Rick Dawson
A mansão estava mergulhada em um silêncio quase sufocante. Dois dias haviam se passado desde que Ayla e eu nos refugiamos aqui, e durante esse tempo, algo dentro de mim começou a mudar. O problema era que essa mudança tinha um nome, um rosto e uma presença que não me deixava em paz: Ayla.
Suspirei pesadamente, passando as mãos pelos cabelos enquanto encarava o teto do meu quarto. O pensamento dela era uma sombra constante na minha mente, uma presença que se recusava a partir. Eu podia sentir o cheiro suave de sua pele, a lembrança de sua voz ecoava nos meus ouvidos, e a ideia de tê-la tão perto, mas ao mesmo tempo inalcançável, estava me corroendo.
Levantei-me, incapaz de suportar o peso daquela inquietação. Talvez um copo de uísque me ajudasse a colocar as ideias no lugar.
Desci as escadas com passos silenciosos, e ao entrar no salão principal, encontrei Ayla sentada diante da lareira. O brilho das chamas dançava sobre seu rosto, criando sombras que ressaltavam cada detalhe de sua beleza indomável. Seus olhos pareciam distantes, imersos em pensamentos que eu não conseguia decifrar.
Ela percebeu minha presença e ergueu o olhar, mas não disse nada. Seu silêncio me afetou mais do que qualquer palavra.
— Não consegue dormir? — perguntei, quebrando a barreira invisível entre nós.
Ayla apenas balançou a cabeça, os dedos apertando a borda do cobertor que cobria suas pernas.
— Algo está errado — murmurou, sua voz, um sussurro que fez a chama da lareira vacilar levemente.
Me aproximei, sentindo meu corpo responder à presença dela de uma forma que não deveria. Era como se uma força invisível me puxasse para perto, como se a gravidade tivesse mudado e girasse em torno dela.
— O que você quer dizer com "errado"? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Não sei. — Seus olhos se estreitaram, e foi então que percebi o brilho fraco do símbolo em sua mão. Era um aviso. Algo estava nos observando.
O ar ficou mais pesado. O silêncio da casa se transformou em um vazio perturbador.
Olhei ao redor, tentando captar qualquer anormalidade, mas tudo parecia intacto. No entanto, se havia algo que eu aprendera sobre Ayla, era que seus instintos nunca estavam errados.
— Fique aqui. Vou verificar.
Antes que ela pudesse protestar, já estava caminhando pelo corredor escuro. A mansão era grande, mas eu conhecia cada canto, cada sombra. Ainda assim, aquela sensação de estar sendo observado se intensificava, como um peso invisível sobre meu peito.
Algo estava à espreita.
E eu estava pronto para enfrentá-lo.
O corredor dos quartos de hóspedes estava mergulhado em uma penumbra densa, e o ar ali parecia mais frio do que deveria. Uma sensação estranha rastejou sob minha pele, como um alerta silencioso de que algo não estava certo.
Então senti.
O cheiro chegou antes mesmo da visão. Um odor metálico e denso, como sangue misturado com terra molhada. Era um aviso, um sinal de que a tranquilidade daquela noite estava prestes a se desfazer.
Meus passos foram firmes ao atravessar o corredor, e minha respiração se tornou controlada, disciplinada. Entrei no quarto sem hesitar.
A menina estava sentada na cama, os olhos arregalados fixos em algo invisível para mim. Ela não parecia amedrontada, mas havia algo nela que me incomodava. Uma aura diferente, como se sua essência estivesse sendo tocada por algo que eu não conseguia identificar de imediato.
— O que foi? — perguntei, mantendo minha voz firme, porém baixa.
Ela desviou os olhos para mim, mas sua expressão continuava impassível. Quando finalmente falou, sua voz carregava um peso que não combinava com uma criança.
— Eles estão aqui.
Meu corpo inteiro entrou em alerta. Meus músculos enrijeceram, e a transformação começou a borbulhar sob a minha pele, ansiosa para se libertar.
— Quem? — minha pergunta saiu como um rosnado baixo.
A menina ergueu a mão pequena e apontou para o canto escuro do quarto. Meu olhar seguiu o movimento, e o ar pareceu se tornar ainda mais pesado ao meu redor.
Vazio.
Nada estava lá. Nada visível, pelo menos.
Mas eu sabia. O cheiro se intensificou, sufocante, impregnando meus pulmões com um aviso que minha natureza não podia ignorar.
A escuridão não era apenas ausência de luz. Algo se escondia nela. Algo nos observava.
— Fique aqui. — Minha voz saiu como uma ordem inquestionável.
Mas no fundo, eu sabia.
Ela provavelmente não me ouviria.
E isso só tornava tudo ainda mais perigoso.
Voltei ao salão principal com os sentidos em alerta. O cheiro denso de magia e sombras impregnava o ar, tornando a atmosfera pesada, sufocante. Ayla ainda estava sentada, mas assim que me viu, se levantou de repente. O símbolo em sua mão agora brilhava com mais intensidade, projetando um feixe de luz fraca, mas pulsante.
Nossos olhares se encontraram, e soube que ela também sentiu.
— Você percebeu? — perguntei, minha voz baixa, carregada de tensão.
— Sim. — Ayla respondeu, girando a cabeça para os lados, como se tentasse enxergar o que nos rondava. — Algo entrou aqui.
Minhas mãos se fecharam em punhos enquanto eu varria o salão com os olhos. As sombras nos cantos pareciam se mover, pulsar, como se estivessem vivas. A mansão, que antes me parecia um refúgio seguro, agora parecia uma armadilha.
— Proteja a menina. — ordenei, sentindo a transformação borbulhar sob minha pele.
— Rick, você não pode enfrentá-los sozinho! — Ayla gritou, mas eu já estava avançando.
A escuridão se contorceu diante de mim, materializando figuras grotescas com olhos brilhantes e corpos instáveis, como se fossem feitos de fumaça e escuridão líquida. Elas se moviam rápido, tentando me cercar.
Mas eu era mais rápido.
Meu corpo já estava se transformando, cada músculo assumindo sua forma lupina, e em segundos, senti minhas garras rasgando o ar. Cada golpe que eu desferia dissipava uma criatura, mas elas voltavam, multiplicando-se, aprendendo meus padrões de ataque.
— Ayla, use o símbolo! — gritei, desviando de um ataque que passou a milímetros do meu peito.
Ela ergueu a mão, murmurando palavras em uma língua antiga. A luz do símbolo se expandiu, preenchendo o salão com uma claridade quente e vibrante. As sombras uivaram em protesto, recuando como se queimassem diante daquela energia, mas não desapareceram completamente.
Havia algo errado.
— Elas estão tentando algo. — Ayla murmurou, a voz tensa. — Não estão aqui apenas para nos matar.
Continuei lutando, minhas garras rasgando a escuridão como navalhas, mas sabia que ela estava certa. Essas sombras eram diferentes. Mais organizadas, mais estratégicas. Como se obedecessem a uma inteligência maior.
— Então o que elas querem? — rosnei, derrubando outra criatura que logo se dissolveu no chão.
Antes que Ayla pudesse responder, uma onda de energia fria me atingiu.
Não era um ataque físico. Era algo muito pior.
Senti como se uma mão invisível estivesse me puxando para dentro de mim mesmo, arrancando algo que não deveria ser tocado. Um rugido escapou da minha garganta enquanto cambaleava para trás, tentando resistir, mas a força era avassaladora.
— Rick! — Ayla correu até mim, o símbolo brilhando ainda mais forte. — Elas estão tentando acessar o seu poder!
Uma dor aguda perfurou minha cabeça como lâminas afiadas, cortando minha consciência em mil pedaços. Gritos ecoavam dentro de mim, vozes estranhas e dissonantes, sussurrando segredos que eu não queria ouvir, tentando se fundir aos meus próprios pensamentos. Meu corpo foi tomado por um torpor angustiante, como se algo estivesse me puxando para um abismo sem fim.
Minha visão se distorceu. O mundo ao meu redor girava, transformando-se em sombras disformes e pesadelos vivos. O chão parecia se abrir sob meus pés, e por um momento, não havia mais distinção entre o real e o delírio. Vi rostos que não reconhecia, olhos vazios e bocas movendo-se sem som. Uma risada sombria ecoou, serpenteando ao redor da minha mente como correntes invisíveis.
— Faça algo, Ayla! — gritei, minha voz soando distante, afogada no caos dentro de mim.
A pressão esmagadora ameaçava me despedaçar. Meus membros tremiam, e uma dor lancinante se espalhava por meu peito, como se algo estivesse arrancando pedaços da minha alma.
Então, um toque quente atravessou o nevoeiro.
Ayla.
Sua mão pousou firme em meu braço, e imediatamente, uma explosão de luz tomou conta de mim. O símbolo brilhou, irradiando energia em ondas pulsantes que repeliram as trevas. A invasão recuou, as vozes foram silenciadas, e a pressão se dissipou como fumaça ao vento.
Caí de joelhos, ofegante, sentindo minha forma humana retornar enquanto meu coração batia desenfreado.
Ayla se ajoelhou ao meu lado, sua respiração acelerada, os olhos cheios de preocupação.
— Você está bem? — sua voz era firme, mas carregava um resquício de medo. Sua mão ainda segurava meu braço, como se quisesse me manter preso à realidade.
Levantei a cabeça e a encarei, tentando recuperar o fôlego, mas ainda sentindo o eco do horror que havia se infiltrado em mim.
— Não sei o que seria de mim sem você.
Ela esboçou um sorriso leve, mas seus olhos refletiam algo mais profundo, algo que nem a luz do seu símbolo poderia afastar.
Não era apenas medo do que enfrentamos.
Era medo do que estava crescendo entre nós.
Algo poderoso. Inevitável.
E eu não sabia se estava pronto para isso.