedade de Nova York, muito rico, poderoso e respeitado por todos; também temido. Segundo boatos, esse homem possui negócios no submundo. Ele é mau, vingativo e perigoso. O lamentável de sua história é que nem todo o poder, nem todo o dinheiro que possui, podem despertá-lo do estado vegetativo em que se encontra. Por causa de um acidente, esse homem ficou em coma. Já faz dois anos. Eu nunca o conheci, mas ouvia muito o nome dele nas reuniões. c***l, arrogante, impiedoso e cheio de maldade, era o que alguns diziam. Inteligente, audacioso, admirável, engenhoso e astuto, diziam outros. Seu acidente chocou a cidade e o fato de estar em coma chocou ainda mais. Mas mesmo assim, ele se casará. Mesmo que ele não saiba. E é aqui que eu entro, a "noiva feliz" que vai se casar, sacrificando-se para obter o dinheiro de que precisa. Na verdade, sinto-me obrigada a ser a esposa de Ares West. Eu poderia ter me oposto? Claro que tive essa opção, mas como você se recusa a ser a futura herdeira de todo o patrimônio West? Estando na minha posição, sem dinheiro, sem status, incapaz de pagar a universidade, com a empresa à beira da falência, ser a esposa de um homem em estado vegetativo não é uma ideia tão absurda. Ou é isso que digo a mim mesma todos os dias para não me sentir tão miserável. Não sou tola, embora às vezes me tratem como tal por ficar calada. A família desse homem viu algum interesse em mim ao me pedir em casamento. Sou jovem, não tenho mais nada a perder e sinceramente, se estamos falando de posições, eu seria a mais beneficiada com tudo isso, não é mesmo? Ou talvez porque eu tenha sido a única que não se recusou a fazer isso, já que soube que todas as outras garotas recusaram imediatamente. Algumas por medo do que ouviram sobre ele, outras por não quererem arruinar a vida com um homem em coma e possivelmente ficarem viúvas tão jovens. O que elas não sabem é que esse homem nunca acordará, ou pelo menos foi isso que sua família me disse. E é assim que minha vida vai mudar completamente hoje. Só espero que meu sacrifício valha a pena. Eu não amo esse homem, nem mesmo o conheço, mas faria qualquer coisa pela minha família, até casar com um morto-vivo. Ao me tornar a senhora Abigail West, poderei restaurar a dignidade da minha família, ou pelo menos obter dinheiro suficiente para que a empresa volte aos seus melhores anos de glória. Eles me garantiram que terei acesso à herança, só espero que cumpram sua palavra. Dois toques na porta me tiram desses pensamentos infelizes. — Entre - digo, enquanto me levanto. Vejo minha mãe através do espelho. Ela parece linda com seu vestido impecável e elegante. É a única coisa que resta da nossa antiga vida. - Você está linda, filha - ela diz, se aproximando e segurando minhas mãos. - Todos verão o quão linda você é. - Isso é a coisa que menos me importa, mãe, só quero que esse dia termine. — Eu sei que não é fácil para você fazer isso, sei o quanto você estava apaixonada por Evans e o quanto lhe custou terminar com ele por esse sacrifício para a família, mas todo sacrifício tem sua recompensa, Abi — Ela acaricia minha bochecha — Ambas sabemos que os vícios do seu pai farão com que fiquemos sem-teto em breve, mas, como a Sra. West, você poderá cuidar de nós duas, também dele. Você poderá levantar a empresa. Você não precisará mais do dinheiro dos West, e se quiser, pode se divorciar depois. — É fácil dizer isso. — Eu sei que você é capaz. — ela me dá um sorriso conciliador — Você sempre foi astuta. Não digo nada, engulo minhas palavras para não sair correndo daqui. Nós já demos a nossa palavra para aquela família, se recusar no último momento e fugir deles por medo, longe de Evans, me sentir miserável, ter partido o coração dele como eu tinha planejado, seria nosso exílio. Ambas saímos do meu quarto para irmos para a mansão West; lá será realizada a cerimônia. […] Caminho segurando o braço do meu pai, em direção ao altar que está no final. Todos os presentes me olham com curiosidade, incredulidade e bastante expectativa, mas eu não baixei a cabeça. Eu os entendo, eu também me sentiria assim estando no lugar deles. Quem se casa sem o noivo presente? Eu, a tola Abigaíl. É isso que estão pensando. O que eles não sabem é que eu não me importo. É óbvio que Ares não pode estar aqui, já que isso seria impossível, mas como são uma família que vive de aparências, não puderam deixar de lado a cerimônia. "Finalmente o Sr. West vai se casar!"  "Vamos fazer um casamento mesmo sem o noivo!" Pelo menos a assinatura dele estará presente no nosso casamento. Como conseguiram? Só Deus sabe. Chegando junto ao juiz, tudo o mais passa rapidamente. A assinatura, meus votos ao vento, o "sim, aceito", as fotografias e a celebração passam rapidamente diante dos meus olhos. Minhas bochechas doem de tanto fingir um sorriso feliz, meus pés não aguentam mais os saltos altos, e minha cabeça dói por causa do coque elaborado que me fizeram. Agora tudo está terminado, oficialmente sou Abigaíl West, dona e senhora de todo o patrimônio de Ares. Oficialmente mudada de casa. Fico olhando de dentro do carro a mansão da qual agora sou dona. Meu coração martelava no peito ao saber que em breve terei que vê-lo. Não quero descer, mas ao pensar no meu futuro planejado, me obrigo a reunir coragem e sair. —Senhora, seja bem-vinda — a mulher que está há mais de meia hora do lado de fora do carro esperando por mim me cumprimenta— Sou a Sra. Bennett, a responsável pela casa, e estou às suas ordens e serviços. Parabéns pelo casamento. Ela diz com uma leve reverência. — Qual é o seu nome? —pergunto com interesse. — Eliza — Ela responde um pouco nervosa. — Muito bem, Sra. Eliza, não é necessário ser tão formal comigo e muito menos me fazer reverências — digo com um leve sorriso — Tratar-me bem é suficiente para mim. Apesar de ela não sorrir para mim, consigo sentir a calma que minhas palavras lhe trazem. Talvez ela tenha pensado que sou ambiciosa, impiedosa e interesseira, que chegarei impondo, mas na verdade não sou assim. Sou uma boa moça, embora isso não mude a última parte. Eu me casei por interesse com o chefe dela. —Vou levá-la para o quarto do Sr. West. — ela diz, convidando-me a entrar — A Sra. Fátima está esperando por você. Suas coisas também estão lá, você poderá trocar de roupa. Meu pulso dispara ao ouvir que minha sogra está me esperando. Será a primeira vez que converso com ela como tal, já que no casamento ela apenas me abraçou e foi embora. Caminho segurando meu vestido, encantada com o quão grande é essa mansão. São pelo menos três andares e toda a fachada externa é uma obra de arte arquitetônica. Não quero nem imaginar o interior. Vou explorá-lo assim que puder. Caminho atrás da Sra. Eliza, maravilhada com a beleza, elegância e refinamento da mansão por dentro. Depois de sairmos do elevador, chegamos ao último andar. Caminhamos pelo corredor imponente até chegar a uma grande porta de mogno escuro. Eliza a abre e me convida a entrar no quarto. Eu fico olhando de fora enquanto minha sogra se levanta com um sorriso, e eu tento oferecer outro em retorno, mas acabo fazendo uma careta nervosa. O motivo? Ares West está deitado na grande cama, com os olhos fechados, conectado às máquinas que estão ao seu lado direito. Passo sem deixar de olhá-lo. Sua pele parece um pouco pálida, mas ainda assim continua perfeita e delicada. Suas características faciais são austeras, mas isso não diminui sua beleza. Mandíbula quadrada, sobrancelhas densas, cílios longos e lábios carnudos. Este homem é realmente lindo. Pena que está morto em vida. Posso perceber que ele é um homem grande, tenho certeza de que ele mede quase um metro e noventa. Seus cabelos são negros, tão negros como a noite, o que o faz parecer ainda mais pálido, mas sua pele é na verdade um tom bronzeado. — Ele é realmente bonito, não é? — pergunta, segurando minhas mãos — Se você o tivesse conhecido antes do acidente, tenho certeza de que teria se apaixonado por ele. Não acredito, já tinha alguém a quem amar. — Talvez... — Comento nervosa— Eu vou dormir aqui? Eu pensei que teria um quarto só para mim. É que... é… — Eu sei. — Ela me interrompeu com voz calma — Eu sei o que você está pensando agora mesmo, e te entendo, mas você precisa dormir com seu marido, falar com ele para que ele te conheça, para quando algum dia ele acordar, você não seja uma desconhecida para ele. Eu consigo notar a esperança em suas palavras, o desejo de que esse milagre aconteça, mas eu sei que isso nunca vai acontecer, os médicos disseram que é impossível e eles ainda estão aqui apenas porque ela, como mãe, se recusa a desistir. — Eu vou falar com ele todas as noites. — digo com um sorriso genuíno. O que mais eu poderia dizer a ela? Não sou c***l. — Esta é sua casa, Abigail. Sinta-se à vontade para impor o que desejar a Eliza, ela será sua cuidadora e lhe concederá o que você pedir. Também não hesite em me visitar ou me pedir algo se precisar, agora você é minha filha. — Muito obrigada, senhora West. —Me chame de sogra, e Fátima quando se sentir à vontade. — Ela beija minhas duas bochechas — Vou te deixar descansar — ela me abraça carinhosamente, como se realmente me quisesse. — Obrigada por aceitar se casar com meu filho. Sem mais palavras, ela sai do quarto me deixando sozinha. Se ela soubesse das minhas verdadeiras intenções, acho que ela nunca mais me abraçaria. Eu me viro e olho para o homem que está mergulhado em um sono profundo. Eu solto o ar que estava segurando e me aproximo com cautela, nervosa e com o coração batendo forte. Sua respiração é tranquila, embora ele pareça relaxado, seu rosto ainda está endurecido, como se estivesse cheio de raiva. — Oi Ares, meu nome é Abigail, e eu sou sua esposa! — digo enquanto me desfaço do meu vestido de noiva — Sua avó me escolheu para isso, e eu só aceitei por um motivo. Ter seu sobrenome é o meu passaporte dourado. Eu não te amo, e nem quero amar, assim vai doer menos quando você morrer. Não te considero um i****a, sei muito bem o que dizem sobre você. Só espero que você não me odeie por isso. Meu coração para, sinto minha alma deixando meu corpo e o terror toma conta de mim. Dois olhos negros me encaram fixamente. Um olhar sombrio, intenso, frio e sem brilho. Minhas pernas fraquejam, começo a suar e justo quando estou prestes a dizer alguma palavra, ele fecha os olhos novamente, me deixando estática no lugar. Com as mãos trêmulas, visto novamente meu vestido, saio do quarto rapidamente, em busca da sra. Eliza para informar que o senhor acordou. Eu não corro muito, pois a encontro no corredor. — Ele abriu os olhos! — Digo em meio a uma crise— Ele abriu os olhos! Digo de forma frenética, nervosa e cheia de pânico. Se ele acordou do coma e me ouviu, estou morta. — O senhor costuma fazer isso. — Minha expressão confusa faz ela sorrir. — É um reflexo dos músculos das pálpebras, mas não significa que ele recuperou a consciência. Vamos voltar para o quarto, eu vou te ajudar a trocar de vestido. Eu fico calada e a deixo me guiar. Eu sei o que vi, e o olhar que Ares me deu não era de uma pessoa inconsciente. Cheia de nervosismo, deixo a sra. Eliza me levar de volta para o quarto. Deixo ela tirar meu vestido, e me visto com um delicado roupão de seda. Deixo ela tirar a tiara da minha cabeça, assim como os brincos. Até deixo ela soltar meu cabelo e penteá-lo. Deixo, apenas porque estou tão perplexa e cheia de medo que não consigo mexer um músculo. Só consigo olhar para o homem que dorme na cama que agora também será minha. Em minha mente, repasso o momento uma e outra vez, sabendo dentro de mim que não foi um olhar vazio que ele me deu, mas não posso contar isso para a mulher atrás de mim, seria revelar minhas verdadeiras intenções e tudo iria por água abaixo. — Logo você vai se acostumar, assim como nós. Ela me dá um sorriso caloroso e me diz para descansar. Antes de sair do quarto, ela avisa que voltará para me buscar para o café da manhã. Resignada, vou para o meu lado da cama e, com o coração na boca, me deito na beirada, a quase dois metros dele. — Sinto muito. — Digo. Me cubro completamente e me preparo para dormir.
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